A memória do corpo no corpo, A memória da mão na mão. A memória da palavra certa E a memória da intenção. Gravada foi na tua pele, Gravada está na minha mente, A força que nos impele, A paixão que o peito sente. Não quero esperar por ti E por ti espero resiliente, Assaltado por esse amor violento Que sujuga a vontade da gente. Já fui senhor, já, E agora sirvo com submissão, Servo das forças que trazem Encantado meu coração…
Um gesto intencional E resoluto. Um cadáver sem vigília Nem luto. E a imensidão do mar. O amor todo do Mundo Preso num olhar. A entrega vulnerável Da vida Nas tuas mãos… Em rituais sagrados E desejos pagãos. Não sou eu, já. E, contudo, nunca fui tanto eu. Até ver a manhã doirada, Um homem tem de palmilhar Muita noite de breu.
Quando o barqueiro treme, De medo ou sugestão, A água acaricia o leme Preso em sua mão. Inunda-lhe o peito Uma tortura e um temor Que o trazem sojugado A ventanias de Amor. Enfrenta sozinho As ondas medonhas E a tremenda procela. Segura o leme com força E acaricia as falhas na vela. O pano enche-se da brisa Que passa e desliza Na fronte do homem só. Ainda agora era carne carne viva E resta um pouco de pó. O barqueiro e o leme e a vela Ensaiam uma estranha dança, Embalados na música da morte Traçam passos de esperança.
Hoje, um aluno de há muitos, muitos anos, publicou um texto que considero oportuno, incisivo e de uma grande lucidez. O aluno, o Ricardo Rodrigues, menciona-me no seu texto. Não senti orgulho. Ou melhor, senti, mas não foi isso o mais importante.
O que realmente senti foi a responsabilidade do que é ser educador e professor. Nas outras profissões, dão-se respostas imediatas com resultados imediatamente observáveis. Na docência, nada é imediato, mas tudo é estrutural e fundamental. Naturalmente, este antigo aluno era já, por contexto familiar e dotação pessoal, um jovem com valores e princípios muito bons, contudo, foi o professor, naquele momento, que moldou um traço do pensamento. Algo quer viria a ser importante na construção do pensamento futuro. Os professores fazem isso, moldam o pensamento e constroem a massa crítica das sociedades.
É nestas situações que se vê claramente a relevância de uma profissão muito sacrificada, muito maltratada e muito desvalorizada na nossa sociedade.
O texto do Ricardo Rodrigues vale muito a pena ser lido. Por isso mesmo deixo aqui a ligação!
Na dádiva E na entrega Uma súplica E uma prece. Uma mão estendida E um cuidar Quando tudo acontece. Fortes e determinadas São as passadas Do desejo. Vai já vencida A tormenta. É a luz que penetra, A sombra que se ausenta. E sobra um gesto, Um encantamento, Talvez ilusão. Um sopro de vida, Um grito mudo No silêncio E na solidão. Toma, oferece. Aceito, recebe. Na generosidade Da oferta, O egoísmo Da salvação. Ergue-se, Poderoso e invencível, O Senhor da submissão.
Na tormenta. Na dor. No corpo que se ausenta. No sussurro de outro amor. No mar alto e encapelado. No vislumbre do futuro, A sombra do passado. Nas mãos que tocam E acariciam. No corpo que se contorce. Na investida. E nos silêncios que se anunciam. Na espera. No tempo vácuo. Na imagem projetada, Uma alma suja Na alma lavada. No ritmo sufocado Do desespero. Na noite que se perde E se esvai, Um coração arde E um muro cai.
No tempo da súplica. No tempo da exigência. No momento de recuar E enfrentar a sorte, O peito pressente a morte E teme sobreviver. Contra o que está feito, Nada há que se possa fazer.
Já foste e já vieste. Já reclamaste E já deste. Já tudo foi experimentado. Na noite, a solidão. E o peito sangra, Exangue e cansado, Os versos desta canção.
Na tormenta. Na dor. No corpo que se ausenta, Talvez… o Amor.
Houve um tenebroso eclipse de amar E a criança na cama a chorar. Houve uma morte funesta que aconteceu E a criança soluçando na noite de breu. E houve demónios à solta e em conjuração E a criança deitada na cama sem chão. E houve um anjo ignaro e bruto E a criança banhada em lágrimas de luto. E veio o verbo e a revelação final E a criança ressente a dor original.
Sem Cristo, nem Deus, nem profecia A criança venceu a noite e vislumbra o dia. Nasceu então aquele sol revelador que cega E no peito da criança a tempestade sossega. Um abraço, Um sussurro, uma surda e longa promessa de amor E no peito da criança desfaz-se o eclipse de dor.
Uma nau navegava Em água tranquila E quase parada. E o nauta esquecera A âncora fundeada. Arrastava-se a embarcação, Metro a metro, Dor a dor. E o nauta ergueu a mão Para admirar o esplendor. Era Terra… Uma terra de promessas, Vegetação ardente, Areia alva nunca pisada. E a nau sem pressas… Acorda-lhe uma emoção no peito, Põe a voz a jeito E dá a ordem inaugural. Mas a âncora estava ali, Adormecida e fundeada. A nau imóvel, Na ilusão do sucesso, Não tinha ida Nem regresso. E o nauta gritava incitações, Pedia dados e explicações Para tal imobilidade Na visão do Paraíso. Perante tudo o que um nauta quer, Como poderia estar a nau imobilizada. Um homem soturno e cobarde Segurava a âncora fundeada. Recebeu ordens para a içar, E não respondeu nem agiu. Outro marinheiro o viu E foi afastá-lo. Mas o homem era já só Um hirto corpo De olhar fixo e morto No passado. A alma vazia e desesperada, Em âncora convertida, Pesada, inerte e fundeada. A ilha se desvanece, O ânimo do nauta perece. A tripulação insurge-se, irada, E é assassinado o marinheiro Da visão inalcançada. A âncora permanece Inerte e fundeada.
O blogue “Mails para a minha Irmã” completa hoje 11 anos! Onze anos de textos, de partilhas, de desabafos, de literatura, de parvoíces, de imagens, de música, de emoções, muitas emoções, onze anos de trabalho, dedicação e entrega. Onze anos de vós, aí, desse lado a alimentar tudo isto!
GRATIDÃO! A TODOS! POR TUDO!
Ficam alguns números desta nossa partilha, mas, como em tanta coisa na nossa vida, os números dizem tão pouco. mudaríamos pouco neste percurso. Tem sido o percurso possível porque a escrita e a leitura são assim mesmo. Requerem tempo e atenção e paciência e não se vergam a consumismos imediatistas. Ou talvez verguem. Nós é que preferimos dar tempo ao tempo.
Não consigo, mamã. Não consigo este luto impossível. Não é um luto. É uma luta de Titãs com fantasmas e remorsos. Não consigo despedir-me de ti. Não consigo aceitar a tua perda. Não desta maneira. Abrupta. Trágica. Violenta. Não há preparação possível para a morte. Eu sei. Mas, ao menos, um adeus.
Nessa manhã, escreveste-me um daqueles teus elogios em jeito de brincadeira a reavivar o nosso amor e, uma vez mais, me senti orgulhoso de ti. De como aos setenta e três anos dominavas as tecnologias e tinhas o teu espaço nas redes sociais.
A tua comunidade religiosa, a tua maior rede social, homenageou-te sentidamente, mamã. Com gestos simples, mas profundos, com palavras certeiras, com abraços, com leituras, e com o teu cântico preferido. Sabes, mamã, quando nos despedimos de ti, houve saudade e a natural tristeza de ver-te partir, mas não houve desespero. Pelo contrário. Talvez tenha sido o funeral em que senti mais esperança.
Se soubesses como me arrependo de tanta coisa. De como faria, hoje, tanta coisa diferente. E o que mais me revolta é que foi preciso morreres para perceber isso. Tinhas tanta razão. Tantas razões. Todas fluíam de ti com a naturalidade de um ribeiro que caminha para um curso maior.
A Mana está bem. Não fiques preocupada. É capaz de fazer tudo. De enfrentar tudo. Está forte e autónoma e encontrou uma outra irmã, quase de sangue, uma irmã de dor e compaixão, que tem cuidado dela. A Mana tem dúvidas. Ninguém passa incólume de viver contigo a viver sem ti. Mas está a conseguir. Como tu querias. Talvez melhor do que poderias esperar.
E, agora, vamos lá aqui conversar sobre o mais difícil: o teu adorado e tão desejado bisneto nasceu. É um rapagão grande e lindo e saudável. Ias adorá-lo mais do que já o adoravas antes mesmo de nascer. É um milagre de vida. O teu neto e a tua neta nem sabem para onde virar-se no desvelo de cuidar dele… queria tanto que pudesses pegar-lhe ao colo. O teu colo era tão bom! Tão acolhedor!
Soube, recentemente, que, ao longo dos últimos anos, me escreveste periodicamente. Estou ansioso por beber as tuas palavras. Estou ansioso por reencontrar-me contigo nesse plano de entendimento que só a escrita permite. E temo! Temo ter ainda mais saudades. Temo que esta revolta surda cresça ainda mais. A tua morte, mamã, não pode ser uma tragédia, tem de ser uma revolução.
Naquele momento em que tudo aconteceu, sei que te assustaste e sei que sofreste e sei, contudo, que tudo foi demasiado rápido para pensares, sequer, no que estava a acontecer-te.
Mãezinha, não consigo despedir-me de ti. Não sei que merda seja essa coisa a que chamam luto! Que puta de paz nos sobrevém e dá esperança no futuro se nenhum futuro sem ti o é verdadeiramente. Tinhas tanta vida a viver, tantos projetos, tanta pujança. Não consigo perceber a violência da tua partida inesperada e não consigo largar-te da minha mão, do meu próprio colo, dos meus arrependimentos. Não deixámos nada de importante por dizer, mas ficou tanto por fazer.
Não partas já! Vem, de novo, ajeitar-me o cabelo de menino. Vem, de novo, pedir-me para regressar que, desta vez, eu regresso. Perdoa, mamã! Perdoa pelo bem que te não fiz e podia ter feito. Perdoa as minhas fraquezas e as minhas faltas. Não foram por não te amar, por não te querer bem. Foram por cobardia e outras razões que os homens encontram para justificar as suas ações e os seus erros.
E, agora, estás aqui, a encher-me o peito e a povoar-me os dias e as noites com o teu sorriso, com o teu abraço, com as tuas graças, e aquele toque que me davas no ombro quando querias que me risse contigo. E recordo, com dor e saudade, quando pedias um xiripiti depois de almoço ou quando te surpreendia na cozinha às sete da manhã com tudo arrumado e o almoço já orientado e depois preparavas o teu café e o teu pão e ficávamos ali a conversar.
O máximo que consigo, hoje, mamã, é conversar um pouco mais. Não tenho, ainda, força para despedidas, nem lutas com fantasmas, nem o que quer que seja.
Só consigo conversar contigo e pedir-te desculpa por tudo o que não fui e sonhavas que fosse. Só consigo reencontrar-me, em lágrimas de fogo, com os meus erros e as minhas falhas e o teu sorriso e a tua aceitação e a tua resiliência… hoje, não sou capaz de mais…