Não há mais tempo. Não há tempo Nem para não haver tempo. Nada mais restará Após a hora E o prazo marcado. Um homem vive hoje e agora O tempo condenado. Para cada regra, Uma rutura, Para cada tempo, Um tempo de atraso. Para cada hóstia sagrada Uma mão impura. Mas há essa linha Onde nasce toda a força ausente, Enganoso destino, Certa e verdadeira fonte. Aí descansam os olhos do menino… Distante e atrasado horizonte.
No limite da palavra E no limite do gesto. No limite da carícia E no limite do funesto. No limite da tentação E no limite da conjura. No limite da revelação Da atitude mais impura. A nau naufragou Porque tinha de naufragar, Não há não quem navegue Onde não haja mar. E ficam nautas suspensos E outros afundando. Todos têm destino, Seja prazeroso Ou nefando. Uns se erguem E cruzam a rebentação A poder de braços. Outros olham o horizonte E veem metros escassos… No limite da coragem E no limite da lucidez. No limite da voragem, A grandeza ou a pequenez.
A memória do corpo no corpo, A memória da mão na mão. A memória da palavra certa E a memória da intenção. Gravada foi na tua pele, Gravada está na minha mente, A força que nos impele, A paixão que o peito sente. Não quero esperar por ti E por ti espero resiliente, Assaltado por esse amor violento Que sujuga a vontade da gente. Já fui senhor, já, E agora sirvo com submissão, Servo das forças que trazem Encantado meu coração…
Um gesto intencional E resoluto. Um cadáver sem vigília Nem luto. E a imensidão do mar. O amor todo do Mundo Preso num olhar. A entrega vulnerável Da vida Nas tuas mãos… Em rituais sagrados E desejos pagãos. Não sou eu, já. E, contudo, nunca fui tanto eu. Até ver a manhã doirada, Um homem tem de palmilhar Muita noite de breu.
Quando o barqueiro treme, De medo ou sugestão, A água acaricia o leme Preso em sua mão. Inunda-lhe o peito Uma tortura e um temor Que o trazem sojugado A ventanias de Amor. Enfrenta sozinho As ondas medonhas E a tremenda procela. Segura o leme com força E acaricia as falhas na vela. O pano enche-se da brisa Que passa e desliza Na fronte do homem só. Ainda agora era carne carne viva E resta um pouco de pó. O barqueiro e o leme e a vela Ensaiam uma estranha dança, Embalados na música da morte Traçam passos de esperança.
Hoje, um aluno de há muitos, muitos anos, publicou um texto que considero oportuno, incisivo e de uma grande lucidez. O aluno, o Ricardo Rodrigues, menciona-me no seu texto. Não senti orgulho. Ou melhor, senti, mas não foi isso o mais importante.
O que realmente senti foi a responsabilidade do que é ser educador e professor. Nas outras profissões, dão-se respostas imediatas com resultados imediatamente observáveis. Na docência, nada é imediato, mas tudo é estrutural e fundamental. Naturalmente, este antigo aluno era já, por contexto familiar e dotação pessoal, um jovem com valores e princípios muito bons, contudo, foi o professor, naquele momento, que moldou um traço do pensamento. Algo quer viria a ser importante na construção do pensamento futuro. Os professores fazem isso, moldam o pensamento e constroem a massa crítica das sociedades.
É nestas situações que se vê claramente a relevância de uma profissão muito sacrificada, muito maltratada e muito desvalorizada na nossa sociedade.
O texto do Ricardo Rodrigues vale muito a pena ser lido. Por isso mesmo deixo aqui a ligação!
Na dádiva E na entrega Uma súplica E uma prece. Uma mão estendida E um cuidar Quando tudo acontece. Fortes e determinadas São as passadas Do desejo. Vai já vencida A tormenta. É a luz que penetra, A sombra que se ausenta. E sobra um gesto, Um encantamento, Talvez ilusão. Um sopro de vida, Um grito mudo No silêncio E na solidão. Toma, oferece. Aceito, recebe. Na generosidade Da oferta, O egoísmo Da salvação. Ergue-se, Poderoso e invencível, O Senhor da submissão.
Na tormenta. Na dor. No corpo que se ausenta. No sussurro de outro amor. No mar alto e encapelado. No vislumbre do futuro, A sombra do passado. Nas mãos que tocam E acariciam. No corpo que se contorce. Na investida. E nos silêncios que se anunciam. Na espera. No tempo vácuo. Na imagem projetada, Uma alma suja Na alma lavada. No ritmo sufocado Do desespero. Na noite que se perde E se esvai, Um coração arde E um muro cai.
No tempo da súplica. No tempo da exigência. No momento de recuar E enfrentar a sorte, O peito pressente a morte E teme sobreviver. Contra o que está feito, Nada há que se possa fazer.
Já foste e já vieste. Já reclamaste E já deste. Já tudo foi experimentado. Na noite, a solidão. E o peito sangra, Exangue e cansado, Os versos desta canção.
Na tormenta. Na dor. No corpo que se ausenta, Talvez… o Amor.
Houve um tenebroso eclipse de amar E a criança na cama a chorar. Houve uma morte funesta que aconteceu E a criança soluçando na noite de breu. E houve demónios à solta e em conjuração E a criança deitada na cama sem chão. E houve um anjo ignaro e bruto E a criança banhada em lágrimas de luto. E veio o verbo e a revelação final E a criança ressente a dor original.
Sem Cristo, nem Deus, nem profecia A criança venceu a noite e vislumbra o dia. Nasceu então aquele sol revelador que cega E no peito da criança a tempestade sossega. Um abraço, Um sussurro, uma surda e longa promessa de amor E no peito da criança desfaz-se o eclipse de dor.
Uma nau navegava Em água tranquila E quase parada. E o nauta esquecera A âncora fundeada. Arrastava-se a embarcação, Metro a metro, Dor a dor. E o nauta ergueu a mão Para admirar o esplendor. Era Terra… Uma terra de promessas, Vegetação ardente, Areia alva nunca pisada. E a nau sem pressas… Acorda-lhe uma emoção no peito, Põe a voz a jeito E dá a ordem inaugural. Mas a âncora estava ali, Adormecida e fundeada. A nau imóvel, Na ilusão do sucesso, Não tinha ida Nem regresso. E o nauta gritava incitações, Pedia dados e explicações Para tal imobilidade Na visão do Paraíso. Perante tudo o que um nauta quer, Como poderia estar a nau imobilizada. Um homem soturno e cobarde Segurava a âncora fundeada. Recebeu ordens para a içar, E não respondeu nem agiu. Outro marinheiro o viu E foi afastá-lo. Mas o homem era já só Um hirto corpo De olhar fixo e morto No passado. A alma vazia e desesperada, Em âncora convertida, Pesada, inerte e fundeada. A ilha se desvanece, O ânimo do nauta perece. A tripulação insurge-se, irada, E é assassinado o marinheiro Da visão inalcançada. A âncora permanece Inerte e fundeada.