Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De noite. E de dia.

Foto por Cláudia. Dia.
Foto por jpv. Noite.

As coisas

À minha volta

Parecem ter de dia

Uma luz que lhes falta

À noite.

Não é defeito,

É só um negativo.

De dia, sorriem.

À noite, estão caladas.

De dia, exibem cores,

À noite, mostram o aconchego,

De dia, florescem,

À noite, descansam.

E é neste mudar

Constante

Que passamos

Os dias

E as noites.

Como obstáculos,

Ou como fronteiras.

Eu vivo

Dois

Por cada um que passa.

Quem sabe

Foram desenhados

Assim…

Em vez de

Vinte um mil

Quatrocentos e quarenta e dois dias,

Tenha vivido o dobro.

Teria agora

Quarenta e dois mil

Oitocentos e oitenta e quatro dias.

Ou então,

Não há como

Contá-los.

O tempo

É um infinito,

Geral.

E particular.

E cada um de nós

Vive o seu

Infinito.

E os infinitos

Cruzam-se

De tempos

A tempos

E chamam-se

Amor.

jpv


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Veleiro

Foto por jpv. Veleiro.

Um navio

Passa

Ao longe.

É um

Veleiro.

De três velas.

Passa.

E vejo-o passar.

Como se soubesse

Quem lá vai

Dentro.

Um marinheiro

Com uma pala,

Um pirata

Com uma espada cortante,

Um rapaz

Puxando as cordas,

Uma sereia

Agarrada ao cordame,

Um pescador

Que luta com um cardume,

E um homem de má cara

A dizer para puxarem o botão.

Menos a normalidade.

Mas eu vi

Um veleiro

Com três velas

E na minha cabeça

Estavam as coisas

Que iam nelas.

As velas.

E o veleiro .

jpv


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Rumores de Tinta V03/12. Tuvalu.


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Rumores de Tinta V03/11. Silêncio não é vazio, é estratégia.


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Noites

Foto por Cláudia. Mar.

As noites,

Aqui,

Têm tudo o que lhes pertence.

O piar de uma coruja,

Um cão a latir ao longe,

Um carro que passa

E uma moto noturna,

Esquecida.

Duas mulheres

Que não se calam,

E julgam que ninguém as ouve,

Um gato procurando

Uma fêmea teimosa,

E o mar.

Sim, daqui ouvimos o mar.

Não é como se vivêssemos

Ao longe,

Na Suiça ou na Bélgica,

Ou lá onde vivem

Os desmareados.

É aqui.

O mar ouve-se daqui.

Um dia

Hei-de contar a um neto

Que o avô

Vive onde se pode ouvir

O mar.

jpv


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Não sei…

Foto por jpv. Luz.

Não sei

Que há neste singular

E único momento.

Não sei

Que coisa é esta

Com a qual não sei lidar.

Não sei…

Como as abelhas travam

Seus combates

E ganham sempre.

Não sei

Se esta coisa

É mesmo esta

Ou será outra.

Não sei…

E enquanto não souber

Sou infeliz

E mais feliz que quantos há.

jpv


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Ciúmes

Foto por jpv. Lua.

Olho para ti

E tenho

Uns ciúmes

Imensos

De viver

Contigo.

Como assim?

Como és maior?

Nunca maior

Do que eu.

O meu ciúme

Espalha-se

Ao sabor

Das ondas

Que vão

E vêem.

A minha intenção

Sobrevive

De amar-te

Como numa

Tempestade

Sobrevivem

Os mais fortes.

jpv


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Eternidade

Foto por jpv. “Cláudia”

Saíu do mar

Como se lá

Não houvesse

Mais nada.

E foi um sair

Que convidava

A reentrar.

A cintura fina,

Os lábios feitos

Num sorriso.

E eu a cantar

Uma canção

Quieta,

Susurrada.

Como que tem

Um tesouro

E não o confessa.

Sou eu.

Eu.

A deusa

Dos amores

Escolheu-me,

A mim.

Eu não sabia

O que dar

A esta deusa.

Que oferendas

Lhe oferecer.

Não sabia

Comportar-me

Perante

Tanta exigência .

Para dizer-lhe

Coisas,

por exemplo,

O quanto

A amo,

Eu espero

Aqui,

E uma vez,

Lado a lado,

Deitamo-nos

Para a

Eternidade.

jpv


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James First Poem

Text and Drawing by James. Home.

“Home is my faverot because I feal loved the most.”

James


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História da Cigarra enquanto a Formiga dormia.

Foto por Cláudia. Girassol.

Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de mão dada. Ele de calções. Ela de saia rodada. E sem saber-se porquê, magia de certo, passa um duende por perto que sorri e pula. Não há sobressaltos. Só dois corações pulsando, as borboletas o ar cruzando, uma leve brisa deixando as ervas altas e as flores em breve dança. E a luz. Sim, essa diáfana luz forçando a densidade do bosque e banhando de claridade a penumbra onde o amor se fez verdade. E lei. A única lei. Sem papel nem escrita. Só a sua explanação, o seu viver num bater de coração, numa mão entregue, numa cena bonita. E há uma árvore alta e idosa a caminhar para os céus que tem na base uma loca onde vive a cigarra e os seus. Sentiu passos e veio ver o amor. E quando lhe perguntaram, as crianças, aconchegadas no lar acolhedor, o que passava, ela respondeu, quase desinteressada, como que não importunando, É a Primavera do amor. E chegaram, sem desdar as mãos, a uma clareira toda rodeada de canas. Era circular o espaço e tinha uma abertura em arco na vegetação, um convite que aceitaram sempre mão na mão.

Era o Verão. A amplitude do espaço e do tempo, searas dançando, aromas quentes no ar. Abriram os braços e afagaram a flor do trigo. Árvores pontuais a prover a sombra necessária para o coração descansar do ritmo quente e louco da paixão. E correram. E libertaram-se. E foram dando vivas às aves, à terra firme e ao céu azul e limpo. E via-se longe. E o mundo parecia não ter fim. Viviam um amor assim. Uma loucura consentida, uma centralidade perdida. Uma trepidação constante. E despiram-se. E fizeram amor. E sexo também. E viveram os dias como se não houvesse ninguém. E suaram o suor da descoberta na tarde caindo, a luz certa. Ao longe, uma ovelha branca balindo. E eles sorrindo. Amando sob o calor do Verão, dos corpos desnudados em paixão. E, pela primeira vez, entre eles, a semente de tudo, o princípio de todas as coisas: a palavra. A que cria e germina, a que alimenta e saceia, a que começa e termina, a que perde e norteia, a palavra que dá a vida e a morte, a mesma palavra que faz dos homens seres. A sorte. A palavra primeira que disseram foi Despertar, depois Encontro, depois Amar, depois disseram as palavras todas e uma vez gastas estas, reinventaram-nas. E disseram-nas todas outra vez. Assim como quem faz só porque fez. E gostou. E tudo se amou dentro dos limites seus. Só não disseram Adeus. Essa palavra doce e suave que queima. Guardaram-na para o Outono mesmo sem saber o que seria e quando viria se viesse. Quem olhasse a seara ao nível da altura do trigo, veria uma imensidão doirada banhada de sol sob o céu azul e deles, nem notícia, Mas a cigarra tem experiência e perícia e anunciou à filharada um passeio, um voo rasante sobre a seara doirada. E partiram de asa aberta e alma livre e repararam ali, a meio de lugar nenhum, sob o céu, sobre a terra, uma rodela de trigo que faltava como se estivesse pisado e amachucado por um transeunte descuidado. E estava! E eram dois os safados que rolaram em amores amados e deixaram circular marca na vegetação. A cigarra viu e entoou a canção do amor ali mesmo, sob o céu amplo e ao calor. E repetiram os filhos aquilo que ouviram e tendo cantado, logo partiram. E ao partir sentiu-se pequena aragem. E fria. Dona cigarra fez uma paragem, estendeu o dedo no ar e anunciou, Estão mudados os ventos, vêm aí novos tempos, vai mudar a sorte, sinto no horizonte um prenúncio de morte…

Rederam as mãos que tinham desdado para tatear os corpos, levantaram-se e correram a fugir da nuvem escura, da bátega de água certa, e enquanto a luz dura, caminham alerta em busca do bosque. Lá estava a abertura em arco nas canas e depois dela a clareira. Tudo igual e tudo diferente. Fosse ação natural ou de gente, algo havia mudado. Tudo.

As árvores choravam humidade e seus ramos despediam-se das folhas, os animais faziam escolhas de abrigos, a evitar os maiores perigos. Um tapete folhado e colorido cobria o chão de amarelos, laranjas e castanhos, e chegam ao bosque acolhedor habitantes que no Verão lhe são estranhos. Eles entraram e beberam. Olharam o lago e contemplaram o reflexo e estranharam não se terem visto na imagem refletida. Assim, com um misto de tranquilidade e tristeza, perceberam que já lá não estavam. Faltava só a partida. A despedida. E com o brilho e a lágrima no olhar, decidiram caminhar lado a lado, pelo frondoso bosque, agora inundado de silêncio. E num ponto do caminho, a estrada dividiu-se. Aí chegaram como se nunca lá tivessem estado. Ela imóvel. Ele parado. E duas coisas aconteceram, duas tragédias numa só. Juntamente com as plantas que feneceram, um gesto e uma palavra reduziram o amor a pó. Desderam as mãos em passos tranquilos. Foi o gesto. Ergueram os braços seus e pronunciaram em coro uníssono: Adeus!

Impassível ficou o bosque. Seguiram e levaram a memória do toque, do odor, das palavras, do olhar, do amor e das promessas e continuaram lado a lado, sem pressas, afastando-se um do outro. Não se sabe nesta história onde leva cada estrada. Sabe-se que uma conduz a tudo e outra ruma a nada. Só falta saber o mais sério que é se vão cruzar-se. Mas isso permanece mistério. Sendo certo que saberão amar-se na presença e na ausência. Agora e aqui, estão separando-se unidos. Vencedores e vencidos. Do corpo. E do coração.

A cigarra jaz morta de frio. Não lhe aprouve o canto no Verão. A formiga, que trabalhou no Estio, dorme quente no colchão. E acorda. Serena. E olha em volta e encontra-se. Estava perdida no sono e agora desperta para a vida sem saber que quem acorda no Outono, ainda que quente e aconchegado, sem ter visto o amor empolgado dos amantes na seara quente e no tempo absorto, não esteve dormindo, esteve morto. Ah formiga que vives com o corpo da cigarra tombado e inerte a poucos metros daí, se pudessem agora ver-te, os amantes teriam pena de ti. Tem mais vida esse cadáver vencido que sentiu a pujança do amor do que o teu corpo aquecido e gasto pelo suor cego do labor. Nunca saberás o voo sobre a seara, o sol amanhecendo paixão, nunca correste o risco que se exige ao mortal para que se liberte da eterna prisão. Vives adiada e ela morre saciada e há mais vida na sua morte do que na tua pobre e estéril sorte.

Nunca contarás aos teus filhos, como ela fazia, a fábula da cigarra enquanto a formiga dormia.

jpv

Primeira publicação em “MPMI”, 24/10/2011.