Princesa da minh’ alma, Senhora de meu coração, Comandante deste terreno Sem norte nem chão, Vem exercer teu reinado Em meu corpo despido, De teu desejo convertido Em pobre e humilde estalagem. Vem ser Senhora deste servo, Vem sujugá-lo a ti, Exigir-lhe apaixonada vassalagem. Não quero coroas, Nem espadas cintilantes, Quero somente as insígnias Dos amados e dos amantes, Esse arfar voluptuoso, Essa seda de odores Em meus lábios, Teu sexo exposto À minha investida obediente. Há no mundo tantos reinos E reinados tão diversos Sobre multidões de gente Ondulante e distraída, E ninguém percebe Que és tu a Senhora Deste sopro, desta vida… Já me ofereceram o mundo, Poços de dinheiro sem fundo Onde pudesse ser feliz. Já atendi a todas as mesas, Já comi em todos os banquetes Iguarias incertas E palavras repletas de certezas. E recebi os olhares E os sorrisos desejosos Das damas e das donzelas Mas não são elas… Só tu, Senhora da distância E do silêncio, Comandas meu Destino E meu Tempo.
Princesa da minh’ alma, Senhora de meu coração, Comandante deste terreno Sem norte nem chão.
Está em nós Toda a essência Do Amor. Está em nós Toda a ciência Da alegria E da dor. Está em nós A arte de colocar A minha cabeça No teu regaço E essa forma Única De segurares Meu braço. Está em nós A arte de um beijo Despudorado, Em público trocado. E está em nós Algo de eterno E não perecível, Tão antigo E tão renovado… A confiança De estares aí, A certeza deste encontro Desencontrado! E haver ainda Tanto para amar Depois de tanto Já amado.
Andaram tenteando intenções, mesmo sabendo que, fossem quais fossem as intenções, nunca lhes vestiriam a roupagem das ações. Conversaram na periferia da tentação, na escuma espraiada do desejo quando a onda já se foi embora. Outra virá. E aquela tensão entre o querer e o poder nunca se fez palavra, nunca se fez gesto.
Um dia, de frente para uma paisagem idílica, com um rio manso e animais bebendo na orla, ele aproximou-se por trás dela, sentada no banco do miradouro, e fez-lhe uma breve massagem nos ombros. E aqueles trinta segundos foram a sua eternidade. Depois, sentou-se a seu lado e ficaram os dois olhando a paisagem em silenciosa contemplação enquanto se reerguia entre si o muro. Foi um silêncio eloquente, jogaram-se ali todas as promessas imaginadas, todas as intenções, todas as hesitações e as impossibilidades todas.
A história não tem um final feliz. Foram às suas vidas, a ser quem acreditavam e podiam e deixaram tudo o resto para trás. Não voltaram a falar-se. Não voltaram a olhar-se nos olhos luminosos e húmidos. Guardaram de si a memória doce e fugaz daquela massagem de frente para o rio. Um dia, essa memória esfumou-se.
A história Começa muito antes, mas não nos demoremos, não percamos tempo, sigamos para o essencial. Chegou o dia em que lhe pediu que guardasse seu coração como algo precioso. Como uma jóia de amar, um belo e vistoso colar em pedras de paixão. No início era toda zelo e cuidado na forma como lhe tocava, como lhe pegava, e como o acariciava devagarinho para não o estragar. E depois veio o entusiasmo e a admiração e beijava-o, sôfrega e voluptuosa, e apertava-o contra o peito e dava-lhe dentadinhas de provocação em jogos de clara e magnética sedução. E quando já era seu, partiu-o e deixou-o abandonado numa gaveta esquecida. E ele ficou ali. À espera dela, que lhe devolvesse o seu coração intacto ou quebrado, a funcionar na perfeição ou estragado. E agora vive só, entregue ao seu azar, à procura de quem saiba consertar corações despedaçados. Deambula, perdido, pelas ruas, vivo e sem coração que preste.
Sem erros Nem prisioneiros. Sem promessas Nem esperança. Sem o olhar limpo Dos momentos primeiros, Nem a poeira Que nasce na dança. Só o peito cheio E um coração a bater, Cresce um homem sem freio Até ao dia de morrer. Aspergidas, foram já, As cinzas aladas. Tantas são as ilusões Para tão breves jornadas.
Magoaram-me os beijos Que me prometeste E não me vieste dar. E magoaram-me, Mais do que quaisquer outros, Os beijos despudorados e loucos Que entregaste em meus lábios. Foram certos e sábios Os dias em que fugiste de mim. E foram mais sábios, ainda, E ainda mais certeiros Os dias inteiros Que passaste no meu colo Ouvindo-me ler um poema Inacabado e imperfeito Como a nossa história de amor. Sem princípio, Sem fim, Sem jeito. Não tem espaço, Não tem tempo, E não tem conceito Um amor assim, Que se nega ao fim E não se lembra, já, Do princípio. Vive do instante, Da ânsia, Da errância De tuas mãos em meu corpo, Que perde o chão e o sopro Quando te anuncias e sorris Como se não tivesse acontecido nada.
Minha vida É uma estrada sinuosa E perdida no deserto. Meu oásis, Minha água, E meu Norte, Seria ter-te por perto.
Cronologia do Adeus In memoriam Ana Paula Canotilho 17/07/1961 – 26/10/2019.
Quando o dia nasceu, ainda os outros dormiam ou se preparavam para acordar, já tu ouvias e cantarolavas “El pueblo unido jamás será vencido”. Mais tarde, falaste com a Ritinha e disseste-lhe “Tens de ouvir isto!” como se fosse uma urgência. Por mensagem, como sempre, perguntaste à Maria da Luz se ela estava acordada e ela estava acordada para ti. Sempre. E disseste-lhe para descer e irem tomar o pequeno almoço. “Hoje acordei bem!” E foste à luta do trabalho, defender e fazer aquilo em que acreditavas, com rigor, determinação, e uma incrível lucidez. E conquistaste e sofreste golpes, alguns desleais, e soubeste aguentá-los e seguir em frente colocando acima de tudo a justiça social, os direitos humanos, a inclusão, o serviço público…
Almoçámos juntos. Reclinavas-te de lado na cadeira, seguravas o cigarro na mão direita, na ponta dos dedos, inspiravas o fumo longamente e dizias aquilo que nos parecia difícil ver, mas para ti era claro porque vias mais além. Estavas particularmente alegre e feliz e contaste-nos como te casaste e como te divorciaste e te dedicaste a fazer dos filhos homens íntegros e independentes e livres e anunciaste-nos que eras feliz, tinhas encontrado o teu lugar no mundo. Este seria o último Natal em que irias a Portugal e aproveitarias para informar a família que ias deixar de ir a Portugal no Natal. Era precioso, o tempo, em Moçambique. Em África. Brincaste com a Cláudia:
– Que idade tens? – 47. – A idade perfeita para te divorciares. Eu divorciei-me aos 47. Cheguei ao pé dele e disse-lhe, “quero-me divorciar, não é nada contigo, é que estou farta de estar casada e quero mudar de vida.”
Mostraste-te preocupada com a exposição “Arte 21” e, antes de ir para uma tarde de trabalho intenso e mais o seguro do carro – detestavas burocracias e palavras-chave – deixaste marcado, para essa mesma noite, o nosso jantar mensal. A nossa noite da má língua onde petiscávamos e soltávamos os espíritos e a imaginação e fazíamos puzzles mentais. Ninguém negou. Como negar a tua presença? Às 20 no “Wine Lovers”. Atrasámo-nos todos. Mas chegámos. O facto é que andávamos exaustos com tantas tarefas, responsabilidades, projetos, documentos… Nesta profissão de férias longas e horários privilegiados, chega-se à exaustão. E luta-se por cada ideia.
Não sabemos porquê. Nunca saberemos. Talvez para enviar a uma amiga ausente, fizemos uma foto, uma selfie. Ficou bem. Com sorrisos e cumplicidade. Mais tarde, viria a retorcer-me de dor por saber que era a tua última foto em vida. Entre nós. Não comemos muito. Não bebemos muito. Nem foi dos dias em que a conversa fosse mais profícua e sumarenta. Estávamos cansados, concordámos. Mas foram, como sempre, momentos interessantes, com análises e conjeturas fabulosas, a mexer as peças do puzzle imaginário e a discorrer o que nos apetecesse sem regras nem limites. O exercício intelectual da conversa, a manipulação sábia do raciocínio. E a política. E era exímia nisso, destacavas-te de todos os outros. Foi bom. Foi o fim. Terminámos às 23 e enquanto nos despedíamos obrigaste-nos a estarmos na manhã seguinte na Ponta do Ouro. “Saímos às 7!” Como eu hesitasse, disseste-me para não ser velho. Ficou acertado para as 7h. Até combinámos onde íamos estacionar os carros. Separámo-nos às 23:10. Não poderíamos imaginar, nesse preciso instante de sintonia e camaradagem, que nos reuniríamos daí a dez minutos contigo já em grande dificuldade. Puta de vida!
Segui para casa devagar. Ainda não tinha rolado dez minutos pela cidade semideserta quando a mensagem da Maria da Luz tilintou no telemóvel: “Volta já para trás, A Ana Paula está a sentir-se mal!”. Quando cheguei ao pé de ti, tinhas vomitado e tinhas estado semi-inconsciente e teimavas que estavas bem e querias ir para casa. Sabia que não valia a pena teimar. Tu odiavas hospitais. Disse-te que te levava para casa, mas tinhas de caminhar até ao carro. Não deste o primeiro passo. As tuas pernas não te seguraram. Peguei-te ao colo, meti-te no carro e guiei que nem um louco por sinais vermelhos e outros episódios. A maria da Luz ia chamando por ti. Às tantas não respondias, ela enervou-se e falou-te mais alto, “Paula, fala comigo!” e tu respondeste. No hospital, deixei o carro a trabalhar e levei-te ao colo até à cama onde me disseram para te colocar. Veio o tempo da primeira espera ansiosa. Estávamos incrédulos. Desmultiplicámo-nos em contactos e esforços. Era preciso informar o teu filho mais velho, entre outras e tantas coisas. Um médico simpático e diligente veio dizer-nos que fora uma baixa repentina de tensão, mas era só isso. O ECG estava normal. Por precaução, ficarias em observação nos noventa minutos seguintes. Fomos ver-te. Fomos estar contigo. Teimaste que estavas bem, que querias ir para casa, que na manhã seguinte estavas na Ponta do Ouro, sem falta. Como tínhamos uma hora e meia antes da reavaliação, fomos tratar de recuperar o teu carro que ficara abandonado no meio da cidade. Não chegámos a fazer nada com o carro. Dez minutos depois, ligaram à Luz e disseram-nos que tínhamos de nos apresentar no hospital com a maior urgência. Voámos para lá. Três ou quatro minutos depois, o médico informou-nos que tiveras uma paragem cardíaca e foras reanimada com recurso a um desfibrilhador. Um segundo ECG mostrou que se tratara de um enfarte. A situação era muito grave. Estavas na unidade de cuidados intensivos. Era preciso autorizar um cateterismo para te desobstruir a artéria. Sem ele sucumbirias. Trouxeram-nos umas roupas e um calçado esterilizados para irmos junto de ti. A Mary não aguentou a perspetiva de ver-te assim. Ela queria, mas o corpo negou-se. Teve uma crise biliar, intestinal e sei lá mais o quê e correu para a casa de banho. O amor da alma por vezes manifesta-se no corpo. Fiquei só na antecâmara da unidade de cuidados intensivos. Deixava-te entregue aos médicos ou entrava sozinho. Nem hesitei, não foi questão. Entrei.
Estavas consciente. No meio do emaranhado de números que piscava por cima de ti, percebi que a pulsação estava a 24. O equipamento era moderníssimo e a equipa muito atenciosa. Demos as mãos e ficámos de mãos dadas enquanto nos olhávamos e trocámos palavras que nunca mais esquecerei. As tuas últimas e, de certa forma, as minhas últimas, também.
– Mas, afinal, o que é que eu tive?
Não fui capaz de dizer a palavra “enfarte”.
– Tiveste uma quebra de tensão. A tensão desceu tanto que tiveste uma paragem cardíaca. Reanimaram-te. Vais ficar bem. – Quanto tempo vou ficar aqui? – Um dia ou dois. – Tenho de ir trabalhar. – Não. Quando saíres daqui, vais fazer uma pausa, vais descansar um mês e só depois voltas ao trabalho.
Um silêncio longo veio colocar-se entre nós. Estavas a pensar. A pensar nas próximas palavras.
– Não me posso irritar tanto. – Isso. O trabalho não é tudo. – Porque é que estou aqui? – Vais fazer um exame. – Que exame? – Um cateterismo.
Fizeste um silêncio eterno. O teu olhar era de apreensão. O nome do exame assustou-te, mas au não podia mentir-te. Um a pessoa tem o direito de saber as batalhas que a esperam. Apertaste a minha mão com muita força, durante muito tempo e não tiraste os teus olhos dos meus. Viraste a cara de lado como que oferecendo a face a um beijo. Estranhei. Nunca foste muito de beijos. Dei-te um beijo na face. Devagarinho. Fiz-te uma festinha para sentires a minha presença, o meu carinho, a minha força. Procurava, aflito, palavras que te distraíssem da preocupação. Lembrei-me, de repente, que, quando eu tinha dúvidas ou hesitações nas minhas batalhas, tu costumavas dizer-me, como quem ordena, “Tu és de esquerda e a esquerda não quebra!”. Apertei-te ainda mais a mão, reuni toda a convicção de que fui capaz e disse:
– Tu és de esquerda e a esquerda não quebra!
O teu rosto abriu-se num sorriso, o último que te vi.
– Espero por ti.
E levaram-te. Não voltarias. Não voltaste.
– O senhor tem de assinar isto.
O médico não começava sem a merda da assinatura. Nem li bem o papel, tu precisavas do tempo. Percebi que, se alguma coisa corresse mal, os gajos estavam safos e eu é que me fodia. Nem pestanejei. Ao cabo de dezasseis anos a travarmos lutas juntos, tu merecias isso e muito mais. Tudo.
Soube mais tarde que conseguiram fazer tudo o que queriam, mas tu não conseguiste ficar entre nós. Três paragens cardíacas durante o exame levaram-te para longe de nós,. Ainda fintaste a morte duas vezes. À terceira, não resististe.
Quando me vieram dizer que tinhas falecido, faltou-me o chão, fiquei incrédulo e desesperado. Não tenho um único arrependimento, nem a mais leve sombra de culpa, só não queria estar ligado aos teus atos finais porque ainda te queria aqui. Mas, por outro lado, partiste num dia vivido entre camaradas e amigos cúmplices, foste feliz e irreverente e, no fim, como tantas vezes fizeste na vida, foste surpreendente e inesperada e fizeste o que quiseste e não o que se esperava que fizesses. Veio uma onda de revolta e depois de culpa e depois de remorso e depois comecei a pensar em ti e no nosso dia e consegui aceitar em mim dois sentimentos contraditórios. Um desespero profundo por ter-te perdido, por não ter conseguido segurar-te deste lado, e uma alegria serena por saber que eu e a Maria da Luz te proporcionámos, antes de partires, um dia entre amigos, os teus amigos, recheado de boa disposição e conversa estimulante como tu tanto gostavas.
Fica o teu legado de ideais, de dignidade, de feminismo, de luta política e social, de solidariedade, de estudo, de lucidez. Fica isso e fica uma constelação de momentos partilhados, de gargalhadas, de sorrisos, de preocupações, de injustiças e problemas. Não eras indiferente a nada e, talvez por isso, nada nem ninguém ficava indiferente a ti.
Caminhámos juntos muito trilhos difíceis e outros tantos prazerosos e caminhámos juntos este último dia, essas últimas horas, essa última foto, essa última mão apertada, esse último olhar… e sei agora que não há lugar a outros sentimentos que não sejam o orgulho e a honra de me teres escolhido para o círculo restrito dos teus amigos verdadeiros.
Falta contar A história do poeta Que perdeu as palavras Quando a forma Do teu corpo Abandonou o desenho Das minhas mãos.
Falta contar A história do ateu Que saiu de casa Numa noite de breu E foi esconder-se No templo sagrado Desse corpo abandonado Ao desejo e à distância.
Não é errância, Isto, É um Destino misto De Fé e indiferença. É acreditar, violentamente, E essa crença Estar dilacerada E dividida Entre o abraço Na chegada E o adeus Na partida. E as únicas palavras dizíveis, Na medida justa e certa, Serem as que perdeu O poeta.
Eram de sangue, As lágrimas Que secaram Na face. Talvez um dia Passe Essa dor Da distância, Fruto da errância Dos homens. E quando os homens regressarem E fecharem o abraço Que os espera… Hão de chorar de novo Lágrimas… De sangue.
Tinhas os olhos Raiados de lágrimas Quando o teu corpo Se despediu de mim. Era o fim De nada. De nenhuma coisa A não ser a ilusão. Não era, Nunca foi, Um Não. Foi sempre um Sim Impossível, Um grito inaudível Na eternidade. Um abraço no vazio, Uma noite à chuva E ao frio. E a dor de ver-te partir E continuares aqui É como morrer em mim O esplendor de ti.