Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Do AVC – 3/9

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Foto por Cláudia. Hydra. Grécia.

Diz-se o que se pensa

Literalmente. Durante algum tempo. Mas há coisas politicamente incorretas que vieram para ficar. Que se lixe!

Era uma espécie de falta de paciência à mistura com aquela espécie de medo, que não era só espécie, de estarmos a demorar muito para nos lembrar o que dizer. Houve um dia que a Dr.a Marta disse, Tem de dizer com calma, eu sou um paciente de AVC, e vai ver que as pessoas ficam mais calmas. Duplo erro. Dizer às pessoas que eu tenho um AVC só as faz fingir que têm calma. Segundo erro, agora tenho de aturar este mais o AVC dele. A Dr.a Marta era bem intencionada. Mas foi das pessoas que mais sofreu comigo. Por um lado, porque eu falava muito com ela, em segundo lugar se não te queres queimar afasta-te de lume.

Eu acho, mas desconfio, que fui sempre simpático com ela. Mas lembro-me, remotamente, como eu lhe atirava com umas coisas muito específicas sobre os gregos e os romanos ou como os problemas de língua eram sempre tão problemáticos. A senhora, dona de uma paciência de gigante, metia-a vezes sem conta em becos sem saída.

Um dia visitou-me um primo que tinha vendido a casa em Sesimbra, e comprado outra em Leiria e feito a mudança, e eu, sem quê nem para quê, vai de mostrar-lhe que as vantagens de mudar de agência. Fez-se um silêncio ao que eu percebi que talvez tivesse falado demais. E foram tantas as vezes que eu passei os limites que, às tantas, reparei que Cláudia repetia muito, Sabe, ele ficou assim desde o AVC, parece que não tem filtros.

Não é falta de educação. De forma alguma. É um fenómeno que apanha algumas vítimas da afasia e que consiste quando se recupera parcialmente a voz, os atos de fala não são tão controlados. E há depois um fenómeno que está relacionado diretamente com afasia. Para uma pessoa que esteve sem falar, fazê-lo sabe a conquista. Ora, por vezes, nessa ânsia de dizer, surgem palavras que não são exatamente iguais ao que se queria dizer. É claro que quem ouve percebe, mas percebe também, que foi uma escolha vocabular ao lado.

Daí ser importante dizer no início que se é afásico, na sequência de um AVC. Ora, quando um AVC diz o que se pensa ele pode estar a dizer parecido com o que se pensa, e expressar-se ou, simplesmente, a dizer exatamente o que pensa.

Portanto, já sabem, Têm de dizer com calma, eu sou um paciente de AVC.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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