Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Neblina no Caminho

sta-carolina

Já eras
A diáfana imagem
Da perfeição
Quando te conheci.
Já eras o amor
E a sedução
Quando me apaixonei
Por ti.
Róseo seio,
Delicada pétala,
Flor sem fruto
Na inocência da idade.
És memória,
E és saudade.

Já eras
Um mar encapelado,
Um vento revoltado,
No olhar
E nos cabelos.
Eras a graça,
O beijo inaugural,
O primeiro corpo
Sob o meu.
Tinhas um perfume
Adocicado e experimental,
A tua nudez,
A minha pele arrepiada
E o corpo tremendo.
Tinha medo de estragar-te.
Queria amar-te
Para sempre
E não sabia
Quanto era isso.
Paixão,
Amor,
Feitiço…
O sal do mar
Sabia melhor
Na tua boca.

Já eras
O caminho
E a caminhada louca.
Já vivia em ti,
Sozinho,
A minha solidão.
Feitiço,
Amor,
Paixão…

jpv


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calendário

nessa manhã cinzenta de março
em que o silêncio se fez sentir,
morri de muda morte
e da fraqueza
renasci mais forte
ao ver-te partir.

veio um abril incerto.
o meu peito
era um campo aberto
e pressentia as tuas passadas.
caíram chuvas
e as gotas de água
abriram linhas molhadas
na minha face.

em maio pressenti o desfecho.
um arrepio de incerteza.
vi o medo e o fim.
naveguei ondas de fraqueza
e procurei um horizonte.
estava escuro.
não tinha brecha
esse muro
que ergueras entre nós
com a ausência da voz.

em junho,
cravei de raiva
lâminas de dor
no meu peito.
desesperei à procura
de desfazer
o que estava feito,
e não encontrei palavras
nas palavras que te escrevi.

acreditei e vi,
em meados de julho quente,
que era eu o ausente
do novo mundo
e da ordem nova
que desenharas.
sem saber onde foras,
sabia que por lá ficaras.

rebentaram em profusão
Nesse agosto de estio
cearas de solidão
colhidas em noites de frio.
fui ao engano,
à procura da luz.
ficou um poema por escrever
no meu grito calado.
jazia em meu peito
um homem tombado
e o homem era eu.
nada em mim reconhecia de teu.

ainda me lembro
da chegada de setembro
e as mãos a sangrarem súplicas.
linhas tortas de palavras inúteis
e o olhar perdido no nada.
Estava consumada
a negação.
a viagem era tua.
para mim não sobrou, sequer, o chão.

outubro.
mês do meu aniversário.
tempo ideal para uma revolução
no calendário.
a revolta foi só a minha,
e a desilusão.
não houve
estender de mão
nem ventos de mudança.
não houve palavras de anunciação
nem gestos de esperança.

o calor chegou
no mês dos santos
e tu ofereceste-me outros tantos
silêncios
e umas quantas mágoas.
choveram abundantes águas
e silvaram ventos destruidores.
Na sozinhês de mim
nasceram novas dores
e algumas certezas.

finalmente,
como em todos os calendários,
chegou o mês do menino jesus,
das promessas novas,
dos presentes vários
e coloridos
da esperança e do natal.
nada ficou igual.
e tudo ficou na mesma.
a tua face, sim, e o teu corpo cingindo o meu.
a mesma solidão,
o mesmo desespero,
o mesmo breu…

o tempo passou.
nada do que foi ficou,
a não ser
este informe e nefasto sumário,
de vida negada e silêncios profundos,
marcado nos quadradrinhos do meu calendário.

jpv


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Homem sem Tempo

Tempo

Já nada virá a tempo.
Perdi a vida,
Perdi o momento.
Perdi o sonho
Em nome do sustento.

E há essa pedra fria
Em que habitas.
Esse espinho cravado na alegria.
Essa manhã clara
Feita noite fugidia.
Essa porta fechada,
Destino sem rota,
Nem estrada.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Só sangue negro e espesso,
Vitória sem sucesso,
O escuro à volta da luz.
Corpo de samba
Que não seduz,
Trevo de quatro folhas
Sem charme nem sorte,
Vida pujante
cheirando a morte.

E amanhã,
Quando me estenderes a mão,
E a sentires gelada como o chão
De inverno,
Não encontrarás, já,
O toque quente e terno
De um corpo com alma
E esperança.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Pedra fria.
Porta fechada.
Homem sem tempo.

jpv


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Partida

 

20171218_104551

Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo.
Ainda sinto em mim
O perfume da tua pele doce.
Ainda a tua voz
Me pergunta se vi os teus óculos.
Ainda não partiste
E já foi, há muito,
A hora da partida.
És a estrela
Na noite da minha vida.
A força
Do meu respirar.
Conjugação primeira
Do verbo amar.
A luz no breu,
O fogo de Prometeu
Sem castigo nem suplício.
Só o vício
De ter-te a mão
Na mão
E saber que isso
É o Universo que conheço e sei.
A única e verdadeira lei
De estar vivo e completo.
Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo
E já me falta o chão…
E o teto.

jpv


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E havia tanto mar…

Não houve…
Não poderia ter havido.
Foi sempre um mar incerto,
Uma embarcação sem rumo
Nem sentido.

Não tem mais
Cavalos selvagens nos teus cabelos.
Não tem mais
Borboletas coloridas nos teus lábios.
Sucumbiste
Aos conselhos sábios
Da razão e da prudência.
Presente…
Só a ausência.

E havia tanto mar.
Havia tanto marinheiro.
Havia um homem por inteiro
E um desejo a saciar.
E agora
Há só este chão queimado,
Este deserto desolado
De ter-te.

Nem me viste.
Nem chegaste a ignorar-me.
Poeta sem poesia.
Modelo sem charme.
Músico sem notas.
Coração vazio
De onde brotas
Sem nunca
Teres entrado.
Só este terreno inóspito,
Este chão queimado.

Não houve…

João Paulo Videira


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Sombra

20170716_111230

És a sombra
Do Amor que partiu.
És a luz
Que não entrou.
A ave assustada
Que fugiu.
E eu fui crescer
Noutro coração.
Alma errante
À procura de chão.

jpv


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Fado

solitude

Sou o apátrida
Dos teus afetos.
O banido
Dos desejos secretos
Onde escondes
O teu ser.
Amar-te
É morrer!
Sou a ferida
No teu corpo,
Ser estranho
E morto
Que rejeitas
Sem olhar.
E é porque sou tudo isso,
Oração e Feitiço,
Que não me consegues abandonar.

Nasceste onde terminei,
Vives onde me acabo.
És tudo o que tenho e sei,
Meu príncipe, meu rei,
Minha canção,
Meu fado.

jpv


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Recusa

recusa-sensual

Gosto quando me recusas
E as palavras
Que usas
Chamam por mim.
Gosto quando anuncias o fim
E tudo me soa
A desejo.
Gosto do teu beijo
Zangado
E refilão.
Gosto dessa tua
Negação
Sensual e atrevida.
Contigo,
A vida
É mais vivida.
E gosto quando
Me viras as costas
E tuas mãos
Continuam postas
No meu corpo.

Não mudes, meu amor.
Esse teu desatino
Traz som e cor
Ao filme
Da minha vida.
Gosto de ti,
Sempre,
Até na partida.

E quando já não puder amar,
Em meus dias longos e envelhecidos,
Quero entregar no teu regaço
O que sobrar dos meus sentidos.

jpv


2 comentários

Breve

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A tua doce
E serena presença
Não chega às minha palavras.
Anuncias revoluções
No peito
Em que gravas,
Levemente,
O teu ser.
Passas por mim
Como se me não tocasses,
Invades-me o desejo
Como se não entrasses
Em meu mundo
E como se não fosses fundo
Tocar-me de leve.
E fica,
Infinito em mim,
Teu olhar breve.

jpv


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Transgressão

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Transgride em meu corpo!
Vem conhecer as fronteiras
E inaugurar os limites.
Vem amar-me noites inteiras
Antes que eu me perca e tu fiques
À beira do nada.

Vem usar-me!
Vem despir-me de mim.
Vem castigar-me.
E vem devorar-me no fim!

Vem oferecer-me teu corpo.
Traz-me esse tesouro.
Traz-me a loucura e a ousadia.
Traz-me o suor e a vertigem
Até ser outro dia.

Esse amanhecer em doce pecado,
Esse amor mal jurado,
E essa entrega absoluta.
Vem saciar-me da luta
Que é debater-me  com a tua ausência.
Há nisto tudo
Muito de impulso
E quase nada de ciência.

Vem desacertar-me as horas,
Vem destruir-me os caminhos feitos.
Atira-te ao corpo
E aos preconceitos
E despe-nos ambos.

Vem para junto de mim!
Ser meu princípio
E meu fim.

Vem começar
E vem terminar.
Vem inaugurar
E vem encerrar a sessão.
Inquieta-se-me a alta
E agita-se-me o corpo
Por não ver tua roupa no meu chão.

Anda cá!
Transgredir todas as leis.
Anda cá!
Ser tu em mim.
Vamos os dois construir a culpa
E viver juntos e apaixonados
O remorso dos culpados.

jpv