Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Está em Nós

Está em nós
Toda a essência
Do Amor.
Está em nós
Toda a ciência
Da alegria
E da dor.
Está em nós
A arte de colocar
A minha cabeça
No teu regaço
E essa forma
Única
De segurares
Meu braço.
Está em nós
A arte de um beijo
Despudorado,
Em público trocado.
E está em nós
Algo de eterno
E não perecível,
Tão antigo
E tão renovado…
A confiança
De estares aí,
A certeza deste encontro
Desencontrado!
E haver ainda
Tanto para amar
Depois de tanto
Já amado.

jpv


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Lá Longe

amor

Lá longe.
Lá, onde o olhar não chega,
Do outro lado do Mundo,
Há um peito
Onde habita meu coração
A bater profundo.

Lá longe.
Lá, onde os rios correm ao contrário,
Bate a descompasso
E sem horário
Um relógio de amar.

Lá longe.
Lá, onde estou, mas não chego,
Aguarda-me esse inigualável sossego
De teus braços a abraçar.

Lá longe.
Lá, nessas ruas desertas de mim,
Onde deambulam teus passos, assim
Como quem me inaugura o desejo…
Lá, onde estou e te não vejo,
Mas te amo com devoção.

Lá longe.
Lá, onde me falta o chão
E me sobra o caminho.
Lá, onde piso devagarinho
E me aproximo sem chegar
A esse apetecível altar
De rezas e súplicas imploradas.
Lá, onde está teu ser
E meu ser desejava estar
Ao cair da noite
E nas auroras anunciadas.

Lá longe…

jpv


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Viajante Clandestino

viajante

Viajante clandestino
No porão do teu olhar,
Eu sou.
Coração de menino
No peito a exultar,
Eu sou.
Amante dos gestos,
Realizados e a realizar,
Eu sou.

Não há mais palavras
Para dizer-te.
Tu és as palavras todas.
Tu és o texto,
O poema acabado e perfeito,
Tu és a pergunta e a resposta,
O predicado e o sujeito
Do viajante que levas
Escondido…
No porão do teu olhar.

jpv


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Ousadias

chocas

Não me sais do peito.
Apetecem-me ousadias
Sem jeito.
E ternuras desmesuradas.
Apetece-me o teu olhar
Encantado
E as tuas mãos
Em meu corpo saciadas.
Apetece-me beijar-te
A pele
E a alma.
Menos que isso
É estar morto.

jpv


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Bíblia

casal2

As tuas palavras
Anunciam desejos.
Os teus lábios
Prometem beijos.
As tuas mãos
Semeiam carícias.
As tuas ancas
Conjuram delícias.

Se não for o anúncio falso
E a promessa vã,
Se não for a sementeira estéril
E a conjuração improcedente,
Nascerá uma nova manhã
De odores citrinos e inaugurais.
Manhã ímpar e fresca
De gestos simples e fundamentais.

Um mundo renovado
E uma nova religião,
O credo do pastor amado
E a prece da paixão.
Reescrevo versículos
Com a cabeça abandonada
Em tuas nádegas desnudas.
Se soubesses
O quanto mudas
Só por estar aqui.
Tenho uma nova Bíblia,
Repleta de orações,
Que nasceu em ti.
E esse livro,
Sagrado e controverso,
Desenha um ato de amor
Em cada singelo verso.

jpv


1 Comentário

Entre-Ser

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Não é um amor proibido.
Não é um sentimento fingido, também.
É um desencontro
Que nasceu, quem sabe,
No útero de minha mãe.
Não é o que nunca foi,
E não é, também,
O que nunca será.
É um sentir,
Aqui e já,
O desejo
E a impossibilidade.
É uma coisa nova
Mais antiga que a idade.
Não é um pecado,
E não é lícito também.
É uma transgressão imaculada
Que nasceu, quem sabe,
No útero de tua mãe.
Não é um romance anónimo,
E não é, tão pouco,
Um romance nomeado.
Tu não pronuncias meu nome,
E teu nome, em meus lábios,
Isso, sim, seria pecado.

E vivemos neste entre-ser
Que a vida nos trouxe,
Sem saber como teria sido,
Mas vivendo como se fosse.

jpv


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Lamento

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Não te reconheço, já,
No olhar desviado
E altivo.
Não percebo, sequer,
Qual seja o ímpio
Motivo
De teu fingimento
E de tua distância.
Vivo o desespero
E sofro a ânsia
De ver-te regressar
Ao menino que eras,
Repleto de sonhos
E quimeras,
Sorriso largo,
Palavra cristalina.
Não sei…
Não tenho como saber
Quem te desviou o olhar e o ser,
Quem destroçou teu coração.
Eu sou o amparo,
O peito aberto,
A mão que se estende
E fica estendida
À espera de preencher-se.

Mas a espera, meu amor,
Tem seu tempo.
Meu coração chora
Até deixar de acreditar
Que hás-de vir segurar
A minha mão aberta
Depois disso,
Sobra só uma alma magoada
E deserta
Que se fecha e esconde
E quer morrer sozinha
E devagarinho
Na segurança da solidão.

E este lamento
Que choro como uma prece
É um grito violento
Que expõe e oferece
Minha mão à tua,
Um olhar,
Uma alma nua.

jpv


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Príncipe

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Ainda agora
Se não via,
Em teu rosto,
O mais insuspeito
Traço de alegria.
Ainda agora,
Há uns momentos atrás,
Diria que te faltava toda a paz.
Negro e dorido,
Teu coração,
Sem horizonte
Nem solução.
Ainda agora,
Há poucochinho,
Diria que choravas
Por dentro,
Vítima de violento
E incontrolado sentimento.

Mas ele chegou.
Talvez fosse um príncipe,
Mas não parecia um príncipe.
E teu rosto se iluminou.
Passo desacertado,
Chinelo no dedo,
Mal segurado.
A barba desalinhada,
A camisa branca aberta
E desengomada,
A alma deserta
De tudo,
Menos de ti,
Como querias.

Pensei que sabias,
Eu desejei, em tempos,
Ser ele.
E outra, que não conheces,
Eras tu.
Já não tenho
Esse desejo cru
E genuíno.
Hoje, contento-me
Com a tua luz,
Como o menino
Que vê brincar os outros
E fica feliz.

Não és ela.
Mas és a prova
De que havia,
Para o príncipe em mim,
Uma donzela.

E agora resta-me
Ver-te a face
Em leve rubor
De excitação.
Restam-me estes sentimentos
Confusos e dispersos,
Estas linhas sinuosas,
Estes atormentados versos.

jpv


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O Amor

amor

A causa de todas as coisas é o Amor.
Todo o Amor.

Não só o desejo
De percorrer a linha
Do horizonte do teu corpo,
Mas também o amor,
Que me deixa comovido
E absorto,
De uma criança sorrindo ao Destino
Sem ter Destino algum.
O amor, vulgar e comum,
Do velho agricultor,
De face sulcada,
Pelo cheiro da terra arada
E uma semente a espreitar.

Não só o amor
De percorrer a linha fina
De teus lábios
Com a minha língua molhada,
Mas também esse amor
Que têm os homens sábios
Por quase tudo
E por quase nada:
O voo irregular da borboleta,
O mendigo dormindo na valeta
Envolto em cartões,
E o olhar húmido
E repleto de emoções
De uma mãe que vê
A imagem do filho que regressa,
Amor de décadas de espera,
Sem excitação nem pressa.

Não só o amor
Pelo timbre da tua voz
Incendiando fogos em nós
E semeando um desejo antigo
E profundo,
Mas também esse amor
Pelos crentes
E pelos céticos do mundo,
Criaturas finitas
E infinitas
E iguais
Na diferença e na Fé.
Um amor obsessivo
Pelos que caem de pé
E não vendem a dignidade.
A causa de um gesto nobre
Não tem idade,
Nem cultura,
Nem carimbo,
Nem face.

O amor não se pede,
Dá-se.

É uma mão estendida,
Um sorrir a um sorriso,
Uma mão noutra mão,
Um amparo
Em vez de um empurrão.
Um abraço,
Divino laço
Entre humanos.

Com o Amor,
Não há enganos
Nem justificações.
Há só isso,
e a Paz que fica.
E essa Paz
É a coisa mais bonita.

jpv


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Só…

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Só,
No deserto árido das palavras.
Só,
No glaciar impenetrável das emoções.
Só e perdido,
Afogado no grito próprio
E na mudez da tua ausência.

Só e perdido,
Na memória antiga que se esvai
E no tempo que não volta.
Eu já não sou filho
E tu já não és pai.
E contudo, vives aqui,
No espaço de não ver-te,
Na ilusão de prender-te
Entre os braços,
De querer ser como tu
E não ter a sabedoria
De esperar.
Já vai longa a agonia
E não oiço
A voz desejada.
Seu peito
É uma amurada deserta
E traz a herança certa
De quem rasgou sulcos breves.
Têm de ser leves
As passadas do agricultor
Quando joga ao vento
Semeaduras de amor.
Mas têm de ser fundos, os rasgões.
Esse arado com que lavras
Meu peito
E semeias ausências
E silêncios sem palavras
Anda-me roubando a vida.
Causa inglória e perdida…

Só…
Já nem me negas…
É na ilusão do teu colo que me deito.
Filho abandonado,
Pai sem jeito.

Só…

jpv