Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Que tipo de aulas?

Quando tinha uma aula para preparar, ou um conjunto de aulas, tinha sempre pela frente diversas opções. Agora, já não perco tempo. É uma mistura saudável das opções disponíveis. Assim…

Foto por Cláudia. Pedrógão.

Aula expositiva: útil para introduzir conceitos, clarificar definições e modelar pensamento. Usar de forma focada e curta, não como único método. Mas não esqueça, a arte de ser um bom apresentador é fundamental.

Aula com apresentação: bom suporte visual e organizacional, vulgo, PowerPoint, serve muito bem para destacar pontos-chave, imagens e esquemas. Evita excesso de texto. Deve ser usado como apoio, não como roteiro.

Aula com recurso ao manual: importante para alinhamento curricular, exercícios e referência. Bom quando combinado com actividades que promovam compreensão ativa. Por outro lado, é um recurso que uniformiza as opções. Já fui muito contra os manuais. Agora, não os largo.

Misturar: Exposição direta (introdução), atividades ativas, discussões, resolução de problemas, microensino, uso de materiais, manual, leituras, e uma síntese ou avaliação.

Princípio: alterna momentos de explicação, aplicação e reflexão.

Avaliação formativa constante: microaulas, feedback e portfólios.

Bem se vê que sou mais pelas aulas mistas! Satisfeitos??

Aceitam-se comentários …

jpv


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Testes, ou não?

A Metodologia da testagem é muito antiga. Recorre aos testes tipo resposta única que Henry Ford implementou nas suas fábricas de automóveis. Além do mais, eram muito mais fáceis de corrigir. Com uma régua deixavam-so só as quadrículas assinaladas visíveis. Estando todas as outras incorretas.

Isto veio dar resposta a um problema sentido no meio da escola. O da massificação e o da necessidade da padaronização. Ora, entrando no tempo e espaço, ocidente e desde o início do século XXI.

No passado temos três grandes escolas. chinesa que recorria a testes para funcionários públicos, a grega e a romana, onde se faziam declarações e demonstrações práticas do saber organizado.

Ou seja os nossos testes nasceram para avaliar mecânicos de automóvel. Com algumas adaptações e recurso a muitas desculpas, chegámos à testagem dos dias de hoje, que não é moderna, nem eficiente, nem avalia nada.

Que fazer então? Cada aula deve ser um motor de conhecimento e aproveitando o currículo, como está, tentar ao máximo diluí-lo dentro das áreas do saber.

E os pais onde são tidos na escola? Para escutar os verdadeiros sabedores das matérias. Há coisas que quando funcionam não se mexe. Uma equipa que joga com o futebol e uma escola que tem bons profissionais.

E é na bondade destes profissionais que vai ser preciso investir. Ao contrário do que se está a fazer completamente. Num país em que a minha forma de avaliar o pão deve ser se ele é bom à mesa, do mesmo modo, a minha forma de avaliar um bom aluno deve ser se ele é bom no que faz.

Dixit.

jpv


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Do AVC – 9/9

Foto por Cláudia. Maputo.

O que um AVC pode ter de bom.

Ter um AVC tem as suas vantagens ou, se quisermos melhor, tem as coisas que são certo fazer desde que tenhamos uma pessoa com AVC à frente, isto quer dizer que as vantagens, às vezes, não são vantagens, são o mínimo que a sociedade pode fazer pelo AVC.

No meu caso, o que eu mais notei como vantagens foi o seguinte:

Em primeiro lugar, eu pude servir exemplo. Uma vez recuperado, eu disse a muita gente o que não deviam fazer, quais eram as principais causas de AVC e a propósito disto dei um conjunto de palestras. Isto é uma vantagem e que acho que se torna normal as pessoas ouvirem-me.

Em segundo lugar, há coisas muito simples como por exemplo ficar à frente nas filas porque de facto o AVC é uma coisa que gera alguma impaciência e como tal é bom poder passar à frente.

Também fiquei com um papelinho de prioridade quando as filas não são filas são os números que nos atribuem quando chegamos um sítio com várias pessoas para atender.

Em terceiro lugar, estaciona-se onde se quiser. Naqueles locais com os lugares marcados, é evidente que as pessoas têm rapidamente como estacionar.

Em quarto lugar, tive vantagens nos impostos ao nível do IVA e ao nível do IRS.

Em quinto lugar, eu tive que dizer sempre que que tive um AVC, mas isto tem uma vantagem é que as pessoas esperarem que eu acabe de falar e, de facto, não costumam interromper.

Em quinto lugar, tive a simpatia dos portugueses, isto é muito importante, um grupo de doentes ter a simpatia dos seus homólogos.

Em sexto lugar, quando entramos num hospital e tivemos um AVC, todas as portas se abrem rapidamente e todos os serviços ficam disponíveis.

Sétimo, muito importante, mesmo muito importante, a empatia dos médicos foi crucial. Esta empatia, este fazer para que eu me senti-se bem, esta nota de não culpa, porque não é culpa de ninguém que eu tenha tido um AVC.

Por fim, adorei, e repito adorei, a admiração dos meus alunos pela forma como me receberam.

E os meus colegas foram insubstituíveis, foram o máximo no facto de me receberem e de me considerarem um seu igual. Isto não tem preço, se calhar tem a ver com esta escola, se calhar não, mas o certo é que se comportaram como pessoas sensíveis.

Os cuidados prestados pela família, em particular a Cláudia, para quem o AVC também foi uma forma de aprendizagem.

Eu acho que ter um AVC é uma coisa má, muito má, mas se soubermos estar atentos conseguimos tirar muitas vantagens dessa coisa má. À partida, o facto ter um AVC permitiu-me de alguma forma estar no centro do mundo e explicar aos outros o que era um AVC. Isto pode ter um efeito preventivo, como pode ter um efeito pedagógico.

Eu sinto-me bem como um ex-AVC e espero que as pessoas me continuem a compreender e me continuem a amar.

jpv


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Do AVC – 8/9

Foto por Jafete. Composição.

Mudamos o nosso olhar sobre os outros

Os mais novos são tidos com o sendo mais impacientes, é como se fossem uma versão de nós há muitos séculos atrás.

É preciso dar-lhes essa atenção, mas conjugá-la com paciência. Ás vezes, não têm razão só porque estão muito apressados, ou demasiado à frente.

É preciso ter a dor de dar a vez em vez de tomar a luz para os corrigir. E, assim, eventualmente, marcamos um calendário.

E é preciso ter paciência para com os que nos tratam mal. Não acredito que haja alguém com a intenção de fazer mal a um AVC. Mas o desconhecimento e a incompreensão do que se passa em determinada situação pode levar isso.

Os AVC tem o dom da paciência porque já viram tudo, em particular, a morte a bater à porta

jpv


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Do AVC – 7/9

Foto por jpv. Leiria.

Pensamos a vida numa outra perspetiva

Por vezes, há um certo tom de acalmia, Vê lá tens de viver com calma, é preciso distinguir entre estas duas coisas. Uma é viver com mais, como se fossemos uns colecionadores de tempo, outra é viver melhor, no sentido de que cada momento contar. Nós, vítimas de AVC, queremos viver melhor.

Entre a minha casa e o mar distam quatro quilómetros e às vezes vamos ver o mar, mas é tanta coisa até chegar junto dele. Uma infinidade de pássaros que conta, o sol, as nuvens, a companhia, tudo tem de ser mais lento para que se viva, efetivamente, mais.

Há, sobretudo nos jovens, uma ânsia de conquistar. Conquistar uma paisagem não vista e um animal raro. Isso será bom, não duvido, mas há muito que perdemos o gosto pelo conquistado. Aquilo que já é nosso e nos resta saborear. Assim, como uma sombra no meu quintal.

Depois, há a emergência dos projetos. Tantos planos se fazem. E esgota-se, por entre as mãos, num instante miraculoso, só no momento. Tudo é mais urgente, se for vivido com calma. A pressa não é uma urgência. Porque é um desperdício. Urgente é viver um momento de cada vez isso e saboreá-lo até não poder mais.

jpv


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Do AVC – 6/9

Foto por Cláudia. Pedrógão.

Estamos, para sempre, doentes.

Não vale a pena lutar contra isto. Não vai valer a pena. Vale mais afirmar-se pelo que se é capaz de fazer, do que tentar provar que não está doente. Uma vítima de AVC é para sempre um doente. Ele pode fazer o pino, tocar piano, enquanto joga a bola e joga xadrez, ele será, sempre, um doente de AVC. Aquilo pega-se à pele, como uma outra pele.

O afastamento de que somos alvo, para nosso bem, a notícia que ficou para que o fim, aquele acertar de passo que os colegas têm no corredor, Estás melhor? Como tu estás a sentir-te, hoje? Estás cansadito, não é? Façamos o que façamos, há está reposta que está por detrás destas perguntas que vão surgindo no cotidiano? O AVC.

Estão a ver aquelas placazinhas que as pessoas trazem ao peito, eu acho que deveria haver uma que dissesse AVC e pusesse na lapela. Muitas questões havia de evitar. Pelo menos, para quem gosta de fingir as questões.

jpv


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Do AVC – 5/9

Foto por Cláudia. Coimbrão.

Nunca mais seremos dignos de confiança

As pequenas coisas que marcam o nosso dia a dia. Os outros confiam como se percebêssemos muito de um assunto mas, na verdade, são só coisas que pautam a nossa existência. Ora, quando passamos por um AVC é como se tivessemos de fazer um exame sobre essas pequenas coisas

Conduzir um automóvel? Quem vem connosco? Quem tem coragem de vir connosco? E quando dizemos que tivemos um AVC durante a viagem agarram-se muito agarradinhos.

Ele esqueceu-se ou é mesmo assim? Nós, doentes do AVC, podemos ter perdas de memória, mas não nos tornamos uns desmemoriados. Eu tive uma a fazia grave. É normal que me esqueça de uma outra palavra, mas no discurso fluente que eu diria que ninguém nota diferença.

Passwords? Seja numa escola, seja no multibanco, às vezes hesitamos. É só darem-nos um pouco mais de tempo. Elas vão vir.

Quem é? Deixamos de ter um cuidado tão grande com as folhas de Excel, e com as listas de alunos. Nós sabemos quem eles são. Sem problemas mas não nos peçam para identificar os todos.

Para já, ficam aqui algumas das experiências quanto à memória. Quando passo por estas coisas, fico sempre a pensar que num AVC ninguém confia.

jpv


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Do AVC – 4/9

Universidade de Coimbra

Os outros mudam o olhar sobre nós

Indulgência. Condescendência. Tolerância.

É isto. É só uma coisa. Uso as três palavras porque são as mais usadas, parecidas pelo menos. Não ao pé de nós. Nunca dizem. A primeira forma de condescendência é, Coitado nunca mais será o mesmo. Ou pior. Há mesmo os que vão mais longe, Coitado nunca mais será o mesmo qualquer dia dá-lhe um enfarte. Diz-se tanta coisa. Pensa-se tanta coisa. E quase todas são erradas. Precipitadas. Mesmo quando feitas por bem.

Há os que não estão contra nós. Ignoram-nos. Por exemplo, há pessoas que nem sabem o que quer dizer AVC. E é a doença que mais mata em Portugal. Estão ocupados com as suas vidas. Há outras pessoas que sabem muito bem. Tão bem que até querem distância. Tive uma série de amigos que deixaram de o ser. Deixaram de me visitar. Fizeram de conta que estava morto. Depois há os que nos discriminam porque se o tivemos é porque comíamos demais. E eu a apetecer-me dizer que, É um AVC provocado pelo sono, palerma.

Muitas pessoas também me deram distância. E houve outras que até um processo disciplinar me abriram. Por acaso, eu não sabia bem o que era um processo disciplinar. Mas em frente. Depois há os que não entendem porque é que tenho menos turmas, considerando menos turmas a três que tenho. E eu não disse nada. Fui recuperando e desejando que tudo melhorasse. Assim como melhorou. E, por fim, há quem não compreenda o tempo que não tenho mais aulas. Estranham o facto de só ter três turmas. Como se fosse a mesma coisa. Como se o meu cérebro respondesse à mesma velocidade. É preciso descansar entre aulas. E o estar cansado é muito mais fácil de conseguir. É uma incapacidade que sentimos e nos corrói a alma. É algo que não se anuncia.

Num determinado dia, não interessa qual, eu fico muito cansado. Mas o corpo resiste. Quando chego a casa, só quero é dormir. E durmo. Nós somos vítimas de nada. Mas cansamo-nos. Uma TV ligada, às vezes, é o suficiente. Assim como uma pessoa. Um tom de voz. Não são vinte e quatro. É só uma. Mas somos fortes.

E depois, quem tem uma escola como eu tenho, onde impera a camaradagem e as pessoas fazem questão de saber, questão, efetivamente, de saber, como estou, tudo fica mais fácil. Sim.

Os outros mudam o olhar sobre nós, mas não há muito a fazer quando isso. É assim. Tenho de me inteirar que agora não sou o professor João Paulo Videira. Agora, sou só o professor João Paulo Videira. Houve tempos em que as pessoas abriam alas para eu passar. Agora, sou só mais um. Provavelmente, nem deveria de o ter deixado de ser.

jpv