No dia 11 de setembro de 1990, há exatamente 31 anos, nasceu o Iago, meu filho, minha alma, meu sopro. O Iago não veio a este mundo para ser mais um de nós. Veio para ser um exemplo de coragem, um farol de integridade, um misto de rebeldia e resiliência. A sorte é minha, foi sempre minha, de o ter no meu caminho, de ter o privilégio de o ver crescer, de o ver superar, de o ver alcançar, um a um, os objetivos a que se propôs. O Iago foi sempre uma bênção na minha vida. O filho que qualquer pai quer ter e digo mesmo mais, conseguiu superar todas as minhas falhas como pai e selecionar com rigor e escrúpulo os ensinamentos efetivamente válidos. É um filho que aprende e ensina, que ouve a orientação e orienta. É um orgulho.
E agora é pai e sei, com toda a certeza, que vai ser, já é, um grande pai.
O Iago merece ser rodeado de todo o Amor que conseguirmos encontrar em nós e merece um dia, uma semana, um mês, um ano, uma vida inteira e uma eternidade de felicidade plena. O Iago merece que estejamos indefetivelmente ao seu lado para que possamos fortalecê-lo ainda mais. Os fortes não o mostram, mas também eles precisam de força exógena, de carinho, uma mão no cabelo, uma festa na face, um beijo, um abraço forte e demorado.
MUITOS PARABÉNS MEU QUERIDO FILHO! AMO-TE TANTO QUANTO É POSSÍVEL AMAR-SE UMA PESSOA!
And if, for some reason, somehow, Somewhen, You discover I’m one or two Of these things to you, Maybe, Maybe then, My love, We have a love affair. So, my dearest, do not despair.
Não adormeces, nunca, No meu coração Onde bate, sempre, A tua presença. Forte. Há na minha pele Um mapa tatuado Onde meus braços te procuram E meu corpo abandonado Se entrega à memória de ti. Correste o Mundo Na luz do entusiasmo E nunca saíste daqui. Viste o que eu não vi Suaste o suor da audácia E percorreste o pó Dos caminhos onde não fui. Nunca estive à altura De teus céus E tuas florestas profundas. Nunca saltei as barreiras Que te fizeram gritar de emoção. Nunca ouvi outra canção Que não fosse a de amar-te. Faltou-me o golpe de asa, Faltou-me a arte. E voei embalado Nos teus cabelos loiros Esvoaçando ao vento. Sou culpado, sim, E criminoso. Jamais isento De querer reter-te entre as mãos De que fugias. Não sei onde estás. Sei que ocupas meus dias.
Rumores de Tinta revisita Orfeu e Eurídice, amores arrebatadores, loucuras, músicas envolventes e… falta de confiança e ainda se menciona Fernando Pessoa! Tudo, em três minutos!
No tempo de não haver culpas e todas as palavras serem verdadeiras e limpas, quando ainda era menino, ensinaram-me o que era um menino órfão. E, fosse por que ventura fosse, nunca mais atualizei o conceito. Para mim, um órfão sempre foi um menino sem pai nem mãe. Só quando ouvi esta canção do Abrunhosa me apercebi que já não vêm à minha mesa, nem o pai, nem a mãe, e o órfão sou eu… órfão aos 53…
Não herdei nada e, contudo, os meus pais deixaram-me tudo o que tenho precisado para a vida.
Não me sinto triste por ser órfão. Sinto-me só. Abandonado. Sinto-me à deriva no mar de decisões que cada dia me traz. Nunca passa. Quando temos o nosso pai e a nossa mãe, mesmo que não os vejamos muito, mesmo que estejam longe, sabemos que existem e estão lá para nós e isso fortalece-nos e dá-nos coragem para todas as batalhas. Depois de morrerem, há um vazio que se instala e nunca deixará de o ser. Não é tristeza, nem desespero. É vazio. Sozinhês. É um sentimento do mais absoluto desamparo porque nos falta quem dizia a palavra certa, quem nos passava a mão pelo cabelo, quem representava a confiança absoluta. Só um pai ou uma mãe têm o poder de dizer algo e esse algo ser lei só porque foi dito por eles.
Há muitas mesas, já, que o meu pai não está presente. Demasiadas. E a minha mãe… é como se ainda estivesse à mesa, mas a verdade é que à mesa só já está a sua imagem, a imagem do seu sorriso. Não sei se sou menino… creio que não… mas sei que sou órfão e sei agora, e tragicamente, o que é um órfão. Um órfão é um homem a uma mesa vazia, um desamparado trágico, um sozinho deambulante pelas memórias que são só isso mesmo.
Diz-me, meu amor… Como é que não se faz amor contigo? Como resistir à tentação e ao perigo De cair em teus braços? Como posso evitar Teus doces afagos E os dolentes cansaços?
Diz-me, meu amor… Como não deslizar nas tuas linhas? Como fugir às carícias E impedir que tuas mãos Se fechem nas minhas?
Diz-me, meu amor… Como resistir às palavras Nascidas desse sorriso que se insinua? Diz-me, como quem me salva, Como pode a minha pele alva Não colar-se à tua pele nua?
E, se encontrares resposta e solução Para que eu não caia em tentação… Vem, meu amor, ao meu ouvido dizer Como se não faz o que só sei fazer, Como se vive sem se morrer… Estando vivo. Vem meu, amor… Libertar meu peito cativo E obrigá-lo a ser quem é… Não cai, jamais… Um homem que ama de pé.
Sempre imaginei Qua as deusas se banhavam Em frescas fontes Brotando cascatas de prata. E, contudo, Aqui estás, no meu chuveiro, Com esse sorriso que resgata O homem perdido, Enquanto a espuma desce As curvas de teu corpo despido.
Sempre julguei Que as deusas comiam Sob árvores frondosas e seculares, Em mesas postas De iguarias e manjares Sobre toalhas de linho branco, Embaladas pelo chilrear dos passarinhos. E, contudo, Sentas-te à mesa da cozinha E comes queijo aos pedacinhos, Em pão fresco e café quente, Com papaias generosas no horizonte.
Sempre pensei Que as deusas descansavam Em camas de marfim E imaculados lençóis de cetim Com o firmamento por teto. E, contudo, Sentas-te na nossa varanda Saboreando a brisa e o tempo Enquanto escrevo por perto.
Sempre imaginei Que as deusas orientavam Os pobres humanos Com um suave aceno da alva mão. E, contudo, Deslizas na sala de aula De palavra límpida e proferida E envolvente explicação.
Sempre julguei Que as deusas dormiam recostadas Em leitos divinais Com pajens e amas de quarto Satisfazendo seus caprichos banais. E, contudo, Deitas-te exposta ao meu olhar Bela, sensual, E sem qualquer banalidade, Em lençóis simples e monocromáticos Comprados na calamidade.
Sempre pensei Que as deusas amavam Em leitos de luxúria E orgias intensas e loucas. E, contudo, Em breves dias me ensinaste Que são parcas e poucas As artes das deusas Nesse diálogo de tranquilas euforias Que nossos corpos travam nos dias Em que dançam juntos A melodia do amor…
Se soubesses, meu amor, O quanto gosto de ti. Se ao menos conseguisses imaginar Todos os peixinhos que há no mar, Nesse oceano sem fim, E quantas estrelas há no céu… Saberias uma centelha Das razões por que sou teu.
Não consigo, mamã. Não consigo este luto impossível. Não é um luto. É uma luta de Titãs com fantasmas e remorsos. Não consigo despedir-me de ti. Não consigo aceitar a tua perda. Não desta maneira. Abrupta. Trágica. Violenta. Não há preparação possível para a morte. Eu sei. Mas, ao menos, um adeus.
Nessa manhã, escreveste-me um daqueles teus elogios em jeito de brincadeira a reavivar o nosso amor e, uma vez mais, me senti orgulhoso de ti. De como aos setenta e três anos dominavas as tecnologias e tinhas o teu espaço nas redes sociais.
A tua comunidade religiosa, a tua maior rede social, homenageou-te sentidamente, mamã. Com gestos simples, mas profundos, com palavras certeiras, com abraços, com leituras, e com o teu cântico preferido. Sabes, mamã, quando nos despedimos de ti, houve saudade e a natural tristeza de ver-te partir, mas não houve desespero. Pelo contrário. Talvez tenha sido o funeral em que senti mais esperança.
Se soubesses como me arrependo de tanta coisa. De como faria, hoje, tanta coisa diferente. E o que mais me revolta é que foi preciso morreres para perceber isso. Tinhas tanta razão. Tantas razões. Todas fluíam de ti com a naturalidade de um ribeiro que caminha para um curso maior.
A Mana está bem. Não fiques preocupada. É capaz de fazer tudo. De enfrentar tudo. Está forte e autónoma e encontrou uma outra irmã, quase de sangue, uma irmã de dor e compaixão, que tem cuidado dela. A Mana tem dúvidas. Ninguém passa incólume de viver contigo a viver sem ti. Mas está a conseguir. Como tu querias. Talvez melhor do que poderias esperar.
E, agora, vamos lá aqui conversar sobre o mais difícil: o teu adorado e tão desejado bisneto nasceu. É um rapagão grande e lindo e saudável. Ias adorá-lo mais do que já o adoravas antes mesmo de nascer. É um milagre de vida. O teu neto e a tua neta nem sabem para onde virar-se no desvelo de cuidar dele… queria tanto que pudesses pegar-lhe ao colo. O teu colo era tão bom! Tão acolhedor!
Soube, recentemente, que, ao longo dos últimos anos, me escreveste periodicamente. Estou ansioso por beber as tuas palavras. Estou ansioso por reencontrar-me contigo nesse plano de entendimento que só a escrita permite. E temo! Temo ter ainda mais saudades. Temo que esta revolta surda cresça ainda mais. A tua morte, mamã, não pode ser uma tragédia, tem de ser uma revolução.
Naquele momento em que tudo aconteceu, sei que te assustaste e sei que sofreste e sei, contudo, que tudo foi demasiado rápido para pensares, sequer, no que estava a acontecer-te.
Mãezinha, não consigo despedir-me de ti. Não sei que merda seja essa coisa a que chamam luto! Que puta de paz nos sobrevém e dá esperança no futuro se nenhum futuro sem ti o é verdadeiramente. Tinhas tanta vida a viver, tantos projetos, tanta pujança. Não consigo perceber a violência da tua partida inesperada e não consigo largar-te da minha mão, do meu próprio colo, dos meus arrependimentos. Não deixámos nada de importante por dizer, mas ficou tanto por fazer.
Não partas já! Vem, de novo, ajeitar-me o cabelo de menino. Vem, de novo, pedir-me para regressar que, desta vez, eu regresso. Perdoa, mamã! Perdoa pelo bem que te não fiz e podia ter feito. Perdoa as minhas fraquezas e as minhas faltas. Não foram por não te amar, por não te querer bem. Foram por cobardia e outras razões que os homens encontram para justificar as suas ações e os seus erros.
E, agora, estás aqui, a encher-me o peito e a povoar-me os dias e as noites com o teu sorriso, com o teu abraço, com as tuas graças, e aquele toque que me davas no ombro quando querias que me risse contigo. E recordo, com dor e saudade, quando pedias um xiripiti depois de almoço ou quando te surpreendia na cozinha às sete da manhã com tudo arrumado e o almoço já orientado e depois preparavas o teu café e o teu pão e ficávamos ali a conversar.
O máximo que consigo, hoje, mamã, é conversar um pouco mais. Não tenho, ainda, força para despedidas, nem lutas com fantasmas, nem o que quer que seja.
Só consigo conversar contigo e pedir-te desculpa por tudo o que não fui e sonhavas que fosse. Só consigo reencontrar-me, em lágrimas de fogo, com os meus erros e as minhas falhas e o teu sorriso e a tua aceitação e a tua resiliência… hoje, não sou capaz de mais…
Chegou a hora de dizer-te que te amo. Sempre amei. Sempre amarei. Chegou a hora de dizer-te que, para mim, não tens defeitos. Chegou a hora de dizer-te que, desde que nasceste, foste o meu milagre de vida, o meu segredo revelado, o sentido que faltava dar aos dias e às noites. Que amo tudo em ti. A forma apaixonada e ingénua como te entregas aos ideais, a forma genuína e desinteressada como assumes compromissos, o brio que colocas em tudo o que fazes. Não são os outros que estão certos, Mana, és tu! É o teu coração que bate compassadamente ao ritmo das coisas lindas e acertadas que os nossos pais nos ensinaram. Fui eu que nasci antes, mas és tu a mais velha, és tu o farol e é a ti que temos de seguir. És tu o exemplo do que foi feito e o guião do que falta fazer. E estas coisas são assim porque estiveste sempre mais próxima do centro desses ideais, porque nunca abdicaste deles.
O nosso amor e a nossa união não podem ter vacilações nem intermediários. Não podem ser hipotecados sob pretexto algum.
Como te amo, Mana. Como te amo. E como quero que sejas feliz e livre e autónoma e, sobretudo, como quero assistir a isso tudo. E como sei, hoje, que foste sempre tu quem esteve certo. Como compreendo, hoje, a tua luta, o teu desespero. Não te sintas perdida de novo. Não precisas desesperar de novo. Eu cheguei! Eu estou aqui! Sentes a minha mão na tua mão? Sente, Mana, sente! Não importam mais os aviões, não importam mais as distâncias, não importam mais as regras dos outros. No exato momento em que a nossa mãe morreu, eu renasci para ti. Para te segurar a mão, para te perguntar como estás e onde queres ir… renasci para me certificar de que todas as tuas passadas serão dadas na direção que tu escolheres. Vamos viver, Mana, o que temos para viver, sem cedências, nem contemplações, orientados pelo brilho dessas duas estrelinhas maiores que brilham por nós lá no alto do Céu e nos indicam o caminho que nos tinham ensinado.
O Amor Próprio nasceu como uma página nas redes sociais e se transformou em um espaço acolhedor para quem busca reencontrar sua força, sua essência e seu valor.
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