
Foto por Ângela. Livraria Arquivo. Leiria.
INTRODUÇÃO
Dois anos e sete meses passaram desde que tive o AVC.
Tenho alguns poemas escritos sobre o assunto. E tenho um texto em prosa. Fadas e Gnomos.
Agora, resolvo abrir-vos as portas para vos aperceberdes do que passa uma vítima de um AVC. As esperanças de recuperação, a violência do que não é para recuperar, os saltos que se tenta dar e as vezes que se tem de andar para trás, e a autossuperação. Sem avisos. Umas vezes recupera-se, e julgamo-nos heróis, outras vezes parece que o problema veio para ficar. Estas coisas têm maior rigor do que pensávamos. Nem somos heróis numas, nem uns desgraçados noutras.
O meu AVC foi em Cabo Verde. Com as consequências que isso traz. As pessoas foram muito simpáticas, mas não podiam fazer mais. As máquinas estavam aqui, em Portugal, e também a medicação. Esperei os dez dias. E finalmente voei. Estive, então, seis dias internado, e quatro dias à espera. Um doente de AVC deve ser atendido até um máximo de três horas. Em Cabo Verde esperei dez horas e em Portugal esperaram onze dias por mim.
Fiquei com uma afazia total. Não era capaz de dizer nada. Nem mesmo o meu nome. Eu sabia-o, mas quando mo perguntavam saía nada. Fiquei com o lado esquerdo da cara parado. Daí aquela coisa estúpida de estar a comer e a babar-me. E por dentro, o cérebro, teve mais umas quantas coisas. Tomo sete medicamentos por dia. E sou um homem feliz.
O que agora retiro desta experiência, e que publicarei, são só impressões, coisas do dia. Para ciências, falem com um médico.
- Introdução.
- Nunca mais se é o mesmo.
- Diz-se o que se pensa.
- Percebemos que os outros mudam em relação a nós.
- Nunca mais somos dignos de confiança.
- Estamos para sempre doentes.
- Pensamos a vida numa outra perspetiva .
- Mudamos o nosso olhar sobre os outros.
- O que um AVC pode ter de bom.
jpv