Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Do AVC – 2/9

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Universidade de Coimbra

Nunca mais se é o mesmo

As pessoas mudam. Embora haja muita gente, talvez demasiada gente, que acredite que as pessoas não mudam, as pessoas mudam mesmo. Não sei se por se tratar de uma experiência quase morte, ou, então, para um ser humano ver a morte a aproximar-se, fá-lo mudar as suas perspectivas, e depois destas, há peças do puzzle que mudam de sítio. Ou então, como um mestre de xadrez, tem o artifício de mudar pequenas grandes coisas como um cérebro humano.

Eu acho que nunca mais fui o mesmo. Uma paisagem é um dom, ter água é uma benção, ter a liberdade de abraçar os que ama, fazer amor com toda a força. Dizer o que se pensa, sem rodeios. Tudo isso são coisas que mudam. O dinheiro deixa de ter a importância que tinha. Tudo pode mudar. Quando se vive assim um fenómeno, tudo aquilo a que damos importância é revalorizado e empilhado nas nossas gavetinhas destinadas às coisas importantes. Gostamos dos outros. Claro. Mas passamos a apreciarmo-nos melhor. Como se o deusinho do egoísmo fizesse um truque mágico e qualquer coisa de dentro se transformasse. Não ficamos egoístas. Mas temos uma noção diferente dos outros e das nossas vidas. É como olhar um avião e dizer Tanta gente que corre o risco de morrer ou dizer exatamente a mesma coisa e acrescentar viver em em vez de morrer.

E chorar. Choras até não poder mais quando reparas que acompanham o nosso sofrer. Lembro a Cláudia. O que ela sofreu para se ajustar a uma nova realidade e eu a dizer-lhe que não havia nova realidade coisa nenhuma. O que ela teve de adaptar-se. Eu não posso falar pelos outros, e não farei. Mas assumiria que quem nos ama também muda por dentro.

Eu fui à terra dos que não falam e voltei. Quando lá cheguei era como todas as outras. Não falava. Depois, quando regressei, reparei que tinha estado sem falar, e o que dizia agora tinha um tom diferente. Tinha uma intenção diferente. A Cláudia assistiu a isso. A Isabel também. E a Dr.a Marta também, só esta última sabia que eu não voltaria a ser o mesmo. Nunca mais.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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