Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Antologia de Uma Partida (Poema 2)


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Antologia de Uma Partida (Poema 1)


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Xirico 33 – Um Adeus e Um Até Breve


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Elegia da Sentinela

Tenho comigo
Os abraços que quero.
Tenho comigo os olhares
De ternura que não dispenso.
Tenho comigo
Os sentimentos que sinto
E os pensamentos que penso.

Não sou incompreendido
Porque seja incompreendido.
Quem me não compreende
Escolhe não me compreender.
As minha dores são só minhas.
Ninguém me faz sofrer
Dores órfãs.
Escolho cuidadosamente
As dores que quero sofrer.
Adoto-as e acaricio-as
Como a um cachorro abandonado.
Só.
Absolutamente só.
E de pé até morrer.

Nasci desamparado
Como todos nasceram desamparados.
Vivo isolado
Como todos vivem isolados.
E, quando morrer,
Não terei tombado.
Sou o homem vertical.
O cadáver que incomoda.
A consciência ausente e justa
Da podridão impune.
A coisa fora de moda
Que se despreza
E se escarnece.
Sorriso fétido
Que apodrece.

Essas criaturas nojentas
E alapardadas
Não precisam que lhes diga
Que estão erradas.
Elas sabem que estão erradas.
E persistem…

E a nau,
Ondulante e silenciosa,
Passa certa e vagarosa,
Por esses sargaços de gente.
Burro cego e impotente
Como o país do Almada.
O único onde há chegada
Sem ter havido partida.
O único, onde recebe a medalha
Quem não correu a corrida.

AAhhh! Puta de vida.
Pudesse eu lavar-vos da lama
Sem me sujar nela.
Pudesse denunciar
Sem se denunciar,
A sentinela.

Adio-me
No adeus.
Há dias em que vivo
E há dias em que morro.
E há dias em que contemplo
A paisagem decadente.
E há dias em quem me afasto.
E há dias em que me despeço de tudo isto
E minh’ alma sorri e alegra-se.

E volto aos braços que me querem
E aos olhares que me ressuscitam.

jpv


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Ana Paula Canotilho: singela e belíssima homenagem

A Cristina, que anda zangada comigo, faço-te queixa, a ver se conversas com ela, hoje, numas momentâneas tréguas, disse-me, João Paulo, tens uma coisa na tua secretária. Espero que seja boa, repliquei curioso. Ora, sabendo eu que ela sabia que, uma vez chegado à secretária, teria de ver a coisa, inferi que o realce justificaria algo de importante e significativo, independentemente da natureza.  E era. Era o teu livro.

Fiquei ali a soluçar, com duas lágrimas impertinentes a roubarem-me o estatuto de homem forte. O teu livro, porra!

É uma obra muito especial. Faz-te justiça de muitas formas diferentes. Profissional, ética, reivindicativa, equalitária, social, política, sindical, solidária, e, sobretudo, humana. São palavras dos teus amigos e das pessoas que te admiram e respeitam e amam. São palavras simples e profundas.

E tem uma carrada de fotos onde brilhas com o teu olhar incisivo, provocador e doce. E está cheio de África. Como tu adorarias.

Sabes, depois de o ler uma vez e outra, senti paz. Senti como se um ciclo se tivesse fechado. Como se algo incompleto se tivesse completado. Como se, de repente, já não precisasse mais de andar preocupado com algo que me atormentava: a justiça para contigo, a tua figura ímpar, a tua pessoa única. Acho, mas não tenho a certeza, que esse sentimento vivia em mim por teres partido tão repentinamente e por ter-te acompanhado de forma tão próxima naquelas últimas horas.

Há muitos agradecimentos a fazer, ao SPN, à Maria José, ao Baldaia, ao Borges, e a tantos outros. Mas eles não querem agradecimentos. O que eles querem é o mesmo que eu: que se preserve bem viva a memória de ti e tudo o que representas para nós e o Mundo em que vivemos. Tentaremos estar à tua altura, fazer justiça ao teu legado. Tarefa nada fácil. Ergueste a fasquia bem alta.

Paz… sinto paz… e saudades… vamos falando…

jpv.


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Solitária Tortura

Quero pecar
Os meus pecados.
Não posso deixá-los para trás.
Quero acariciá-los
Como se acaricia
Uma existência.
Um prazer breve e fugaz.
Quero os excessos
E as luxúrias.
A presença
De todas as coisas
E a sua ausência.
O lume a arder
E o seu reflexo
Na taça de vinho abandonada.
A luz do luar
Na tua pele desnudada.
Quero do teu choro
A erótica heresia.
Quero o teu corpo
Na minha língua
Sabendo a maresia.
E quero que me faças
Uma oração
Submissa e tentadora.
A prece dos pecadores
Sob a rotina redentora
Do amor.
E hás-de ser minha
Para sempre.
E sempre será o que quisermos.
Será o tempo de um beijo.
Um lânguido beijo deleitoso.
Ou então uma eternidade.
A eternidade de acolher-me em ti
Sem chão, nem mar, nem radar.
Só o toque cego e prazeroso
De quem tenteia a felicidade.
E peco.
Peco o pecado de fechar-me
Para o Universo
E ressuscitar em ti
Pelo toque,
Pelo urro,
E pela palavra feita verso.
Não quero o pecado
Pelo pecado.
Quero o pecado
Do teu desejo
A arder-me na carne.
Quero as tuas unhas
A arranhar-me
Como um náufrago perdido.
Teu corpo único
A meus prazeres estendido.
E quero saber
Que sabemos
Que pecamos.
Consciência inútil
E vital.
Quero finalmente acreditar
Que vieste a ser minha.
E quando, à noitinha,
Encostares teu corpo
Ao meu
Antes de dormir.
Quero estar pronto para partir.
E levar comigo nossos pecados
Envoltos em ternura.
E algum que nos tenha escapado
Seja da alma, em paz,
A solitária tortura.

jpv