Tu tens desejos
No corpo.
Tu tens convites
Nas linhas curvas
Da tua figura.
Tu sabes que há beijos
Por dar
Que são para mim
Doce tortura.
Tu sabes como dizer sem palavras.
Tu sabes como chamar
Com o silêncio do teu sorriso.
E até sabes que levas nas ancas
A perdição total de meu juízo.
E, contudo, passas.
Indiferente às ameaças
de meu cercar.
Sábia em cercos,
Em dar de corda
E em apertos,
E em ter-me preso a ti,
Entre tuas coxas amarrado!
Santa luxúria,
Beato pecado.
Não.
Não penso hoje nos seios
Que me faltam as palavras e os meios
Para tanto navegar.
Eu sou europeísta e quis sempre acreditar no projeto europeu. Quase como se, depois de séculos virado para os monstros do mar, Portugal se virasse para as pessoas em terra. Além disso, a ideia de uma Europa unida, livre, forte, sempre me pareceu fazer sentido ainda que houvesse preços a pagar, o que, nestes casos, é normal.
Percebe-se, pois, que, no âmbito do referendo britânico, o meu coração batesse pelo remain, pela permanência, e tivesse recebido com tristeza e desilusão a vitória do BREXIT.
Ontem, contudo, vacilei. Com tamanha crise a braços, com problemas tão profundos para resolver como sejam a situação dos refugiados e a crise económica de todos os estados-membro da União Europeia, só para relembrar dois, o que o senhor Schauble escolhe, para se divertir, é fazer um bluf com um suposto pedido de resgate financeiro que Portugal teria apresentado por não ter cumprido em 0,2 as metas que se propôs. Logo a seguir às suas palavras, os juros da dívida pública portuguesa cresceram em todas as frentes.
Acresce que o incumprimento da Alemanha, da França e da Espanha, por exemplo, é muito maior do que as duas décimas de Portugal.
Schauble não consegue resolver os problemas sérios da Europa, mas exerce uma chantagem infantil, patética e desnecessária com Portugal. Não se atreve a enfrentar os grandes, mas dá porrada com força nos pequenos. Não foi com esta gente que aprendi a ser europeísta.
Este tipo não sofre sanções? Não paga o prejuízo causado? Ninguém o repreende? Não pede desculpa? Não se demite?
Ontem, tive ganas de um PTEXIT e se houvesse um referendo, àquela hora tinha votado leave!
Uma coisa é o que somos, intrinsecamente, no fundo mais recôndito do nosso ser.
Outra coisa é o que projetamos ser. Algo bem menos belo e ambicioso porque conformado às condicionantes e coarctado pela realidade.
Outra coisa, ainda, é o que conseguimos ser. Uma imagem pálida e distante do que somos. Algo que se perdeu algures no emaranhado da vida, das cedências e dos compromissos.
E outra coisa, por fim, e a mais dolorosa, é a conversa que temos entre todas elas.
Não fumaste o cigarro do depois.
Não dissemos palavras encantadas,
Nem fitámos os olhos dos dois.
Não quiseste perceber tudo,
Nem um compromisso,
Uma declaração de amor.
Não fizeste planos arrojados.
Vestiste a roupa breve
E deixaste-nos despojados
De nós.
Nem uma palavra.
Só o silêncio da tua voz,
E o teu corpo, esguio e esbelto,
Saindo do quarto, apressado.
Não ia saciado.
Ia à procura do resto.
De quem te mereça as palavras.
De quem te acenda o cigarro…
Do desejo.
Não sei como te descreva
Que me faltam as palavras
E me foge o chão.
Eras todo um encanto,
Um sorriso elegante,
Um corpo de ilusão.
Trazias uma saia de desejo,
Um corpete de tentação
E um decote em linha de promessa.
E dois pendentes brilhantes,
De graça.
E tua mão, segurando a taça,
Enobrecia o vinho.
E eu, ali,
Sozinho.
De ti.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Entram mulheres em corrupio.
É estreita a saída
Para tanto mulherio.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Entra a dor, sem bater,
Sai devagar,
Entrou a correr.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Rígido e isento,
Sai, célere, o tempo.
E ri-se ao sair.
Chora minh’alma
Ao vê-lo partir.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem os desejos
De ter-te em meus braços.
E entram outros braços
Desejados de mim.
Saem, por fim…
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem os afetos e as ilusões.
Saem sempre,
Sem contemplações.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem as forças e a energia,
Sai a luz
Que iluminou o dia.
E entra a noite escura.
Na rua da minha vida
Há prenúncios de tortura.
Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Sai a própria vida
E deixa a porta aberta.
Minha vida é uma rua deserta.