Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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James First Poem

Text and Drawing by James. Home.

Home is my faverot because I feal loved the most.”

James


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História da Cigarra enquanto a Formiga dormia.

Foto por Cláudia. Girassol.

Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de mão dada. Ele de calções. Ela de saia rodada. E sem saber-se porquê, magia de certo, passa um duende por perto que sorri e pula. Não há sobressaltos. Só dois corações pulsando, as borboletas o ar cruzando, uma leve brisa deixando as ervas altas e as flores em breve dança. E a luz. Sim, essa diáfana luz forçando a densidade do bosque e banhando de claridade a penumbra onde o amor se fez verdade. E lei. A única lei. Sem papel nem escrita. Só a sua explanação, o seu viver num bater de coração, numa mão entregue, numa cena bonita. E há uma árvore alta e idosa a caminhar para os céus que tem na base uma loca onde vive a cigarra e os seus. Sentiu passos e veio ver o amor. E quando lhe perguntaram, as crianças, aconchegadas no lar acolhedor, o que passava, ela respondeu, quase desinteressada, como que não importunando, É a Primavera do amor. E chegaram, sem desdar as mãos, a uma clareira toda rodeada de canas. Era circular o espaço e tinha uma abertura em arco na vegetação, um convite que aceitaram sempre mão na mão.

Era o Verão. A amplitude do espaço e do tempo, searas dançando, aromas quentes no ar. Abriram os braços e afagaram a flor do trigo. Árvores pontuais a prover a sombra necessária para o coração descansar do ritmo quente e louco da paixão. E correram. E libertaram-se. E foram dando vivas às aves, à terra firme e ao céu azul e limpo. E via-se longe. E o mundo parecia não ter fim. Viviam um amor assim. Uma loucura consentida, uma centralidade perdida. Uma trepidação constante. E despiram-se. E fizeram amor. E sexo também. E viveram os dias como se não houvesse ninguém. E suaram o suor da descoberta na tarde caindo, a luz certa. Ao longe, uma ovelha branca balindo. E eles sorrindo. Amando sob o calor do Verão, dos corpos desnudados em paixão. E, pela primeira vez, entre eles, a semente de tudo, o princípio de todas as coisas: a palavra. A que cria e germina, a que alimenta e saceia, a que começa e termina, a que perde e norteia, a palavra que dá a vida e a morte, a mesma palavra que faz dos homens seres. A sorte. A palavra primeira que disseram foi Despertar, depois Encontro, depois Amar, depois disseram as palavras todas e uma vez gastas estas, reinventaram-nas. E disseram-nas todas outra vez. Assim como quem faz só porque fez. E gostou. E tudo se amou dentro dos limites seus. Só não disseram Adeus. Essa palavra doce e suave que queima. Guardaram-na para o Outono mesmo sem saber o que seria e quando viria se viesse. Quem olhasse a seara ao nível da altura do trigo, veria uma imensidão doirada banhada de sol sob o céu azul e deles, nem notícia, Mas a cigarra tem experiência e perícia e anunciou à filharada um passeio, um voo rasante sobre a seara doirada. E partiram de asa aberta e alma livre e repararam ali, a meio de lugar nenhum, sob o céu, sobre a terra, uma rodela de trigo que faltava como se estivesse pisado e amachucado por um transeunte descuidado. E estava! E eram dois os safados que rolaram em amores amados e deixaram circular marca na vegetação. A cigarra viu e entoou a canção do amor ali mesmo, sob o céu amplo e ao calor. E repetiram os filhos aquilo que ouviram e tendo cantado, logo partiram. E ao partir sentiu-se pequena aragem. E fria. Dona cigarra fez uma paragem, estendeu o dedo no ar e anunciou, Estão mudados os ventos, vêm aí novos tempos, vai mudar a sorte, sinto no horizonte um prenúncio de morte…

Rederam as mãos que tinham desdado para tatear os corpos, levantaram-se e correram a fugir da nuvem escura, da bátega de água certa, e enquanto a luz dura, caminham alerta em busca do bosque. Lá estava a abertura em arco nas canas e depois dela a clareira. Tudo igual e tudo diferente. Fosse ação natural ou de gente, algo havia mudado. Tudo.

As árvores choravam humidade e seus ramos despediam-se das folhas, os animais faziam escolhas de abrigos, a evitar os maiores perigos. Um tapete folhado e colorido cobria o chão de amarelos, laranjas e castanhos, e chegam ao bosque acolhedor habitantes que no Verão lhe são estranhos. Eles entraram e beberam. Olharam o lago e contemplaram o reflexo e estranharam não se terem visto na imagem refletida. Assim, com um misto de tranquilidade e tristeza, perceberam que já lá não estavam. Faltava só a partida. A despedida. E com o brilho e a lágrima no olhar, decidiram caminhar lado a lado, pelo frondoso bosque, agora inundado de silêncio. E num ponto do caminho, a estrada dividiu-se. Aí chegaram como se nunca lá tivessem estado. Ela imóvel. Ele parado. E duas coisas aconteceram, duas tragédias numa só. Juntamente com as plantas que feneceram, um gesto e uma palavra reduziram o amor a pó. Desderam as mãos em passos tranquilos. Foi o gesto. Ergueram os braços seus e pronunciaram em coro uníssono: Adeus!

Impassível ficou o bosque. Seguiram e levaram a memória do toque, do odor, das palavras, do olhar, do amor e das promessas e continuaram lado a lado, sem pressas, afastando-se um do outro. Não se sabe nesta história onde leva cada estrada. Sabe-se que uma conduz a tudo e outra ruma a nada. Só falta saber o mais sério que é se vão cruzar-se. Mas isso permanece mistério. Sendo certo que saberão amar-se na presença e na ausência. Agora e aqui, estão separando-se unidos. Vencedores e vencidos. Do corpo. E do coração.

A cigarra jaz morta de frio. Não lhe aprouve o canto no Verão. A formiga, que trabalhou no Estio, dorme quente no colchão. E acorda. Serena. E olha em volta e encontra-se. Estava perdida no sono e agora desperta para a vida sem saber que quem acorda no Outono, ainda que quente e aconchegado, sem ter visto o amor empolgado dos amantes na seara quente e no tempo absorto, não esteve dormindo, esteve morto. Ah formiga que vives com o corpo da cigarra tombado e inerte a poucos metros daí, se pudessem agora ver-te, os amantes teriam pena de ti. Tem mais vida esse cadáver vencido que sentiu a pujança do amor do que o teu corpo aquecido e gasto pelo suor cego do labor. Nunca saberás o voo sobre a seara, o sol amanhecendo paixão, nunca correste o risco que se exige ao mortal para que se liberte da eterna prisão. Vives adiada e ela morre saciada e há mais vida na sua morte do que na tua pobre e estéril sorte.

Nunca contarás aos teus filhos, como ela fazia, a fábula da cigarra enquanto a formiga dormia.

jpv

Primeira publicação em “MPMI”, 24/10/2011.


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Rumores de Tinta V03/10. Erros. Ministério de Educação.


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Escultor de Sonhos

Foto por jpv. Candeeiro.

Era o mar que observavas

Ou era ele que te esculpia

Os sonhos?

Era a brisa que saboreavas

Ou era ela que te embalava

A imaginação?

Entregavas-lhe o que és

E pedias de volta

O que querias ser,

Olhaste-o sem temer

E enviaste-lhe uma mensagem

Perfeita e concisa

Envolta no sussurro da brisa:

Realiza-me os sonhos!

E por cada desejo,

E por cada pedido,

Recebias a força e o ensejo

De um sonho apetecido.

E ali estiveste ondulando o pensamento

No mar brilhante e encapelado

E quando chegou o momento

Julgaste ter vivido

O que havias sonhado.

jpv

Republicação de “Entre o Sonho e o Sono Tomo II, pág. 60”


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Pura

Foto por Cláudia. Candeeiro.

As mãos frias

Nem sob,

Nem sobre,

As águas marinhas.

Ali, onde a água,

Baixa e desce

Sentindo o calor,

Húmido,

Deste dia.

As pulseiras,

Dez ao todo,

Traziam outra cor

Ao verde daquele mar.

É verão,

Como era no tempo

De eu estar

Sempre molhado.

E tenho

Esta felicidade,

Que tinha

Nesses tempos

De não perceber

Muito bem

As razões das coisas.

E nadei.

Mais do que nesse tempo.

Tanto como nesse tempo.

Nadei muito.

E achei que a felicidade

Era minha.

Só minha.

E os pés

E as conchas

E o mar,

Que parecia frio,

Era, afinal, quente.

E sorria às pessoas,

Era fácil.

Um dia

Devia valer

Por dois

Quanto contado

Às preces

Dos dias

Que não contam

Por terem sido

De felicidade

Pura.

jpv


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Morrer é mais do que isto. Tem de ser.

Morrer é mais do que isto. Tem de ser.

As pessoas mencionam o que Luís Represas representou para o seu, na altura presente, e rasgam-lhe elogios como se fosse a única coisa possível. E rasgam-nos, e alguns, nem sequer sabem do que falam.

Com a morte de Luís Represas, vai também a enterrar um estilo de música, uma busca pela arte, um perfeccionismo, que não permitiria a muitos dos que hoje o elogiam serem, sequer, artistas. Com ele morre esse autoconceito de que a música é mais do que rimar, de que essas palavras têm de viver para sempre. Cada canção obriga-nos a um esforco que ela tem para além do significado das letras.

Ele que me perdoe, mas foi um dos últimos representantes desse tipo de exigência, desse tipo de pessoa que publica um disco e o seu foco vira-se imediatamente para o que não ficou tão bem.

É um dos últimos a pegar num poema da Florbela Espanca e a fazer esquecer quem foi o autor do texto. Muitos acham que é dele! É um dos últimos representantes dessa coisa que se chama “fazer bem e depois voltar a olhar para ver se está tudo bem feito.”

Até sempre, Luís Represas.

jpv


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Rumores de Tinta V03/09. Ministro da Educação.


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Rumores de Tinta V03/08. Abelhas.

jpv


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Rumores de Tinta V03/07. YHWH.

jpv


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MÃE

JW, Cântico 151.

Sim, Mamã. Não dura muito.