As palavras sopradas à brisa
Têm mais sabor.
Sabem a histórias antigas
De mancebos heróicos
Amando raparigas.
E vem, com o restolhar da folhagem,
Bailando nas voltas da aragem
Fresca,
Uma promessa.
É uma vida nova e doirada,
Uma esperança renovada,
Uma imagem e uma ideia.
Tudo, preso na teia
De uma conversa que passa.
Passou.
E ficou só o canto da cigarra
E a brisa na minha pele.
Quando me tocaste
Assim, ao de leve,
Assim como quem tenteia e atreve,
Suspendeste minh’alma.
E por um fugaz segundo,
E breve,
Julguei ser tudo possível de novo.
Esse gesto inconsequente
Traz-me suspenso
Dos dias.
Traz-me perdido e ausente
De mim.
Mergulhado em sonhos e fantasias
Como quem renasce
E vive outra vez.
Como quem morre e se reúne
Como coisa que se não desune
Nem desliga
Do entusiasmo
E da volúpia.
Arranhaste-me a imaginação,
Deste culpa ao meu perdão,
Açúcar ao meu vinho ébrio,
Fogo à minha lenha…
E assim, como quem desenha
Ilusões e esperança
Tocaste ao de leve
E retomámos a dança
Da sedução.
Dois corpos vencidos,
Um do outro,
Jazem pelo chão…
Dos afetos.
Não foi fulgor,
Pequena chama acesa,
Suave e dócil empresa
A tentar-me os sentidos…
E como vieste,
Te fizeste distância
E frio
De um sorriso
Esvanecido.
De nós,
Só já existo eu
E a ideia de ti.
Tu foste viver
Outras vidas.
Eu…
Morri.
E nada disto é trágico
Nem doloroso.
Foi só uma chama,
Um roçar de pele
Em instante fugaz e breve.
A tua mão em mim
Tocando ao de leve.
Adoro poesia. Adoro escrever poesia. Nem me interessa muito se é boa ou má. Não a meço assim. Interessa-me o prazer que tenho nisso.
Contudo, hoje senti-me pequenino quando tropecei num poema antigo, quase com trinta anos, dos Proclaimers. É duma simplicidade tremenda e, contudo, no que respeita àquele tema, não há muito mais a dizer.
E foi por isso que decidi partilhar convosco o poema e a canção que nasceu dele.
“I’m Gonna Be (500 miles)”, The Proclaimers.
When I wake up,
Well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who wakes up next to you,
When I go out,
Well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who goes along with you,
If I get drunk,
Well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who gets drunk next to you.
And if I haver, yeah I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who’s havering to you.
But I would walk 500 miles
And I would walk 500 more
Just to be the man who walked a thousand miles
To fall down at your door.
When I’m working,
Yes I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who’s working hard for you, (shake a ka)
And when the money,
Comes in for the work I do
I’ll pass almost every penny on to you
When I come home,
I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who comes back home to you
And when I grow old,
Well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who’s growing old with you.
But I would walk 500 miles
And I would walk 500 more
Just to be the man who walked a thousand miles,
To fall down at your door.
When I’m lonely, well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who’s lonely without you
When I’m dreaming, well I know I’m gonna dream
I’m gonna dream about the time when I’m with you
When I go out (when I go out), well I know I’m gonna be
I’m gonna be the man who goes along with you.
But I would walk 500 miles
And I would walk 500 more
Just to be the man who walked a thousand miles
To fall down at your door.
Essa cristã dicotomia.
Esse excelso apartar.
Essa terrível chaga
De por cada um no seu lugar.
Esse prémio e esse castigo,
A salvação do justo
E a condenação do iníquo.
Essa opção um dia,
Todos os dias.
Esse se
Pendendo sobre o que farias.
O meu suor na tua cama,
Outro corpo suado que me chama.
O meu corpo sobre o teu
E a sombra de outro
Desenhada no meu.
Uma visita furtiva
E um pouco de amor no regaço.
Palavras incendiadas de prazer
E outro prazer no meu espaço.
O sexo e a tentação.
As horas que passo
Em teus domínios.
E logo me chamando
Outras vozes
E outros desígnios.
Há um céu e um inferno
Um gesto brusco e outro terno.
Há um chegar e um partir.
Há uma fuga de mim
E um perseguir
O sonho de querer-te,
Ser feliz…
Rotina de paixão sem fim.
E há uma oração
Em teu corpo nu e ajoelhado
Traçando com precisão
A distância entre Deus e o Diabo.
Era negra, a menina.
Era negro, o destino.
Era negro e franzino
O gajo atrás do vidro.
E desfalecia, a menina.
Desfalecia, a vida
No vórtex da indiferença
De uma fila comprida.
Tempo de desespero,
A mãe com a criança
Entre os braços.
Estreitam-se ainda mais
Os já muito estreitados laços.
Um olhar triste.
Um olhar conformado.
Um olhar sem revolta
Na revolta de um olhar molhado.
E uma espera.
Uma noite longa e quente.
Um corpo pequenino e indefeso.
Um homem distante e ausente.
Sem piedade,
A urbe adormece,
Embalando nos seus braços
As teias que a vida tece.
E há dor.
E há vida e luz.
E há destinos de outra gente.
Gente que a gente produz…
Mora, intacto, em mim,
O teu corpo.
Em tangências de luz e perfeição,
Ainda sinto a suavidade dos teus seios
Preenchendo-me a mão.
Ainda te arqueias e ofereces
Em movimentos lentos e sedutores,
Ainda me lembro das preces
Gemidas sem fronteiras nem pudores.
Ainda sorris convidando,
Ainda chamas empurrando,
Ainda te sacias em mim
Como num altar de promessas.
Ainda te encostas e te entregas,
Sem máscaras nem pressas.
Ainda é vívida a memória
Desses corpos abandonados
À luz da noite,
No tempo antes da história!
Caros amigos, tenho andado nesta preguiça de escrever porque me enredam as coisas pequenas da vida. E essas, têm poderes maléficos. Os de nos distraírem do fundamental. Este Blogue tem tido umas crónicas, umas erupções poéticas, umas parvoíces… tudo espaçado de dias longos. Os meus leitores e os meus amigos e, garanto-vos, há grande confusão entre esses dois grupos, merecem melhor. E merecem mais.
Sim, sim, as viagens transcontinentais, vida cá, vida lá. Sim, sim, as responsabilidades no trabalho e o volume que ele assume. Sim, sim, a revisão do recentemente terminado romance para que possa publicar-se em breve. Sim, sim, a mudança de casa e mai-los episódios tipicamente africanos que a seu tempo contarei… Sim, sim… tudo isso são justificações válidas, mas são, também, no dizer antigo da minha querida e falecida avó Ana, desculpas de mau pagador.
Hei de dar-vos um conto da série “O Ofício da Memória”. Hei de trazer-vos novidades acerca do próximo romance. Há de escrever-se um conto da série “Histórias a Preto e Branco”. E hão de ver a luz dos vossos olhos algumas dessas crónicas africanas.
Sim, confesso. A produção escrita anda devagarinho e desleixada. Talvez esteja descansando. Talvez… Mas ando incomodado com esta letargia que ataca de forma severa a minha caneta. Sim, a caneta. Eu escrevo primeiro à mão, depois passo para o processador de texto e finalmente tudo vem morar aqui… Sim, sim…
Tenho palavras
À janela da tentação.
Tenho palavras
Bailando na mão.
Tenho Palavras,
Mas não tenho tempo para elas.
Tenho palavras
Que morrem antes de escrevê-las.
Uma viúva de negro
Sulcada de rugas
E desesperada.
Um homem amordaçado
Em princípios e valores
E outro que rouba sem consciência
Nem pudores.
E há um cavaleiro que vem salvar uma donzela.
Emerge da noite
Em luminosa e moderna tela.
E vejo um homem que mendiga
Repudiado
E um outro vivendo incólume
Num conforto roubado.
Tenho palavras
Que não posso dizer.
Tenho histórias
Que não posso contar.
As palavras hão de morrer
E as histórias terão de acabar.
Aqui, onde o sol é redondo e mora perto.
Aqui, onde nada se tem por certo.
Aqui, na terra dos sorrisos abertos.
Aqui, nos olhos de espanto desertos.
Aqui, mora a alma perdida
Que veio encontrar-se.
Aqui, deambula um corpo sozinho
Que veio juntar-se.
Aqui, o mar não ameaça
E é tão natural a fortuna
Como a desgraça…
Aí ficaram os afetos,
Ficaram os olhares cruzados
De avós e netos.
Ficaram os suspiros,
As palavras de esperança.
Aí ficou a música no olhar
Insatisfeito de uma criança.
E ficou tanta coisa por fazer,
Tanta emoção por dizer,
Tantos de vós por abraçar.
Aí é um lugar acolhedor e distante.
Assim, devagarinho,
E vigorosa,
Entras de mansinho,
Na minha vida,
Manhã radiosa.
E preenches a alma e o peito,
E trazes o fresco renovado
De um novo dia eleito,
De entre as brumas do passado!
Não sei que sóis,
Não sei que corpos ardendo
Sob os lençóis
De linho e seda.
Sei só, que no meu peito sozinho,
Habita uma manhã radiosa e leda!