Não há culpa Nas tuas mãos Quando me acariciam. E não há crime No teu olhar Quando teus olhos Me procuram. Não há mentira Nos teus lábios Quando me beijas. E não há pecado Entre as tuas coxas Quando me mostras O que te peço E desejo. Não há cansaço nem defesa, Não há, não pode haver, pejo Em viver as palavras E os gestos da alma acesa E renascida. Não há morte Onde, a cada instante, Brota vida.
Vieste como a nau
Na bruma da manhã Deslizando sossegada E silenciosa. E a alma do poeta, Habituada e ociosa, Reergueu-se E veio abraçar-te E receber-te, Veio ver-te E acreditar. A alma do poeta Veio amar Onde se podia amar. Chão estendido e fértil, Chão prenhe e quente, Onde pulsa O coração da gente. E a gente és tu, Pura e limpa E diáfana, Sem idade. Meu Destino. Minha Verdade.
Veio em simultâneo A palavra. Como quem atira a semente E lavra O chão fértil Da cumplicidade. Não tem idade O teu olhar No meu. Não tem tempo A forma da tua mão Na minha mão nua. Não tem passado, E existiu sempre, O teu corpo tombado Sobre o meu corpo ausente. O som, a letra, A palavra e a crase Vivem juntos Numa simples E singela frase Gravada na intenção, Escrita no coração Com o fogo do tempo. No espírito livre E isento de todas As conjeturas, Não têm passado As almas mais puras. Só o tempo de viver O que falta viver. Só o tempo de sofrer. Só o tempo de amar. Veio em simultâneo A palavra. Veio colher e, De novo, Semear.
Do chão folhado E inerte, A flor sobe ao céu E adverte O espírito do falecido. Da água estagnada E apodrecida, Um movimento, Uma suspeita de vida. E do breu silencioso Se ergue O astro luminoso Do olhar. Da palavra por dizer, A palavra dita. E da paisagem monótona, A tela mais bonita.
Levantou-se e andou, Caminhou por entre as gentes E amou. Fez-se homem, Foi viver E morrer de novo Nos braços de uma mulher, Na fé do Povo. Na herança Da coisa herdada, Há muito de tudo E muito pouco De quase nada. Mas o homem ergueu-se E andou. E da história anónima E misteriosa Pouco se sabe Para além do que amou!
É como uma maré, Gigantesca e impossível, Onde desliza, serena, A nau invisível. E os nautas Encostam-se à amurada Prenhes de si E de mão dada. E há dor, E há sacrifícios, E há homens valentes Que se jogam ao mar. E há ventos contrários E procelas terríveis E os nautas navegam Serenos e devagar Vendo-se, no horizonte, Amantes e impassíveis. E chegam fogos, E ondas de engolir, E estes nautas Não sabem fugir E desconhecem os jogos Da palavra arremessada. Fica só uma mão na outra Junto d’amurada. É como um mar, Revolto e encapelado, O curso da felicidade. Quem não morra de saudade, Quem não sofra de medo, É como se não tivesse amado. No fim da borrasca, No fim da poeira no caminho E da nau atormentada, Fica o nauta sozinho E os amantes n’amurada… De mão dada.
Heaven is a place In your eyes And that’s Where happiness lies. You gave no reasons, Nor said how or why. You just took my heart By the end of July. A godess coming from above To teach me The very fine art Of lust and love.
Não há mais tempo. Não há tempo Nem para não haver tempo. Nada mais restará Após a hora E o prazo marcado. Um homem vive hoje e agora O tempo condenado. Para cada regra, Uma rutura, Para cada tempo, Um tempo de atraso. Para cada hóstia sagrada Uma mão impura. Mas há essa linha Onde nasce toda a força ausente, Enganoso destino, Certa e verdadeira fonte. Aí descansam os olhos do menino… Distante e atrasado horizonte.
No limite da palavra E no limite do gesto. No limite da carícia E no limite do funesto. No limite da tentação E no limite da conjura. No limite da revelação Da atitude mais impura. A nau naufragou Porque tinha de naufragar, Não há não quem navegue Onde não haja mar. E ficam nautas suspensos E outros afundando. Todos têm destino, Seja prazeroso Ou nefando. Uns se erguem E cruzam a rebentação A poder de braços. Outros olham o horizonte E veem metros escassos… No limite da coragem E no limite da lucidez. No limite da voragem, A grandeza ou a pequenez.