Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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The Daffodils

The Daffodils

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o’er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the Milky Way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they
Out-did the sparkling leaves in glee:
A Poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed—and gazed—but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.

William Wordsworth


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O Clã do Comboio – Rave Móvel

Rave Móvel

Não fosse dar-se o caso dos elementos do Clã serem muitos e todos pagarem religiosamente as suas assinaturas mensais, vulgo passes, e seríamos todos expulsos do comboio! O que não quer dizer não venha a acontecer por via da força uma vez que a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia anda a pensar que somos incomodativos. Talvez até sejamos, mas, cara Titi, não há forma de exercer livremente o companheirismo, a camaradagem e a boa disposição sem se incomodar um bocadinho… em todo o caso, fica prometido que tentaremos acalmar os ânimos…

Vem isto a propósito de quê? De quase nada. Nos últimos dois dias, alguns elementos do Clã têm feito uma autêntica “Rave Móvel” em pleno comboio. Entenda-se por “Rave Móvel” tocarem a mesma música, em simultâneo, em todos os seus telemóveis. E a música até é bem agradável. É uma coisa chamada SoulStorm de um tal Patrice. Íamos todos tranquilos quando o Rapaz do Fato Cinzento se lembra de pôr o telemóvel dele em altos berros com aquilo a tocar e a acordar a carruagem toda. O VM, que é um invejoso, também quis brincar e, em menos de nada, meia dúzia de adultos todos a rondar os quarenta, ou com mais do que isso, estavam a ver se o Bluetooth funcionava. E, para infelicidade da Titi, funcionou. Depois foi vê-los a curtir a música à brava. Acho que aquilo vai ficar como uma espécie de hino do Clã. O Escritor não conseguiu emparelhar com ninguém e por isso não pôde brincar. Mas só por isso. Está claro que no dia seguinte já não era para se repetir a brincadeira para não se prejudicar o aparelho auditivo da Titi, acontece que a Mamã das Duas Crianças não tinha vindo no dia anterior pelo que foi necessário transferir-lhe os ficheiros por Bluetooth e deixá-la brincar um bocadinho. A Titi deve ter feito queixa ao Picas, mas teve azar porque o Picas ia a curtir o som. Em meio deste processo ouviu-se um pequeno diálogo que, não fosse o contexto, poderia ser muito complicado:

Mamã das Duas Crianças: Atão?
Rapaz do Fato Cinzento: Tens o equipamento ligado?
Mamã das Duas Crianças: É preciso muito tempo para emparelhar contigo!
Rapaz do Fato Cinzento: É boa a música. É melhor que os Santamaria!
Mamã das Duas Crianças: Esta música é fixe mas se eu fosse homem ia mas é ver um concerto do Tony Carreira…
Rapaz do Fato Cinzento: Porquê?
Mamã das Duas Crianças: Então, porque aquilo é só mulheres loucas com os marmelos a abanar!
Rapaz do Fato Cinzento: Eu vou ser vendido, eu vou mesmo ser vendido.

Ai vais, vais! E crucificado em praça pública! E sabes por quem? Por aquelas pessoas daquela etnia de que tão mal disseste no outro dia…

Claro que o momento ia propício a uma das habituais loucuras do Clã e ela não se fez esperar. Em plena “Rave Móvel”, a Rapariga do Riso Fácil nunca largou o seu Hamlet de Shakespeare. Não é que fosse a ler, mas dava bom aspecto. Foi então, uma vez que se trata de uma peça de teatro, que decidimos improvisar uma pequena representação. O Rapaz do Fato Cinzento fez de Hamlet e tentou engrossar a sua voz suave, a rapariga do Riso Fácil fez de Espectro e o Escritor fez de Rainha com direito a vozinha de cana rachada que parecia mais um homem com os copos do que uma voz feminina… mas a coisa correu bem, sobretudo porque, de cada vez que um acabava uma fala, tinha de passar o livro ao do lado para ele poder dizer a dele. Tudo muito natural, portanto. A Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia continuou a criticar, mas menos. Temos a sensação que o que a incomoda mais é a música. O resto, se for só parvoíce, não é tão problemático. Ia uma moça ao lado do Rapaz do Fato Cinzento a rir-se muito e o Escritor disse-lhe para ele lhe dar qualquer coisa para ela limpar as lágrimas do riso e ele estendeu-lhe a gravata.

Escritor: A gravata?
Rapaz do Fato Cinzento: Sim, qual é o problema? Também a uso nos restaurantes.
Escritor: E não se suja?
Rapaz do Fato Cinzento: Não. Eu uso esta ponta estreitinha que vai escondida aqui atrás!

Essa moça e uma outra que trabalha em Torres Novas e tem as formas muito generosas ficaram leitoras do blogue. O que quer dizer que as suas vidas nunca mais serão as mesmas! A Senhora da Revista de Culinária entrou em Santarém a rir e saiu no Oriente a rir. Deve ter um problema qualquer nas glândulas. A Rapariga com Brinco de Pérola foi todo o caminho a ler, nem um sorriso esboçou. Tudo normal, portanto. O Clã? O Clã está bem e recomenda-se… mas com pouco barulhinho… shiiiiuuuuu…


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Amy

Não sou muito destas homenagens. Nem isto é uma homenagem. Não sou muito de ler e acompanhar as loucuras das estrelas do cinema ou da música. Mas sou duma coisa: sou de gostar de boa música, de reconhecer uma boa voz. Eu não acho que com a morte de Amy Winehouse se perdeu um prodígio, mas acho que se perdeu uma voz poderosa, de encher uma alma e reconfortar um coração. Disso sentirei falta!
Fica aqui um dos momentos mais interessantes de Amy: “You know I’m no good”. Yes you were, babe, yes you were!


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O Clã do Comboio – Um Mundo à Parte

Um Mundo à Parte

Era um comboio de fim de tarde com o sol a amarelecer os vidros. O comboio circulava ensonado e repetitivo nos ruídos das engrenagens. Estava só. Mais ninguém do Clã.
Ela viajava um pouco mais à frente. Tinha um vestido de pano cor-de-roda escuro com muitas flores que não eram estampadas, mas desenhadas com linhas. Por cima dos ombros um pano de tule aos folhos também cor-de-rosa escuro. O cabelo era loiro, às madeixas, por cima dos ombros e tinha um gancho de lado que lhe dava um ar infantil.
Quando chegámos ao Setil, uma senhora cega agarrou na vareta e deslizou para a porta de saída. Quando passou, ela disse bem alto:
– Eh pá ias aí e não dizias nada. Não te vi.
A cega continuou sem responder. Saiu. O comboio arrancou. Ela virou-se de frente para o vidro do comboio, fixou o seu próprio reflexo e falou para ele:
– Eh pá, nem vi que ela ia ali.
– Pois… eu também não.
Conhecezia?
– Eu não, e tu?
– Eu também não.
Quando terminou de falar com o seu próprio reflexo no vidro do comboio, virou-se para a frente e não voltou a dizer uma palavra até ao Entroncamento. Um mundo à parte!


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O Clã do Comboio – 1º Almoço do Clã do Comboio

1º Almoço do Clã do Comboio.
Pois é. Parece que vai mesmo acontecer. Será um mega-almoço, com muita diversão, um PowerPoint vergonhoso e todas, ou quase todas, as personagens do Clã do Comboio.
As inscrições fazem-se por e-mail para cladocomboio@gmail.com e é obrigatório deixar os seguintes dados:

Nome (obrigatório).
Alcunha do Clã (se tiver).
Nº de telemóvel (obrigatório).
Quantos acompanhantes (máximo de dois além do próprio).
Que contribuição pretende dar para o almoço? (obrigatório. Entradas, bebidas, carne, peixe, sobremesas, etc.)
Após a confirmação da inscrição, cada elemento será informado do que deverá trazer como contribuição para o almoço tendo em conta o que se ofereceu para levar e as necessidades.
Dados do Almoço:

Local: casa do Escritor (será fornecido croqui após inscrição – concelho de Torres Novas).
Data e hora: sábado, 17 de Setembro, 11 horas (hora de chegada).
Prazo limite de inscrição: até ao dia 11 de Setembro inclusive. Publicação de lista de participantes a 12 de Setembro e respectivas contribuições.

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Organização: O Escritor e a Rapariga do Riso Fácil.
A organização reserva-se o direito de admitir ou recusar quaisquer inscrições.
À organização cabe a última palavra em relação às contribuições de cada elemento inscrito para o almoço.
Quaisquer situações omissas, a organização resolverá como entender e recorrendo à discricionariedade absoluta.
A lista de inscrições irá sendo adicionada a este post.


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O Clã do Comboio – Etnias

Etnias

Na última história do Clã do Comboio, eu escrevi, a certa altura, que, ou me enganava muito, ou o Rapaz do Fato Cinzento ainda ia dar que falar. Pois, já deu. Eu reconheço o potencial das pessoas. Eu sei quando vive num homem de fato cinzento um tipo que gosta de dar barracada! Mas, uma coisa é verdade, quando é para dar barracada, ao menos que seja em grande. E foi. Comecemos pelo princípio.
Segunda-feira. 7:18 no Entroncamento. Assinala-se o regresso de férias da Rapariga com Brinco de Pérola. Assinala-se a chegada atrasada da Mamã das Duas Crianças que tem o marido numa comissão no estrangeiro. Chegou mais tarde do que a Rapariga do Riso Fácil e isso é difícil. Entrou esbaforida, sentou-se sorridente, fez com as mãos um sinal de coelhinha saltitante e disse:
– Ele já cá está, veio no sábado.
– Então e isto são horas?
– Agora é sempre a aproveitar até ao último minuto!
Lá demos os bons-dias uns aos outros, retomámos conversações sobre o trabalho do Rapaz do Fato Cinzento após termos reparado que ele tinha rapado a tentativa de barba que trazia na cara. E foi então que ela se deu. Ele já havia confessado que tinha um trabalho ingrato que não identificaremos por razões óbvias: há que protegê-lo dele mesmo! Enfim, ele lê e analisa uns contratos e depois chama a atenção para as letras miudinhas que ninguém lê e lembra às pessoas que quando elas assinaram as letrinhas que vieram tramar tudo já lá estavam. E foi por isso, por irmos a comentar esta circunstância, que se deu a pequena conversa que se transcreve com pouca corrosão:

Escritor: Então e nunca foi ameaçado?

Rapaz do Fato Cinzento: Já fui já, muitas vezes. Uma vez até me fizeram uma espera. Foram uns ciganos. Os ciganos são tramados. Puseram-se à minha roda, cercaram-me e queriam-me roubar o processo das mãos. Os ciganos são tramados.
Rapariga do Riso Fácil: Pois, eles quando se juntam vem a família toda…
Rapaz do Fato Cinzento: É verdade é… puseram-se ali de volta de mim e já não me queriam deixar ir embora com o processo. Os ciganos… ui… são mesmo tramados!
Por esta altura a Mamã das Duas Crianças parecia que estava com espasmos. Abria muito a boca, arregalava muito os olhos, fazia sinais com as mãos e eu não percebia nada do que ela estava a tentar comunicar e foi por isso que resolvi esclarecer:

Escritor: Mas olha lá, o que é que tu queres?!

Mamã das Duas Crianças: VAI ALI UM!!!
E ia. Era um sujeito de etnia cigana, sentado três lugares mais à frente na mesma correnteza de bancos em que ia o Rapaz do Fato Cinzento. E eu fiz-lhe uns sinais do tipo Olha que te cortam o pescoço e ele olhou para lá, fez-se lívido, olhou para o chão, procurou um buraco e como não havia disse com grande elegância:
– E se mudássemos de conversa?!

A risota não podia ser maior. Ele tinha-se enterrado completamente e ainda só sabia da missa a metade. A outra metade íamos-lhe contar a seguir por sms! Após este episódio, entrou o VM em Santarém. Vinha com a Senhora da Revista de Culinária. Acho que estavam os dois a discutir as vantagens e desvantagens da salada de gambas thai e das vieiras recheadas. Ele percebeu que estávamos na galhofa e antes que cometesse o mesmo erro, resolvi enviar-lhe uma sms a contar o sucedido. E foi essa mesma sms que enviei ao Rapaz do Fato Cinzento para ele ficar a saber a outra metade da missa. É esse singelo textinho que aqui vou transcrever:

Ele começou na brincadeira
por causa do trabalho dele.
Eu perguntei-lhe se nunca
tinha sido ameaçado. Ele disse que sim,
por ciganos, e começou a dizer mal
dos ciganos, até que a Mamã das Duas
Crianças lhe conseguiu dizer que ia aí um.
O que está atrás de ti. Entretanto, o que ele
não sabe é que a Mamã das Duas Crianças
é casada com um!!!
O VM tirou-lhe fotos antes de ele começar a ler a sms, durante e depois. Ele ficou tão atrapalhado que só conseguia dizer Isto hoje correu muito mal… E depois, para desanuviar a coisa, trocámos umas ideias sobre a experiência gastronómica do VM com as vieiras recheadas e a salada de gambas thai. Por entre dentes, lá o fomos avisando que era desta que ele aparecia com as rótulas partidas. Ele ria-se, mas acho que era um riso um pouco amarelo. Ora, quando chegámos a Vila Franca de Xira, o homem de etnia cigana saiu e foi à sua vida e nesse momento a viagem teve a sua pièce de resistence. Foram duas frasesinhas que o Rapaz do Fato Cinzento trocou com o VM:

Rapaz do Fato Cinzento: Ufa, desta já me safei!

VM: Qual quê? Ele saiu para ir avisar os outros e agora fazem-te uma espera no Oriente!
Uma coisa é verdade, quando o Clã do Comboio chegou a Lisboa ninguém se lembrava que era segunda-feira, todos levavam um sorriso nos lábios e um brilhozinho de esperança no olhar. Está bem, todos, todos, talvez seja exagerar. Era capaz de haver um com um ar mais apreensivo. O certo é que se confirmaram as minhas suspeitas. O Rapaz do Fato Cinzento é mesmo um companheirão, tem uma grande capacidade de auto-crítica e sofrimento e foi logo ali convidado para participar no primeiro almoço do Clã. É que quem supera uma prova de fogo como a dele tem mesmo de ser reconhecido… Muitas histórias se esquecerão, mas o dia em que o Rapaz do Fato Cinzento se queixou de ter sido cercado por ciganos no meio de uma família deles… esse dia ficará para sempre na memória colectiva do Clã. Ou isso, ou as vieiras recheadas!


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Blue Valentine

Blue Valentine não é uma comédia romântica apesar do nome poder sugerir isso. Nem sei se é um romance. Talvez sim, talvez não. É dos filmes mais interessantes e mais conseguidos que vi nos últimos anos. É um filme difícil de ver. Duro. Mas é também o cinema no seu melhor.

Ryan Gosling e Michelle Williams têm interpretações soberbas e no fim… apetece ver outra vez. Sem máscaras, nem facilidades, com alegrias e esperanças, tristezas e desilusões, este filme é um retrato da vida tal como ela nos pode suceder. Não dá mesmo para perder!


Mais informação clicando AQUI.

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Um cheirinho:


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O Clã do Comboio – Mudanças

Mudanças

Como já aqui foi relatado, a época balnear da CP obrigou-nos a mudanças. E as mudanças trouxeram-nos vizinhança nova. A adaptabilidade do ser humano é fantástica. A do Clã do Comboio, além de fantástica, foi célere. Efectivamente, ao cabo de dois dias, dois simples dias, o Clã estava ganhando um novo espaço, construindo novas relações.

Mudámo-nos para o fundo da última carruagem que é agora a sexta e não a nona. E as razões foram simples. É a que pára mais ou menos onde parava a outra e é a que tem uma configuração interior semelhante, o que permite ter um cantinho similar ao anterior. Ora, como a nossa mudança não foi a única, encontrámos uns figurões e umas figuras simpáticas. Entre outros episódios mais ou menos vergonhosos, darei conta, hoje, de duas dessas simpáticas aquisições do Clã. Fá-lo-ei como quem resume esta mudança e homenageia a simpatia de quem resistiu estoicamente à nossa ruidosa companhia.

O Rapaz do Fato Cinzento foi assim nomeado porque em três dos quatro dias que viajou connosco levou um fato cinzento. Sempre o mesmo fato cinzento. Foi por isso que nos metemos com ele. É que o Escritor tem um fato igual que comprou certa vez à pressa e com pouco critério. Fez notar o Rapaz do Fato Cinzento, contudo, que a sua gravata, da mesma cor da do Escritor, cor de cereja, era de seda… aceitámos o reparo com galhardia porque ele merecia. Chamamos-lhe rapaz e não homem por via da sua evidente juventude. Andará pelos finais dos vinte, princípios dos trinta. É magro, tem um porte elegante, a face alongada, uma barba que tenta ser distinta e cerrada, mas que ainda precisa de algum tempo mais para isso. As mãos finas, o porte direito, um ar e uma atitude civilizados e duas interessantes características. Tem um olhar que ri e um fantástico sentido de humor. Nem todos o terão topado, já. Mas eu reparei que é aquele tipo de pessoa que está a brincar com uma situação, mas continua a falar com um ar muito sério e composto o que coloca o interlocutor menos preparado numa intrigante posição de não saber se ele está a sério ou a brincar. Também tem a sua pancada. Por exemplo, não gosta que se fale para ele começando as frases por… ouça… Ora, como já foi dito, começámos por nos meter com o fato dele, mas a Mamã das Duas Crianças fez pior, muito pior. Durante três dias, esfregou as sandálias ou os sapatos, conforme o dia, abundantemente pelas calças e pelos sapatos do Rapaz do Fato Cinzento. Depois, em vez de lhe pedir desculpa, virava-se de lado, mas ao virar-se de novo de frente voltava a roçar com o pó dos sapatos na roupa dele. Ele não só aguentou isto, como entrou com facilidade no registo jocoso do Clã e até já fez panelinha com o VM a tentar denegrir a imagem do Escritor. Não fosse isto e este texto teria sido bem mais simpático para com ele. Enfim, no último dia não trouxe o fato. Era Casual friday. Mas trouxe o sentido de humor e a capacidade de rir-se. Pode ser que me engane, mas este Rapaz do Fato Cinzento ainda vai dar que falar. Ele e o fato dele.

A outra interessante personagem que se vem juntando a nós, é a Senhora da Revista de Culinária a quem, desde já, agradecemos a simpatia e a paciência com que tratou o VM. Entra em Santarém. No primeiro dia que, por casualidade, se sentou ao pé de nós, acto de que pode vir a arrepender-se amargamente, trazia consigo uma revista de culinária. Ora, o VM que é um rapaz muito envergonhado começou a ler a revista da senhora sem lhe pedir licença nem nada. Limitou-se a esticar o pescoço e a estender o olhar por cima do ombro da senhora. A princípio ainda pensei que estivesse a olhar para o decote dela, mas não, nada disso, ele estava genuinamente interessado na salada de gambas thai e nas vieiras recheadas. O mais fantástico é que passados meia dúzia de minutos a Senhora da Revista de Culinária já não tinha a revista com ela e o VM ia todo refastelado a deliciar-se e a babar-se com as vieiras recheadas. Para cúmulo, no dia seguinte, a Senhora da Revista de Culinária trouxe, em fotocópia, as receitas preferidas do VM o que deu direito a uma repenicada troca de dois beijinhos por insistência do Escritor. Tratava-se de um caso da mais elementar educação e agradecimento. É uma mulher de estatura um pouco acima da média, tem um olhar receoso e um sorriso luminoso que se revela com facilidade. Toda a sua postura indica um confortável à vontade e uma certa bonomia. Intui-se facilmente que é uma pessoa de bem. E paciente! Sim, que isto de aturar o VM, só eu é que sei…

Foi já na presença destas duas personagens que aconteceram dois episódios interessantes do Clã do Comboio. Um, foi termos sabido que a Rapariga do Riso Fácil ia na noite de sexta-feira para o seu curso de inglês quizenal: o Speak Easy. Para quem não sabe, é uma discoteca afamada de Lisboa. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que ela levava uma roupa alternativa, para vestir depois do trabalho e levar ao Speak Easy. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que o saco da roupa era minúsculo, um daqueles em que se transporta um frasquinho de perfume. Ora, como calculam, isto foi motivo de conversa. Como é possível colocar toda uma roupa num saquinho daquele tamanho. Aventou-se a possibilidade de ser daquelas coisas minúsculas de cabedal… ela, como é costume, riu-se com simpatia e… não negou! Entretanto, a Mamã das Duas Crianças, despenteada como sempre, e cheia de sono como sempre, vinha a contar peripécias com as duas crianças na últimas noites. Uma, foi que terá adormecido, levantado tarde, a arriscar perder o comboio, embrulhou as crianças no lençol de cama atado pelas quatro pontas e largou-as como quem larga um embrulho em casa da paciente sogra. Outra, ainda mais interessante, foi termos sabido que uma das crianças acorda religiosamente às três manhã para beber um biberão de leite aquecido no micro-ondas e não dispensa certo ritual que é dirigirem-se os dois para o micro-ondas fazendo gestos circulares com as mãos, dando às ancas, também em movimentos circulares e cantando:


Roda, roda, roda,
Gira, gira, gira,
Roda, roda o meu leitinho…
É claro que, à medida que nos contava isto, cantava a cantiguinha e fazia os gestinhos sentada no banco do interregional das 7:18 o que levou o VM a perguntar:
– Olha lá, e tu quando amamentavas também fazias isso?

Risota geral. Sim, a CP obrigou-nos a mudar de carruagem de lugar e até alguns hábitos, mas a boa disposição matinal do Clã é inquebrantável. À prova de qualquer mudança. Porquê? Porque fazemos questão de enfrentar a vida armados de companheirismo, de boa disposição e… com um sorriso nos lábios. E há mais: não tarda, temos aí o primeiro almoço do Clã do Comboio. O anúncio oficial está para breve…


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O Clã do Comboio – O Eterno Conflito

O Eterno Conflito

É difícil escrever sobre quase nada. Mas quase nada pode ser muito. Perdoem-me se esta história do Clã parecer difusa e confusa. Não pretende sê-lo. Será só a vida que às vezes é confusa e difusa. Nem sei se isto é uma história. Talvez não. É só o relato de um conflito antigo com gente nova.

Regional das 20:48, de regresso a casa. Entra um casal jovem. Eram namorados. Ele de calça de ganga azul, pólo verde seco, cabelo muito curto, sapatos práticos. Ela de sandálias abertas, unhas dos pés pintadas de encarnado, calças de ganga preta, muito justas, uma blusa encarnada com folhos e o cabelo liso sobre os ombros.

Sentaram-se de frente um para o outro e algo não estava bem. Ora trocavam palavras atenciosas e envoltas em carinho, ora resmungavam desentendidos acerca duma opção dele que a prejudicara a ela. O problema é que pareciam não concordar em relação ao facto de ele a ter consultado ou não. Ele dizia que sim. Ela dizia que não… que talvez… mas em todo o caso achava que ele devia ter decidido de forma oposta.

Não me interessou o conteúdo. Interessou-me o jogo. O desentendimento em si naquilo que foram os comportamentos de um e de outro. Ele era claramente acusado de ser pouco compreensivo, pouco atencioso para com os problemas dela, muito focado em si e nada preocupado com eles enquanto casal. Um insensível. Ela foi acusada de ser hiper-sensível, de estar a exagerar a propósito de quase nada, de o recriminar. Ele queria que continuassem bem, que passassem ao lado daquilo. Ela queria que assumissem que não estava tudo bem, que analisassem o problema. E neste jogo de medição de muitas coisas, entre elas, forças, algo fez a diferença e não teve nada a ver com as palavras, argumentos ou sentimentos. Foi a postura física!

Ela ia sentada, encostada às costas do banco e nunca se desencostou. Levava as pernas encolhidas para trás e nunca as desencolheu. Ele ia de pernas abertas e esticadas para a frente por fora das dela e mexia-se muito. Ora se chegava para trás, ora se projectava para ela e punha-lhe as mãos nas pernas e na face e puxava-lhe a cabeça para lhe beijar os lábios quando ela falava. Ela foi passiva. Ele foi proactivo. Invasivo. Ela nunca usou a força, nem para marcar o espaço. Ele usou-a para o marcar e para a puxar para si.

As razões que os moviam não me interessaram. Interessou-me o jogo. E o resultado. Quando saíram do comboio iam abraçados e aos beijos e tudo estava bem. Uma falácia imposta, mas não conquistada. Um problema adiado. Um homem. Uma mulher. Um conflito eterno.


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O Clã do Comboio – Época Balnear

Época Balnear

Um dia destes a CP iniciou a Época Balnear. Eu nem sabia que havia época balnear nos comboios, mas há. Há e tem consequências.
Um pouco antes das 7:18 já estava na plataforma o grupinho do costume. Parte dele. alguns estão de férias e outros entrariam em Santarém. Esperávamos pela sétima carruagem para ocupar o nosso canto habitual e predilecto. E foi às 7:18 que colidimos frontalmente com a época balnear da CP. Nós e os nossos hábitos. Em vez de trazer as habituais nove carruagens, o interregional das 7:18 trazia… seis! Isso mesmo, menos uma composição, também conhecida por tripla. A nossa porta não parou à nossa frente. Entrámos confundidos, sentámo-nos baralhados e ficámos desgarrados uns dos outros. A redução revelou-se excessiva. Muitas pessoas tiveram de seguir de pé até Lisboa. Quando o VM e o JJ entraram em Santarém, também ficaram de pé e… longe de nós. Houve reclamações diversas. A Rapariga do Riso Fácil disse que isto assim não tem piada. O VM dizia graçolas do meio da carruagem para nós. Eu levantei-me, juntei-me a eles e fui de pé por solidariedade. A Mamã das Duas Crianças aturou a antipatia de quem não queria. Chegámos a Lisboa perdidos… desconjuntados. No dia seguinte ensaiámos uma estratégia de ocupação. Já ficámos melhor, mas, mesmo assim, ainda precisaremos de fazer uns ajustes.

Compreendemos que é preciso poupar, mas obrigar pessoas que pagam antecipadamente uma assinatura mensal a fazer uma viagem de uma hora e meia em pé, não é poupar, é uma falta de respeito e configura o incumprimento de um contrato.

Alguém nos explicou que, de Julho a Setembro, era assim. A malta foi-se à Net e escreveu umas reclamações. É que o interregional das 7:18 ficou parecido com aquelas praias onde é suposto ir gozar-se do ar puro e do espaço livre e amplo e afinal não há onde estender uma toalha. Há uma visível falta de lugares o que nos rouba o conforto e esse foi um dos argumentos das reclamações, mas, aqui para nós, o Clã do Comboio tinha outra razão. Um desnecessário atentado à sua coesão e companheirismo matinais. A CP pode ter Época Balnear, mas o Clã continua a precisar de ir para o trabalho todos os dias. Ainda assim, ou me engano muito, ou a malta do Clã vai dar a volta a esta contrariedade…