
“O setôr parece que engoliu a Internet e uma biblioteca!”
LS

LS
Crónicas de África – Coisas do Quotidiano (2)
Há pormenores sobremaneira interessantes e curiosos nesta vida africana em Maputo. O encanto dos primeiros dias mantém-se, acontece que agora está filtrado pela experiência e algumas coisas que nos poderiam incomodar ou fazer gastar energias são encaradas à maneira africana: não queiras consertar o mundo, resolve o teu problema do momento. Este tipo de atitude tem de se aprender e interiorizar caso contrário andaremos quixotescamente a demandar moinhos metamorfoseados.
O que se passa é que esta Crónica de África tanto poderia chamar-se Coisas do Quotidiano (2), como Problemas de Bricolage, ou ainda A Casa Assombrada. Qualquer um deles assentaria que nem uma luva dependendo da perspetiva por que optarmos. Em nome do pragmatismo blogueiro, escolhi o primeiro. Mas admito que prefiram outros umas vez lidas as linhas que se seguem.
Nós gostamos da nossa casa. Tem muito boas condições. Cozinha nova, casa-de-banho nova, chão impecável, bons espaços, bom estado geral, excelente varanda, garagem, água e luz regulares, bairro seguro. Um tanto cara, mas há opções que é preciso fazer… Tenho mesmo para mim, porque andei visitando casas anunciadas e verificando o seu estado, o que tinham para oferecer e os preços, que esta casa é um oásis em certo deserto… Ainda assim, para quem possa pensar que viver no estrangeiro é pera doce, aqui ficam alguns pormenores que, num passado recente, nos têm assombrado o quotidiano… em casa!
Tomadas
Na sala, há duas tomadas de energia elétrica. Estão em paredes diferentes, vêm em cabos diferentes do mesmo quadro. Uma está na parede da televisão atrás de um móvel e outra atrás de um sofá. Aqui há uns tempos, a televisão e tudo o que estava ligado a essa tomada, desligou-se. Verifiquei, limpei, desinstalei, voltei a instalar e nada. À boa maneira africana, deixei ficar. Que se lixe! pensei. Há de voltar. E voltou. Dois dias depois. Azar dos azares, mais dois dias volvidos e voltou a pifar. Acontece que, quando os fenómenos se repetem, nós tendemos a procurar aquilo que está igual e aquilo que está diferente. Ora, o que estava igual é que sempre que a tomada da televisão deixava de funcionar era porque tínhamos algo ligado à tomada que está atrás do sofá! Medo! Muito medo. Se for um telemóvel a carregar na tomada atrás do sofá, tudo normal. Se for o router da net, tudo normal. Mais do que isso, mesmo dois simples telemóveis a carregar e a televisão e toda a parafernália que está na tomada do outro lado da sala despedem-se e não voltam mais… Das duas uma, ou chamo um exorcista ou um eletricista! Sendo que em Maputo a diferença entre estes cavalheiros está muito esbatida! Não acreditam? Uma vez veio cá a casa uma pessoa que mandou fazer um furo na parede sabendo-se que estava um cabo nesse local. Ele olhou o homem do berbequim e disse, Tem fé! Fura! Por Alá! O outro furou e não aconteceu nada. Ele apressou-se a dar uma gargalhada, olhou o outro com ar incrédulo e disse-lhe, A Fé faz milagres!
A Lâmpada Que Geme
A lâmpada do meu escritório geme! Não, não são os vizinhos de cima que aquilo é tudo gente tranquila e educada em quem se pode confiar, é mesmo a lâmpada que geme. Primeiro, começou por ser um leve ruído. Depois um zumbido e agora é um inequívoco gemido como se alguém se estivesse a queixar das dores do reumático…
Quebra Parcial
Um dia destes faltou a luz. Um daqueles fenómenos em que as luzes todas se apagam e no instante seguinte retomam o seu normal funcionamento. Claro que obriga a acertar os relógios digitais e a ligar de novo a Tv e a net, mas não é nada do outro mundo. O que já não me parece tanto deste mundo é o que me aconteceu no sábado passado. Faltou a luz por momentos e logo, logo, voltou, mas… foi só nas lâmpadas! Os eletrodomésticos ficaram incólumes à quebra! Vantagem: não foi preciso acertar relógios digitais!
Só ao Pontapé!
Tenho um candeeiro no meu quarto que é teimoso. Uns dias acende. Outros não. A ficha tripla que está no chão deve ser a causadora. Já a limpei, abri, endireitei os condutores, e ela volta ao mesmo. Ora jorra luz, ora apaga-se. Mas descobri mais. Sempre que lá vou tratar dela com carinho, ela fica indecisa. Umas vezes funciona, outras não. Se lá chego e lhe espeto um pontapé, funciona sempre. Há coisas que não dá para entender. Mas se funciona assim, tomei uma decisão, ligo sempre o candeeiro antes de me descalçar. Leva o pontapezinho da ordem e fica a funcionar às mil maravilhas…
Fogo de Artifício
Já aconteceu cá em casa algo de muito curioso e até com certa aura transcendental. Na cozinha, por ser grande, há duas lâmpadas. Uma cá, ao pé da porta. Outra lá, ao pé do lava-loiças. Acendem num interruptor, cá, ao pé da porta, que tem dois botões, um para cada lâmpada. Aqui há uns meses, ao acender a lâmpada de lá, aquilo deu um estoiro, largou uma carrada de faíscas que iluminaram a cozinha e se precipitaram para o chão e ficou um leve cheiro a queimado. Como é o tipo de coisa que pede por um eletricista e os tetos aqui têm cerca de três metros de altura, pensei para comigo: Ou compras um escadote e arranjas tu, ou chamas um eletricista. Chamar o eletricista é capaz de não ser grande ideia porque a primeira coisa que ele vai dizer é Boss, por acaso não tens aí um escadote? É que eu preciso subir… Enquanto me decidia sobre que curso de ação seguir, deixei bem claro cá em casa que não se podia acender a lâmpada de lá! Mas, passados uns dias, fui eu mesmo que me esqueci e quando precisei de acender a lâmpada de lá, pressionei o botão do interruptor e a lâmpada… acendeu! Eu nem reparei. Mas a Paula reparou. Entrou na cozinha e perguntou, Então essa lâmpada já acende? Pelos vistos, já. Respondi e fiquei a olhar para ela. É que eu vi claramente visto com estes dois que a terra há de comer aquilo tudo a arder! Funciona? Esquece, ’tá resolvido!
Enganam-se!
As pessoas que estão a ler esta crónica, sobretudo os homens, mais sobretudo se não viverem em África, já estão com a ideia arrogante de que eu preciso é de um eletricista. Enganam-se. O meu quadro foi todo revisto e estabilizado e a minha instalação foi parcialmente substituída por cabos novinhos em folha… isto são fenómenos próprios de um continente onde tudo tem mais força, até mesmo aquilo que não compreendemos. Não se luta contra, não se tenta consertar África. Mergulhamos em África, deixamos que África tome conta de nós e vivemos em África como se vive em África. Deliciosamente despreocupados com essas coisas menores! Quem é que pode deixar de ser feliz porque não percebe como é que uma lâmpada que ardeu funciona na perfeição, melhor do que uma ficha tripla acabada de comprar? Ninguém! A felicidade, em África, não passa por aí!
A Máquina Andante
A minha máquina de lavar roupa anda! Anda para a frente. Já foi calibrada, recalibrada, ajeitada, inclinada, presa com um cordel e calibrada outra vez, o chão já foi nivelado e até já a ameacei que lhe dava dois murros no tampo. Nada resultou. Anda sempre para a frente cerca de vinte centímetros e quando está mesmo para cair da plataforma de betão onde está empoleirada, pára! Simples. Se não chega a cair, não constitui problema. Empurra-se para trás e pronto.
O Milagre da Chuva no Duche
Quando aluguei a casa, fiquei feliz porque além do chuveiro de mão, tinha um chuveiro de parede, daqueles que a gente se põe lá de baixo e a água jorra avonde e toma-se uns duches muito retemperadores. Acontece que nunca consegui rodar as torneiras desse chuveiro. Tentei desmontá-las e nada. Tentei rodá-las vezes sem fim e nada. Usei chaves para as rodar e nada. Nem a água fria, nem a quente. Era um desconsolo. Um tipo ia para a banheira e tinha de agarrar no chuveiro de mão com o outro ali ao lado a fazer negaças. E fui tentando ao longo de vários meses até desistir por exaustão. Um ano e meio depois de estar na casa, num dia em que nem sequer ia tomar banho, fui só lavar os dentes e pensei, Já para aí há um ano que não marro contigo, deixa cá ver… e rodei devagarinho, com a força que até uma criança de cinco anos consegue fazer. E ela nem gemeu, nem ofereceu resistência. Abriu-se e choveu água fria. Tentei na da quente e o milagre repetiu-se. De lá para cá, tenho tomado banho mais assiduamente para aproveitar não vão um dia destes as torneiras fartarem-se e voltarem à primeira forma…
Televisão Seletiva
A televisão anda muito seletiva ultimamente. Só dá som nos canais que lhe apetece. Não, não é nada com os cabos. Já tirei os cabos, já revi os cabos, já reinstalei os cabos e acontece sempre o mesmo. Há dias em que o som é geral, ouve-se tudo cristalinamente em todos os canais. E tem dias em que o som é seletivo. Alguns canais são sonoros, outros são mudos. A imagem? Hehehe… a imagem é perfeita em todos! Não, nem pensem que vou gastar energias a arranjar. Um dia destes volta tudo pelo mesmo caminho que foi. Ou por outro. Isso importa pouco!
Net Intermitente
Se tiverem oportunidade de ler esta crónica, é porque correu tudo bem com a net que ultimamente anda meio… como é que é aquele nome técnico? Ah, já sei, manhosa! As páginas não carregam. E lá aparece aquela coisa do “Ups! A sua página não carregou!” e eu a pensar, É preciso ser estúpido para escrever esta mensagem, se a página carregasse, eu tinha notado! Pensei ter um problema no browser e experimentei outros, o FireFox e o Internet Explorer, mas o resultado foi igual. Descobri entretanto que, se refrescasse a página – tecla F5 – elas recarregavam na perfeição. E pronto, fui ser feliz até esta coisa ir abaixo de vez.
P’ra Acabar…
Se estes fenómenos me incomodam? Nem um bocadinho. Danço ao som da música. Vivo com o que Deus me dá e os homens me deixam ter. Contorno algumas situações e só dou importância ao que for verdadeiramente grave. África tem este efeito interessante, por nos tornarmos menos seletivos com as pequenas coisas, aquelas com que gastamos energias desnecessariamente, tornamo-nos mais seletivos em relação àquilo que realmente interessa na nossa vida. África ensina-nos a apartar a nuvem e ir diretos a Juno. Acho, perdoem-me o erro de raciocínio, se o houver, que África nos torna, em termos comportamentais e reflexivos, mais puros, mais objetivos, mais próximos de nós próprios. África despe-nos de muita coisa que não interessa e ao mostrar-nos as nossas fraquezas desnudas, fortalece-nos!
jpv

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. “
Coríntios 13:4
O Efeito Linus Van Pelt
Lembram-se do Charlie Brown? Devem lembrar. Mas, se não lembrarem, pelo menos, lembram-se do Snoopy que era o cão do Charlie Brown… Pronto, se já se lembraram deles, agora esqueçam. Eu nunca gostei particularmente da banda desenhada ‘Peanuts’ do Charles Schulz, mas as coisas são como são e eu acabava sempre a ler mais um livrinho ou a ver mais um episódio da série animada e a razão era simples, chamava-se Linus Van Pelt. Também conhecido só por Linus, era o melhor amigo de Charlie Brown e de longe, mas mesmo de muito longe, mais interessante que o Charlie ou o cão estúpido-teimoso-arrogante-domesticador-de-humanos-com-a-mania-que-tem-piada, o tal do Snoopy.

Linus era equilibrado, tinha uma visão racional das situações, não se deixava levar pelas parvoíces do Charlie Brown, enfim, às vezes deixava, era inteligente e, sobretudo, era uma personagem mesmo interessante, de bem consigo, sem grandes dilemas interiores, nem dúvidas em relação às suas opções. Nada ao meu alcance, portanto. Ainda assim, havia um aspeto que me fascinava mais do que todos os outros: Linus tinha um cobertor que levava para todo o lado. Nunca achei a ideia muito higiénica, mas sempre pensei que ter um amigo constante, fofinho, a quem confessamos os nossos segredos, pedimos conselhos, desabafamos e que, em última análise, também serve para limpar as mãos, era muitíssimo reconfortante. Talvez por isso, sempre quis ter um cobertor como o do Linus, mas a vida nunca mo trouxe. Quando comecei a namorar, deixei-me de parvoíces e atirei-me às raparigas. Boa jogada, o tempo veio a provar. Mas o tempo passa. A vida adquire novas cores e perspetivas e já ia com trinta e muitos, quando comprei uma t-shirt, a da foto, propositadamente tremida para não verem o estado em que está, que se viria a revelar uma das melhores aquisições da minha vida. Foi há mais de dez anos e nunca me lembro da t-shirt alguma vez ter sido nova. Pouco depois de a comprar, sofreu um pequeno, quase impercetível, rasgão que a impede de ser uma t-shirt de sair à rua. Não poderia ter vindo mais a calhar, o rasgão. É que a t-shirt tinha e, passados todos estes anos, ainda tem, um toque suavíssimo, um tamanho perfeito, um cair delicioso, um vestir super-hiper-mega-confortável. E assim, meu Deus, o que vou escrever a seguir, estragará o que resta da minha reputação, transformei-a na minha t-shirt Linus Van Pelt. Serve para ler, para dormir, para ver televisão no sofá, sobretudo se estiver a dar o Benfica, para arrumar a casa, para escrever, para cozinhar, para lavar o carro, para ir à praia e proteger do sol, para fazer bricolages e, quando há tempo, é perfeita para fazer nada com uma chávena de café quente na mão. E só não saio à rua com ela para ir comprar o pão ou fazer uma investida ao supermercado porque a minha mulher proibiu-me de o fazer. Aliás, cá em casa, a minha t-shirt Linus Van Pelt tem uma ameaça pendente: já várias vezes lhe foi sentenciada a pena de ir parar ao caixote do lixo. O funesto evento só ainda não aconteceu porque eu me comprometi a enfiá-la na máquina com frequência e porque, quando a visto, além de irresistível, devo ficar com ar de inigualável felicidade.
A verdade é que quando visto a minha t-shirt, abate-se sobre mim o efeito Linus Van Pelt. Fico tranquilo, feliz, equilibrado, de bem com a vida. E só escrevo estas linhas porque quero homenageá-la! Pois, devo estar mesmo mal, é do cansaço! Já vou na fase de homenagear peças de roupa. Sinto-me subitamente feliz e realizado, sinto-me confortável e bem enquadrado no Universo. Quando visto aquela t-shirt sinto-me em casa onde quer que esteja. Não se estranhe por isso que, com limite de peso na bagagem e tanta coisa para trazer, quando vim para Moçambique, há dois anos, a primeira coisa a fazer, foi guardar um espacinho na mala para minha t-shirt Linus Van Pelt.
jpv
O teste da foto foi classificado com Satisfaz!
Com Satisfaz Pouco ficou classificado o meu domingo, inteiramente dedicado à correção de testes de avaliação. A empreitada começou pelas sete da manhã, intervalou para um breve frango no Piri-Piri, e continuou tarde dentro até ser noite. Entre testes e fichas, corrigi cerca de oitenta documentos de avaliação!
Agora ia dormir… mas fiz uma promessa de trabalho e vou cumpri-la!
Se eu podia passar um domingo sem corrigir testes? Podia! 🙂
jpv
39Olá Mana!
Saudades! Muitas!
Hoje é 31 de maio. Faz, portanto, 39 anos que reaprendemos a viver! Não morremos. Renascemos…
Amo-te muito, Mana!
Mil beijinhos,
Mano
Crónicas de África – A Força do Contexto
Como é sabido, e difícil de contrariar, Moçambique, e em particular, Maputo, têm um contexto social muito vincado e muitíssimo pujante. É uma daquelas coisas que não convém contrariar sob pena de insucesso. Vale mais tentarmos percebê-lo, adaptarmo-nos e viver de acordo com as suas regras. Negar a força desse contexto é uma ousadia que pode pagar-se caro.
A presente história passou-se com italianos, mas poderia ter sido com espanhóis, com dinamarqueses, com chineses, com búlgaros, com noruegueses ou mesmo com portugueses.
Muitos dos países que referi, e tantos outros, têm instituições de diversa ordem a funcionar em Maputo ligadas à diplomacia ou à cooperação ou a outras formas de intercâmbio e ajuda. A maioria delas, por via de estarem envolvidos dinheiros públicos, recebe, com regularidade incerta, a visita de inspetores ou supervisores das respetivas pátrias a fim de averiguarem se os projetos decorrem de acordo com o estipulado nos protocolos e na legislação. Ainda há dias, a Escola Portuguesa de Moçambique foi visitada por uma equipa de inspectores e avaliadores. Tudo normal. Acerca destas visitas, emergem inúmeras histórias, quase todas ligadas à força do contexto.
Há uns meses, estiveram em Maputo uns supervisores de uma instituição pública italiana com o propósito de avaliar o seu funcionamento, a legalidade de procedimentos e questões de ordem orçamental. Seria uma visitasinha para dez dias de trabalho. O acolhimento foi agradável, mas depressa nasceram algumas discordâncias. Os supervisores puseram em questão alguns procedimentos que os funcionários locais obstinadamente teimavam em justificar com o contexto social. Um dos supervisores perdeu a calma:
– Lá está o senhor com o contexto! O contexto, seja ele qual for, não pode interferir com as leis de Roma!
– Mas a realidade aqui é diferente. Não é a mesma forma de pensar, de viver, e os recursos e a insegurança!
– Nada disso pode interferir com a missão, com os resultados a apresentar, nem com os procedimentos. Deixe-se lá de contextos e cumpra a lei de Roma.
A mensagem não poderia ter sido mais clara. E a visita continuou. O funcionário italiano em Maputo começou a rever procedimentos e tudo parecia estar a levar uma pequena reviravolta. O único problema, é que ninguém tinha perguntado ao contexto o que é que ele pensava do assunto. Num desses dias, ao cabo de uma jornada de trabalho, o contexto manifestou-se. Jantar amistoso num restaurante da cidade. Aconselharam pratos simples aos supervisores e sugeriram que esquecessem as saladas, é que o contexto… Mas o supervisor estava apostado em provar que as leis de Roma e os romanos que as representavam estavam acima de qualquer contexto e vai daí pediu uma salada para acompanhar. E acompanhou.
No dia seguinte, de manhã, o senhor supervisor foi visto a fazer uma viagem apressada do seu gabinete à casa-de-banho e, quando estava a dois ou três metros da mesma, apressou o passo, deu uma corridinha e levou uma mão ao rabo das calças como que se certificando de que estavam enxutas. Alguns minutos passados saiu de lá trazendo com ele uma baforada de cheiro que preencheu todo o corredor. O homem vinha lívido, olheiras enormes, um pouco dobrado para a frente e passava a mão pela barriga como se estivesse a alisá-la de alívio. Conta quem viu que o supervisor se cruzou no corredor com dois dos funcionários italianos em Maputo sendo um deles o seu opositor discursivo dois dias antes. E cumprimentou-os:
– Bom dia!
– Bom dia, senhor supervisor. Precisa de alguma coisa?
-Uma garrafinha de água, por favor.
– Com certeza. É para já.
Assim que o supervisor desapareceu no gabinete, um dos funcionários perguntou ao outro:
– O tipo está esquisito. Sabes o que é que ele tem?
– Sei. Enfim, suspeito…
– Então?
– Acho que ontem teve um encontro com o contexto e hoje está a ter fortes descargas contextuais.
E riram ambos a bom rir. Conta quem sabe que, fosse pela força do contexto, fosse por uma outra insondável razão, quando o relatório de Roma chegou a Maputo, a palavra mais frequentemente repetida era… contexto!
jpv
“Bem-aventurados sereis vós quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e levantarem todo o tipo de calúnia contra vós.”
Mateus 5:11
Crónicas de Maledicência – O Fracasso da Copa
Não tenho, neste momento, quaisquer dúvidas. A Copa Brasil 2014 vai ser um fracasso. Só o hoje o descobri, mas temo que a descoberta seja incontornável.
Como vai sendo hábito desde que me conheço, ainda que com parcimoniosas exceções, hoje acordei de manhã. E acordei ao som do despertador. Tenho um daqueles que, quando desperta, dá música. Ou melhor, daria. A verdade é que a minha mulher, vá-se lá saber porquê, prefere acordar com notícias. Eu acho aquilo um hábito um pouco sado-maso, uma espécie de bondage do acordar, funciona, mas é violento.
E hoje as notícias que me roubaram aos braços de Morfeu eram sobre o quê? As eleições europeias e o assalto da extrema-direita ao poder por via democrática? Não. Pouco interessante. Sobre os concursos de docentes em Portugal? Na… Sobre a saída limpa ou a retoma da economia nacional ou europeia? Na… Sobre os problemas que assolam as comunidades lusófonas em África como, por exemplo, a fome? Na… Sobre as eleições na Guiné? Na… Tudo matéria de somenos quando comparada com o verdadeiro motivo de notícia com que o dia acordou: o futuro de Jesus!
Eu, por acaso e ignorância, pensei que o futuro de Jesus estava traçado e consistia em ficar ao lado de Deus num cadeirão dourado com um estofo macio em veludo encarnado. Enganei-me. O futuro de Jesus também é encarnado e também é num estofo macio, mas será no banco reservado ao treinador do Benfica. A malta do Rio Ave e do Sporting e do Porto não deve ter gostado nada da ideia porque o Jesus já esteve este ano nesse banco e ganhou tudo. É um alambazado que não deixa nada para os outros. Eu que sou benfiquista também não gostei. Então a Seleção tem um compromisso tão importante como a Copa do Mundo e a gente não manda para lá o Jesus? Vai o Paulo Bento? Que eu saiba o Bento não passou de Papa.
A Copa não terá o mesmo brilho. Não terá o mesmo glamour. Não terá a mesma ciência nem a mesma filosofia e, de certo, não terá a mesma arte. Estará votada ao fracasso, portanto! Quem é que vai dizer peaners e acardito? Quem é que vai dizer a gente temos? Quem é que vai citar Pascal e fazer perguntas de filosofia aos jornalistas? Quem é que vai comparar a mui nobre arte de treinar jogadores de bola à pintura de Paula Rego? Quem? Sim, quem é que no espectro internacional tem estaleca para dar um espetáculo dentro do outro com a originalidade, sempre renovada, se Jorge Jesus? Ah pois é… ninguém!
A organização da Copa 2014, se andasse com juízo, inventava mais uma vaga para um país que tivesse ficado de fora por uma nesga e pagava para o Jesus treinar os maganos. E aí sim, toda gente ficava a ganhar. Eu dantes pensava que o futebol era interessante por causa da bola, das balizas, dos jogadores… andava enganadinho. A bola tem muito mais interesse com o Jesus no espetáculo e é por isso que eu não vou ligar nenhuma a esta Copa! Sem Jesus, não vale a pena. Já fracassou!
Tenho Dito!
jpv
“Não procureis vingança, nem guardeis rancor contra alguém de meu Povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor.”
Levítico 19:18
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