As pessoas mudam. Embora haja muita gente, talvez demasiada gente, que acredite que as pessoas não mudam, as pessoas mudam mesmo. Não sei se por se tratar de uma experiência quase morte, ou, então, para um ser humano ver a morte a aproximar-se, fá-lo mudar as suas perspectivas, e depois destas, há peças do puzzle que mudam de sítio. Ou então, como um mestre de xadrez, tem o artifício de mudar pequenas grandes coisas como um cérebro humano.
Eu acho que nunca mais fui o mesmo. Uma paisagem é um dom, ter água é uma benção, ter a liberdade de abraçar os que ama, fazer amor com toda a força. Dizer o que se pensa, sem rodeios. Tudo isso são coisas que mudam. O dinheiro deixa de ter a importância que tinha. Tudo pode mudar. Quando se vive assim um fenómeno, tudo aquilo a que damos importância é revalorizado e empilhado nas nossas gavetinhas destinadas às coisas importantes. Gostamos dos outros. Claro. Mas passamos a apreciarmo-nos melhor. Como se o deusinho do egoísmo fizesse um truque mágico e qualquer coisa de dentro se transformasse. Não ficamos egoístas. Mas temos uma noção diferente dos outros e das nossas vidas. É como olhar um avião e dizer Tanta gente que corre o risco de morrer ou dizer exatamente a mesma coisa e acrescentar viver em em vez de morrer.
E chorar. Choras até não poder mais quando reparas que acompanham o nosso sofrer. Lembro a Cláudia. O que ela sofreu para se ajustar a uma nova realidade e eu a dizer-lhe que não havia nova realidade coisa nenhuma. O que ela teve de adaptar-se. Eu não posso falar pelos outros, e não farei. Mas assumiria que quem nos ama também muda por dentro.
Eu fui à terra dos que não falam e voltei. Quando lá cheguei era como todas as outras. Não falava. Depois, quando regressei, reparei que tinha estado sem falar, e o que dizia agora tinha um tom diferente. Tinha uma intenção diferente. A Cláudia assistiu a isso. A Isabel também. E a Dr.a Marta também, só esta última sabia que eu não voltaria a ser o mesmo. Nunca mais.
Sou. Mas um benfiquista que não precisa de mais ninguém para ferver, como um sonhador, ao mais pequeno passe, a mais um excêntrico golo.
Não sou como aqueles benfiquistas que ficam muito alegres e depois muito tristes. Ser benfiquista, neste caso, é ver sempre as coisas positivas. O Benfica pode estar a apanhar 3-0 e eu estar alegre por ver as camisolas vermelhas a rolar sobre o relvado.
Eu sou benfiquista. E isso não é contra nada nem contra ninguém. É a favor da melhor jogada ou da pior. Não é comparar nada com ninguém.
Tanto me interessa que o treinador seja A ou B. Não me interessa. Os treinadores são só pessoas. E os jogadores do Benfica são deuses na Terra.
Por exemplo, não gosto quando o Benfica não usa o equipamento principal. Não é a mesma coisa. E não gosto quando joga fora. Eu sei que é obrigatório, mas não gosto.
Eu sou daqueles que põem os comandos numa certa posição, e faço sinais místicos durante o jogo e não atendo o telefone.
Ser do Benfica não é só por um jogo. Pode ser uma final, ou um jogo de um campeonato improvavelmente perdido. Tenho de sofrer da mesma forma.
Nunca sei quem é o próximo adversário e respeito-os sempre. Só tenho pena que não sejam do Benfica.
Ir ao Estádio da Luz é como ir estar com a família. É como ver ao vivo uma comunhão.
Isto, ser benfiquista, começou muito cedo. O meu avô ligava o rádio, eu riscava num papel o nome dos dois e a assinalava o evoluir do resultado. Nesse tempo meu avô tinha um galo benfiquista por cima de outro sportinguista e o irmão também tinha um, com as cores ao contrário. E eu celebrava cada vez que o meu avô colocava o galo por cima do irmão sportinguista.
Ver um jogo ao pé de mim, é preciso ter os ouvidos preparados. Pelo volume. E pelo conteúdo.
Nunca participei numa briga, porque para mim o futebol e o Benfica em particular, não era sobre brigas. Era uma festa. E é.
Costumo dizer que quando for dormir, o sono profundo, ponham-me uma bandeira do Benfica e um cachecol e uma camisola das minhas sobre o caixão…
Essa coisa indefenível Como as coisas Que se chamam coisas. Essa impressão Que fica no ar Mesmo quando já não se nota O teu passar. Essa coisa que me traz preocupado Com as simples tarefas Do universo. Essa coisa que deixa um perfume Em prosa, Ou em verso. Essa coisa a que não quero chamar Amor E que rodeio com perífrases Do mesmo tipo. Esse longo amar Na cabana do Tofo, Ou um beijo trocado No Dhow ao chegar. Passou continentes E olhou-te de surpresa Após o AVC. Essa coisa que ainda Ontem fizemos, Sem vergonha nem pudor. Essa coisa, Assim pura, Chama-se Amor.
Quero pecar Os meus pecados. Não posso deixá-los para trás. Quero acariciá-los Como se acaricia Uma existência. Um prazer breve e fugaz. Quero os excessos E as luxúrias. A presença De todas as coisas E a sua ausência. O lume a arder E o seu reflexo Na taça de vinho abandonada. A luz do luar Na tua pele desnudada. Quero do teu choro A erótica heresia. Quero o teu corpo Na minha língua Sabendo a maresia. E quero que me faças Uma oração Submissa e tentadora. A prece dos pecadores Sob a rotina redentora Do amor. E hás-de ser minha Para sempre. E sempre será o que quisermos. Será o tempo de um beijo. Um lânguido beijo deleitoso. Ou então uma eternidade. A eternidade de acolher-me em ti Sem chão, nem mar, nem radar. Só o toque cego e prazeroso De quem tenteia a felicidade. E peco. Peco o pecado de fechar-me Para o Universo E ressuscitar em ti Pelo toque, Pelo urro, E pela palavra feita verso. Não quero o pecado Pelo pecado. Quero o pecado Do teu desejo A arder-me na carne. Quero as tuas unhas A arranhar-me Como um náufrago perdido. Teu corpo único A meus prazeres estendido. E quero saber Que sabemos Que pecamos. Consciência inútil E vital. Quero finalmente acreditar Que vieste a ser minha. E quando, à noitinha, Encostares teu corpo Ao meu Antes de dormir. Quero estar pronto para partir. E levar comigo nossos pecados Envoltos em ternura. E algum que nos tenha escapado Seja da alma, em paz, A solitária tortura.
Amor meu, que te expões na cama, Sacrificado seja o teu corpo À minha chama. Venha a mim a tua carícia, Seja feita a nossa vontade Com luxúria e perícia, Assim no leito como no chão. Perdoa-me as minhas ausências Assim como perdoo A quem me tem cativo Da mais doce tentação.
Na vertigem da palavra indizível, A hesitação sobrepõe-se E estende-se o manto do silêncio. Impossibilidade. Mudez. Eco da dor que atormenta. Navegação à vista Quando a procela aumenta. Perdido. Como louco. Indagando a melhor opção À falta de poder nenhuma. Reinventei os passos. Cresci. E, depois, Já navegando outros índicos mares, Outras sossegadas águas e outros vagares, Então me lembrei, Como se sempre Fora óbvio, Límpido e sem engano: Bastara dizer-te Que te amo.
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