Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Também já não é Vida

Como uma rajada,
Violenta e inesperada,
Entra o gume da faca
Na carne da alma.
A impotência do moribundo
À vista da ave
Que corre mundo
E nem sabe porquê.
O Homem é mais
Do que aquilo que vê.
A decisão retida.
A palavra contida
Em nome de uma paz
Que é morte anunciada.
Porque permanece o nauta
De olhar no horizonte
Debruçado n’ amurada
Se não há, já, porto
Para a nau triste,
Perdida e naufragada?
Há uma morte fingida,
Uma morte que não mata
Nem é saída.
E, contudo, trágica,
Também já não é vida.

jpv


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Cânone Lírico

A alegria não inspira poemas.
E, mesmo que inspire escritos,
Não são poemas.
São erupções falaciosas
De um estado de alma
Que não existe.
Mera ilusão.
A poesia não vive do chão,
Nem de certezas,
E menos ainda de conquistas.

A poesia a sério,
A que se lê nas sessões públicas
E ganha prémios,
É grave e melancólica.
Sofre e faz sofrer.
Vive da dor
E do que faz doer.

A poesia, a ser mesmo poesia,
Alimenta-se da dúvida
E da insatisfação.
Da incompletude,
Da doença mental.
Da do corpo, não.
As doenças do corpo
São mesquinhas e surdas
Às verdadeiras razões
Por que se deve sofrer.

Um não querer ser-se
Quem se é
E querer-se ser
Quem se não é.
Um estar deslocado
De onde se queria estar
E sentir-se desacompanhado
Onde se está.

A solidão.
Sim, a solidão é poesia.
E a autoanálise obsessiva também.
O amor incorrespondido de alguém.
Os amores felizes
Não são poesia.
São invejas
De quem queria
E não tem.

A verdadeira poesia,
A de qualidade,
A poesia dos anfiteatros e dos salões
E das mais belas edições,
Não se escreve
Nem se lê.
Sente-se…
Um sentir puro e contínuo,
E, supremo pecado,
Não se explica.
Frui-se!

Eu cá, não sou poeta.
Eu acho graça
Às flores na Primavera,
Às manhãs luminosas
E aos regatos de água cristalina
Sob o chilreio fresco dos passarinhos.
Eu acho graça
Aos amantes de mão dada
Trocando beijos na rua,
À descarada.

De poesia, não sei nada.

jpv


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Poema

Tu és o poema.
Tu és a diferença
Entre a canção
E o morfema.
Tu estás aquém
E além da dor.
Tu és a emoção pura.
Tu és o amor.

jpv


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FILHOS

Na altura de lançar ao futuro mais uma leva de meninos com quem cresci e ajudei a crescer, recebo, de presente e partilha, por parte de uma encarregada de educação, o poema de Kahlil Gibran que transcrevo abaixo. Uma pérola, uma visão lúcida e brilhante do que são os nossos filhos!

Muito obrigado, CP.

Filhos

Então uma mulher que segurava um bebé contra o peito disse:
«Fala-nos dos filhos.»
E ele disse:


Os vossos filhos não são os vossos filhos.
São os filhos e as filhas da saudade que a vida tem de si mesma.
Eles vêm através de vós, mas não a partir de vós,
E apesar de estarem convosco, eles não vos pertencem.
Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos.
Pois eles têm os seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar os seus corpos, mas não as suas almas,
Pois as suas almas habitam na casa do amanhã, que não podeis
visitar, nem mesmo em sonhos.
Podeis esforçar-vos para ser como eles, mas não procureis torná-los iguais a vós.
Pois a vida não anda para trás, nem se demora com o dia de ontem.
Vós sois os arcos dos quais os vossos filhos são lançados, quais
flechas vivas, para diante.
O arqueiro vê o alvo no sentido do infinito, e Ele dobra-vos com a
Sua força, para que a Sua flecha voe veloz e para lá do longe.
Deixai que a mão do arqueiro vos dobre como se desenhasse um
sorriso;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa e vai, também ama o
arco que é firme e fica.


Kahlil Gibran, in ‘O Grande Livro do Amor


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2.ª edição, boa companhia e uma avaliação

2.ª Edição e Boa Companhia
A segunda edição de “Quem Lixou Isidro Castigo” já está disponível nas livrarias MABUKO, ESCOLAR EDITORA e LIVRARIA DO AEROPORTO, em Maputo.
Também se pode encontrar no restaurante DHOW para se ler com aquela paisagem fabulosa e um belo gin a acompanhar.

Tem a cara lavadinha e vem numa edição muito distinta, repleta de pormenores requintados. A capa é diferente, mas também do artista moçambicano Samuel Djive.

No caso da LIVRARIA DO AEROPORTO estamos muito bem acompanhados. Nada mais, nada menos do que Ondjaki, Ungulani Ba Ka Khosa, Álvaro Taruma e também Samora Machel e Marcelino dos Santos.

Em junho, estaremos em Portugal. A seu tempo, diremos onde.

O nosso muito obrigado a todos os leitores.

jpv

Avaliação
Entretanto, um leitor nosso teve a amabilidade de nos fazer chegar a sua avaliação, que transcrevemos abaixo. Sintam-se à vontade para fazer o mesmo para jpvideira@gmail.com

Caro João Paulo Videira,

Em primeiro lugar agradecer a simpática dedicatória com que me brindou no seu livro “Quem lixou Isidro Castigo?”, que me foi trazido pela Clara Almeida, professora na Escola Portuguesa de Moçambique, a quem solicitei o favor de o adquirir, confesso, porque o título me pareceu tentador e inteligente e suscitou curiosidade no meio de diversos outros que pesquisei ao acaso no google, alguns já conhecidos e lidos, por exemplo, Mia Couto, Paulina Chiziane, Craveirinha, Suleiman Cassamo, etc…

A verdade é que a minha intuição e o seu livro não me traíram, tendo sido um gosto lê-lo na viagem de regresso a Lisboa, por um lado porque nem dei pelo tempo passar, por outro porque a sua escrita é muito sincera, verdadeira e até sentimental, não só ao nível do conteúdo como da forma, percebendo-se uma enorme generosidade perante a sociedade moçambicana, no entanto sem deixar de evidenciar todas as contradições existentes, bem típicas dos PALOP ou PLOP, incluindo Portugal!

Digamos que, após três semanas de Maputo bastante preenchidas e socialmente ecléticas, a minha opinião jamais seria tão informada sem a leitura do seu livro e do personagem Isidro Castigo. Sei que tem outros publicados e já pedi à Clara para os comprar se ainda estiverem disponíveis…. De resto, renovo os meus agradecimentos e espero conhecê-lo quando voltar a Maputo.

Atenciosamente,

Victor Camarneiro


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FRIO

De vez em quando,
Com a nitidez
Límpida de uma manhã de sol,
O teu rosto ressurge
Na minha mente
E revejo o sorriso cristalino
Daquela última despedida.
E escrevo outra vez sobre isso,
Como se, revisitando a dor,
Guardasse em mim,
Mais vivo,
O teu amor.
São assaltos.
A triste condição
De travar a batalha perdida
Entre a morte que foi
E o que sobra da vida.
Aqui,
Neste lugar onde me deixaste,
De mãos abertas
A sentir o calor das tuas,
Não há Diabo que condene,
Nem Deus que redima.
Há só esta neblina
No olhar vagabundo das ruas.
Órfão.
Já não de ti,
Mas da tua memória.
Dia sem luz,
Noite sem história.
Depois,
Com o mesmo sorriso
E a mesma alegria na face,
Partes e deixas-me conformado
Até que a ilusão da presença passe
E entre de novo
No corpo do menino abandonado.

Porque me revisitas, Mãe?
Porque me fazes sofrer
Com a tua presença
Se és ausência e vazio?
Onde não estás, faz frio.
E o frio está em todo o lado.
Não há sol capaz de aquecer
O peito de um menino abandonado.

jpv


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13!

Esta semana, na quinta-feira, 12 de maio, Mails para a minha Irmã completou 13 anos de vida.

Temos estado tão tomados pelos afazeres do trabalho que não tivemos tempo nem para uma simples nota. Mas não esquecemos. Não esquecemos um espaço onde mora tanto do nosso afeto, da nossa criatividade e da partilha com o leitor.

O mesmo leitor a quem agradecemos por estes treze anos de escrita! O mesmo leitor que, pela leitura, dá sentido à escrita.

Muito obrigado!

João Paulo Videira


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Poloni – In Memoriam

Teve uma vida repleta e intensa.
Não morreu novo, mas poderia ter vivido mais.
O Poloni gostava, sobretudo, da companhia das pessoas.
E amava o mar. Enfrentava ondas enormes, vinha de lá enrolado em água e cheio de areia, sacudia-se e voltava a investir. Nunca teve medo do mar.
Adorava caçar caranguejos nas areias da praia de Chongoene.
Rosnava a quem não lhe agradava e detestava ser encurralado em espaços exíguos.
Enroscava-se na sua cama ao fundo do quarto e tudo estava bem desde que sentisse pessoas. Por vezes, a meio da noite, desatava a ladrar que nem um louco como se lhe tivesse sido confiada a missão de acordar todo o mundo adormecido. Era um bom guarda.
Gostava de comer sem ser incomodado e roubava sempre um lugar no sofá ou mesmo um sofá inteiro.
Onde quer que esteja, está no melhor dos locais e, por certo, anda a enfrentar ondas marinhas.
Foi feliz e gerou felicidade à sua volta.

jpv


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Não sei, já,
Quem seja,
Que vontade me ata.
Se o amante que beija,
Se o assassino que mata.

Não conheço, já,
Os contornos de meu gesto
E o balanço de minha mão.
Autor do ato funesto
Onde, secreto, habita um coração.

Não sei, já,
O caminho certo
Do caminho
Que o homem faz.
Ainda está perto
O corpo frio
Da criatura que jaz.

jpv