Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Bom Domingo

Os mais velhos talvez se lembrem da expressão “Porque hoje é Domingo” que passava em certo programa televisivo. Vem a isto a propósito deste post. Não há nenhuma razão objectiva para este post, a não ser pedir-vos que descansem do stress, da crise, dos problemas, das compras, que olhem os outros com mais tolerância, que estejam com a família, que aproveitem o glorioso sol que nos visita. Acho que são sentimentos e gestos adequados a um dia que, precisamos, seja de efectivo descanso.

A música que vos deixo consegue fazer-me sentir assim. Tem poderes e efeitos mágicos, a música.

Bom Domingo!

Angela Gheorghiu – Casta Diva


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Os olhos da crise

Hoje enervaste-te de novo. Explodiste. E, como te disse, isso não te ajuda. E, depois, não deixa transparecer a tua verdadeira personalidade. A doçura. O sorriso. A simpatia que todos pressentimos que tens mas anda tão afastada. Quem te pode sensurar? A vida, por vezes, é muito dura. Sabes, a culpa é minha e da minha geração. Bem, talvez também um pouco das gerações anteriores. Mas, a verdade é que ainda devias estar a sair da adolescência, ainda devias andar a brincar aos namorados, e a vida já te exige que tomes conta de toda a família. Claro que um pai desempregado não ajuda, claro que uma mãe muito doente, tanto que não pode trabalhar, também não ajuda, claro que teres de sustentá-los mais ao teus, muitos, irmãos também não ajuda, claro que terem-te despedido por causa da crise também não ajuda, mas precisas acreditar, precisas sorrir, precisas deixar crescer em ti coisas boas. És tão nova ainda. Tanta vida te vai sorrir ainda!

Hoje fiquei triste com o teu sofrimento. Sofri contigo. Vi-te a crise nos olhos. Não a dos gráficos. A verdadeira. Quase me pareceu despropositado pedir-te que fosses menos agressiva com os teus companheiros, mas, acredita, tudo correrá melhor quando soltares e semeares as coisas boas que há em ti. Queria tanto ajudar-te e sinto-me tão impotente. Em nome do conforto e do conceito de ter, andamos a sacrificar jovens, famílias, padrões e depois as pessoas suaves e doces como tu ficam agressivas. Não é justo. Será que os senhores de fato que discutem percentagens e estratégias e cortes e planos sabem que a tua vida, a tua dor, o teu sofrimento, a doença da tua mãe, o teu desemprego, o facto de sustentares uma casa com a adolescência ainda na face, sabem que tu não podes ser um fragmento de uma percentagem? Será que sabem que és gente? Será que sabem que a crise se materializa em ti? E em todos os que possam estar como tu?
Espero que me tenhas ouvido. Espero que encontres força e fé para acreditar. Desejo-te o melhor do mundo. Desejo-te que um dia o mundo seja teu. Desejo-te que preserves a tua família. Desejo-te que um dia vivas numa sociedade em que possas ser o que és e não o que reages.
Não sabia bem como despedir-me de ti neste texto que provavelmente nunca vais ler, mas lembrei-me de uma expressão simples que as pessoas da tua idade usam muito e considerei-a a mais adequada. Por isso cá vai: “Fica bem!”


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Oculto

Oculto

É no gesto que escondes,
É nas palavras que não dizes,
Nos olhares que não trocas
Que se revelam
Os mais extraordinários matizes.
É na suspensão dos sentimentos,
No adivinhar dos pensamentos ocultos
Que oiço mais nitidamente
O que me sussurras.
E amo os beijos que me não dás
Mais do que os outros
Porque há coisas que um homem não faz
Que encerram mais coragem de viver.
E quando não fazes amor comigo,
Te não entregas doce e violenta,
Há nessa suspensão
O amor prenhe de quem tenta.

O oculto mora em nós
E tem força e tem pujança,
E nada do que acontece
Lhe rouba
Um só átomo de importância!

Não venhas, meu amor.
Não irei.
E completaremos nosso halo
Com esta incompletude.
Viveremos inquietos e insasiáveis
Na nossa tranquila quietude.

jpv


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A menina do chapéu de palha

A menina do chapéu de palha

Entras nas pessoas
De mansinho,
Quase sem te anunciares,
Mas há um brilho e uma vida
Que transportas no olhar
E marcam com inquietação
A tua presença,
A tua intenção.
Baila em ti certa curiosidade
E uma insatisfação constante
Assim como se percebesses
Coisas ocultas,
pensamentos ausentes,
O que foi dito e o que ficou suspenso.

E vem contigo
Essa aura de contradição
Que é ver em ti a criança
E a mulher em tentação.
E a mais bela explicação de ti
É que não há palavras para explicar-te,
Saltitas pensamentos e versos,
Abalas crenças e convicções
Só porque uma vez sem exemplo,
Sem razão nem nada que o valha
Enfeitaste o mundo cinzento
Com a beleza de um chapéu de palha.

jpv


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A não perder

Frei Fernando Ventura fala com serenidade e contundência dos tempos que vivemos. “A História dos jovens não se cruza com a memória dos mais velhos”, diz. “Vivemos a cultura do penacho”, acrescenta.

Obrigado, M, por teres mostrado.

Parte 1

Parte 2

Se não conseguir ver os vídeos, siga para aqui:
http://videos.sapo.pt/JoFz521LdtWURRpTF1YY


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Púbis

Púbis

Tens um mar encapelado e revolto
Nesse mundo em que me perco,
Nesse caminho donde não volto,
Nesse cume de profundezas.
Tens aí a tentação
De ir p’ra não voltar,
Suave colina
Que percorro com os lábios e com a mão
Em aventuras de encantar.
E tens aí teu tesouro,
Meu abismo voluntário.
Pagava por ele todo o ouro
Que custa comprar uma vida ao contrário.
E tens tango, e tens samba, e tens valsa,
E tens poesia de arrebatamento
E prosa espraiada e voluta.
Tens qualquer íman que me puxa
Com uma força mais que bruta.
E mora em ti
O centro do Universo,
Fonte de contas inimagináveis
Que não cabe num verso
O meneio das tuas coxas hábeis.

Dá-me esse centro,
Oferece-me teu vortex,
Chama-me para dentro,
Prende-me em teu calor.
E, depois, no halo do amor
Que acabámos de fazer,
Deixa-me acariciar sem pudor
A fonte do nosso prazer!

jpv


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E o povo, pá?!

Sorria, está a ser lixado!


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Diva de parede

Há papel de parede, jornais de parede, paredes meias e paredes inteiras. Antigamente fazia-se parede. Hoje, eu encontrei uma diva de parede.

Acho uma ternura certas figuras que os humanos fazem por causa do amor. Podemos dizer que o que nos move é o dinheiro, são os interesses, a ambição, mas nada nos arranca a expressão mais sã, mais íntima e mais profunda como o faz o amor.

Riscam-se paredes por muitas razões: mensagens políticas, gritos de revolta, reclamações e outras que tais, mas esta que encontrei hoje em Torres Novas é uma pérola do sentimento amoroso na sua mais genuína e portentosa expressão. Houve um rapaz que cortou a noite e arriscou ser visto para que pudesse colocar o seu sentir numa parede torrejana e fê-lo de forma genial: ou seja, na constatação, para ele óbvia, de que tinha sido ela a sua DIVA desde o COMEÇO! Mai nada!

Isto merecia ser divulgado. Rapei do telemóvel e fiz a boa acção do dia, tirei-lhe a fotografia!

Ei-la!


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Vá lá, pá!

Vá lá, pá!

Ó pá,
Chega-te para cá,
Aquece-me estes pés.
Não sejas má!
Traz-me esse corpo esguio
E aquece este tipo frio.

Ó pá,
Deixa-te de cenas
Traz o edredão de penas
E vem aquecer-me já.

Ó pá,
Mas afinal onde andas tu?
Na via digital ou na minha cama?
Vê lá se não termina a semana
Sem te acariciar o corpo nu.

És porreira, pá,
És mesmo à maneira!
Tão gentil e graciosa
Que me despertas a brincadeira
Em tarde, de Domingo, ociosa.
E enches-me de emoção
Na exacta proporção
De um sorriso…
Ou de teus seios
Bailando na minha mão!

Ó pá,
Veste uma tanguinha, pá,
Assim, a espicaçar-me a curiosidade
E a expor à luz do dia
A maravilha
Da tua sensual idade!
Vá lá, não sejas tímida
E faz-me um sorriso convidativo,
Como quem chama para
O baile dos corpos festivo.

E fechamos as cortinas,
Trancamos as portas,
Viramos ao contrário
O quadro de Jesus
E acendemos a luz!

Vá lá, pá!

jpv


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Quadras qualquer coisa

Quadras qualquer coisa

Há qualquer coisa
Entre ti e mim
Que me cheira a princípio
E me sabe a fim.

Há entre nós
Um imenso azul
Que banha meu Norte
E ilumina teu Sul.

Qualquer coisa indescritível
Traçada no mundo real
Em chão verdadeiro
Na fronteira do impossível.

E há um pulsar e uma ânsia
Que percorre o silêncio e o ar
Que une em vez de separar.
Um amor percorrendo distância.

jpv