Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Visões de uma Escola – 9/12

Professores

Os professores exercem um papel central e multifacetado na vida escolar, funcionando simultaneamente como planeadores, mediadores, avaliadores, gestores de relações e agentes de transformação social.

Foto por jpv. Dois professores.

No plano pedagógico, cabem‑lhes a responsabilidade de desenhar percursos de aprendizagem coerentes e significativos, partindo de objectivos curriculares, organizam sequências didácticas que articulam conteúdos, competências e métodos, seleccionam recursos adequados, incluindo tecnologias e materiais de apoio, e adaptam actividades para responder às heterogeneidades da turma.

Essa planificação não é estática. Exige revisão contínua à luz da observação formativa, dos resultados das avaliações e das necessidades emergentes dos alunos, pelo que o professor combina pensamento estratégico com flexibilidade prática.

Como mediadores da aprendizagem, os professores transformam saberes abstractos em experiências de compreensão ativa. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de provocar questões, modelar raciocínios, fomentar o pensamento crítico e criar oportunidades para que os alunos construam sentido por si próprios. Para isso, utilizam uma variedade de metodologias, ensino explícito, trabalho por projectos, aprendizagem cooperativa, problemas autênticos, e desenvolvem estratégias de diferenciação que permitem respeitar ritmos diversos, estilos de aprendizagem e necessidades educativas especiais.

Foto por jpv. Três professores.

A sua acção mediadora inclui também a promoção de competências transversais. Autonomia, literacia informacional, resolução de problemas e competências socioemocionais, que se tornam objetivos tão relevantes quanto os conhecimentos disciplinares.

A avaliação é outro domínio nuclear da sua função. Para além de atribuir notas, o professor deve conceber sistemas de avaliação formativa que informem o ensino e apoiem o progresso individual. Feedback claro e orientador, rubricas compreensíveis para alunos e famílias, autoavaliação orientada e registos que permitam traçar trajectórias de aprendizagem.

A avaliação eficaz serve não só para certificar, mas para intervir pedagogicamente, identificar lacunas e planear apoios específicos.

No que toca ao clima da sala de aula, os professores são gestores de relações e de ambientes. Criam rotinas, definem expectativas e normas partilhadas, promovem um contexto seguro onde o erro é visto como oportunidade de aprendizagem e onde há respeito mútuo.

Foto por jpv. Uma professora.

A gestão do comportamento, quando bem entendida, combina prevenção, estrutura, tarefas motivadoras, regras claras, com intervenção educativa, restauração, mediação de conflitos, aprendizagem de competências sociais.

Relações positivas professor‑aluno, baseadas em empatia e rigor, aumentam a motivação, reduzem a resistência e potenciam o engajamento cognitivo.

Além da sala de aula, o professor é interlocutor da comunidade educativa. Comunica com as famílias, partilha informações relevantes sobre o progresso e envolve‑as em estratégias de apoio.

Articula‑se com a Direção para alinhar práticas ao projeto educativo e participa em equipas multidisciplinares, orientação, psicologia, serviços sociais, para responder a situações complexas. Essa dimensão colaborativa exige competências de comunicação, negociação e trabalho em equipa, assim como a capacidade de respeitar limites profissionais e confidencialidade.

A profissionalidade docente também se manifesta na formação contínua e na reflexão sobre a prática.

Foto por jpv. O Professor.

Professores eficazes procuram evidência científica, actualizam saberes pedagógicos e instrumentais, experimentam novas abordagens e valorizam a observação recíproca e a partilha entre pares. Essa atitude investigativa transforma a escola num espaço dinâmico de aprendizagem para todos.

Finalmente, os professores desempenham um papel ético e cívico. Defendem a equidade, reconhecem e valorizam a diversidade cultural e social dos alunos, e contribuem para a formação de cidadãos críticos e responsáveis.

Em contextos de restrições ou desafios sociais, tornam‑se, muitas vezes, agentes de estabilidade e esperança, identificando recursos comunitários e promovendo inclusão.

Ser professor implica competências técnicas, sensibilidade relacional, capacidade de organizar e inovar, compromisso ético e vontade contínua de aprender — um conjunto complexo que sustenta, no dia a dia, a missão educativa.

Face à Direção, o seu papel é cooperativo e profissional, devem traduzir as orientações do projeto educativo em ações concretas na sala de aula, comunicar necessidades e resultados com dados e evidências, participar na elaboração e execução de planos e projetos escolares, e assumir responsabilidade pela aplicação de normas e rotinas. Essa relação exige transparência, proatividade e capacidade de negociar recursos, formação e tempo para atividades letivas. Quando bem feita, a colaboração com a Direção resulta em apoio institucional, reconhecimento das práticas eficazes e alinhamento entre objetivos estratégicos e práticas pedagógicas.

Muitos professores.

Perante os pais, o professor é interlocutor educativo e mediador entre a escola e a família. Informa sobre progressos e dificuldades, orienta estratégias de apoio ao estudo em casa, esclarece critérios de avaliação e abre canais de participação. A comunicação deve ser regular, clara, empática e baseada em evidências, valorizando o conhecimento e as preocupações das famílias sem delegar-lhes totalmente a responsabilidade educativa.

Entre professores, espera‑se uma cultura de colaboração profissional, partilha de recursos e metodologias, planeamento conjunto de projetos interdisciplinares, observação e retroação entre pares, e trabalho em equipas para responder a necessidades específicas dos alunos. Esse trabalho coletivo enriquece práticas, evita isolamento e promove coerência curricular e pedagógica em toda a escola.

Os Serviços Administrativos desempenham funções essenciais de suporte. Garantem a legalidade e a organização documental, registos de alunos, processamentos administrativos, matrículas, contratos, gerem finanças e logística, coordenam calendários e comunicados oficiais, e prestam contas às entidades externas. São a interface operacional da Direção, disponibilizando informações úteis para decisão e assegurando que procedimentos burocráticos não impeçam a atividade pedagógica. A sua ação é imprescindível para a continuidade do serviço educativo. Desde o processamento de bolsas e autorizações até à organização de exames e fornecimentos.

Já os assistentes operacionais (ou auxiliares de ação educativa) têm um papel prático e relacional no dia a dia escolar. Zelam pela higiene e funcionamento dos espaços, apoiam a circulação e supervisão de alunos em intervalos, colaboram em atividades de apoio à aprendizagem, sob orientação dos professores, assistem alunos com necessidades específicas em rotinas e ajudam a criar um ambiente seguro e acolhedor.

A articulação entre professores, serviços administrativos e assistentes operacionais é determinante. Cada grupo deve conhecer competências e limites dos outros, partilhar informação relevante, respeitando confidencialidade, e atuar coordenadamente para que decisões pedagógicas possam ser efetivadas sem entraves logísticos.

Foto por Cláudia. Um professor.

Na gestão da indisciplina, a abordagem mais eficaz combina prevenção, regras claras, intervenção consistente e práticas restaurativas. Em primeiro lugar, prevenir através de rotinas previsíveis, normas participadas e projetos que valorizem motivação e sentido das tarefas; quando os alunos percebem propósito e voz, o comportamento problemático tende a diminuir. Regras e consequências devem ser explícitas, justas e conhecidas por todos, construídas com a participação de alunos e docentes para aumentar o compromisso coletivo, e aplicadas com coerência pela equipa docente, com suporte da Direção quando necessário. A resposta à indisciplina deve ser proporcional e focada na aprendizagem do comportamento adequado. Intervenções pedagógicas, releitura de expectativas, atribuição de tarefas que reforcem responsabilidade, mediação entre partes quando há conflitos, e utilização de estratégias restaurativas que promovam reparação, reflexão e reintegração, em vez de punições meramente repressivas.

É crucial diferenciá‑las. Comportamentos resultantes de necessidades educativas, problemas socioemocionais ou condições de aprendizagem exigem avaliação e respostas individualizadas, envolvendo serviços de orientação, psicologia escolar e, se necessário, encaminhamentos externos. A comunicação com as famílias é central. Informar cedo e colaborar na construção de estratégias conjuntas evita escalonamentos e fortalece a aliança educativa.

Do ponto de vista organizativo, a Direção deve promover políticas claras de gestão da disciplina que integrem formação contínua para professores, estratégias de gestão de sala, técnicas de diferenciação e intervenção socioemocional, definir protocolos de atuação multidisciplinar, quando envolver serviços administrativos, assistentes, orientadores e famílias, e garantir recursos para apoio aos alunos com necessidades específicas. É importante também monitorizar e avaliar as medidas adotadas através de indicadores, incidência de ocorrências, evolução do clima escolar, perceções de alunos e professores, ajustando práticas com base em evidência.

Os professores exercem papéis pedagógicos, comunicacionais e colaborativos. Os serviços administrativos asseguram a infraestrutura legal e logística. Os assistentes operacionais mantêm o funcionamento quotidiano e o cuidado direto. E a gestão da indisciplina exige um modelo sistémico que privilegie prevenção, justiça educativa, intervenção pedagógica e a participação de toda a comunidade escolar.

jpv


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Visões de uma Escola – 3/12

Direção Intermédia: Diretores de Turma

Os Diretores de Turma exercem uma função central de mediação pedagógica, organizativa e relacional que articula a ação da Direção com a vida quotidiana das turmas e com as famílias.

Foto por jpv. Bandeira de Portugal na ESDS.

Junto da Direção, o Diretor de Turma é um parceiro operacional e informativo: traduz para o nível da sala de aula as orientações estratégicas definidas pela liderança, contribui com diagnóstico realista sobre necessidades pedagógicas e de recursos, e apoia a implementação de políticas escolares. Esse papel começa pela recolha e sistematização de informação sobre o desempenho académico, comportamento, assiduidade e indicadores socioemocionais dos alunos. O Diretor de Turma faz chegar esses dados à Direção com propostas concretas de intervenção, priorização e acompanhamento, ajudando a transformar decisões estratégicas em planos de ação exequíveis.

Ao mesmo tempo, atua como agente de monitorização, acompanha a execução de programas e projetos aprovados pela Direção, sinaliza obstáculos emergentes, sugere ajustes e verifica impactos, garantindo que as medidas administrativas, horários, distribuição de turmas, recursos, tenham efeito pedagógico real.

No plano relacional e organizativo interno, o Diretor de Turma é um fulcro de coordenação entre colegas. Promove a coerência curricular e metodológica dentro da turma, facilita a articulação entre disciplinas, organiza reuniões de equipa pedagógica e encoraja partilha de práticas. Esse trabalho coletivo fortalece a qualidade do ensino e reduz a fragmentação de ações que prejudica a aprendizagem.

Além disso, o Diretor de Turma exerce liderança pedagógica informal ao acompanhar metodologias, propor estratégias de diferenciação e estimular práticas de avaliação formativa, servindo muitas vezes como primeiro interlocutor para questões que exigem intervenção da Direção ou dos serviços de apoio.

Em situações de mudança, implementação de projetos, reorganização de turmas, introdução de novas práticas avaliativas, o Diretor de Turma facilita a transição, prepara colegas e alunos, e assegura que a execução siga as orientações da Direção com fidelidade e sentido crítico.

Foto por jpv. Cláudia segura pela primeira vez o livro.

Junto dos pais e encarregados de educação, o Diretor de Turma assume um papel de ponte, confiança e orientação. É frequentemente o principal contacto da família com a escola, responsável por estabelecer canais de comunicação claros, regulares e empáticos. Essa relação começa com a criação de um clima de confiança. O Diretor de Turma informa sobre objetivos educativos, critérios de avaliação, rotina da turma e expectativas, mas também escuta preocupações familiares, contextualiza comportamentos dos alunos e esclarece procedimentos da escola. Ao fazer essa mediação, traduz as políticas e decisões da Direção em linguagem acessível, explicando razões e implicações de mudanças, o que fortalece a legitimidade das opções pedagógicas e reduz mal-entendidos.

No apoio direto às famílias, o Diretor de Turma orienta sobre estratégias de apoio ao estudo em casa, sinais de alerta sobre dificuldades de aprendizagem ou socioemocionais e caminhos formais para solicitar apoios especializados. Quando surgem conflitos, dificuldades de comportamento ou questões disciplinares, cabe-lhe gerir a primeira abordagem, promover reuniões de esclarecimento e propor acordos de intervenção partilhados entre escola e família. Nesses momentos, a sua capacidade de escuta ativa, de comunicação não acusatória e de mediação é decisiva para construir soluções conjuntas e sustentáveis.

Além disso, o Diretor de Turma promove a participação dos encarregados na vida escolar, incentivando envolvimento em atividades, reuniões periódicas e projetos, contribuindo para uma ação educativa mais integrada entre casa e escola.

O papel do Diretor de Turma é ainda essencial na identificação precoce de necessidades de inclusão e na articulação com serviços de apoio, psicopedagógicos, de orientação, ou externos. Ao sinalizar à Direção e aos serviços competentes as necessidades individuais, acompanhando recomendações e garantindo o seu cumprimento no plano quotidiano da turma, assegura-se que alunos com dificuldades recebam respostas rápidas e coordenadas. Isto implica manter registos organizados, partilhar informação relevante com confidencialidade e garantir que as adaptações curriculares e estratégias de diferenciação sejam efetivamente aplicadas pelos docentes.

Para desempenhar bem estas funções, o Diretor de Turma precisa de autonomia operacional, reconhecimento formal do seu tempo de trabalho e formação específica em gestão de turma, comunicação com famílias e intervenção socioemocional.

Foto por jpv. Escola Secundária Domingos Sequeira.

Boas práticas incluem estabelecer rotinas de reunião com a Direção, relatórios regulares e sucintos sobre a turma, horários fixos de atendimento às famílias, uso de instrumentos de comunicação claros, plataformas, agendas, sumários, e procedimentos estabelecidos para acompanhamento de casos.

A colaboração estreita com coordenadores curriculares e com os serviços de apoio fortalece a sua ação e evita sobrecarga isolada.

Em síntese, os Diretores de Turma são elo estratégico entre Direção e comunidade.

Junto da Direção traduzem necessidades da sala de aula em informação e propostas acionáveis, monitorizam a implementação de políticas e promovem coerência pedagógica. Junto das famílias estabelecem comunicação de confiança, orientam, mediam conflitos e mobilizam apoios. Quando bem apoiados pela escola, são agentes decisivos para a melhoria da aprendizagem, da inclusão e da convivência escolar.

jpv


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Que tipo de aulas?

Quando tinha uma aula para preparar, ou um conjunto de aulas, tinha sempre pela frente diversas opções. Agora, já não perco tempo. É uma mistura saudável das opções disponíveis. Assim…

Foto por Cláudia. Pedrógão.

Aula expositiva: útil para introduzir conceitos, clarificar definições e modelar pensamento. Usar de forma focada e curta, não como único método. Mas não esqueça, a arte de ser um bom apresentador é fundamental.

Aula com apresentação: bom suporte visual e organizacional, vulgo, PowerPoint, serve muito bem para destacar pontos-chave, imagens e esquemas. Evita excesso de texto. Deve ser usado como apoio, não como roteiro.

Aula com recurso ao manual: importante para alinhamento curricular, exercícios e referência. Bom quando combinado com actividades que promovam compreensão ativa. Por outro lado, é um recurso que uniformiza as opções. Já fui muito contra os manuais. Agora, não os largo.

Misturar: Exposição direta (introdução), atividades ativas, discussões, resolução de problemas, microensino, uso de materiais, manual, leituras, e uma síntese ou avaliação.

Princípio: alterna momentos de explicação, aplicação e reflexão.

Avaliação formativa constante: microaulas, feedback e portfólios.

Bem se vê que sou mais pelas aulas mistas! Satisfeitos??

Aceitam-se comentários …

jpv


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Testes, ou não?

A Metodologia da testagem é muito antiga. Recorre aos testes tipo resposta única que Henry Ford implementou nas suas fábricas de automóveis. Além do mais, eram muito mais fáceis de corrigir. Com uma régua deixavam-so só as quadrículas assinaladas visíveis. Estando todas as outras incorretas.

Isto veio dar resposta a um problema sentido no meio da escola. O da massificação e o da necessidade da padaronização. Ora, entrando no tempo e espaço, ocidente e desde o início do século XXI.

No passado temos três grandes escolas. chinesa que recorria a testes para funcionários públicos, a grega e a romana, onde se faziam declarações e demonstrações práticas do saber organizado.

Ou seja os nossos testes nasceram para avaliar mecânicos de automóvel. Com algumas adaptações e recurso a muitas desculpas, chegámos à testagem dos dias de hoje, que não é moderna, nem eficiente, nem avalia nada.

Que fazer então? Cada aula deve ser um motor de conhecimento e aproveitando o currículo, como está, tentar ao máximo diluí-lo dentro das áreas do saber.

E os pais onde são tidos na escola? Para escutar os verdadeiros sabedores das matérias. Há coisas que quando funcionam não se mexe. Uma equipa que joga com o futebol e uma escola que tem bons profissionais.

E é na bondade destes profissionais que vai ser preciso investir. Ao contrário do que se está a fazer completamente. Num país em que a minha forma de avaliar o pão deve ser se ele é bom à mesa, do mesmo modo, a minha forma de avaliar um bom aluno deve ser se ele é bom no que faz.

Dixit.

jpv


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Da Educação para as Pontes


Não há maus alunos, nem alunos maus.
Há jovens que ainda não encontraram o seu caminho e o seu lugar.
E há jovens saudavelmente selvagens que recusam a formatação social e educativa que violentamente lhes queremos  impor.

Onde não houver afeto significativo, não ocorrerá aprendizagem significativa.

De pouco importa saber o que é necessário saber para construir uma ponte sem que caia, se não soubermos, antes de mais, porque é que as pessoas querem atravessar pontes.

joão paulo videira


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“A Vida Delas Importa”

Hoje, um aluno de há muitos, muitos anos, publicou um texto que considero oportuno, incisivo e de uma grande lucidez.
O aluno, o Ricardo Rodrigues, menciona-me no seu texto. Não senti orgulho. Ou melhor, senti, mas não foi isso o mais importante.

O que realmente senti foi a responsabilidade do que é ser educador e professor. Nas outras profissões, dão-se respostas imediatas com resultados imediatamente observáveis. Na docência, nada é imediato, mas tudo é estrutural e fundamental.
Naturalmente, este antigo aluno era já, por contexto familiar e dotação pessoal, um jovem com valores e princípios muito bons, contudo, foi o professor, naquele momento, que moldou um traço do pensamento. Algo quer viria a ser importante na construção do pensamento futuro. Os professores fazem isso, moldam o pensamento e constroem a massa crítica das sociedades.

É nestas situações que se vê claramente a relevância de uma profissão muito sacrificada, muito maltratada e muito desvalorizada na nossa sociedade.

O texto do Ricardo Rodrigues vale muito a pena ser lido. Por isso mesmo deixo aqui a ligação!

jpv

Leia o texto do Ricardo aqui:
https://saudeefraternidade.blogs.sapo.pt/a-vida-delas-importa-12841


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Não há Professores? Onde está a surpresa?

Imagem: http://www.expresso.pt

Afinal, ao contrário do que anunciavam as teorias mais pessimistas, há cerca de uma década, a Escola Pública não corre o risco de acabar por falta de alunos. É mesmo por falta de professores!

Meias Notícias.

Nos últimos dias, o Expresso online publicou duas notícias sobre o assunto e colocou o foco, erradamente, na minha opinião, no facto de haver muitos professores de baixa médica. É verdade que os há e são muitos, mas não é a única forma de abandono. Muitos docentes optam por mudar de profissão. Hoje em dia, é fácil encontrar profissões com muito melhores condições de trabalho, mais estimulantes e valorizadas. Muitos outros reformam-se antecipadamente, mesmo perdendo 50% do valor da reforma. Preferem sair com muito pouco do que continuar a suportar um quotidiano muitíssimo desgastante e muito pouco valorizado e reconhecido. E há, ainda, os que já não querem ser professores. Quiseram, em tempos, mas descobriram, entretanto, que a profissão é muito exigente intelectual e fisicamente, pouco reconhecida e muito mal remunerada. Mudaram de sonho. Foram ser felizes de outra forma.

Fins de Semana e Férias Grandes

Uma das vitórias dos sucessivos governos, quer assumissem a Educação como paixão, quer não, foi criar a ideia de que a profissão docente era privilegiada porque tinha, ao longo do ano, diversas paragens, fins de semana e férias grandes. O absurdo foi tal que, de forma perfeitamente subversiva, substituíram a palavra “férias” por “interrupção das atividades letivas”. Um absurdo. Em primeiro lugar, porque durante essas interrupções os professores estão a trabalhar, depois, porque as suas férias estão contabilizadas como as de todos os outros trabalhadores e, por fim, nem sequer ficam a dever nada a ninguém porque são dos poucos trabalhadores do mundo que assinam o ponto de hora a hora, todas as horas, todos os dias. Nota-se mais quando um professor falta porque no dia em que ele falta o número de pessoas que sabe disso pode ir até 800! Se for um funcionário de uma empresa, sabe ele, o chefe e o colega e do lado e… ninguém lhes pede por contas… ou pedem… uns aos outros!

Esqueceram-se de referir, os políticos e os veiculadores de opinião pública, que esta é uma das profissões mais desgastantes na nossa sociedade. E não é preciso ser-se professor para saber. Os cônjuges dos professores sabem porque não saem à noite, nem vão de fim de semana porque a mulher ou o marido está a corrigir testes, a ver TPC, a fazer um plano de aulas, materiais, testes diagnósticos, trabalhos de parceria, etc… etc…

Não se quis saber do desgaste e cortou-se no artigo 79º do ECD (menos horas de aulas por idade), aumentou-se o número de alunos por turma, reduziu-se tempo do professor para o professor estar com o professor! Complicado? Eu explico: como se trata de uma profissão de alto desgaste, o docente necessita de tempo para perceber o que está a fazer, para refletir e para cortar o desgaste da exposição. No que respeita ao tempo de trabalho, criou-se uma complexa e inexequível grelha horária que só trouxe mais horas de ocupação aos docentes.
Em suma, deterioraram-se as condições de trabalho.

Os Endinheirados

Simultaneamente, surgiram notícias de que esta classe profissional era muito bem paga. Até houve uma alma brilhante que referiu tratar-se de uma das mais bem pagas da Europa. O que é objetivamente falso. Os docentes são mal pagos, em absoluto, e são mal pagos tendo em conta a exigência da profissão. A consequência de ter-se criado esta ideia foi simples: estratificou-se mais a carreira, eternizou-se o trabalho precário, e pagou-se ainda menos. Além disso, suprimiram-se 9 anos, 4 meses e 2 dias de trabalho que nunca foram devolvidos. Basicamente, houve docentes que estiveram sem progredir mais de uma década, a mesma década em que perderam cerca de 40% do seu poder de compra. É por isso que, quando comparam os docentes aos trabalhadores do privado, os professores riem-se. De ironia e desespero.
Em suma, deterioraram-se as condições de trabalho.

Progressões Diretas

Ao mesmo tempo, nesta mesma década, quis desacreditar-se a profissão docente com o intuito de se operarem cortes financeiros na mesma. Uma das estratégias peregrinas foi disseminar a ideia de que os professores progrediam diretamente, sem qualquer escrutínio. E vai daí, implementaram-se modelos de avaliação de desempenho complexos, muito burocratizados e esvaziados de qualquer utilidade. É curioso que, ao mesmo tempo, os alunos portugueses estavam a dar cartas no PISA, no TIMSS, nas universidades nacionais e estrangeiras e no mercado de trabalho um pouco por todo o mundo. Nisso, poucos repararam. A maioria estava entretida a mandar avaliar esses preguiçosos, privilegiados a viver à custa do dinheiro dos contribuintes com progressões diretas. Por ironia, parece não haver dinheiro de contribuintes, ou não, que atraia os tais preguiçosos. Devem ter ido preguiçar para outro lado. E foram. A carreira, tal como está desenhada, não atrai os mais novos, prejudica os de meia idade e expulsa os mais velhos que não conseguem aturar a pilha de papéis sob a qual os querem soterrar antes de darem a primeira aula do dia.
Em suma, deterioraram-se as condições de trabalho.

Opinião Pública

A opinião pública dividiu-se. Muitos apoiaram os docentes. Pais e Encarregados de Educação incluídos. Muitos outros criticaram-nos de forma acérrima e violenta e todos pensaram que podiam falar de Educação. Não podiam. Porque não sabiam, mas ninguém os informou disso e os veiculadores de opinião, e as associações das associações de pais, sempre em nome do melhor para as crianças, e jornalistas, sociólogos, politólogos, opinadores, comentadores, analistas, o gajo no balcão do bar, a senhora na fila da loja do cidadão, o tipo no comboio e o outro no autocarro, todos, de repente, ficaram especialistas em Educação, esqueceram-se de que já havia especialistas em educação, os professores, e lá foram vomitando opiniões, ideias peregrinas e outras que tais para endireitar essa corja de beneficiados. E não pensaram, nem viram, que estavam a desgastar e a desacreditar alguém em quem deviam confiar. O mais curioso é que criticavam, mas continuavam a mandar os miúdos à escola…
Veio o tempo das comparações com o privado até se descobrir que os putos da Escola Pública chegavam mais longe nos cursos superiores e com melhores notas, e veio o tempo das comparações com a Finlândia até se descobrir que boa parte da mão de obra qualificada na Finlândia era portuguesa… ups!
Em suma, deterioraram-se as condições de trabalho.

E agora?

Agora não há professores. Não há.
Uns estão de baixa, desautorizados, desvalorizados e agredidos, são a principal fonte de clientes para a psiquiatria. Outros reformaram-se com cortes brutais nas pensões. Preferiram isso a ir parar ao psiquiatra. Outros mudaram de profissão. E a mesma opinião pública que desacreditou a profissão incutiu nos mais novos a ideia de que a profissão não valia a pena. E eles, que são bons ouvintes e inteligentes, escolheram outros caminhos. O irónico nisto tudo é que muitos dos críticos destes profissionais andam, neste momento, à procura de um desses profissionais e não o têm. Por preço nenhum!
E agora, meus amigos, não há outro caminho que não seja o de revalorizar a profissão. Vão ter de pagar aos professores para terem professores. E as médias de entrada no ensino superior para formar professores vão ter de subir. Eu bem sei que a medicina é fantástica e as engenharias são soberbas, mas sem professores, sem esses aptos criadores de ambientes de aprendizagem, não há medicinazinha, nem engenhariazinha… é que para se ser qualquer coisa na vida tem de passar-se por professores, mesmo para se ser professor. Por isso se chama de meta-profissão. Ora, as faculdades que formavam professores, as mesmas que costumavam estar a abarrotar de candidatos às centenas, a encher auditórios para aulas com 200 e 300 alunos a assistir, têm lá, agora, uma mão cheia deles num gabinete exíguo e alguns vão descobrir, entretanto, que não vale a pena…

Enquanto o país não assumir a Educação como uma prioridade nacional, A prioridade nacional, enquanto o país não decidir dignificar esta carreira e estes profissionais, todo o edifício cultural e profissional continuará a desmoronar-se. E qualquer dia não serão só os professores que não existem. Não existe mais nada. Não existe país. Dignificar a profissão docente não é uma opção, não é objeto de discussão. É uma urgência nacional. Ou faz-se, ou morre-se por não ter feito.

João Paulo Videira, Professor.