Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Zorro

Se há uma coisa que pode esperar-se de mim, é que assumo frontal e tranquilamente aquilo que sou e penso. Vem isto a propósito de haver pessoas que têm determinados gostos mas não os assumem publicamente por via do que possam os outros pensar. Eu não sou assim. Se gosto do programa “Ídolos”, digo-o, se gosto do Benfica, digo-o, se gosto de Saramago, digo-o, se gosto de Pachelbel, digo-o.

Neste caso é preciso dizer que gosto de ver, quando posso, o programa “Ídolos”. Gosto do formato, do progressivo caminho de descoberta e evolução dos supostos talentos. Digo supostos porque alguns, a maioria, depois de serem muito bons desaparecem da face da Terra mais rápido do que apareceram.

Um dia destes estava a ver o programa e salta de lá um moço tranquilo e relaxado e canta uma canção que eu desconhecia e imediatamente adorei. Primeiro, pelos comentários, pareceu-me ser uma composição brasileira, mais tarde percebi que era portuguesa.

O curioso é que encontrei diversas interpretações, sendo a mais conhecida do Luís Represas, mas nenhuma das versões profissionais me agradou tanto como a do miúdo, mesmo sem tratamentos de som. Gosto desta verdade e desta genuinidade.

E gosto de partilhar. E é por isso que vos deixo a liberdade dos vossos próprios juízos. Aí fica a versão do mestre Represas e a do puto divertido que já teve o condão de me divertir!
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Letra: João Monge.
Música: João Gil.
Título: O Zorro.
Clip 1: interpretação de Luís Represas
Clip 2: interpretação de Gerson Batista

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O Mar a meus pés

O comandante na proa. O texto foi escrito exactamente ali. Sentadinho, claro.

Aqui andei ao banho no dia seguinte. Como o mar estava encapelado, bastou sentar-me e esperar que as ondas rebentassem e fizessem cascata por cima do rochedo. Emoções fortes a custo zero!
[No passado dia 3 de Outubro, a minha família resolveu oferecer-me como prenda de anos um fim-de-semana na praia. Assim para relaxar. Escrevi por lá umas coisitas incluindo o texto que transcrevo abaixo e que decidira não publicar porque me faltavam imagens apropriadas e porque gostava pouco dele… Sei lá, coisas de gente tonta. Acontece que os cunhadinhos, Luís e Sandra, acabaram de me oferecer um powerpoint do fim-de-semana onde estão algumas fotos que, a meu ver, caem que nem ginginhas no texto. Vai daí, enchi-me de coragem e passei-o do manuscrito para aqui… Pois então divirtam-se. PS: um obrigado sentido à Paula, ao Iago, à Sandra, ao Luís, ao rochedo, ao mar e à saladinha de polvo!]
Zambujeira, 3 de Outubro de 2010
O Comandante na Proa

É inglório procurar emoções fortes e intensas de forma artificial. Não conheço nada que cause tantas e tão maravilhosas sensações como a Natureza. E sem contra-indicações. Esqueçam as montanhas russas, o cinema, os jogos de computador, o futebol ao vivo, as drogas, o álcool. Esqueçam a velocidade automóvel, esqueçam os aviões e as motos. Esqueçam tudo e contemplem.
Há uns meses, escrevi neste espaço um texto sobre a Serra D’Aire e Candeeiros que se chamava “O Céu a meus pés”. Agora é a vez do mar. Numa das praias da Zambujeira há um rochedo enorme que começa na areia e entra pelo mar dentro. Com maré baixa acede-se facilmente. Com maré alta também, embora tenha de molhar-se os pés. Trepei o rochedo e caminhei mar adentro. O oceano está agitado e as ondas batem com vigor mas cá acima não chega nada a não ser uma suave brisa, alguns salpicos desfeitos em frescura e o som portentoso do mar. Aqui onde me sentei, mesmo no limite do rochedo, tenho as ondas rebentando-me por baixo dos pés, a luz do sol dota a imensa espuma do mar de um branco neve, tão intenso que até fere. E sinto-me senhor do Universo e, ao mesmo tempo, pequenino perante esta força e este poder. É uma sensação maravilhosa poder estar dentro do mar e observá-lo e acariciá-lo com o olhar sem nos molharmos nem recorrer a nenhum instrumento artificial.
O rochedo é afilado e faz-me lembrar algo que nunca vi: um imenso navio petrificado que agora é todo meu para comandar. Se eu morresse agora, aqui, por qualquer fantástico fenómeno, não precisavam levar-me para lado nenhum, pois não há lugar melhor para um comandante que a proa do seu navio de sentir.


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Telegraph Road

Then came the churches, then came the schools,
Then came the lawyers, then came the rules…


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O beijo mais doce

O beijo mais doce

O beijo mais doce
Não foi dado ainda.
O beijo mais doce
Mora nos teus lábios.

O beijo mais doce
Tarda em acontecer.
Hás-de pousar-mo na boca
Com o dia a entardecer.

E ficará no ar
Um aroma de ternura,
Que subjugará a minha vontade
À tua doçura.

Vem a estes lábios fugazes
Que te querem beijar,
Vem contar-lhes histórias
Do beijo que tens para dar.

jpv


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Lembrar

Lembrar é bom porque é reviver com perspectiva.
João Paulo Videira


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10.10.10

É hoje.
E só acontecerá mais duas vezes este século. Depois será necessário esperar mais cem aninhos!
São giros, os números!


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Mudança

Mudança, sentimento que falta cá dentro
Pode mudar a minha vida toda num momento
Devia aproveitar para pensar em mim
Deixar de ser aquele puto, deixar de ser assim
Mas, eu não quero eu quero e continuar
Seguir o meu caminho do jeito que o quero levar
Tranquilo na minha terra sem me chatear
Poder estar com o amigos e andar a vadiar
Chegar a casa com aquele cheiro a mar
Não pensar em mais nada a não ser no jantar
Mas será que faço bem ser a escolha certa
Os meus pais só me dizem que um dia a vida aperta
Talvez sim, talvez não, conforme a situação
Situação, só aparece decisão, a decisão
Quem me dera não ter que me ralar
Mas no fundo eu sei que tenho que mudar
Mudança, à dias era criança
Mas a vida avança e as vezes isso cansa
Então descansa relaxa aproveita
Este som que te traz a confiança
São ventos de sorte são brisas de morte
Dias de bafo ou chuva forte
Tudo muda nesta vida irmão
As folhas caem no Outono o sol brilha sempre no verão
Na primavera tudo nasce no Inverno tudo morre
Enquanto o tempo corre uma lágrima se escorre
Ano a ano sinto que algo vai mudar
Tenho os braços abertos mas sempre medo de falhar
Será que assim será que medo e ilusão
Será que sigo os outros ou que sigo o coração
Será que canto em vão ou que ouves o que eu digo
Serás amigo, ou inimigo, perigo
Calma, pois tudo muda
Estarei por aqui sempre que quiseres ajuda
Tem calma, pois tudo muda
Estarei por aqui sempre que quiseres ajuda

Um dia tudo muda um dia tudo vai mudar
Há dias que não voltam mais mas que ficam pra guardar

Sento me no sofá depois de um dia atribulado
Encosto me para trás suspirando de cansaço
Numa folha escrevo versos sobre o dia que passou
E versos são riscados quando sou o que eu não sou
Esta na hora de mudar de mudar o que há de vir
Esta na hora de pensar e não pensar em desistir
Escrever para quem, falar para que
Perder tanto tempo se a mim ninguém me vê
As vezes so me apetecem e largar tudo isto
Voltar para a TV e simplesmente dizer-lhes isto
Mas será que vale a pena voltar para trás
Depois de tanto esforço não vale a pena rapaz
Eu continuo em frente porque eu sei o que eu quero
Eu quero isto contínuo em frente porque quero mudar
isto
Eu não desisto eu estou cá e a mudança então vira
Ainda me lembro quando jogava basket no parque
A bola girava de manha ate a tarde
E tínhamos sempre ocupações sem tomar decisões
Sem pensar numfuturo carregado de questões
As coisas mudaram e eu ainda mudo
O puto vai crescendo e tornando-se mais adulto
Quem me dera que o tempo parasse agora
Dava tudo para voltar a boa nova
Ao dia em que nasceu o meu mundo secreto
O nosso primeiro concerto ao vivo e em directo
O tempo passa depressa e depressa tudo muda
E tenho saudades de ter a gera toda junta
Hoje ainda vou ao mesmo parque para jogar
Sei que um dia destes também isso vai mudar
Hoje sou eu quem continua a lançar
Mas amanha vira alguém para ocupar o meu lugar

Mundo Secreto

[É importante divulgar bons textos. Também podem ouvir a canção à vossa direita]


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A Espuma do Navegante

A Espuma do Navegante

Nada me garante
Que a espuma cortada outrora
Por um navegante
Não seja a mesma
Que vem beijar-me agora
Os pés
E perguntar-me com violência
Quem és?

Fala comigo, o mar,
Abre-me as portas da consciência
E obriga-me a dizer-me
As coisas puras
Antes do filtro da inteligência.

Quebra as rochas
Com estrondo
E quebra-me os fingimentos,
Que um homem sente-se mais verdadeiro
Perante a imponência
Dos líquidos movimentos.

Há sal e há verdade
Em ti, ó mar,
E há humanidade
No gesto de te contemplar.

jpv


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Res Púbica

Res Púbica

Vive no jeito das tuas palavras
Um sentido de fecundação,
E emerge do traço
Dos teus seios
A forma que me preenche a mão.
E dizes a liberdade e o amor e a entrega e o sexo
Como quem comenta um poema
Ouve uma partitura
Respira o ar.
E guardas-me em ti em carne e semen
E fechas-me no teu casulo de amar
E habita em tudo isto
Um sentido extraordinário
de normalidade.

Tu és a vida, ó musa,
A vida amada
Que a vivida é pouca para ti!

Meu feriado nacional,
Meu estádio de futebol,
Meu filme,
Meu livro,
Meu mar,
Meu ar.
Minha festa de aniversário,
Meu doce e suave opiário.
Em ti me perco e contigo me ganho

E é por ti que acordo desta morte que vivo
E navego na ondulação dos amantes,
No azul do mar,
Nas palavras por encontrar.

Sobra-me a tua alma.
Falta-me o teu corpo
Que não vive um homem erecto
Sem esse suave sopro.

E arranhas-me o sentir
Mesmo antes de vir
Ao mundo a vida
De encontrar-te
Sob o meu peso.

Minha doce e suave comemoração,
Minha res púbica
De Amor ao vento
E peito desnudado,
Se soubesse que nascerias para mim,
Todos os dias seriam feriado!

jpv


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Ode ao cais

Sem dar por isso, num desejo intumescido, meu corpo tornou-se cais onde penetra o teu navio…”

Anónimo