Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Horizonte

Não há mais tempo.
Não há tempo
Nem para não haver tempo.
Nada mais restará
Após a hora
E o prazo marcado.
Um homem vive hoje e agora
O tempo condenado.
Para cada regra,
Uma rutura,
Para cada tempo,
Um tempo de atraso.
Para cada hóstia sagrada
Uma mão impura.
Mas há essa linha
Onde nasce toda a força ausente,
Enganoso destino,
Certa e verdadeira fonte.
Aí descansam os olhos do menino…
Distante e atrasado horizonte.

jpv


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Limite

No limite da palavra
E no limite do gesto.
No limite da carícia
E no limite do funesto.
No limite da tentação
E no limite da conjura.
No limite da revelação
Da atitude mais impura.
A nau naufragou
Porque tinha de naufragar,
Não há não quem navegue
Onde não haja mar.
E ficam nautas suspensos
E outros afundando.
Todos têm destino,
Seja prazeroso
Ou nefando.
Uns se erguem
E cruzam a rebentação
A poder de braços.
Outros olham o horizonte
E veem metros escassos…
No limite da coragem
E no limite da lucidez.
No limite da voragem,
A grandeza ou a pequenez.

jpv


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Servo

Pintura de Rui Tadeu, Moçambique.

A memória do corpo no corpo,
A memória da mão na mão.
A memória da palavra certa
E a memória da intenção.
Gravada foi na tua pele,
Gravada está na minha mente,
A força que nos impele,
A paixão que o peito sente.
Não quero esperar por ti
E por ti espero resiliente,
Assaltado por esse amor violento
Que sujuga a vontade da gente.
Já fui senhor, já,
E agora sirvo com submissão,
Servo das forças que trazem
Encantado meu coração…

jpv


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Manhã

Um gesto intencional
E resoluto.
Um cadáver sem vigília
Nem luto.
E a imensidão do mar.
O amor todo do Mundo
Preso num olhar.
A entrega vulnerável
Da vida
Nas tuas mãos…
Em rituais sagrados
E desejos pagãos.
Não sou eu, já.
E, contudo, nunca fui tanto eu.
Até ver a manhã doirada,
Um homem tem de palmilhar
Muita noite de breu.

jpv


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A Vela, o Barqueiro e o Leme

Quando o barqueiro treme,
De medo ou sugestão,
A água acaricia o leme
Preso em sua mão.
Inunda-lhe o peito
Uma tortura e um temor
Que o trazem sojugado
A ventanias de Amor.
Enfrenta sozinho
As ondas medonhas
E a tremenda procela.
Segura o leme com força
E acaricia as falhas na vela.
O pano enche-se da brisa
Que passa e desliza
Na fronte do homem só.
Ainda agora era carne carne viva
E resta um pouco de pó.
O barqueiro e o leme e a vela
Ensaiam uma estranha dança,
Embalados na música da morte
Traçam passos de esperança.

jpv


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“A Vida Delas Importa”

Hoje, um aluno de há muitos, muitos anos, publicou um texto que considero oportuno, incisivo e de uma grande lucidez.
O aluno, o Ricardo Rodrigues, menciona-me no seu texto. Não senti orgulho. Ou melhor, senti, mas não foi isso o mais importante.

O que realmente senti foi a responsabilidade do que é ser educador e professor. Nas outras profissões, dão-se respostas imediatas com resultados imediatamente observáveis. Na docência, nada é imediato, mas tudo é estrutural e fundamental.
Naturalmente, este antigo aluno era já, por contexto familiar e dotação pessoal, um jovem com valores e princípios muito bons, contudo, foi o professor, naquele momento, que moldou um traço do pensamento. Algo quer viria a ser importante na construção do pensamento futuro. Os professores fazem isso, moldam o pensamento e constroem a massa crítica das sociedades.

É nestas situações que se vê claramente a relevância de uma profissão muito sacrificada, muito maltratada e muito desvalorizada na nossa sociedade.

O texto do Ricardo Rodrigues vale muito a pena ser lido. Por isso mesmo deixo aqui a ligação!

jpv

Leia o texto do Ricardo aqui:
https://saudeefraternidade.blogs.sapo.pt/a-vida-delas-importa-12841


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Sapatilhas

Na dádiva
E na entrega
Uma súplica
E uma prece.
Uma mão estendida
E um cuidar
Quando tudo acontece.
Fortes e determinadas
São as passadas
Do desejo.
Vai já vencida
A tormenta.
É a luz que penetra,
A sombra que se ausenta.
E sobra um gesto,
Um encantamento,
Talvez ilusão.
Um sopro de vida,
Um grito mudo
No silêncio
E na solidão.
Toma, oferece.
Aceito, recebe.
Na generosidade
Da oferta,
O egoísmo
Da salvação.
Ergue-se,
Poderoso e invencível,
O Senhor da submissão.

jpv


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Canção do Peito Exangue

Na tormenta.
Na dor.
No corpo que se ausenta.
No sussurro de outro amor.
No mar alto e encapelado.
No vislumbre do futuro,
A sombra do passado.
Nas mãos que tocam
E acariciam.
No corpo que se contorce.
Na investida.
E nos silêncios que se anunciam.
Na espera.
No tempo vácuo.
Na imagem projetada,
Uma alma suja
Na alma lavada.
No ritmo sufocado
Do desespero.
Na noite que se perde
E se esvai,
Um coração arde
E um muro cai.

No tempo da súplica.
No tempo da exigência.
No momento de recuar
E enfrentar a sorte,
O peito pressente a morte
E teme sobreviver.
Contra o que está feito,
Nada há que se possa fazer.

Já foste e já vieste.
Já reclamaste
E já deste.
Já tudo foi experimentado.
Na noite, a solidão.
E o peito sangra,
Exangue e cansado,
Os versos desta canção.

Na tormenta.
Na dor.
No corpo que se ausenta,
Talvez… o Amor.

jpv


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Eclipse

Houve um tenebroso eclipse de amar
E a criança na cama a chorar.
Houve uma morte funesta que aconteceu
E a criança soluçando na noite de breu.
E houve demónios à solta e em conjuração
E a criança deitada na cama sem chão.
E houve um anjo ignaro e bruto
E a criança banhada em lágrimas de luto.
E veio o verbo e a revelação final
E a criança ressente a dor original.

Sem Cristo, nem Deus, nem profecia
A criança venceu a noite e vislumbra o dia.
Nasceu então aquele sol revelador que cega
E no peito da criança a tempestade sossega.
Um abraço, Um sussurro, uma surda e longa promessa de amor
E no peito da criança desfaz-se o eclipse de dor.

jpv


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Âncora

Uma nau navegava
Em água tranquila
E quase parada.
E o nauta esquecera
A âncora fundeada.
Arrastava-se a embarcação,
Metro a metro,
Dor a dor.
E o nauta ergueu a mão
Para admirar o esplendor.
Era Terra…
Uma terra de promessas,
Vegetação ardente,
Areia alva nunca pisada.
E a nau sem pressas…
Acorda-lhe uma emoção no peito,
Põe a voz a jeito
E dá a ordem inaugural.
Mas a âncora estava ali,
Adormecida e fundeada.
A nau imóvel,
Na ilusão do sucesso,
Não tinha ida
Nem regresso.
E o nauta gritava incitações,
Pedia dados e explicações
Para tal imobilidade
Na visão do Paraíso.
Perante tudo o que um nauta quer,
Como poderia estar a nau imobilizada.
Um homem soturno e cobarde
Segurava a âncora fundeada.
Recebeu ordens para a içar,
E não respondeu nem agiu.
Outro marinheiro o viu
E foi afastá-lo.
Mas o homem era já só
Um hirto corpo
De olhar fixo e morto
No passado.
A alma vazia e desesperada,
Em âncora convertida,
Pesada, inerte e fundeada.
A ilha se desvanece,
O ânimo do nauta perece.
A tripulação insurge-se, irada,
E é assassinado o marinheiro
Da visão inalcançada.
A âncora permanece
Inerte e fundeada.

jpv