Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Luar Quando Bate na Relva

O Luar Quando Bate na RelvaO luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra…
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.
E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas …
Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?
Alberto Caeiro,
in “O Guardador de Rebanhos”


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31000

Obrigado a todos os leitores e amigos.
Este espaço é, antes de mais, vosso.

31000 leituras para um blogue que começou como uma brincadeira é, de facto, um número interessante e motivante!

jpv


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Oportuno!

Até nem gosto muito do jornal em causa, mas nunca perco uma piada do “Sistema2”. São as melhores piadas da imprensa escrita/online. Muito certeiras e mordazes. Supostamente eram só sobre desporto, sobretudo futebol, mas algumas ultrapassam essas fronteiras e têm um cariz social mais abrangente como é o caso. Infelizmente para todos nós, esta é muito oportuna.


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A Super-Mulher Existe!

Nasceu nos anos 40.

Sobreviveu às cheias do Tejo.
Emigrou para África.
Apaixonou-se irremediavel e eternamente e casou-se.
Teve dois filhos.
Construiu uma vida.
O processo de descolonização destruiu-lha.
Viveu uma guerra por dentro.
Refez a vida.
Educou, instruiu e formou os dois filhos.
Viu nascer um neto.
Uma grave doença do marido destruiu-lhe a vida de novo.
Refê-la outra vez.
Viu morrer o marido, paixão, até ao fim, de uma vida.
Viu morrer os pais.
Foi vítima de cancro.
Derrotou-o com coragem e determinação.
Nunca perdeu a capacidade de amar nem de sorrir à vida.
Recentemente tirou um curso de formação em computadores.
E criou a sua própria página no Facebook!
Depois disto tudo, um dia apeteceu-lhe tirar uma fotografia.
Saiu essa que aí está!
Obrigado, Mãe.
Mana e Mano


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Au Clair de Lune… tudo fica mais lindo!

Clair de Lune

Votre âme est un paysage choisi

Que vont charmant masques et bergamasques

Jouant du luth et dansant et quasi

Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur

L’amour vainqueur et la vie opportune,

Ils n’ont pas l’air de croire à leur bonheur

Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,

Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres

Et sangloter d’extase les jets d’eau,

Les grands jets d’eau sveltes parmi les marbres.

Paul Verlaine


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O Reflexo Naso-Digital

Ao ler os comentários e e-mails dos leitores, ontem, a propósito do texto “A Síndrome da Cueca Entalada”, apercebi-me de que muitos se sentem incomodados por uma outra praga social, de não menor dimensão, ainda que mais aceitável: o Reflexo Naso-Digital, também conhecido por “Limpeza das Fossas Nasais” e carinhosamente tratado por “Tirar Macacos do Nariz”.
É um fenómeno que abrange uma vastíssima camada da população portuguesa e a desgraça atinge sem aviso nem discriminação de qualquer ordem. Crianças, adultos, homens, mulheres, de todas as raças e credos, presidentes de república, rainhas, princesas, políticos, médicos, enfermos, altos, baixos, bons e maus e claro, os mais desgraçadamente atingidos: os condutores de automóvel em fila de trânsito!
As crianças perdoam-se por duas razões. Primeiro, porque não sabem o que fazem. Segundo, porque estão, efectivamente, em actividades de limpeza. Já quanto aos adultos, ele há sobretudo três ordens de pacientes. Os que o fazem em privado para limpar, os que se descuidam e o fazem em público, também para limpar, e os que fazem desta prática um entretenimento público e ostensivo, quase um desporto. É para estes últimos que deve ir a nossa preocupação, o nosso auxílio e a nossa compreensão.
Estas pessoas ficam presas no trânsito e aproveitam esses minutos, quiçá horas, para essa nobre actividade que é o pensar. Ora, pode não parecer, mas o pensar dá muito trabalho. E não havendo nada que se mastigue por perto, uma vez que normalmente nada há que se coma num carro, a forma que a mente encontra para distrair o corpo, enquanto pensa, é tirar macacos do nariz. Atroz! Mas verdade!
Os recursos são diversificados. As costas da mão ou de um dedo são recursos muito utilizados por aqueles que adiante designaremos de “Disfarçados”. Há os adeptos do mindinho. Estes podem, ou não, ter unha longa e um anel o que é indiferente. O que importa é que, sendo o mindinho mais delgado, permite actividades exploratórias de recolha mais bem sucedida. Há, ainda, a grande maioria que são os adeptos do indicador. Não sendo um recurso digital tão delgado quanto o mindinho, é mais comprido, logo, permite ir mais longe em menos tempo. E por fim, um requintado e conjugado recurso que a ciência apelidou de Pinça Digital. Trata-se de utilizar o indicador e o polegar em forma de pinça. A extraordinária utilidade deste recurso é que permite escarafunchar duas fossas nasais em simultâneo com grande rentabilidade de mão-de-obra, mais exactamente, dedo-de-obra.
As práticas são igualmente múltiplas e variadas. Há os Disfarçados. Estes costumam passar rapidamente com as costas da mão ou de um dedo a ver se naquele fugaz esfreganço trazem consigo o incomodativo macaco. Macaco chamado, precisamente porque é incómodo uma vez que todos sabemos que não é de macacos que se trata, mas de lixo que os pêlos nasais impedem que progrida para o interior do aparelho respiratório. Há os Arrogantes. Estes pacientes, após as actividades exploratórias, atiram violentamente o produto da busca para o chão do automóvel ou para a rua com um gesto semelhante àquele que fazíamos em cachopos quando jogávamos à carica ou ao berlinde e nem se despedem daquilo que ainda há momentos era parte integrante do seu ser. Os Laboriosos, por sua vez, são indivíduos persistentes, com grande capacidade de empenho e trabalho e, normalmente, são pessoas poupadas. Vão recolhendo pequeninos macacos e depois ficam a rodar com eles entre o indicador e o polegar até fazerem bolinhas de tamanho satisfatório. Os Observadores, ao contrário dos Arrogantes, após a recolha, viram para si o dedo com o produto e observam-no antes de o despedirem. Normalmente, estas pessoas têm espírito científico. Gostam de analisar os pormenores do volume, da forma e da cor. Por fim, há os mais requintados. A ciência Naso-Digital resolveu apelidá-los tecnicamente de Gastronómicos. Têm o espírito analítico dos Observadores, mas vão mais longe: degustam requintadamente o produto do seu labor naso-digital. Alguns destes homens e mulheres têm mesmo caderninhos pretos onde registam as notas de prova.
O mais extraordinário deste fenómeno é que pode acontecer entre uma luz encarnada e uma verde de um semáforo ou, simplesmente, até que o veículo da frente progrida mais 5 metros na fila. Nunca se deve confrontar um paciente do Reflexo Naso-Digital de forma repentina com a realidade. É perfeitamente inútil. Estes pacientes são como as pessoas que ressonam, ou seja, vivem em constante negação. Assim, se acordarmos uma destas pessoas dizendo, Então pá estás como dedo no nariz?, ou noutra versão, Então pá, vai haver baile logo à noite?, ou ainda, Então pá, estás a limpar o salão?, ela vai responder invariavelmente a mesma coisa, com um ar dissimulado: Não. Estava a pensar!
E estava. Aliás é aí que tudo começa! É por isso que eu não percebo porque é que Portugal tem problemas dos mais diversos tipos, inclusivamente, ao que parece, de cariz financeiro. A verdade é que o nosso país está repleto de pensadores. Eu sei porque vejo-os todos os dias!


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Os Recantos da Mente Humana

A mente humana tem recantos complexos. Por exemplo, há sítios do nosso desejo que nos levam a repelir o que amamos, a esconder aquilo de que nos orgulhamos, a calar o que queremos gritar ou, simplesmente, a complicar o que queríamos simplificar.
Aposto que quem fez esta placa com indicações de trânsito queria ajudar… pois… acabou produzindo uma das placas mais confusas que já vi e até consigo garantir que entre o traçado real e o desenho há diferenças significativas. São terras simpáticas, de gente boa, e são também as terras onde há uma placa com indicações que nasceram num qualquer e imperscrutável recanto da mente humana.


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A Síndrome da Cueca Entalada

Há problemas que afectam a nossa sociedade e dos quais quase ninguém fala. Nem um protestozinho, nem uma reivindicação, nem nada. Dos muitos que me preocupam, o que mais recentemente me tem atormentado é a Síndrome da Cueca Entalada, vulgarmente conhecida por entre as gentes como SICUE ou ainda por “Será que Alguém Está a Ver?”. E a verdade é que na maioria dos casos está mesmo alguém a ver.
Importa referir, em primeiro lugar, que não se admite em pleno século XXI, em plena era das tecnologias, tendo o homem ido à lua, criado os computadores, os telemóveis, os comandos a distância e a alheira de Mirandela, que não se tenha ainda encontrado solução técnica para superar esta praga.
É evidente que a qualidade da cueca pode ajudar, mas não resolve, não constitui garante suficiente.
Ora, se a consequência mais incomodativa pode ser esse desagradável efeito secundário designado de “Rabo Assado”, não há dúvida que a mais prejudicial para os próprios e terceiros é esse nefasto efeito estético que é ir uma pessoa na rua e, de repente, porque sucumbe ao incómodo, levar a mão ao rabo para desentalar a cueca. Isto pode estragar uma reunião, um dia de trabalho, arruinar uma reputação.
E porquê este discorrer filosófico sobre tão interessante fenómeno? Simples. Porque um amigo meu presenciou decadente e defraudante cena em plena via pública. Era uma senhora que, já não estando na flor da juventude, de velha não podia chamar-se ainda. Ia elegantemente vestida, com sedas vaporosas e tons leves. Eximiamente penteada e abundantemente assessorizada por brincos, fios e pulseiras de excelso quilate. Deslizava sua elegância na via pública e distribuía a quem passava um apurado sentido estético e um facilmente identificável bom-gosto. Sem discussões. Era um prazer e um deleite vê-la deslizar. E é neste climático momento que, mesmo à frente do meu amigo, a elegância em pessoa, alçou o braço direito, dobrou-o para trás, enfiou a unha perfeitamente pintada sob o elástico da cueca e a desentalou de onde entalada estava. E o mundo desfez-se na mesquinhez do gesto, e a elegância perdeu-se na pobreza da atitude, o sentido estético esvaiu-se no gesto grosseiro. E porquê? Porque, tecnicamente, ainda se não conseguiu debelar a síndrome. Imperdoável! Anda a Humanidade a acumular cortex cerebral há 40 milhões de anos e depois joga fora a elegância conquistada com um gesto vítima da sua própria incapacidade. Nem ao menos, a diva, naquele momento, se lembrou de oferecer as costas à parede e disfarçar a atitude num gesto rápido. Não. Demorou-se.
Andam os homens tão atarefados com questões relacionadas com as finanças e o endividamento e não resolvem estas prementes questões que são, claramente, de saúde pública. E atenção: afectam-nos a todos. Sim, mais tarde ou mais cedo, cada um de nós será vítima do incómodo e da tentação. Aqui fica, pois, o repto à comunidade científica, aos políticos e aos responsáveis pelos destinos das nações: combatamos a SICUE, já!


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Como é que diz que disse?

Um dia destes tive um furo. Evento comum, mas sempre desagradável. Mudar o pneu estava fora de questão por uma razão simples: o meu carro não tem pneu sobresselente. Tem um kit! Segundo o vendedor, parece que a suspensão toda xpto não deixa espaço para o dito e então vai de kit…
Estava muito descansadinho a tentar remendar o furo com o kit, quando parou um carro de pessoas muito simpáticas, por acaso minhas conhecidas. Mãe e filho. Já há pouca gente assim, suficientemente simpática e prestável para parar o carro e ver o que é que o azarado precisa. O engraçado da coisa foi a conversa que se seguiu. Eu estava a tentar explicar a razão de não ter pneu sobresselente, ela fez um comentário imperdível e ele apressou-se a corrigir:
– Traz um kit. Vou tentar remendar o furo com ele porque estes pneus são caríssimos.
– É, são daqueles topless!
Tubeless!