É uma embarcação formosa. Leva no cesto da gávea Uma mulher quase real, Quase divina, Com uma mão sobre a vista Prescrutando o horizonte. É cega. Na bruma da hora Da partida, A embarcação desliza Comprometida Com o Destino. E quem lá vai dentro Olha a costa E chora. Já não há portos seguros. Neste preciso momento, Intensifica-se o olhar da deusa Quase mulher Que acena Um longo E arrependido adeus. Já mal se vê, A embarcação, Já nem se percebe Que é formosa Ou mesmo embarcação. Nunca se soube Quem ia dentro Da barca misteriosa. Eram saudades… Nostalgia. Dissipou-se a neblina, Abriu-se o dia. O astro brilhou E uma bátega de água, Violenta e impiedosa, Jorrou dos céus. Era salgada, a água. E agora, As ondas vêm de mansinho Beijar a praia E trazer rumores Daquele olhar. Um momento de contemplação E outra barca a naufragar.
O que tu sentes E o que eu anseio São duas coisas diferentes Com uma igual pelo meio. O que tu queres E o que eu desejo São duas versões Do mesmo beijo. O que tu me pedes E o que eu te dou São duas asas Do mesmo voo. E há neste concerto, Imperfeito e inusitado, Tanto de acerto Como de deliciosamente errado.
Estas mãos Foram desenhadas Para te segurar. E estes lábios Foram recortados Para te beijar. Estes olhos Foram concebidos Para te olhar. E este peito Foi aberto Para tu entrares. E é por isso Que não entendo Essa questão Séria e profunda, Para mim, Sem qualquer importância, De um amor Vivido à distância. Se as minhas mãos Cingem teu corpo Ao meu, Se o meu beijo Se encontra com o teu, Se os meus olhos Mergulham nos teus, Se o teu peito habita o meu, Se nada de meu Deixa de ser teu… Porque sinto Este desespero E esta inquietação? Esta completude E esta imperfeição? Porque respiro Quando teu Corpo não está Em mim? E porque sinto O começo Como se fora o fim?
Tens nos lábios um Jardim de flores, De fragrâncias e odores A cravos e a Jasmim. E tens no olhar Histórias e segredos Que nascem e morrem em mim. Tens a verdade nas palavras E a certeza no gesto. Teu corpo é um manifesto De tentações E homens perdidos. E tens o calor do desejo Semeado em cada promessa de beijo Que nunca se fecha em minha boca. Em ti, A lua do olhar É galáxia pequena e pouca Para tão vasta conversa. Tua mente É maré cheia e adversa Em meu peito disperso. És a ida e a volta, A ave livre e solta Pairando em meu Circunscrito universo.
Não foram As palavras que me disseste. Foram as que ficaram por dizer. Não foram os beijos que me deste. Foram os que preferiste esconder. Não foi o abraço longo e seguro. Foi teres erguido o muro. Não foi a tua voz cristalina Contando histórias de menina. Foi a hesitação… Foi ter faltado A letra na canção. Um corpo voltado E uma mão estendida e vazia No frio da noite.
Nunca se guarda Uma palavra que se pode amar! Nunca se suspende O tempo de entregar Uma mão noutra mão. Nunca se recusa A coragem De quem se atravessa Na solidão E nos entrega Um peito aberto, Voo planado sobre o deserto da existência. Sem teoria, Sem nenhuma sabedoria Que não seja a dádiva A um ser que ama antes das palavras, Com as palavras E depois delas.
Não se nega a existência Quaisquer que sejam Os contornos da Ciência.
“Tenho vivido uma dúvida razoável. Questão de contornos aparentemente simples, e, contudo, com reflexos intrincados e implicações diversas que me custam ponderar. Na verdade, não sei como a hei de tratar. Não quanto ao teor, bem entendido. Tratá-la-ei, sempre, da única forma que quero e sei: bem. Muito bem. Cuidadosamente bem. Carinhosamente bem. Sem discussão e, menos ainda, causa para qualquer reflexão. Refiro-me ao trato, propriamente dito. À pessoa. Não à sua pessoa. Essa, inscreve-se no bem. Muito bem. Cuidadosamente bem. Carinhosamente bem. A dificuldade prende-se, exatamente, com a pessoa gramatical que hei de usar. A segunda. Ou a terceira. Não é dúvida que se me coloque amiúde. Normalmente decido, de forma quase intuitiva, como quero tratar as pessoas. No seu caso é diferente. Comecei na terceira pessoa por respeito e formalidade institucional. Já na altura sonhava tratá-la de outras formas, mas aquela era a única possível. Entretanto, por razões que bem conhece, tão bem quanto eu, estreitaram-se os laços, enlaçaram-se os olhares, aproximaram-se as palavras e, com naturalidade, me nasceu a tentação de tratá-la por tu. Na segunda pessoa, portanto. Tentação ilusoriamente fácil… repare que a nossa harmonia, inegável, deliciosa harmonia, tem-se sempre expressado na terceira pessoa. Não é distância e, se era deferência, a deferência foi caindo… é uma proximidade respeitosa, uma linha que não é barreira… tem, até, traços de certa ternura e certo carinho. Como sabe, muitas das pessoas de que nos aproximamos e tratamos por tu acabam a magoar-nos ou a ser magoadas por nós. Dirá que antes das palavras está a intenção das pessoas, o seu caráter, a sua formação, o seu contexto e esses, sim, determinaram essas feridas sendo que as palavras foram somente a roupagem, o invólucro. Nada mais errado. De palavras percebo eu. As palavras nunca são só o invólucro. Elas são atos. Contundentes e determinados ou tímidos e hesitantes, mas são atos. Há palavras que acariciam, e há as que magoam, e as que protegem, e as que expõem, as que unem e as que dividem… as palavras são atos. Creio firmemente que a única coisa que pode magoar mais do que as palavras é a ausência delas quando são necessárias e urgentes. Ora, não há nada que eu queira menos do que magoá-la. Mas é certo que não quero também distanciar-me… e aqui reside o meu dilema… a minha dúvida razoável. Eu, que nem sou muito de hesitações, como já ficou expresso. Mantenha-se a terceira pessoa. Uma terceira pessoa que nos protegerá de evitáveis excessos e de proximidades agressivas, mas uma terceira pessoa que não seja distância. Toda feita de atenção, de ternura, de carinho e, porque não, de amor… se tiver de ser amor, amor seja… não li, nunca, em lado algum, que não pode amar-se na terceira pessoa.”
Gostava de saber Que pensam Teus olhos Quando se fixam nos meus. Queria saber Se são Tentações do diabo Ou bênçãos de Deus. Quando esse castanho Me olha e me fita, Não têm piedade, teus olhos, Deste coração Que se agita. Os dias passam E o sofrimento aumenta. E esse olhar Que se ausenta Na distância Faz vibrar meu corpo Na inquietação e na ânsia De sentir O desenho da tua boca Em meus lábios solitários. Não, meu amor, Não quero dar-te um beijo. Quero cobrir-te de vários E diversos suplícios E carícias. Quero desenhar Nos teus olhos Todas as possíveis malícias Que uma paixão tem para dar. E quero, por fim, Renascer no teu olhar.
Nesta tarde pintada
De amarelo,
Enquanto o Sol cai,
E quando já não consigo vê-lo,
E isso me importa muito pouco,
Admiro o astro
E sofro.
Todo o mundo se queda vago e oco
Quando tu não estás.
É belo, o quadro,
E tem paz.
E, contudo,
Em meu peito desajeitado,
Pula um coração incapaz
De sossegar o tumultuo
Da tua ausência.
Recorto tua imagem
Na paisagem
Que se estende
A meus pés.
E sinto-me menino…
De novo.
Um ritual. Um ícone. Uma moldura. A luz exterior Recortada Por tua figura. Não se trata De brônzea estátua, Nem poema com rimas E melodia a condizer. Não são versos Cinzelados em mármore À espera de morrer. Não é placa comemorativa, Nem registo oficial A gravar na História. És só tu, Desenhada na minha memória. Heroína do trabalho A cada dia que passa, Braço estendido Na intenção do livro Revelando teu corpo Colado na vidraça. E há dor, E há prazer, No teu gesto E na tua dedicação. Há miúdos a crescer… Há poesia nisto tudo, E em tudo isto Não há poesia nenhuma Porque em teu hábito Se consuma A glória E o anonimato Do que fazes E não se vê. Vives nestas paredes E nelas morres. E há nisso Um não sei quê De perene E efémero sentimento. Tu és a eternidade Captada Em singelo E breve momento.
Ó pobre de mim! Abandonado E torturado, assim, Na tua presença E na ausência tua. Teu corpo vestido, Tua alma nua. Quisera preencher-te a alma, Despir-te o corpo, Libertá-lo dessas amarras E preenchê-lo também, Com ganas e garras, Nesse deleitoso ritual Que me faz refém. E, no momento da rendição, Entregar-te meu coração Para o abandonares de novo. Tu és a rainha E eu sou o povo. Proletário dos afetos, Errante mendigo de teu corpo.