Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Amor absurdo

Foto por Ângela. Coimbrão.

Entras sem aviso,

Como quem muda a cor do ar

Só para nos ver.

Rimos porque é impossível não rir,

Tu és a graça sagrada que me salva.

Teu corpo é um argumento

Que refuta o mundo.

Cada toque uma hipótese.

Culpado pela ternura,

Culpa que me confessa e me absolve

Ao mesmo tempo.

A loucura aqui é simples,

Amar-te sem condições,

Aceitar que nada faça sentido além de ti.

É fé sem templo.

É não ter medo

De ser inteiro em algo

Que não precisa de razão.

Vem, que eu celebro esse absurdo limpo.

Fazemos da noite um acerto de contas

Com o céu.

Se o amor é um erro,

Que seja perfeito.

Se é verdade, que seja sem cálculo,

Só nós dois.

jpv


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Do AVC – 2/9

Universidade de Coimbra

Nunca mais se é o mesmo

As pessoas mudam. Embora haja muita gente, talvez demasiada gente, que acredite que as pessoas não mudam, as pessoas mudam mesmo. Não sei se por se tratar de uma experiência quase morte, ou, então, para um ser humano ver a morte a aproximar-se, fá-lo mudar as suas perspectivas, e depois destas, há peças do puzzle que mudam de sítio. Ou então, como um mestre de xadrez, tem o artifício de mudar pequenas grandes coisas como um cérebro humano.

Eu acho que nunca mais fui o mesmo. Uma paisagem é um dom, ter água é uma benção, ter a liberdade de abraçar os que ama, fazer amor com toda a força. Dizer o que se pensa, sem rodeios. Tudo isso são coisas que mudam. O dinheiro deixa de ter a importância que tinha. Tudo pode mudar. Quando se vive assim um fenómeno, tudo aquilo a que damos importância é revalorizado e empilhado nas nossas gavetinhas destinadas às coisas importantes. Gostamos dos outros. Claro. Mas passamos a apreciarmo-nos melhor. Como se o deusinho do egoísmo fizesse um truque mágico e qualquer coisa de dentro se transformasse. Não ficamos egoístas. Mas temos uma noção diferente dos outros e das nossas vidas. É como olhar um avião e dizer Tanta gente que corre o risco de morrer ou dizer exatamente a mesma coisa e acrescentar viver em em vez de morrer.

E chorar. Choras até não poder mais quando reparas que acompanham o nosso sofrer. Lembro a Cláudia. O que ela sofreu para se ajustar a uma nova realidade e eu a dizer-lhe que não havia nova realidade coisa nenhuma. O que ela teve de adaptar-se. Eu não posso falar pelos outros, e não farei. Mas assumiria que quem nos ama também muda por dentro.

Eu fui à terra dos que não falam e voltei. Quando lá cheguei era como todas as outras. Não falava. Depois, quando regressei, reparei que tinha estado sem falar, e o que dizia agora tinha um tom diferente. Tinha uma intenção diferente. A Cláudia assistiu a isso. A Isabel também. E a Dr.a Marta também, só esta última sabia que eu não voltaria a ser o mesmo. Nunca mais.

jpv


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Papoilas

Foto por Cláudia. Coimbrão.

Chegou o tempo da papoilas.

Nascem em qualquer recanto.

Trazem beleza aos mais recônditos

Locais.

Não são agradáveis ao toque.

Quer pelo caule,

Quer mesmo a estrutura.

Mas deixam-se ficar, ali,

Como se alguém fosse

Colhê-las.

Anunciam a Primavera,

Com luz, uma cor,

Algo que as torna evidentes.

E estão ligadas a nova estação.

Olha, papoilas, está aí a Primavera.

Ontem, vi muitas.

É a sorte de viver junto a elas.

É uma sorte

Viver onde há papoilas

E alguém para Amar!

jpv


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Benfiquista

Foto por Cláudia. Maputo.

Sou. Mas um benfiquista que não precisa de mais ninguém para ferver, como um sonhador, ao mais pequeno passe, a mais um excêntrico golo.

Não sou como aqueles benfiquistas que ficam muito alegres e depois muito tristes. Ser benfiquista, neste caso, é ver sempre as coisas positivas. O Benfica pode estar a apanhar 3-0 e eu estar alegre por ver as camisolas vermelhas a rolar sobre o relvado.

Eu sou benfiquista. E isso não é contra nada nem contra  ninguém. É a favor da melhor jogada ou da pior. Não é comparar nada com ninguém.

Tanto me interessa que o treinador seja A ou B. Não me interessa. Os treinadores são só pessoas. E os jogadores do Benfica são deuses na Terra.

Por exemplo, não gosto quando o Benfica não usa o equipamento principal. Não é a mesma coisa. E não gosto quando joga fora. Eu sei que é obrigatório, mas não gosto.

Eu sou daqueles que põem os comandos numa certa posição, e faço sinais místicos durante o jogo e não atendo o telefone.

Ser do Benfica não é só por um jogo. Pode ser uma final, ou um jogo de um campeonato improvavelmente perdido. Tenho de sofrer da mesma forma.

Nunca sei quem é o próximo adversário e respeito-os sempre. Só tenho pena que não sejam do Benfica.

Ir ao Estádio da Luz é como ir estar com a família. É como ver ao vivo uma comunhão.

Isto, ser benfiquista, começou muito cedo. O meu avô ligava o rádio, eu riscava num papel o nome dos dois e a assinalava o evoluir do resultado. Nesse tempo meu avô tinha um galo benfiquista por cima de outro sportinguista e o irmão também tinha um, com as cores ao contrário. E eu celebrava cada vez que o meu avô colocava o galo por cima do irmão sportinguista.

Ver um jogo ao pé de mim, é preciso ter os ouvidos preparados. Pelo volume. E pelo conteúdo.

Nunca participei numa briga, porque para mim o futebol e o Benfica em particular, não era sobre brigas. Era uma festa. E é.

Costumo dizer que quando for dormir, o sono profundo, ponham-me uma bandeira do Benfica e um cachecol  e uma camisola das minhas sobre o caixão…

Viva o BENFICA.

jpv


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Fotobiografia de Ti

Foto por jpv. Hydra

“O vento trocou-me as voltas, trouxe-me depois, quem amo imensamente. Indefinidamente.”

jpv


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AMOR

Essa coisa indefenível
Como as coisas
Que se chamam coisas.
Essa impressão
Que fica no ar
Mesmo quando já não se nota
O teu passar.
Essa coisa que me traz preocupado
Com as simples tarefas
Do universo.
Essa coisa que deixa um perfume
Em prosa,
Ou em verso.
Essa coisa a que não quero chamar Amor
E que rodeio com perífrases
Do mesmo tipo.
Esse longo amar
Na cabana do Tofo,
Ou um beijo trocado
No Dhow ao chegar.
Passou continentes
E olhou-te de surpresa
Após o AVC.
Essa coisa que ainda
Ontem fizemos,
Sem vergonha nem pudor.
Essa coisa,
Assim pura,
Chama-se Amor.

jpv


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Solitária Tortura

Quero pecar
Os meus pecados.
Não posso deixá-los para trás.
Quero acariciá-los
Como se acaricia
Uma existência.
Um prazer breve e fugaz.
Quero os excessos
E as luxúrias.
A presença
De todas as coisas
E a sua ausência.
O lume a arder
E o seu reflexo
Na taça de vinho abandonada.
A luz do luar
Na tua pele desnudada.
Quero do teu choro
A erótica heresia.
Quero o teu corpo
Na minha língua
Sabendo a maresia.
E quero que me faças
Uma oração
Submissa e tentadora.
A prece dos pecadores
Sob a rotina redentora
Do amor.
E hás-de ser minha
Para sempre.
E sempre será o que quisermos.
Será o tempo de um beijo.
Um lânguido beijo deleitoso.
Ou então uma eternidade.
A eternidade de acolher-me em ti
Sem chão, nem mar, nem radar.
Só o toque cego e prazeroso
De quem tenteia a felicidade.
E peco.
Peco o pecado de fechar-me
Para o Universo
E ressuscitar em ti
Pelo toque,
Pelo urro,
E pela palavra feita verso.
Não quero o pecado
Pelo pecado.
Quero o pecado
Do teu desejo
A arder-me na carne.
Quero as tuas unhas
A arranhar-me
Como um náufrago perdido.
Teu corpo único
A meus prazeres estendido.
E quero saber
Que sabemos
Que pecamos.
Consciência inútil
E vital.
Quero finalmente acreditar
Que vieste a ser minha.
E quando, à noitinha,
Encostares teu corpo
Ao meu
Antes de dormir.
Quero estar pronto para partir.
E levar comigo nossos pecados
Envoltos em ternura.
E algum que nos tenha escapado
Seja da alma, em paz,
A solitária tortura.

jpv


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Prece à Deusa do Amor

Amor meu, que te expões na cama,
Sacrificado seja o teu corpo
À minha chama.
Venha a mim a tua carícia,
Seja feita a nossa vontade
Com luxúria e perícia,
Assim no leito como no chão.
Perdoa-me as minhas ausências
Assim como perdoo
A quem me tem cativo
Da mais doce tentação.

jpv


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Vertigem

Na vertigem da palavra indizível,
A hesitação sobrepõe-se
E estende-se o manto do silêncio.
Impossibilidade. Mudez.
Eco da dor que atormenta.
Navegação à vista
Quando a procela aumenta.
Perdido. Como louco.
Indagando a melhor opção
À falta de poder nenhuma.
Reinventei os passos.
Cresci.
E, depois,
Já navegando outros índicos mares,
Outras sossegadas águas
e outros vagares,
Então me lembrei,
Como se sempre
Fora óbvio,
Límpido e sem engano:
Bastara dizer-te
Que te amo.

jpv


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Círculo Perfeito

Nem Deus
Nem o Diabo
Me chamam.
São os teus braços.

Nem a luz
Nem o breu
Me convocam.
São os teus braços.

Nem a coragem
Nem o medo
Me incitam.
São os teus braços.

Abraços de luz.
Olhos trémulos,
Lábios de amor
E uma palavra que conduz
Ao Mundo e…
De volta aos teus braços.

jpv