Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Escultor de Sonhos

Foto por jpv. Candeeiro.

Era o mar que observavas

Ou era ele que te esculpia

Os sonhos?

Era a brisa que saboreavas

Ou era ela que te embalava

A imaginação?

Entregavas-lhe o que és

E pedias de volta

O que querias ser,

Olhaste-o sem temer

E enviaste-lhe uma mensagem

Perfeita e concisa

Envolta no sussurro da brisa:

Realiza-me os sonhos!

E por cada desejo,

E por cada pedido,

Recebias a força e o ensejo

De um sonho apetecido.

E ali estiveste ondulando o pensamento

No mar brilhante e encapelado

E quando chegou o momento

Julgaste ter vivido

O que havias sonhado.

jpv

Republicação de “Entre o Sonho e o Sono Tomo II, pág. 60”


2 comentários

Limiar

Limiar

Não há mais palavras
Nem vontade,
Nem desejo.
Há só a calma aceitação
Do que sinto
E do que vejo.

Era tão bom
Quando ainda me importava.
Quando havia luxúria no meu corpo.
Quando a energia me arrepiava as carnes
E o cheiro do teu corpo
Bloqueava os outros sentidos.
E o sentido era único.

Já não quero a eternidade.
Não me diz nada o tempo todo.
Tinha uma só vida…
E adiei-a.

Tinha uma só voz
E poupei-a.

Tinha um só corpo
E preservei-o.

E nada me resta mais
Que a condição miserável
De morrer conservado
E saudável.

Bebam o álcool todo!
Fumem todo o tabaco!
A vida é um barco
E não há terra.
Deleitem-se com todos os corpos,
Possuam todos os sexos!
E caminhem nus pela praia da vida
Na aurora de cada dia.
Nada mais existe do que o momento.
Cada momento
É todo o tempo
Que temos.
Cada dia é a hora de ser vivido.
Amanhã é tempo perdido.

E quando olhardes para trás,
Contemplai
Um lastro de vida vivida,
Um rasto de experiência
E desperdício.
Os verdadeiros despojos
Do exercício
De sentir-se único e vivo.

E pagai para ver!
Correi todos os riscos!
Só no limiar do azar
Abunda a sorte.
A vida inteira e única
Só se conhece nas fronteiras da morte.

jpv