
No cimo, o castelo,
Como que vigiando,
Se estava tudo a acontecer
Conforme devia.
Depois, eu, na biblioteca.
E por fim, ele.
Tinha uma idade
Indecifrável,
Por entre as cavadelas
Que ajeitava
E outras que lhe
Saiam ao lado.
Tinha tudo o que se pede
A um cavador.
Às vezes, sem sabermos como,
Nem porquê,
Ficava a olhar o trabalho.
E, com o pé,
Vai vendo se o terreno
Queda direito.
Tudo tem o seu tempo
E a sua medida.
Por vezes, entre cavadelas,
dava uma ao contrário
Como se quisesse sacudir
O que estava a mais.
E, abria as pernas,
Porque, só quem lá andou,
É que sabe,
Assim se acerta
Um eixo de terra.
E, por fim,
Dava uma ou duas caneladas
Com com o pé direito na enxada,
A direito.
E ali andava ele
Como se fosse sua,
Só sua,
A enxada, o terreno,
E a mesura
Daquelas pancadas.
Nem de mais
Nem de menos.
Com autorização do castelo
Caíram umas bátegas
De água, a lembrar bons tempos.
E ele lá continuava
A sua labuta.
Tinha-lhe dado aquela ordem.
E ele cumpriu-a.
Como se cumpriam
Antigamente.
Do sol nascer
Até ao pôr do sol.
Não saiu dali,
Enquanto não visse
Toda a terra baldeada
E direita.
Pode um homem
Faltar-lhe muita coisa
Mas não lhe pode
Escapar o jeito
De baldear e endireitar
A terra.
Depois, Deus não quis
Que se brincasse mais
E enviou uma
Senhora chuvada,
Que até os homens antigos
Se abrigariam dela.
Deixei de o ouvir.
E o castelo continuou
A sua magia.
jpv