Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Do AVC – 9/9

Foto por Cláudia. Maputo.

O que um AVC pode ter de bom.

Ter um AVC tem as suas vantagens ou, se quisermos melhor, tem as coisas que são certo fazer desde que tenhamos uma pessoa com AVC à frente, isto quer dizer que as vantagens, às vezes, não são vantagens, são o mínimo que a sociedade pode fazer pelo AVC.

No meu caso, o que eu mais notei como vantagens foi o seguinte:

Em primeiro lugar, eu pude servir exemplo. Uma vez recuperado, eu disse a muita gente o que não deviam fazer, quais eram as principais causas de AVC e a propósito disto dei um conjunto de palestras. Isto é uma vantagem e que acho que se torna normal as pessoas ouvirem-me.

Em segundo lugar, há coisas muito simples como por exemplo ficar à frente nas filas porque de facto o AVC é uma coisa que gera alguma impaciência e como tal é bom poder passar à frente.

Também fiquei com um papelinho de prioridade quando as filas não são filas são os números que nos atribuem quando chegamos um sítio com várias pessoas para atender.

Em terceiro lugar, estaciona-se onde se quiser. Naqueles locais com os lugares marcados, é evidente que as pessoas têm rapidamente como estacionar.

Em quarto lugar, tive vantagens nos impostos ao nível do IVA e ao nível do IRS.

Em quinto lugar, eu tive que dizer sempre que que tive um AVC, mas isto tem uma vantagem é que as pessoas esperarem que eu acabe de falar e, de facto, não costumam interromper.

Em quinto lugar, tive a simpatia dos portugueses, isto é muito importante, um grupo de doentes ter a simpatia dos seus homólogos.

Em sexto lugar, quando entramos num hospital e tivemos um AVC, todas as portas se abrem rapidamente e todos os serviços ficam disponíveis.

Sétimo, muito importante, mesmo muito importante, a empatia dos médicos foi crucial. Esta empatia, este fazer para que eu me senti-se bem, esta nota de não culpa, porque não é culpa de ninguém que eu tenha tido um AVC.

Por fim, adorei, e repito adorei, a admiração dos meus alunos pela forma como me receberam.

E os meus colegas foram insubstituíveis, foram o máximo no facto de me receberem e de me considerarem um seu igual. Isto não tem preço, se calhar tem a ver com esta escola, se calhar não, mas o certo é que se comportaram como pessoas sensíveis.

Os cuidados prestados pela família, em particular a Cláudia, para quem o AVC também foi uma forma de aprendizagem.

Eu acho que ter um AVC é uma coisa má, muito má, mas se soubermos estar atentos conseguimos tirar muitas vantagens dessa coisa má. À partida, o facto ter um AVC permitiu-me de alguma forma estar no centro do mundo e explicar aos outros o que era um AVC. Isto pode ter um efeito preventivo, como pode ter um efeito pedagógico.

Eu sinto-me bem como um ex-AVC e espero que as pessoas me continuem a compreender e me continuem a amar.

jpv