Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Volta ao Mundo

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Uma palavra que seja.
Uma palavra para que se veja.
Uma palavra é como ter-te aqui.
Uma palavra é o princípio de todas as coisas.
E é o fim.

A tua voz embala destinos.
A tua voz são infinitos caminhos.
A tua voz é a grandeza de sentir-se pequeno.
A tua voz inaugura um homem e funda uma nação.
De esperança.

A distância que nos une
É maior e mais grande que este tapete que faço e desfaço.
Vive no fulgor de um abraço, na doçura do teu olhar.
A distância que nos une
É a exata forma do querer e do amar.

Procurei-te onde não estavas.
Corri montes e cabeços.
Ao sol, à chuva e ao vento.
Indiferente à desilusão e ao tempo.
E encontrei-te no lugar pequeno de meu coração.

Para ir tão longe…
Não era preciso dar a volta ao mundo da ilusão.

jpv


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Solidão

chao

A linha com que se tecem meus dias
É escura
E estão pálidas e frias
As mãos.

Não há nada para além deste vazio.
Só o chão esquecido e frio
Onde passou o que foi.

Nem tu ficaste.

jpv


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Uma Zanga e uma Citação

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A escrita é tramada. Zanguei-me com ela. Zanga antiga de dedicar-me sem medida e não receber em troca a mesma atenção. Zanga antiga de procurar a qualidade, mas andarem textos andrajosos de mão em mão. Que me divorciava, que não escrevia mais, que tinha por vendidos um punhado de livros entre familiares e amigos, que não era vida de escritor este dar sem receber. E mordia-me os calcanhares da mente a história daquele tipo que publicou catorze romances inteiros em doze anos, todos feitos de páginas às centenas e capas rebrilhando nos escaparates. E eu aqui, tecendo e destecendo, qual Penélope das palavras, amanhando investigações, enjeitando umas frases e erguendo outras à luz cristalina de meus dias não mais que um romance a cada par de anos vencido. Mas a Escrita é amante caprichosa. Que não, não haveria partilhas, que o casamento seria para sempre, que teria de continuar a suportar-lhe os trejeitos de dama que subjuga o coração de quem a ama e ela me suportaria os dias em branco, as linhas riscadas, as páginas desconseguidas… Mas não, homem que é homem, por macho ser, leva  a sua adiante, e vai de depor as armas e arrumar as canetas e esconder os cadernos e comprar livros e ler. Seria leitor por vingança de não ser lido. O primeiro sinal de recaída foi um caderno em branco de capas acastanhadas e gravadas de palavras no exterior. E lá dentro, nada. E depois um outro, discreto, com uma fitinha de marcar páginas e limites. E depois uma caneta. Coisa imperdoável de se desperdiçar ali, na montra, a olhar. E assaltou-me, à traição, uma personagem, e invadiu-me a imaginação uma história e entre a verdade esfumada na pobreza da memória e a vívida clareza dos momentos a perpetuar, sentei-me a rabiscar. E a zanga cá andava no peito a perder terreno para o entusiasmo desta nova história que chegou calma, tranquila e sem pressa. Assim começa: “Quando nasceu, Indesejada da Conceição Nhaca, não soube, não poderia ter sabido, que viera a este mundo para ser emigrante em sua própria terra, estranha no chão que a ouvira chorar pela primeira vez, despojada dos afetos, filha da miséria. Mas não foi isso o pior que a vida lhe reservou.”

João Paulo Videira 


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Tu Sabes

mar

Tu tens desejos
No corpo.
Tu tens convites
Nas linhas curvas
Da tua figura.
Tu sabes que há beijos
Por dar
Que são para mim
Doce tortura.

Tu sabes como dizer sem palavras.
Tu sabes como chamar
Com o silêncio do teu sorriso.
E até sabes que levas nas ancas
A perdição total de meu juízo.

E, contudo, passas.
Indiferente às ameaças
de meu cercar.
Sábia em cercos,
Em dar de corda
E em apertos,
E em ter-me preso a ti,
Entre tuas coxas amarrado!
Santa luxúria,
Beato pecado.

Não.
Não penso hoje nos seios
Que me faltam as palavras e os meios
Para tanto navegar.

Entre nós
Não há nenhum espaço.
E há o mar!

jpv


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Livro da Coragem – 16 –

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– 16 –

Eu sou europeísta e quis sempre acreditar no projeto europeu. Quase como se, depois de séculos virado para os monstros do mar, Portugal se virasse para as pessoas em terra. Além disso, a ideia de uma Europa unida, livre, forte, sempre me pareceu fazer sentido ainda que houvesse preços a pagar, o que, nestes casos, é normal.

Percebe-se, pois, que, no âmbito do referendo britânico, o meu coração batesse pelo remain, pela permanência, e tivesse recebido com tristeza e desilusão a vitória do BREXIT.

Ontem, contudo, vacilei. Com tamanha crise a braços, com problemas tão profundos para resolver como sejam a situação dos refugiados e a crise económica de todos os estados-membro da União Europeia, só para relembrar dois, o que o senhor Schauble escolhe, para se divertir, é fazer um bluf com um suposto pedido de resgate financeiro que Portugal teria apresentado por não ter cumprido em 0,2 as metas que se propôs. Logo a seguir às suas palavras, os juros da dívida pública portuguesa cresceram em todas as frentes.

Acresce que o incumprimento da Alemanha, da França e da Espanha, por exemplo, é muito maior do que as duas décimas de Portugal.

Schauble não consegue resolver os problemas sérios da Europa, mas exerce uma chantagem infantil, patética e desnecessária com Portugal. Não se atreve a enfrentar os grandes, mas dá porrada com força nos pequenos. Não foi com esta gente que aprendi a ser europeísta.

Este tipo não sofre sanções? Não paga o prejuízo causado? Ninguém o repreende? Não pede desculpa? Não se demite?

Ontem, tive ganas de um PTEXIT e se houvesse um referendo, àquela hora tinha votado leave!

João Paulo Videira


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Livro da Coragem – 11 –

livro-da-coragem

– 11 –

Uma coisa é o que somos, intrinsecamente, no fundo mais recôndito do nosso ser.

Outra coisa é o que projetamos ser. Algo bem menos belo e ambicioso porque conformado às condicionantes e coarctado pela realidade.

Outra coisa, ainda, é o que conseguimos ser. Uma imagem pálida e distante do que somos. Algo que se perdeu algures no emaranhado da vida, das cedências e dos compromissos.

E outra coisa, por fim, e a mais dolorosa, é a conversa que temos entre todas elas.

João Paulo Videira


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O Cigarro do Depois

smoke

Não fumaste o cigarro do depois.
Não dissemos palavras encantadas,
Nem fitámos os olhos dos dois.
Não quiseste perceber tudo,
Nem  um compromisso,
Uma  declaração de amor.
Não fizeste planos arrojados.
Vestiste a roupa breve
E deixaste-nos despojados
De nós.
Nem uma palavra.
Só o silêncio da tua voz,
E o teu corpo, esguio e esbelto,
Saindo do quarto, apressado.
Não ia saciado.
Ia à procura do resto.
De quem te mereça as palavras.
De quem te acenda o cigarro…
Do desejo.

jpv


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Tempo

algemas

É o tempo que gastamos a libertar-nos que nos mantém presos.

jpv


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Retrato Impossível

20160522_090453

Não sei como te descreva
Que me faltam as palavras
E me foge o chão.
Eras todo um encanto,
Um sorriso elegante,
Um corpo de ilusão.
Trazias uma saia de desejo,
Um corpete de tentação
E um decote em linha de promessa.
E dois pendentes brilhantes,
De graça.
E tua mão, segurando a taça,
Enobrecia o vinho.
E eu, ali,
Sozinho.
De ti.

jpv