Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Cavadela

Foto por jpv. Coimbrão.

No cimo, o castelo,

Como que vigiando,

Se estava tudo a acontecer

Conforme devia.

Depois, eu, na biblioteca.

E por fim, ele.

Tinha uma idade

Indecifrável,

Por entre as cavadelas

Que ajeitava

E outras que lhe

Saiam ao lado.

Tinha tudo o que se pede

A um cavador.

Às vezes, sem sabermos como,

Nem porquê,

Ficava a olhar o trabalho.

E, com o pé,

Vai vendo se o terreno

Queda direito.

Tudo tem o seu tempo

E a sua medida.

Por vezes, entre cavadelas,

dava uma ao contrário

Como se quisesse sacudir

O que estava a mais.

E, abria as pernas,

Porque, só quem lá andou,

É que sabe,

Assim se acerta

Um eixo de terra.

E, por fim,

Dava uma ou duas caneladas

Com com o pé direito na enxada,

A direito.

E ali andava ele

Como se fosse sua,

Só sua,

A enxada, o terreno,

E a mesura

Daquelas pancadas.

Nem de mais

Nem de menos.

Com autorização do castelo

Caíram umas bátegas

De água, a lembrar bons tempos.

E ele lá continuava

A sua labuta.

Tinha-lhe dado aquela ordem.

E ele cumpriu-a.

Como se cumpriam

Antigamente.

Do sol nascer

Até ao pôr do sol.

Não saiu dali,

Enquanto não visse

Toda a terra baldeada

E direita.

Pode um homem

Faltar-lhe muita coisa

Mas não lhe pode

Escapar o jeito

De baldear e endireitar

A terra.

Depois, Deus não quis

Que se brincasse mais

E enviou uma

Senhora chuvada,

Que até os homens antigos

Se abrigariam dela.

Deixei de o ouvir.

E o castelo continuou

A sua magia.

jpv