Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Praia

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Mar.
Sol.
Enlevo.
Sal na ferida aberta.

Areia.
Brisa.
Luz na alma.
Alma deserta.

jpv


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Poesia

 

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Primeiro,
Pressente-se, ao longe,
Esfumada,
E não se percebe bem
O que lá vem.

Depois,
Cresce um pouco,
Um incómodo incerto,
Uma inquietação imprecisa.
Avança tímida e indecisa
E faz-se mais perto.

Agora,
É já uma visível preocupação,
Ou uma alegria exuberante,
Em todo o caso,
É inconfundível a excitação
E a inconstância constante.

Por fim,
Irrompe sob os dedos, em bailado,
A criação.
Um jogo de fúrias e medos em tornado.
E atropelam-se,
Galgam-se desejos e voracidades,
Procuram a frente e as verdades,
Anunciam batalhas, vitórias e perdições.

São só palavras
Desenhando emoções.
São só estas linhas imperfeitas.
São só esta coisa absurda
Que tenho no peito,
Este reduto último
De quem vive dilacerado e desfeito.

Cada palavra rasga-me a carne
E cada verso é escrito a sangue,
Cada estrofe é uma coisa que arde
E exala de meu cadáver exangue.

Palavras…
Arrancadas
À noite e ao dia.
Em minha mente
Torturadas…
Poesia.

jpv


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Só…

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Só,
No deserto árido das palavras.
Só,
No glaciar impenetrável das emoções.
Só e perdido,
Afogado no grito próprio
E na mudez da tua ausência.

Só e perdido,
Na memória antiga que se esvai
E no tempo que não volta.
Eu já não sou filho
E tu já não és pai.
E contudo, vives aqui,
No espaço de não ver-te,
Na ilusão de prender-te
Entre os braços,
De querer ser como tu
E não ter a sabedoria
De esperar.
Já vai longa a agonia
E não oiço
A voz desejada.
Seu peito
É uma amurada deserta
E traz a herança certa
De quem rasgou sulcos breves.
Têm de ser leves
As passadas do agricultor
Quando joga ao vento
Semeaduras de amor.
Mas têm de ser fundos, os rasgões.
Esse arado com que lavras
Meu peito
E semeias ausências
E silêncios sem palavras
Anda-me roubando a vida.
Causa inglória e perdida…

Só…
Já nem me negas…
É na ilusão do teu colo que me deito.
Filho abandonado,
Pai sem jeito.

Só…

jpv


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Neblina no Caminho

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Já eras
A diáfana imagem
Da perfeição
Quando te conheci.
Já eras o amor
E a sedução
Quando me apaixonei
Por ti.
Róseo seio,
Delicada pétala,
Flor sem fruto
Na inocência da idade.
És memória,
E és saudade.

Já eras
Um mar encapelado,
Um vento revoltado,
No olhar
E nos cabelos.
Eras a graça,
O beijo inaugural,
O primeiro corpo
Sob o meu.
Tinhas um perfume
Adocicado e experimental,
A tua nudez,
A minha pele arrepiada
E o corpo tremendo.
Tinha medo de estragar-te.
Queria amar-te
Para sempre
E não sabia
Quanto era isso.
Paixão,
Amor,
Feitiço…
O sal do mar
Sabia melhor
Na tua boca.

Já eras
O caminho
E a caminhada louca.
Já vivia em ti,
Sozinho,
A minha solidão.
Feitiço,
Amor,
Paixão…

jpv


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Quadras satírico-humorísticas de timbre antigo e desusado escritas enquanto não estavas a ver…

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Hoje fiz amor contigo,
É pena que não estivesses presente.
Ficas a saber, para castigo,
Que posso amar teu corpo ausente.

Sei que dirás, com desdém,
Que são devaneios de um pobre coitado.
Pois fica a saber, também,
Que deixei teu corpo deliciado.

Não te dês ares de superioridade,
Superior é coisa que não és.
Aqui, do alto da minha humildade,
Ainda te hei de ver a meus pés.

És vaidosa e usas roupas finas,
Para te passeares pela rua,
Enquanto vês montras e cruzas esquinas,
Eu fico em casa a imaginar-te nua.

Já vai longo este fado incerto,
De rumo sinuoso e complexo,
Quem dera ter-te por perto
Para intenso e despudorado sexo.

Será teu corpo uma plantação
De envolventes e suaves carícias,
Onde hei de ir colher à mão
Uma sementeira de malícias.

Vá lá, diz que sim,
Ao menos uma vez.
Não queiras apressar o fim
Do coração que tão bem te fez.

Hei de ver-te, finalmente,
Em minha cama deitada,
Corpo esguio e presente
Desde a noite até à alvorada.

E do que ali se passar
Faremos inviolável segredo,
Até ao dia em que subas ao altar
Com uma aliança de oiro no dedo.

jpv


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Talvez Tourada

Quando a farpa
Entra na carne do touro,
Não é na carne
Que mais lhe dói.
É no êxtase da surpresa,
Na desilusão que corrói.
Quando investes
E te entregas
À volúpia da carícia
E da harmonia imaginada,
Não percebes
A origem da perícia,
Sentes, só,
O gume da espada.
Quando dás
Sem te pedirem,
O corpo à festa
E à multidão,
E sentes os pés fugirem
À gravidade
Que te prende ao chão,
Percebes, finalmente,
A verdade crua e ensanguentada:
Era para ti a mentira,
Era para ti a espada.
Eras tu, besta insana,
A vítima da tourada!

jpv


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Amanhece… 

Amanhece.
E com o amanhecer,
Até parece
Que vale a pena viver.
A Natureza,
Em sua pujança matinal,
Renova a luz,
Renova o espírito,
Renova o Universo,
Em cada aurora inaugural.
E cria em mim
Esta turva ilusão
De que cada dia
É um dia novo,
Uma nova canção.

E tudo isto é belo,
E tem seu sentido,
Mas anda um poeta
Pelas noites da alma
Só…
E quase perdido.

Que amanhecer é esse
Em que te não vejo
E te não ouço?
Que poder é esse
Em que tu podes
E eu não posso?

Entardece minha vida.
Aproxima-se a partida.
Neste breve entardecer
Não há manhã
Que me resgate
À fortuna de morrer.
Uma palavra que fosse,
Uma palavra e um gesto sereno…
O tempo esgotou-se.
Para tanto desejo,
Meu desejar é pequeno.

Anoitece.
O céu imenso escurece
E com ele meu peito.
Resta um homem só,
Refugiado
Num corpo imperfeito.

Vem de novo o silêncio,
Esfumam-se os traços do teu rosto,
Tuas expressões já esqueço.
Invade-me o breu
E anoiteço.

jpv


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O que fica…

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Fica só a dor.
No fim do amor.
Fica só o desespero
Da indiferença
E da rejeição.
No fim da paixão.
Fica só essa viagem
longa e interminável
Pela noite escura.
Fica só a sepultura
Das palavras todas
E de todos os abraços.
Fica o timbre da tua voz.
Fica a impotência,
Absurdo inexplicável,
Dor atroz.
Fica só a cinza.
Do lume,
Nem chama,
Nem calor.
Fica só a memória distante
Do amor.
Fica o muro
Intransponível
E escuro
Onde rebento os punhos.
Fica a folha branca,
refém do vazio
E de imperfeitos rascunhos.
Não conheço esse traço, já!
Não sei porque vives sem mim,
Se em mim nasceste
E em mim cresces
Despudorado.
Tem travo a fim
Este fim desenhado
Nos teus gestos.

Fica só…

jpv

 


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Bob Dylan

bob-dylan

Não oiço, já,
A voz rouca
E evocativa
Do Bob Dylan.
Deixei de cruzar-me
Com os seus versos.
Sobram, em meus dias,
Sons amargos e dispersos,
Primitivas melodias
De meus erros
E meus pecados.

Quando o ouvia cantar,
Como se fosse
O único gesto possível,
Like a rolling stone…
Acreditava nas palavras.
Na dor,
Na ironia,
E na verdade
Que vinha com elas.
Havia, afinal,
Músicas paralelas,
Havia outros versos,
Outros poemas,
Muitos intérpretes,
E temas
De surpresa
E traição.

Já não oiço Bob Dylan…
Perdi-me a meio da canção.
Desconheço o destino
E a condição
Do que vim a ser para ti.
Talvez o fim…

Hey, Mr Tambourine man, play a song for me…

jpv


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Desabrigo

dhow

Essa palavra
Forte e curta.
Início da dor,
Fim da luta.
Esse gesto
Lento e demorado.
Princípio do caso,
Caso encerrado.
Essa ausência
Súbita e inesperada.
Temor do peito,
Intenção adiada.

Se tu me quiseres
Como eu te quero,
Se tu me esperares
Como eu te espero,
Será mais curto
O desespero
E mais rápida
A decisão.
Nunca senti
A tua mão
Em meu corpo,
Nem teu desejo
No meu olhar.
Só as palavras
Como último lugar,
Única e longínqua
Forma de estar contigo.
Meu porto inseguro!
Meu desabrigo!

jpv