Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Apontamento de Nudez Imperfeita


Quando estás nua
No chão da banheira,
Teu corpo é uma bebedeira.
Cega e inebria,
Traz luz e cor
Ao mais cinzento dia.

Quando estás nua
No chão da banheira
E sorris para mim,
Descem dos céus
Anjos de azul e cetim
Só para nos verem amar.

Quando estás nua
No chão da banheira,
O mundo podia acabar.

jpv


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Verdade

Não há culpa
Nas tuas mãos
Quando me acariciam.
E não há crime
No teu olhar
Quando teus olhos
Me procuram.
Não há mentira
Nos teus lábios
Quando me beijas.
E não há pecado
Entre as tuas coxas
Quando me mostras
O que te peço
E desejo.
Não há cansaço nem defesa,
Não há, não pode haver, pejo
Em viver as palavras
E os gestos da alma acesa
E renascida.
Não há morte
Onde, a cada instante,
Brota vida.

Vieste como a nau

Na bruma da manhã
Deslizando sossegada
E silenciosa.
E a alma do poeta,
Habituada e ociosa,
Reergueu-se
E veio abraçar-te
E receber-te,
Veio ver-te
E acreditar.
A alma do poeta
Veio amar
Onde se podia amar.
Chão estendido e fértil,
Chão prenhe e quente,
Onde pulsa
O coração da gente.
E a gente és tu,
Pura e limpa
E diáfana,
Sem idade.
Meu Destino.
Minha Verdade.

jpv


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PALAVRA

Veio em simultâneo
A palavra.
Como quem atira a semente
E lavra
O chão fértil
Da cumplicidade.
Não tem idade
O teu olhar
No meu.
Não tem tempo
A forma da tua mão
Na minha mão nua.
Não tem passado,
E existiu sempre,
O teu corpo tombado
Sobre o meu corpo ausente.
O som, a letra,
A palavra e a crase
Vivem juntos
Numa simples
E singela frase
Gravada na intenção,
Escrita no coração
Com o fogo do tempo.
No espírito livre
E isento de todas
As conjeturas,
Não têm passado
As almas mais puras.
Só o tempo de viver
O que falta viver.
Só o tempo de sofrer.
Só o tempo de amar.
Veio em simultâneo
A palavra.
Veio colher e,
De novo,
Semear.

jpv


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Ressurreição

Do chão folhado
E inerte,
A flor sobe ao céu
E adverte
O espírito do falecido.
Da água estagnada
E apodrecida,
Um movimento,
Uma suspeita de vida.
E do breu silencioso
Se ergue
O astro luminoso
Do olhar.
Da palavra por dizer,
A palavra dita.
E da paisagem monótona,
A tela mais bonita.

Levantou-se e andou,
Caminhou por entre as gentes
E amou.
Fez-se homem,
Foi viver
E morrer de novo
Nos braços de uma mulher,
Na fé do Povo.
Na herança
Da coisa herdada,
Há muito de tudo
E muito pouco
De quase nada.
Mas o homem ergueu-se
E andou.
E da história anónima
E misteriosa
Pouco se sabe
Para além do que amou!

jpv


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Maré

É como uma maré,
Gigantesca e impossível,
Onde desliza, serena,
A nau invisível.
E os nautas
Encostam-se à amurada
Prenhes de si
E de mão dada.
E há dor,
E há sacrifícios,
E há homens valentes
Que se jogam ao mar.
E há ventos contrários
E procelas terríveis
E os nautas navegam
Serenos e devagar
Vendo-se, no horizonte,
Amantes e impassíveis.
E chegam fogos,
E ondas de engolir,
E estes nautas
Não sabem fugir
E desconhecem os jogos
Da palavra arremessada.
Fica só uma mão na outra
Junto d’amurada.
É como um mar,
Revolto e encapelado,
O curso da felicidade.
Quem não morra de saudade,
Quem não sofra de medo,
É como se não tivesse amado.
No fim da borrasca,
No fim da poeira no caminho
E da nau atormentada,
Fica o nauta sozinho
E os amantes n’amurada…
De mão dada.

jpv


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Heaven

Heaven is a place
In your eyes
And that’s
Where happiness lies.
You gave no reasons,
Nor said how or why.
You just took my heart
By the end of July.
A godess coming from above
To teach me
The very fine art
Of lust and love.

jpv


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Horizonte

Não há mais tempo.
Não há tempo
Nem para não haver tempo.
Nada mais restará
Após a hora
E o prazo marcado.
Um homem vive hoje e agora
O tempo condenado.
Para cada regra,
Uma rutura,
Para cada tempo,
Um tempo de atraso.
Para cada hóstia sagrada
Uma mão impura.
Mas há essa linha
Onde nasce toda a força ausente,
Enganoso destino,
Certa e verdadeira fonte.
Aí descansam os olhos do menino…
Distante e atrasado horizonte.

jpv


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Limite

No limite da palavra
E no limite do gesto.
No limite da carícia
E no limite do funesto.
No limite da tentação
E no limite da conjura.
No limite da revelação
Da atitude mais impura.
A nau naufragou
Porque tinha de naufragar,
Não há não quem navegue
Onde não haja mar.
E ficam nautas suspensos
E outros afundando.
Todos têm destino,
Seja prazeroso
Ou nefando.
Uns se erguem
E cruzam a rebentação
A poder de braços.
Outros olham o horizonte
E veem metros escassos…
No limite da coragem
E no limite da lucidez.
No limite da voragem,
A grandeza ou a pequenez.

jpv