Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Canon


Uma metáfora no olhar.
Um regato a murmurar.

Uma onomatopeia na voz.
Um som que ecoa em nós.

Uma antítese nos lábios.
Palavras loucas
E conselhos sábios.

Uma aliteração nos seios.
Suaves contornos
E serenos anseios.

Uma personificação na cintura.
Movimento de sedução e loucura.

Uma perífrase nas pernas.
Passada longa e antiga,
Formas modernas.

Uma sinédoque nas mãos.
A parte e o todo
Em rituais sagrados
E desejos pagãos.

E um oximoro no sexo.
Prender-te e soltar-te,
Possuir-te e ser possuído
No vórtice da coerência sem nexo.

jpv


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Inside Out


Cá fora é uma coisa.
Aí dentro é outra coisa mais linda.
É o tempo que não finda,
A carícia que persiste,
O olhar que contempla
E a voz que insiste
Em mostrar-me a eternidade.
Não há espaço,
Nem idade…
Só o olhar,
A carícia,
O desenho da emoção que impera.
A dor da suave espera.
Não magoa nem perturba
Esperar por ti.
Num átomo de tempo estarás aqui.
O que magoa
É a tua ausência.
A luz, a palavra,
O riso e a Ciência
Da Fé.
Magoa não sentir
O odor do teu corpo.
Não estares aqui
É jazer frio e morto
À espera que a vida se refaça.
O tempo passa
E a espera esfuma-se em nada.
A tua ausência, contudo,
Não pode ser apagada
Porque não se apaga das coisas
A essência.
Do amor,
Os amantes.
Do riso,
O espírito.
Do olhar,
A luz.
Do sexo,
O corpo que seduz.
Da palavra,
O ímpeto e a ternura.
Do gesto,
A intenção mais pura.
Cá fora é uma coisa,
Pobre e vazia.
Uma noite
Sem aurora nem dia.
Aí dentro é outra coisa mais linda,
O amor que não finda.
O poder todo do Universo
Num simples e singelo verso.
Aí dentro
Há um infinito.
Um silêncio
E um grito
Onde renasço,
Onde cresço
E habito.
Aí dentro…

jpv


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Três Mil e Seiscentos


Uma hora.
Sessenta minutos.
Três mil e seiscentos segundos.
Cada um deles
É uma eternidade,
Um tempo estrutural,
Uma fundação.
Um barquinho no temporal,
A minha mão
Na tua mão.
Cada segundo,
Não sendo nada para o mundo,
É um poço sem fundo
No amor que te tenho.
Não conheço o mapa,
Nunca vi o desenho
De estar contigo,
Mas sei este clamor,
Conheço esta força
E esta pujança
A cavalgarem-me a emoção
Quando,
Em um de três mil seiscentos,
A minha mão
Não encontra a tua mão.

jpv


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Multiculturalidade

Mails para a minha Irmã tem muito, e cada vez mais, orgulho nos seus leitores, na sua multiculturalidade.

Este quadro reflete a localização de quem leu MPMI num dia desta semana.

Obrigado, Amigos e Leitores.

jpv


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Se…

Se soubesses, meu amor,
O quanto gosto de ti.
Se ao menos conseguisses imaginar
Todos os peixinhos que há no mar,
Nesse oceano sem fim,
E quantas estrelas há no céu…
Saberias uma centelha
Das razões por que sou teu.

jpv


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A Tatuagem do Caminhante

Uma voz interior
Acorda um clamor
Dentro do peito exangue.
Uma ave corta o céu
No azul que brilha sobre a mão.
Informes, as nuvens
Desenham futuros em vão.

É uma planície
E é um terreno acidentado
E montanhoso.
É um jovem fogoso
E um velho decrépito a morrer.
E não sabe o velho porque não viveu,
Não sabe o jovem porque não vai viver.
É uma dúvida nua
Cravada no pensamento.
E ter o tempo todo
E gastá-lo como se não houvera mais tempo.
É uma coisa indizível
Sem palavras para a desenhar.
E é outra coisa, igualmente perecível,
Com todos os verbos no lugar.
É um rebentamento devastador
E uma música dolente
No horizonte distante.
É um homem-estátua
Rindo-se do caminhante.

A voz é agora um grito
E o pássaro livre procura, aflito,
Onde emudecer sossegado.
É uma estrada de terra vermelha
Tomando conta do chão macadamizado.
E o caminhante passa descalço,
Pés rasgados a arder,
Continua a rir-se o homem-estátua,
Inerte e imutável, sem Saber
E sem ignorância também.
Ri-se com desdém do desdém
Do olhar azul e altivo
Do caminhante só e cativo
De si e do Conhecimento.

Calou-se a voz interior.
Desfez-se o terreno acidentado.
Morreu o jovem ignaro
E foi a sepultar o velho abandonado.
Não há, já, dúvida,
Nem palavras para a vestir.
Não há música,
Nem homem-estátua a rir.
Só a estrada,
Um cavalo alado que dança,
O asfalto fervente,
A imensidão do vazio
E a linha magra e infinita
Na frente do caminhante
Que sorri de esperança.

jpv


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De Rerum Natura

Rosa do Deserto denominada “Bárbara Dias”

Não é…

Este texto não é sobre a Covid-19. É sobre coisas realmente importantes. Não são urgentes. São importantes. Não são mediáticas nem vão vender jornais ou fazer subir audiências. São só importantes. E o que é importante, hoje, tem muito pouca importância.

Não é porque não reajo que não vejo o que fazeis ao meu redor. Como vos reunis à volta da minha carne e farejais o sangue. Eu vejo. Não reagir é uma opção consciente e calculada. É um gesto de preservação da minha serenidade e da minha paz. Só depende de mim. Oiço música tranquila, neste momento em que escrevo à brisa de uma sombra fresca. E ninguém, nem nada, me tira isso. Não estou interessado em mais nada. Só na brisa e na frescura da sombra.

Não é porque não me insurjo que não percebo a injustiça e a ignomínia. Como conjurais com base em argumentos falaciosos construídos com conhecimento quase nulo de coisa nenhuma. Eu percebo. Mas não sinto. Não sentir é uma opção consciente e calculada. Nada do que digais ou façais tem o poder de, sequer, bater-me à porta da consciência tranquila em que me cerro e encerro.

Não é porque não veja o afastamento delicado e maquinado que não o denuncio. Eu vejo bem todo o direito e todo o avesso conjurado da trama. Sei por onde passa, para onde vai e que objetivos tem. Não denunciar é uma opção consciente e calculada. Porque, ao contrário de vós, eu já sou feliz e não careço da conjura para realizar-me e ser o que já sou. Porque a minha paz não se alimenta dessa matéria pútrida e fétida que alimenta a vossa existência. Por vezes, é melhor não existir do que cheirar mal. É melhor deixar correr os rios de lama do que cais na inglória e vã intenção de pôr-lhes diques. A lama corre sempre.

Aqui, onde me encontro, chegam sons da Natureza e dos Homens e a brisa e a sombra fresca e afetos simples e caseiros. Aqui, chega o tempo de ter tempo, chega a paz da contemplação e nada abaixo disso trepa os muros que lhe coloquei à volta. Neste Olimpo de serenidade, a conjura não tem como formar-se, crescer e subir porque é de outro universo. Um universo que não se cruza com este. Correm realmente paralelos.

Ainda há pouco aqui veio Deus perguntar-me o que mais queria para ser feliz, quem queria que resgatasse ou condenasse, um desejo só, que falasse e concretizar-se-ia. Vai pelos outros e dá-lhes do meu viver, disse-Lhe. E Deus foi, amuado e com um sorriso semi-desenhado na face imprecisa. Foi educado. Pediu desculpa por interromper. Eu fiz-Lhe um aceno desajeitado e reconfinei-me à minha efémera, perecível e doce felicidade. A felicidade de quem assoma à proa da vida e conduz o Destino de forma consciente e calculada. Esse nauta vê a borrasca no horizonte e vê-a aproximar-se e passa por ela e recupera o sol na pele e o céu limpo a fundir-se com o mar no olhar. Não se debate com a ondulação enfurecida. Navega-a, impassível e imperturbável. Sem hesitação nem temor. É que o nauta tem um segredo. Sabe onde fica o porto seguro. E tem uma bússola no coração. E tem um sextante na alma.

Não é porque não vejo a rebentação feroz das ondas na tempestade que não me debato com elas. Não debater-me com elas é uma opção consciente e calculada.

jpv


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Segunda Pessoa do Singular

Uma volta
Circular e simbólica.
Uma doença
Persistente e diabólica.
Uma mudança
Surpreendente e brutal.
Uma paixão
Arrebatadora e total.
Outra volta,
Oculta e interior.
Um caminho
De harmonia e amor.
Outra doença,
Cruel e visceral.
Outra paixão,
Terna e pueril.
Um olhar a cem,
Um coração a mil.
Outra volta ainda
Em torno da decisão
Porque a roda não finda
E não pára o coração.
Um ano,
E outro ano também.
Um tempo de não ser ninguém,
Outro tempo de renascer alguém.
Uma palavra ecoa
No espaço límpido e nu
E a palavra és tu.

jpv


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ANIVERSÁRIO

Este ano, mais precisamente a 31 de agosto, fiz um daqueles aniversários que ninguém nota, mas que, bem vistas as coisas, é dos que mais conta.

Completaram-se trinta anos desde que assinei o meu primeiro contrato como docente. Trinta anos de docência. Trinta anos de ser professor. Trinta anos de setôr. Trinta anos de dedicação, entrega, investigação, empenho, superação de muitas dificuldades. Trinta anos de desilusões. Trinta anos de milagres, de conquistas, de muito reconhecimento. Trinta anos de juventude. Trinta anos de dar incondicionalmente e receber surpreendentemente. Trinta anos de olhares, de dedos no ar, de dúvidas tiradas e por tirar. Trinta anos do melhor do mundo e também dos seus encarregados de educação preocupados e exigentes como se tivessem o bem mais precioso na mão. E tinham. Trinta anos de testes, de noites mal dormidas, de reuniões, de pautas e atas. Trinta anos de medos e inseguranças e algumas certezas, poucas, e muita determinação. Trinta anos a dizer Sim e trinta anos a dizer Não. Trinta anos de Estatuto da Carreira Docente. Por curiosidade, assinalo que nasci para esta profissão no ano em que nasceu o seu mais importante instrumento legal. Somos irmãos. Talvez por isso tenha feito questão, sempre, de o conhecer bem.

Só assinei dois contratos. Em 1990 e em 1992. Só trabalhei em cinco escolas. Francisco Rodrigues Lobo, Leiria, um ano; Jácome Ratton, Tomar, um ano; EB 2,3 Luís de Camões, Constância, dois anos; Secundária de Alcanena, Alcanena, dezoito anos; Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo, oito anos. Tive centenas de turmas, milhares de alunos, orientei muitos estágios e dei formação a milhares de professores. Fui dirigente sindical durante sete anos sem nunca ter deixado de dar aulas. Fui Diretor de Serviços da Formação do Pessoal Docente no Ministério da Educação entre 2010 e 2012, os dois únicos anos da minha carreira profissional em que não dei aulas. Fiz um mestrado, um curso de especialização, duas pós-graduações, centenas de ações de formação, seminários, congressos, sessões de esclarecimento e eventos, preparei e dei milhares e milhares de aulas e tenho o humilde sentimento do dever cumprido de forma honesta, dedicada, briosa e o mais competente que soube e pude. Nunca deixei de honrar os termos do meu contrato. Estou agradecido. Estarei sempre. Foi o Ministério que me permitiu ser e fazer aquilo que mais gosto, que mais amo.

Por parte do Ministério da Educação não estava à espera de nenhuma medalha, nenhum relógio de ouro, nem um diploma. Não fiz o que fiz à espera de nada mais do que aquilo que estava acordado: eu dava o meu melhor e, em troca, recebia o meu salário. E foi o que fiz. Fui um profissional do Ensino. Acontece que, nesta profissão, não basta ser-se profissional. Não basta, sequer, ser-se um bom profissional. É preciso estar-se atento a cada detalhe, ser-se de uma dedicação extrema, trabalhar muito mais para além das horas pagas, fazer muito mais do que exige o perfil funcional, sofrer, com estoicismo, alguma incompreensão e desconhecimento alheios, mas tudo, rigorosamente tudo, deixa de ter qualquer importância quando um aluno progride e obtém sucesso, quando descobre, quando vê para além do que cria ser possível. Ainda assim, um cartãozinho, por singelo que fosse, um mail, mesmo anónimo e impessoal, com uma frase inócua a espelhar um lugar-comum repassado como aquelas imagens com máximas que circulam pelas redes sociais. Ao menos isso ter-me-ia feito sentir que contava para alguma coisa, que fazia parte de um qualquer desígnio nacional. Afinal, não faço. Andamos para aqui todos a dar o nosso melhor, descomandados, cada um por si… quanto não se ganharia se as coisas fossem diferentes.

Faria algumas coisas diferentes, mas não carrego arrependimentos às costas. Tive dias bons e dias maus. Alunos dedicados e alunos cábulas. Tive os que se esforçaram ao máximo para conseguirem e tive os que conseguiram quase sem esforço. Tive os tímidos e os reservados, os tagarelas, os irrequietos, os que estavam sempre com o braço no ar e os que baixavam os olhos só de suspeitarem que podia perguntar-lhes algo. Tive os que pasmavam com a descoberta e o Conhecimento e tive os que não queriam saber do Conhecimento para nada. Tive colegas cooperantes e colegas indiferentes. Tive os que olhavam para mim e viam uma oportunidade de trabalho e também tive aqueles que não viram em mim nada mais do que um motivo de mexerico. Penso que é normal. Penso que a Escola é erradamente vista como um ambiente à parte, in vitro, onde se preparam os alunos para a vida quando ela é, de facto, a vida a acontecer em todo o seu esplendor, todas as suas virtudes e as vicissitudes também.

Ser professor é fazer parte de um processo de crescimento, é operar um milagre e poder fazê-lo conduzindo o milagre para o porto seguro que queremos e sabemos que existe e sabemos, até, como chegar até lá. Ser professor é um privilégio. É pertencer à profissão das profissões, uma das mais mal tratadas e, simultânea e ironicamente, uma das mais estruturantes e fundamentais. Nestes trinta anos, vi muita coisa boa acontecer à carreira docente, mas vi, também, muita degradação das condições de exercício e muita degradação da imagem da profissão.

E chego aqui vivendo um paradoxo esquisito. Não sonho com mais trinta anos de carreira, mas também não anseio pela aposentação. Ao cabo de trinta anos, sei pouco e o pouco que sei resume-se a isto: os alunos são o que realmente interessa e vale a pena em todo este processo. Tenho de agradecer-lhes por me terem ensinado tanto nestes trinta anos e por terem dado sentido à minha vida e à minha existência e não me refiro somente à profissional. Muito do que somos passa pelo que fazemos profissionalmente e, se posso considerar-me, hoje, um homem feliz, isso deve-se, em grandíssima parte, ao facto de ter optado consciente e apaixonadamente por esta profissão. A única que conheço. A única que quis sempre conhecer.

joão paulo videira