Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Prometeu

A Palavra,
Algemada,
Saiu à rua,
Caminhou nua,
E foi encarcerada.
Passou um pensador,
Não percebeu tamanha dor,
E com um trejeito na face,
Antes que acabasse
De passar,
Atirou duas ideias
Ao ar
E pôs a Palavra a pensar.
E ela libertou-se,
Esgueirou-se,
E saiu de novo à rua,
Outra vez descarada
E nua
Como se nada devesse
À vida
Nem às gentes.
São assim, certas palavras,
Teimosas e impertinentes.
Brotam à chuva e ao sol
E dão flor e fruto
Vindas de sementes
Sem ascendência nem história.
Crescem na terra árida
E negada
Mesmo com a alma agrilhoada
E a ideia algemada.

Saiu à rua,
A Palavra nua.

jpv


1 Comentário

Café Quente

Café quente
A fumegar.
Queijo cottage
Para barrar.
Pão torrado
A alourar.
Doce de abóbora,
Risadas largas,
Passos de dança.
Uma lágrima corre
No olhar de criança.
Corpo de sedução,
Loucura constante,
Sem limites na intenção,
E um chá escaldante.
Gengibre.
Linhaça.
Humor e homeopatia
Que tudo ultrapassa.
Fé e Deus,
Abraços na saudação,
Lágrimas no adeus.
A voz que se tolhe,
O peito que se ergue,
O espírito que não recolhe,
A palavra que ferve.
Papaia.
Aiatas.
Delícia de massala.
Senhora no porte,
Ginga de sanzala.
Maquilhagem.
Roupa de calamidade.
Um saco de viagem.
Um avô sem idade.
Mãe.
Irmãos.
Pai.
Força e equilíbrio,
Destempero e desmesura,
Tudo junto na ternura
De ser mãe especial.
Repentismo.
Emoção.
Cogumelos.
Roupa pelo chão.
Banho rápido,
Amor lento,
Há coisas na vida
Que requerem seu tempo.
Música.
Oriente.
Bali.
Excitação de gente.
Regras
E a ausência delas.
Pouco interessam os pratos
Desde que sejam boas
As panelas.
Sumo.
Fotografia.
Deitar cedo,
Dormir tarde.
Um dia é só um dia.
Receber,
Mesa cheia.
A delícia de um prato
E uma cerveja meia.
Amendoins.
África.
Chapéus.
Roupas leves,
Marcante bijutaria.
Trabalho.
Concentração.
Horas de investir
No rigor e na precisão.
Domínio e submissão.
Olhar meigo e terno,
E um imenso fulgor.
Palavras de cada dia
Com que se escreve o amor.

jpv


Deixe um comentário

Apontamento de Nudez Imperfeita


Quando estás nua
No chão da banheira,
Teu corpo é uma bebedeira.
Cega e inebria,
Traz luz e cor
Ao mais cinzento dia.

Quando estás nua
No chão da banheira
E sorris para mim,
Descem dos céus
Anjos de azul e cetim
Só para nos verem amar.

Quando estás nua
No chão da banheira,
O mundo podia acabar.

jpv


Deixe um comentário

Verdade

Não há culpa
Nas tuas mãos
Quando me acariciam.
E não há crime
No teu olhar
Quando teus olhos
Me procuram.
Não há mentira
Nos teus lábios
Quando me beijas.
E não há pecado
Entre as tuas coxas
Quando me mostras
O que te peço
E desejo.
Não há cansaço nem defesa,
Não há, não pode haver, pejo
Em viver as palavras
E os gestos da alma acesa
E renascida.
Não há morte
Onde, a cada instante,
Brota vida.

Vieste como a nau

Na bruma da manhã
Deslizando sossegada
E silenciosa.
E a alma do poeta,
Habituada e ociosa,
Reergueu-se
E veio abraçar-te
E receber-te,
Veio ver-te
E acreditar.
A alma do poeta
Veio amar
Onde se podia amar.
Chão estendido e fértil,
Chão prenhe e quente,
Onde pulsa
O coração da gente.
E a gente és tu,
Pura e limpa
E diáfana,
Sem idade.
Meu Destino.
Minha Verdade.

jpv


Deixe um comentário

PALAVRA

Veio em simultâneo
A palavra.
Como quem atira a semente
E lavra
O chão fértil
Da cumplicidade.
Não tem idade
O teu olhar
No meu.
Não tem tempo
A forma da tua mão
Na minha mão nua.
Não tem passado,
E existiu sempre,
O teu corpo tombado
Sobre o meu corpo ausente.
O som, a letra,
A palavra e a crase
Vivem juntos
Numa simples
E singela frase
Gravada na intenção,
Escrita no coração
Com o fogo do tempo.
No espírito livre
E isento de todas
As conjeturas,
Não têm passado
As almas mais puras.
Só o tempo de viver
O que falta viver.
Só o tempo de sofrer.
Só o tempo de amar.
Veio em simultâneo
A palavra.
Veio colher e,
De novo,
Semear.

jpv


5 comentários

Ressurreição

Do chão folhado
E inerte,
A flor sobe ao céu
E adverte
O espírito do falecido.
Da água estagnada
E apodrecida,
Um movimento,
Uma suspeita de vida.
E do breu silencioso
Se ergue
O astro luminoso
Do olhar.
Da palavra por dizer,
A palavra dita.
E da paisagem monótona,
A tela mais bonita.

Levantou-se e andou,
Caminhou por entre as gentes
E amou.
Fez-se homem,
Foi viver
E morrer de novo
Nos braços de uma mulher,
Na fé do Povo.
Na herança
Da coisa herdada,
Há muito de tudo
E muito pouco
De quase nada.
Mas o homem ergueu-se
E andou.
E da história anónima
E misteriosa
Pouco se sabe
Para além do que amou!

jpv


6 comentários

Maré

É como uma maré,
Gigantesca e impossível,
Onde desliza, serena,
A nau invisível.
E os nautas
Encostam-se à amurada
Prenhes de si
E de mão dada.
E há dor,
E há sacrifícios,
E há homens valentes
Que se jogam ao mar.
E há ventos contrários
E procelas terríveis
E os nautas navegam
Serenos e devagar
Vendo-se, no horizonte,
Amantes e impassíveis.
E chegam fogos,
E ondas de engolir,
E estes nautas
Não sabem fugir
E desconhecem os jogos
Da palavra arremessada.
Fica só uma mão na outra
Junto d’amurada.
É como um mar,
Revolto e encapelado,
O curso da felicidade.
Quem não morra de saudade,
Quem não sofra de medo,
É como se não tivesse amado.
No fim da borrasca,
No fim da poeira no caminho
E da nau atormentada,
Fica o nauta sozinho
E os amantes n’amurada…
De mão dada.

jpv


Deixe um comentário

Heaven

Heaven is a place
In your eyes
And that’s
Where happiness lies.
You gave no reasons,
Nor said how or why.
You just took my heart
By the end of July.
A godess coming from above
To teach me
The very fine art
Of lust and love.

jpv