Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Verdade Incontornável – IV

O som do silêncio perante a pequenez e a impotência humanas.
Por vezes, quanto mais são as palavras e quanto mais alto são ditas, gritadas, mais o silêncio se ouve. Se apodera do espaço. E depois resta nada. Só a ausência de tudo. A imposição de coisa nenhuma. O vazio.


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Perda irreparável

Um dia um jornalista disse que José Saramago não tinha meio-termo nos sentimentos que despertava nas pessoas. Ou se gostava, ou não se gostava. Ou se era um leitor assíduo, ou recusava-se liminarmente a leitura. Eu leio Saramago desde que me conheço. Sempre li e sempre gostei. Antes do Nobel, durante o Nobel e depois do Nobel.

Não é o Nobel que interessa. O que interessa é o extraordinário património cultural, literário e humano que deixa como legado. Cada um fará a sua análise. Uns dirão umas coisas, outros dirão as coisas opostas. A mim, não me interessa nada disso. Fica-me só um sentimento de vazio, de perda irreparável de um homem que me deliciou a mente, me fez sentir mais gente, mais humano. De um homem que retratou a minha condição e a condição do meu povo de forma ímpar.
Estes dias disse a uma pessoa de família “Qual será o próximo livro do Saramago?” Parece que não será nenhum. Li, sem vaidade, só como constatação, todos os seus romances. Tenho um preferido, como toda a gente. É uma espécie de livrinho de revisitações. Chama-se “Levantado do Chão”. E como não haverá um próximo, é chegado o tempo das releituras!
Curiosamente, agora que faleceu, Saramago já está na minha mente, muito acima do chão dos homens. Está no lugar dos visionários, dos solidários, dos homens que estavam à frente dos outros. Perdeu-se um homem e um escritor ímpares. A obra, e ele através dela, perdurará para sempre.
Por ironia, numa fase em que estamos a ser agredidos pela subjugação do pensamento humano à finança e à tecnologia, numa fase em que a visibilidade se assume como um valor mais do que a honestidade e a integridade, parte de nós um símbolo da essência. Um símbolo daquilo por que temos de lutar.
Obrigado, José Saramago. A única coisa que me ocorre dizer-te é que o nosso povo seria um povo mais pobre se não tivesses existido. Resta-nos a sensibilidade e a inteligência para reerguer-te o propósito todos os dias. Assim tenhamos a coragem.
João Paulo Videira


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Verdade Incontornável – III

Como se de água se tratasse.
Para todos os gostos!
E a música? Já repararam na música? Ai não? Então porquê?


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O 25 de Abril a 26!

Um dia, ainda inicio aqui um espaço chamado “No país do faz-de-conta”. Não sei porquê, ou talvez saiba, anda-me a apetecer. O ridículo a que se chega é tamanho e tão bacoco que até apetece zurzir.

Não é que tenha particular prazer em zurzir, é que há gente que se põe mesmo a jeito.

Vem isto a propósito de uma notícia que li hoje no JN online. Diz-se lá que os “Socialistas querem acabar com quatro feriados e eliminar ‘pontes'”.

Acaba-se a maioria dos feriados civis e religiosos e transferem-se feriados que sucedam à quinta-feira e à terça-feira para a segunda com o intuito de pôr fim às ditas “pontes”.

Se, por um lado, me irrita e fere a amputação cultural que a medida pode significar, por outro, não vejo que o país vá produzir em dois ou três dias por ano aquilo que não produz no ano inteiro. Portugal está, a meu ver, modesto e humilde, a optar por políticas suicidas e salazarentas de empurrar as coroas para baixo do colchão e esquece que a única forma de superar as dificuldades que enfrentamos consiste na revitalização dos mercados, na produção, na valorização do trabalho. Admito, sempre o disse, que seja necessário poupar em determinadas áreas, mas parece-me mais importante produzir.

Fica-me um último pensamento, o mais importante na minha muito pessoal hierarquia de ver as coisas. É que não só não acredito na eficácia da medida, não só repudio as consequências culturais, como, sobretudo, me enoja esta política de faz de conta, estas medidas de fazer ver aos senhores estrangeiros lá de fora que perpetuam os mesmos incompetentes nos mesmos cargos. Caros amigos, alguém tem de dizer isto: são os mesmos tipos que diversas e variadas vezes adormecem na AR, os mesmos tipos que desertificam o local de trabalho, os mesmos que praticam gestões danosas, os mesmos que compram submarinos para combater inimigos fantasma, os mesmos que compram aviões a jacto e carros de luxo em época de crise, os mesmos que são dos mais bem pagos do mundo para fazer pouco e mal, que nos dizem a nós, que trabalhamos diariamente com dedicação e zelo, que pagamos religiosamente os nossos impostos que eles, entretanto, aumentaram, que temos de sacrificar alguns oásis de descanso ao longo do ano.

Mas há mais, a notícia termina assim: “Pode, por isso acontecer que o 25 de Abril possa ser comemorado, por exemplo, a 26. ‘O importante é que se comemore a Liberdade e não o dia exacto’, justificou Ricardo Rodrigues.” Apetece-me replicar, então, se não interessa o dia, juntem todos os feriados num dia aleatório, por exemplo, num domingo de Páscoa, e comemoramos tudo ao mesmo tempo! O que importa é o espírito com que se comemora! Ora, ide-vos educar e instruir, senhores que ditais as leis! O tempo da acção humana é marcado por fases e patamares e estágios e estes têm momentos específicos e acontece que alguns desses momentos são de sintonia cultural, humana, fraterna, solidária e religiosa, e acontece que a data importa porque representa o momento em que as nossas vidas ficaram marcadas porque mudaram em razão do acontecido. Não perceber isto é entrar na política do vale tudo, na política do venda-se Portugal e a sua Cultura e a sua Língua que o rei é outro e outra é a nação. Europeia, para uns, global, para outros. Pois, meus senhores, percebam ou não, aquilo de que vos falo não é mutável. E é por isso que o vosso ridículo pode estender-se até onde quiserdes mas o 25 de Abril será sempre a 25. Jamais a 26!
João Paulo Videira


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Verdade Incontornável – II

Mas só o chapéu!!!


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O mundial deste país foi ao poste.

Quem me conhece sabe que eu, à semelhança de mais uns quantos portugueses, gosto muito de futebol. Quem não me conhece ficou agora a saber. Quem me conhece sabe também que gosto de pensar e escrever o que por si só não atesta a qualidade do pensamento e muito menos da escrita. Joga a meu favor a prática. E, por fim, quem me conhece sabe que eu gosto de ver a nossa selecção jogar bem e ganhar. Como é sabido de todos e já não só dos que me conhecem, hoje não vi uma coisa nem outra. E, garanto-vos, uma delas me bastaria, independentemente de qual fosse.

Escrevo estas linhas porque estou convicto de que aquela bola que o Cristiano Ronaldo atirou ao poste mudou o presente e o futuro próximo do nosso país. Se tivesse entrado, estávamos bem mais tramados do que estaremos. A nossa selecção está velha, usada, sem ritmo, cansada, sem ideias e, sejamos francos, é muito fraquinha, joga muito pouquinho. Está muito longe do que fez em 2004 e em 2006 e, sejamos de novo francos, pensar que passará a fase de grupos só para quem foi a Fátima no passado dia 13 de Maio e crê em milagres. Felizmente não passará!
Porquê felizmente? Ora não é óbvio!? Vejamos. Se a selecção nacional de futebol passasse a fase de grupos ou mesmo ganhasse um jogo, os prejuízos para a nação contribuinte e trabalhadora seriam incalculáveis. Se ganhasse o que quer que seja, o povão gastaria ainda mais acima do que pode e gastaria dinheiro emprestado pelos mesmos tipos a quem anda a pagar com acréscimo de impostos a má gestão política, financeira e estratégica da nação. Se ganhasse, muitas mais festanças haveria com excessos gastronómicos, já para não falar nas bebidas alcoólicas, com respectivas consequências na saúde de cada um e o enterrar definitivo da saúde pública em termos financeiros. Poderia mesmo haver mortes agora que o INEM já tem menos ambulâncias e helicópteros. De resto, para que é que a gente quer esses recursos se a malta ainda tem força para bufar na vuvuzela. E por falar em vuvuzela e saúde pública, se ganhasse, também na área otorrino haveria um inusitado acréscimo da despesa. Sempre com os mesmos inconscientes gastadores a pagar: a malta que paga religiosamente os impostos. Mas isto não é o mais grave. O mais grave é que, se a selecção ganhasse algum jogo ou passasse desta fase, a distracção que a euforia da vitória causava nas nossas pacatas gentes permitiria ao engenheiro Sócrates, devidamente coadjuvado por Teixeira dos Santos, espetar-nos com um PEC3 em cima e, pior do que isso, colocaria nas letras pequeninas do texto, as coisas que quer fazer mas ainda não foi capaz. Ora, enquanto a malta se distraía e depois voltava à vidinha, nos diversos sectores, far-se-iam pequenas e imperceptíveis mas danosas alterações legislativas. Coisas ao género do ME que, em período de férias, publicava documentos importantes. O outro ME. Este ainda não teve o ensejo. E a nossa sorte foi a bola ter ido ao poste. Desta maneira, voltaremos ao rame-rame quotidiano da labuta, concentrar-nos-emos rapidamente nos assuntos sérios e evitaremos que quaisquer avanços de subversiva intenção nos apanhem desprevenidos.
O nosso país é demasiado pequeno, não só geograficamente, para participar numa coisa que no nome tem a palavra mundial. Nós somos assim de amplitude mais distrital ou mesmo concelhia do mundo. E depois, como se vê pelo distinto seleccionador, somos uma raça esquisita. Ele é a relva que não presta, o vento que é forte, a chuva que é molhada, e até o diacho do adversário que quer a bola só para ele. Ora, se não temos estrutura para uma coisa mundial, o melhor é não nos distrairmos com ela. Quando o Cristiano chutou, se a bola tem entrado, a euforia tinha-se espalhado qual praga e o PM estava já esfregando as mãos de contente. A nossa sorte foram duas: uma, o capricho dos deuses e dos ventos e do destino e essas coisas todas que fez com que a esférica borracha fosse ao poste e voltasse para trás. Outra, o facto de o Mário Nogueira ter imediatamente consultado o Secretariado Nacional da FENPROF sobre a matéria tendo sido aconselhado a que se fizessem todos os esforços para que a gracinha se não repetisse não fosse a bola entrar. Fez-se uma extensa reunião com representantes da FPF, uns quantos telefonemas para a África do Sul e, como puderam presenciar, não houve mais bolas ao poste, nem tão pouco o risco do remate. Acredito que fizemos (SN) um favor ao país. Claro que vai já haver quem diga que queria que a selecção ganhasse e, como tal, muito haverá quem dirá mal da FENPROF. Mas desses há sempre quer a selecção ganhe ou perca, faça sol ou chuva, haja PEC ou não. Haverá mesmo um conjunto de cépticos que negará que os sindicalistas tenham feito alguma vez tal esforço de salvação dos pátrios destinos. Mas, para esses, teremos sempre as actas negociais a comprovar a veracidade das nossas boas acções!
O mundial deste país foi ao poste? Não faz mal, conquanto vamos marcando pontos cá dentro!
João Paulo Videira


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Verdade Incontornável

Não dá! Sem tirar…


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Um humor de crise.

Ultimamente tenho procurado muita coisa escrita e dita que me possa esclarecer os contornos da dita crise, se é que existe. Disso ainda ninguém me convenceu. Lá vou percebendo a conjura e quanto mais a conheço mais me convenço de que não há crise a não ser para alguns: os que a pagam. E convenço-me de outra coisa: interessa muito, a alguns, que haja uma ideia aterradora de crise.

Dito isto, vamos ao que interessa. Exceptuando alguns discursos e textos mais lúcidos, o que de mais interessante e esclarecedor (!!!) tenho encontrado sobre o assunto são textos humorísticos. O humor parece estar eivado de verdade e lucidez. É por isso que vos deixo um clip interessante, bem disposto, crítico, sarcástico, que só tenho pena não seja português. E a razão é simples. A nossa Língua tem uma riqueza semântica inultrapassável… e presta-se ao humor.


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Como é que diz que disse?

Caros leitores,

como sabem, este blogue é, fundamentalmente, um blogue de publicação de escritos provavelmente literários. Não é um blogue sobre Educação. Ainda assim, de quando em vez, não me coíbo de deixar aqui uma ou outra reflexão sobre alguns temas relacionados com a dita. Deve ser defeito de profissão. De professor, a profissão, não o defeito. Esse é meu. E hoje apeteceu-me fazê-lo mais como quem reage perplexo do que propriamente como quem comenta reflectidamente. E admito que haja bondade na medida sobre a qual vou pasmar já a seguir. E se a houver agradeço que algum leitor mais informado ma esclareça. Ora então vamos lá a pasmar: é mesmo verdade que um aluno que chumbe no oitavo ano pode passar para o décimo? É que nem a realização de exames pelo meio nem a sua comprovada veterania etária me convencem da bondade da coisa. Deixem-me aqui escrever um pensamento para quem quer que seja que o venha a ler: a realização de exames não substitui o processo de aprendizagem!!! Irra que é mouco! Já quanto à idade, eu percebo o constrangimento de ter jovens muito mais velhos do que outros nas turmas e também percebo que não é por muito insistir que se obtêm resultados mas, nesses casos, talvez o indicado fosse deixar o jovem viver, contactar com o mundo do trabalho, adquirir experiência e perspectiva e proporcionar-lhe uma oportunidade quando já tivesse mais estrutura para a aproveitar. Sei lá. Isto sou eu a pensar alto. Assim de repente soou-me àqueles prémios de carreira que se dão nas noites dos globos não sei de quê! Uma coisa do tipo. Não conseguiste? Passa a frente que isto é uma perda de tempo! Mais, falta ainda saber que tipo de exames seriam esses… Se forem como aqueles de aferição…
Bem, já destilei. Agora fico à espera de comentários. Ou não!

[Sobre este assunto leia também isto, isto e isto. Já agora, fica mais informado do que com os meus arrazoados. Este blogue chega a ser uma instituição de serviço público sens fins lucrativos!]

E, se lhe apetecer, ouça isto:


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A Crise A

Era uma vez uma Gripe que não tinha nome. Mas tinha dono. E o dono, porque era pessoa de pouca imaginação, chamou-lhe A. Ora, ninguém queria esta gripe como, de resto, ninguém quer gripe nenhuma. E o dono dela, como a queria vender, pensou: “Como é que eu vou fazer publicidade eficaz a uma coisa que ninguém quer comprar?”. E foi então que teve essa brilhante ideia: “Assusto toda a gente!” Vai daí começou a fazer um gigantesco BUUUUUUHHHH universal ao mesmo tempo que fazia uma carantonha feia a ver se assustava. E assustou. E as pessoas, assustadas, correram atrás do gel, do álcool, das máscaras, dos comprimidos, das vacinas. Tudo se encomendou aos milhões. Não por causa da gripe, só por causa do medo. E fizeram-se planos de contingência e saíram muitas notícias nos jornais, nas rádios e nas televisões e houve contagem de mortos que morriam de tudo e mais alguma coisa menos de Gripe A, comprovadamente é certo. E depois, de entre os biliões de pessoas que somos, lá houve um ou outro que morreu de gripe. Como morrem todos os anos. E lá voltaram as notícias. E compraram-se milhares de milhões de unidades de desinfectante para as mãos que é álcool com cheirinho, e de máscaras e sabonetes iguais aos outros mas diferentes porque eram para a gripe e toalhetes e passou-se a espirrar para o cotovelo patético e as pessoas assustadas encheram os bolsos do senhor sem imaginação para nomes mas com muita imaginação para vender coisas que ninguém quer, o dono da Gripe A. Hoje, depois do Natal, das eleições, do futebol, e, sobretudo, depois de estarem exauridos os bolsos que já tinham pouco e depois de estar já satisfeito o dono da gripe, já ninguém se lembra de nada. E há dispensadores abandonados. Uns vazios, outros meio cheios, outros cheios e outros ainda arrumados nas caixas onde vinham embalados. E há sabonetes que nunca viram o sol e máscaras que nunca foram ser estúpidas para a cara de ninguém. E tudo isso jaz abandonado mas pago. E a memória é curta. E não tarda nada estamos a pagar outra coisa qualquer.

Não, meus amigos, não me enganei no título do post.

João Paulo Videira