Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Do AVC – 6/9

Foto por Cláudia. Pedrógão.

Estamos, para sempre, doentes.

Não vale a pena lutar contra isto. Não vai valer a pena. Vale mais afirmar-se pelo que se é capaz de fazer, do que tentar provar que não está doente. Uma vítima de AVC é para sempre um doente. Ele pode fazer o pino, tocar piano, enquanto joga a bola e joga xadrez, ele será, sempre, um doente de AVC. Aquilo pega-se à pele, como uma outra pele.

O afastamento de que somos alvo, para nosso bem, a notícia que ficou para que o fim, aquele acertar de passo que os colegas têm no corredor, Estás melhor? Como tu estás a sentir-te, hoje? Estás cansadito, não é? Façamos o que façamos, há está reposta que está por detrás destas perguntas que vão surgindo no cotidiano? O AVC.

Estão a ver aquelas placazinhas que as pessoas trazem ao peito, eu acho que deveria haver uma que dissesse AVC e pusesse na lapela. Muitas questões havia de evitar. Pelo menos, para quem gosta de fingir as questões.

jpv


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Do AVC – 5/9

Foto por Cláudia. Coimbrão.

Nunca mais seremos dignos de confiança

As pequenas coisas que marcam o nosso dia a dia. Os outros confiam como se percebêssemos muito de um assunto mas, na verdade, são só coisas que pautam a nossa existência. Ora, quando passamos por um AVC é como se tivessemos de fazer um exame sobre essas pequenas coisas

Conduzir um automóvel? Quem vem connosco? Quem tem coragem de vir connosco? E quando dizemos que tivemos um AVC durante a viagem agarram-se muito agarradinhos.

Ele esqueceu-se ou é mesmo assim? Nós, doentes do AVC, podemos ter perdas de memória, mas não nos tornamos uns desmemoriados. Eu tive uma a fazia grave. É normal que me esqueça de uma outra palavra, mas no discurso fluente que eu diria que ninguém nota diferença.

Passwords? Seja numa escola, seja no multibanco, às vezes hesitamos. É só darem-nos um pouco mais de tempo. Elas vão vir.

Quem é? Deixamos de ter um cuidado tão grande com as folhas de Excel, e com as listas de alunos. Nós sabemos quem eles são. Sem problemas mas não nos peçam para identificar os todos.

Para já, ficam aqui algumas das experiências quanto à memória. Quando passo por estas coisas, fico sempre a pensar que num AVC ninguém confia.

jpv


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Do AVC – 4/9

Universidade de Coimbra

Os outros mudam o olhar sobre nós

Indulgência. Condescendência. Tolerância.

É isto. É só uma coisa. Uso as três palavras porque são as mais usadas, parecidas pelo menos. Não ao pé de nós. Nunca dizem. A primeira forma de condescendência é, Coitado nunca mais será o mesmo. Ou pior. Há mesmo os que vão mais longe, Coitado nunca mais será o mesmo qualquer dia dá-lhe um enfarte. Diz-se tanta coisa. Pensa-se tanta coisa. E quase todas são erradas. Precipitadas. Mesmo quando feitas por bem.

Há os que não estão contra nós. Ignoram-nos. Por exemplo, há pessoas que nem sabem o que quer dizer AVC. E é a doença que mais mata em Portugal. Estão ocupados com as suas vidas. Há outras pessoas que sabem muito bem. Tão bem que até querem distância. Tive uma série de amigos que deixaram de o ser. Deixaram de me visitar. Fizeram de conta que estava morto. Depois há os que nos discriminam porque se o tivemos é porque comíamos demais. E eu a apetecer-me dizer que, É um AVC provocado pelo sono, palerma.

Muitas pessoas também me deram distância. E houve outras que até um processo disciplinar me abriram. Por acaso, eu não sabia bem o que era um processo disciplinar. Mas em frente. Depois há os que não entendem porque é que tenho menos turmas, considerando menos turmas a três que tenho. E eu não disse nada. Fui recuperando e desejando que tudo melhorasse. Assim como melhorou. E, por fim, há quem não compreenda o tempo que não tenho mais aulas. Estranham o facto de só ter três turmas. Como se fosse a mesma coisa. Como se o meu cérebro respondesse à mesma velocidade. É preciso descansar entre aulas. E o estar cansado é muito mais fácil de conseguir. É uma incapacidade que sentimos e nos corrói a alma. É algo que não se anuncia.

Num determinado dia, não interessa qual, eu fico muito cansado. Mas o corpo resiste. Quando chego a casa, só quero é dormir. E durmo. Nós somos vítimas de nada. Mas cansamo-nos. Uma TV ligada, às vezes, é o suficiente. Assim como uma pessoa. Um tom de voz. Não são vinte e quatro. É só uma. Mas somos fortes.

E depois, quem tem uma escola como eu tenho, onde impera a camaradagem e as pessoas fazem questão de saber, questão, efetivamente, de saber, como estou, tudo fica mais fácil. Sim.

Os outros mudam o olhar sobre nós, mas não há muito a fazer quando isso. É assim. Tenho de me inteirar que agora não sou o professor João Paulo Videira. Agora, sou só o professor João Paulo Videira. Houve tempos em que as pessoas abriam alas para eu passar. Agora, sou só mais um. Provavelmente, nem deveria de o ter deixado de ser.

jpv