Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Como Cão Tinhoso

Refém de teus abraços,
Prisioneiro voluntário
Em teus braços,
Homem só e desolado
No mar de sargaços
Que era a vida sem ti.
Corri.
Fugi de mim
Como de uma pestilência,
E só na minha própria ausência
Me reencontrei
E defini a pureza
Da essência
De um eu vago
E imprecisamente desenhado
Como num sonho
Interrompido e inacabado.
E, contudo, sonhei.
Há homens
Que não dormem
Para não sonhar
Com medo dos sonhos.
Há homens
Que não ousam o amor.
Tal o pânico
E o pavor
De o viver.
Chão inóspito,
De fertilidade suspeita,
O amor oferece e dá,
Mas também aceita.
Carícia estendida
Ao cão tinhoso
Que corre e foge
Porque não sabe
Que existe outra coisa
Para lá da pedra arremessada.
A ausência
Da violenta contundência
Do calhau
É desconhecido, vazio e nada.

jpv


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A verdade… por outras palavras!

– Eu sou careca, baixo, gordo e feio…

– O setôr não é gordo…

– Pois não. O setôr é barrigudo, mas não é gordo!


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A Savelha

Savelha do rio.

Era uma vez um queixinhas
Que andava pela orla do rio
A pescar.
Veio um crocodilo e engoliu-o.
Nunca mais ninguém o viu,
Nas margens do rio.
O salmão ficou triste
E sozinho
E correu-lhe um arrepio
Pelas espinhas
Com saudades do queixinhas.
Temia o salmão que,
Sem o queixume,
Se tresmalhasse o cardume.
Mas pouco tempo receou.
Logo, logo, por ali passou
Uma savelha muito velha
Que se aproximou do salmão
Para lhe dar notícias,
Em primeira mão,
Que nadavam
De orelha em orelha.
E foi assim que,
Engolido o queixinhas,
Começou o reinado da savelha.
Bem me dizia meu pai,
Com ar de enfado e arrufo,
Que Portugal jamais iria à falência
Por falta de um bufo!

jpv


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Nha Terra

Cabo Verde, Ilha de Santiago, Praia do Tarrafal.

É Cabo, mas não tem cabo.
É Verde, mas não tem sempre verde.
É país, mas tem países.
É Língua, mas tem Línguas.
É luz intensa
E chão escuro.
Meneio da anca.
Ritmo no corpo
Que sofre o trabalho duro.
É paisagem que surpreende.
Floresta densa,
Solo de lua,
Marte ardente,
E postal de praia que vende.
É um vulcão esquecido
E outro que não se pode esquecer.
É sabor de peixe
E catxupa no dia seguinte.
É terra de pessoas ki bai
É terra de pessoas ki bem.
É um sorriso
E uma cara cerrada.
É um deambular
Junto ao mar
Numa Praia ornada
De diferenças.
É gente de pose orgulhosa
E rápidas sentenças.
É uma alegria contagiante
E uma antiga dor.
É o sal queimando
Na pele do pescador.
É uma morna dolente
Que paira no ar,
Um corpo ardente
Colado ao outro
Quase a dançar.
É saudade em cada frase.
É História forte e presente.
São amores perdidos
E gente ausente.
E é uma força e uma glória,
Um grito nacional no peito,
Pronto a sair.
É uma irmandade
Na Língua
E no sentir.
Cabo Verde,
Terra de chegar e partir.

jpv




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Da Essência

Já não meço o tempo.
Já não conto os dias,
Nem as semanas,
Nem os meses,
Nem os anos…
Já não conto as pessoas que passam,
Nem peso as palavras nas frases.
Já não me detenho pelo comum,
Nem faço vénias à ignorância,
Embora também já não a corrija…
Já não quero tudo,
Nem muito,
Nem pouco.
Quero só o que quero.
Seleciono.
Separo.
Deixo passar, livres,
Os rios de lama,
E sorrio
À sua desventura.
Como cheguei aqui
Importa pouco.
Sou um estilhaço de nada.
Trouxe algumas pessoas,
Um punhado de memórias.
Árvores de errância plantadas
E livros escritos ao sabor do acaso.
Não sou escritor.
Desenho coisas com palavras
Escolhidas sem critério.
Não sou professor.
Ensino a vida
A vidas que me hão de sobreviver.
Não sou pai.
Sou filho de meu pai
E de meu filho também.
Não sou marido.
Sou imensamente amado
Por um raio de luz
Que me colheu de surpresa.
Não sou nada…
Talvez nunca tenha sido.
Talvez nunca tenha querido ser.
Amo a brisa
E os beijos escaldantes da musa
Com quem partilho a cama
E o olhar.
Amo o filho, a filha, os netos…
Fontes de todos os afetos…
Amo estar.
Amo observar.
Amo as palavras
E o sentido que dão
Às coisas sem sentido.
Amo.
Já não desejo que acreditem
Em mim.
Nem, tão pouco, que gostem de mim.
Fico-me pela breve partilha
De um tinto,
De uma conversa casual e vadia,
De uma roda de amigos
À volta de um lume crepitante.
Recolho-me no canto de um sofá
E na penumbra de uma árvore
De pensamentos que rego
Em silêncio.
E depois,
No fim de todas estas
Indispensabilidades,
Sobra muito pouco desta vida
E desta idade.
E o que fica
É uma qualquer ideia
Indefinida e essencial.

jpv


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Eco

Foto retirada do grupo do FB ” The best of Krüger”

Naqueles restos de papel
Imperfeitos
Que sempre ficam agarrados
Ao caderno
Quando se arranca a página,
Persiste a memória
Da folha inteira…
Do tempo da imaculada perfeição
Antes do primeiro traço.
Todo o homem
É uma página arrancada,
Rasgada,
Riscada na ânsia do abraço.
Todo o homem
Tem sua parte
Colhida
E sua parte dispensada.

Lá longe,
Mais longe, ainda,
Do que as águas do Delta
No tempo das chuvas,
Vive um leão selvagem
De olhar amarelo
E apurado.
E o leão ruge
Num chamamento
Infame.
E, no grito chorado
Da besta alerta,
Ecoa, só e abandonado,
O nome do poeta.

jpv


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SEM TEMPO

Tenho hoje por vizinhos
Os telhados altos
Do casario antigo
Dessas ruas escusas
Onde não chegam os carros.
Ruas do tempo
Em que os não havia.
Cheira a café
Pela manhã
E a um delicioso
E persistente refogado
À hora do almoço.
E circula um sussurro
De vozes afagadas
E músicas longínquas,
Lá, onde as gentes se encontram.
O castelo, já sem nobres,
Mas com a nobreza
Da idade antiga,
Ameaça histórias
E acorda-me memórias
Do que não vivi.
O fresco da noite
E as palavras
Prendem-me aqui,
Como se sempre, aqui,
Tivesse estado.
O corpo abandonado
Ao prazer de sentir
O tempo preso entre os dedos
Da contemplação.
Nem me apetece dormir.
Dormir é uma doença
Que nos impede de viver.
Quero só sentir.
Sentir tudo.
Até esta mentira
Que é sentir
Que não vou morrer.
Vai estar aqui,
Para toda a eternidade,
Este lugar
De olhar a paisagem
E sentir o universo
Suspenso no tempo.
Sem passado
Nem presente
Nem futuro…
Só esta existência
Absorta de toda a vida
E isenta de qualquer morte.
Estranha ilusão,
Benigna sorte.


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Despedida…

Meu irmão. Meu querido irmão. O que já me fizeste chorar de comoção e alegria e saudade e tristeza. Tu, sim, és puro e Humano como há poucos… tu és moçambicano e do mundo todo. Tu és um amigo como há tão poucos e Moçambique me deu tantos! Desculpa-me a indiscrição, mas tenho de tornar públicas as tuas palavras! Khanimambo!

“Meu querido Amigo.

De quem tenho tanta admiração e respeito.
De quem tanto aprendi
A olhar e a ver o lado bom das pessoas e da vida.
Se antes fui cético quanto a um mundo melhor com as pessoas ou com a Humanidade, hoje sou um crente devoto a esta realidade.
Se antes achei que só conheceria o paraíso depois de passar deste mundo para o desconhecido
Creio agora que enquanto existir pessoas como o Senhor e a sua família, este mundo pode se tornar um paraíso

Lembro-me de o ter escutado em uma entrevista dizendo “ A escola deve ser humanizada” e logo o ensino deve ser humanizado, mas no Senhor há esta Humanidade em tudo.

Fora a escola e os teus alunos, formas cá fora outros alunos e não aqueles que precisam da didática, mas os que olham no Senhor e sente-se acomodados no teu ser.

Não sou muito de despedidas porque não tenho o hábito de deixar as pessoas chegarem-se a mim por uma razão muito simples que é está:
As pessoas saiem de nós do mesmo jeito que as deixamos se acomodarem dentro de nós. E fica cá dentro este vazio perturbador.

Meu amigo não quero crer que isto seja uma despedida, mas um até breve e desejo que sejas muito feliz em qualquer esquina deste planeta que chamamos de nosso e faça felizes as gentes que lá encontrares assim como fizeste com os moçambicanos ao longo desta década que cá estiveste e que Deus te abençoe abundantemente.

À Sra. Cláudia digo que foi um enorme prazer ter a conhecido e convivido com ela desde o condomínio até hoje.
Ela é um amor em pessoa e digo obrigado por esta sensação que a todos transmitiu e deixa e creio que não vamos nos esquecer dela.

À Isabel, ela é muito encantadora, espetacular, muito gira, tão alegre. A alegria dela é tão contagiante que deixa a todos inocentes. Tenho por testemunhas a Dona Tina e o Fernando.

À Sra. Ângela, ela tão calma e serena, muito afável e doce. Eu fico a com a voz dela dizendo “Dá cá um beijinho”.

Muito obrigado a toda tua família.

O mais fantástico é que voltas as terras de Camões, mas com tudo pensado.
Não me deixas só, arrumaste um jeito de me deixar com todas as tuas amizades, o Coronel Rui, o Jafete que já me chama por teu assistente pessoal, a Sra. Fátima…

Khanimbo
Ni khensile
Ni bhonguile
Muito obrigado

Um forte abraço 🫂 e façam uma boa viagem na graça de Deus.”

Cremildo Ellias Gavisse


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O Melhor de Moz

O melhor de Moçambique são as pessoas. Hoje, destaco um moçambicano extraordinário, não só como músico, mas, sobretudo, como pessoa: Stewart Sukuma.

You’ll be much missed, my friend!