Caros leitores,
A DÚVIDA – CAPÍTULO I
Caros leitores,

Numa parceria pouco usual, os blogues Mails Para a Minha Irmã e Crazy 40 Blog vão publicar uma história partilhada.
Dulce Morais e João Paulo Videira vão escrever “A Dúvida” e publicar alternadamente os 12 capítulos da história nos seus blogues.
A ideia é contarmos uma história com a perspetiva masculina e feminina não só das relações humanas, mas também do próprio ato criativo.
Sempre que um capítulo for publicado num dos blogues, o outro blogue apresentará um link para o mesmo. Desta forma, os leitores não perderão pitadinha da história independentemente de qual seja o blogue que sigam com mais regularidade.
Dulce Morais publicará o primeiro dos 12 capítulos e João Paulo Videira fará o encerramento daqui a algumas semanas.
Desejamos-vos boas leituras.
Divirtam-se!
Dulce Morais
João Paulo Videira

Fazendo fé nos contadores de histórias, menosprezados ao longo dos milénios, mas também amados, mormente por serem sopro de muita vida, inspiração de muitas, grandes e nobres ações, e fazendo fé, também, no livro dos livros, entre nós ocidentais, de Bíblia chamado, esteve Jesus 40 dias no deserto. Aí sofreu, contam, e aí defrontou os demónios que o apoquentavam, os exteriores e os interiores, e daí saiu fortalecido.
Esta história é também sobre 40 desses dias milagreiros que mudam a perspetiva das pessoas, lhes iluminam os caminhos a seguir e as fortalecem para todas as provas.
Já parece não ser tão consensual entre a tão digna classe de conta as histórias e, sobretudo, entre seus ilustres ouvidores, a data em que terá nascido o menino, Jesus chamado, esse menino que haveria de andar perdido pelo calor das desérticas areias durante os 40 dias já aqui mencionados. Por isso mesmo divergem as teorias sobre a localização cronológica do Natal. Como se fosse necessário posicionar o que pela sua própria natureza posicionado está. É Natal porque nasceu o menino e, celebre-se quando se celebrar, sempre que o nascimento de Jesus se celebre, Natal há de ser.
O povo, em seu salomónico juízo, remata a querela com um “Natal é quando um homem quiser” e o facto é que não é por ser popular empírica que a teoria está menos certa. Isto para dizer que, quando Lucy entrou em coma, era Natal. Fosse porque os supermercados assim o anunciassem, fosse porque os Cristãos estavam em véspera de festejar a data, fosse porque para Lucy chegara o tempo de celebrar as coisas boas, a alegria, os sorrisos e a esperança, a árvore enfeitada e os presentes debaixo dela. Ora, para enfeitar-se a árvore, necessário será, antes de tudo o resto, que haja árvore. E esta manhã, ainda com a luz a despontar fraca ao longe, Lucy saiu de casa com o pai para ir buscá-la, a árvore a enfeitar. Gorros na cabeça, luvas nas mãos, casacos quentes por cima de camadas sucessivas de roupa e aí vão eles armados de sorrisos, esperança, um machado e uma motosserra. A carrinha desliza entusiasmada e célere enquanto no auto-rádio nasce uma voz melodiosa entoando “Rudolph Red Nose”. Pai e filha perseguem a canção enquanto o espectro amarelecido dos faróis se projeta no chão que desaparece das suas vistas sob a carrinha.
E, seja Natal ou não, a vida continua a realizar-se e a acontecer e o cãozito vadio, enregelado e famélico que agora se atravessa à frente de Lucy e do pai poderia ter continuado pela berma da estrada, poderia ter mergulhado na floresta circundante, mas não o fez. Sentiu o apelo do outro lado da sua vida e atravessou a estrada indiferente ao movimento dos veículos. O pai, num impulso de vida e proteção, desviou-se, tentou retornar à sua faixa de rodagem, a carrinha não obedeceu e, no contra-movimento, capotou e rodou sobre si mesma até estacar na faixa contrária com as quatro rodas olhando o céu.
Gabriel Saint está de folga e dorme profundamente. Na empresa onde trabalha e na comunidade de camionistas de longo curso, Gabriel tem uma alcunha como todos os outros. A sua é “The Angel”. A combinação do nome próprio com o apelido era, como diziam os colegas, demasiada santidade num tipo só. Claro que a alcunha lhe custou algumas brincadeiras de mau gosto em torno da sua orientação sexual, que é como quem diz, chamavam-lhe amaricado. Gabriel Saint superou tudo isso e um dia, como todos os outros camionistas, mandou fazer uma chapa de matrícula com a sua alcunha, “The Angel”, e colou-a no interior do parabrisas. Então, as brincadeiras mudaram e começou a ouvir-se, quando ele se aproximava com o enorme veículo, Deixem passar o anjo…
O telefone tocou. Gabriel Saint não queria acreditar que alguém se atrevera a ligar-lhe a meio da noite. Viu que era da central:
– Sim?
– Olha lá pá, hoje vais mesmo ser um anjo e vais desenrascar a malta…
– Foda-se, pá, ligas-me à uma da manhã para me cravares? O que é que foi?
– Estávamos a carregar “A Besta” e partiu-se um eixo. Preciso de transferir a mercadoria que já lá estava para o teu carro e acabar de carregar e preciso que me faças este serviço.
– E porquê eu?
– Eras o próximo na lista, pá!
O anjo desliza na estrada perigosamente gelada e vê ao longe os faróis de um veículo de pequeno porte. Seria só mais um. E volta à nossa história o cãozito vadio, enregelado e famélico. Gabriel Saint vê-o atravessar-se na estrada e fala alto na cabina do camião como se o pai de Lucy o pudesse ouvir, Não te desvies, pá, não com este gelo, passa-lhe por cima, pá! Ainda não tinha acabado de dizer isto e assiste ao bailado da carrinha no gelo até virar-se e ficar imóvel uns metros à sua frente. Conduzindo um veículo de grandes dimensões e dezenas de toneladas de peso, Gabriel não se atreveu a projetar-se para a berma. Seria o fim. O instinto levou-o a travar a fundo. O camião deslizou bloqueado, a caixa de carga atravessou-se na estrada, por fim, o embate inevitável e a carrinha onde estavam Lucy e o pai foi projetada para uma distância superior a cinquenta metros. Gabriel Saint está bem. Liga para as urgências. Fosse quem fosse que estivesse na carrinha, fossem muitas ou poucas pessoas, não poderiam estar bem. Corre para lá. Um homem geme de medo e dor. Uma menina jaz inanimada.
Lucy entrou em coma. O pai, com um braço fraturado, conseguiu explicar o que se passara. O acidente fora grave. Estarem vivos era um milagre. A questão residia, agora, em saber se Lucy acordaria. Foi nisso que a família se concentrou quando se abateu a consternação e a tristeza. E voltamos nós, contadores de histórias, ruminantes de pormenores, aos 40 dias. Foi esse o tempo que Lucy esteve adormecida. Foi esse o tempo do desatino. O pai hesitou entre a vida e a morte. Sentiu a culpa roer-lhe a existência. A mulher oscilou entre a tentação de o culpar e a contenção das palavras por saber que poderia acontecer a qualquer um. Mas as discussões surgiram e foram ferozes e a palavra divórcio andou ali a espreitar a oportunidade. A família uniu-se e houve conversas tensas e magoadas e outras de saudade pura. Caminharam todos os dias para o hospital, fizeram turnos às visitas, mandaram dizer missas, consultaram pessoas com poderes paranormais, rezaram a todas as divindades, fizeram oferendas, consultaram médicos para falarem com os médicos do hospital. Choraram, recordaram, choraram, recordaram. E, sobretudo, repetiram entre si palavras de esperança. E prometeram peregrinações e doações e cuidar de crianças desamparadas. Podiam tudo. Só não podiam acordar Lucy do seu sono letal. Essa era uma impotência que só um milagre poderia superar.
E o milagre aconteceu.
Ao 40º dia Lucy acordou. Estava fraca e não falou. Só veio a falar dois dias mais tarde. A família mergulhou em lágrimas de alegria e preces de agradecimento. Fizeram-se conjeturas sobre o que teria resultado para que o milagre se tivesse operado, mas foi Lucy quem o revelou, foi ela que disse porque voltara das profundezas do sono, foi ela que revelou por que razão se mantivera ligada a este mundo de sofrimento e alegria:
– Ouvi um anjo! Esteve sempre comigo um anjinho bom que, dia e noite, não parou de dizer-me baixinho, Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. Ainda tens muitas coisas boas para viver. Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir.
A família soube de imediato do que se tratara, mas não o revelou à pequena. Afinal de contas, era importante preservar aquela fé e aquele anjo que, de facto, existia, que, de facto, estivera à cabeceira dela dizendo aquelas palavras. Nesse momento, um homem alto e bem constituído abandona o hospital mergulhado em lágrimas. À medida que caminha, vai pronunciando baixinho como se se tratasse de uma canção de embalar, Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. Ainda tens muitas coisas boas para viver. Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. E foi dizendo estas palavras que subiu para o camião e abandonou o local. No interior do parabrisas tinha uma chapa de matrícula colada onde podia ler-se “The Angel”.
jpv

Ele trabalhava ali há algum tempo, já. Ela chegara de novo.
Ele tinha luz e promessas no olhar, na voz e na forma doce como se movimentava.
Ela era silenciosa e observadora.
Quando começaram a cruzar-se, repararam um no outro, mas nada mais do que um Bom Dia, Boa Tarde, foi alguma vez arriscado. Queriam preservar-se.
Ela tinha um olhar fundo e um andar pequenino. As formas comedidas do corpo eram, no entanto, definidas com clareza e graça feminina.
Os dias passaram e continuaram a trocar palavras de circunstância, por vezes uns documentos, outras vezes algumas opiniões acerca do trabalho.
Um dia, ao passar-lhe uma pasta, ele tocou ao de leve a mão dela que, não se tendo oferecido, também não recuou.
O tempo passou e as pessoas que eram habituaram-se à presença suave e discreta do outro. Notada, sem ser imposta. Sentida, sem ser absolutamente necessária.
Um dia amanheceu de sol e frio. Os casacos e os cachecóis tomaram conta dos corpos. O trabalho desenrolou-se com naturalidade. Ao fim da tarde, quando todos abandonavam o local, ele veio despedir-se deles. Era um ritual. Apertava-lhes a mão e desejava-lhes um bom resto de dia. Chegou a vez dela e todo o seu relacionamento se alterou num par de segundos. Não se aperceberam, então. Só mais tarde. Ele estendeu-lhe a mão, ela aceitou-a e trocaram um olhar demorado. No dela havia um convite quase súplica, Toma-me! No dele havia um vigor quase invasão, Quero-te!
Não sabem as pessoas como percebem o que percebem. Sabem só que percebem. E estes dois perceberam. Poderiam ter continuado as suas vidas, poderiam ter pensado que tudo aquilo fora uma ilusão, um mero olhar trocado com um pouco mais de demora, mas qualquer um deles sabia que aquela troca de olhares fora uma conversa.
Ela saiu. Ele seguiu-a. Ela entrou no seu carro e ele no dele. Desconheciam-se. Não sabiam ao que iam, não sabiam, sequer, um do outro, se seriam comprometidos ou não. Simplesmente fizeram o que fizeram. Ela percorreu algumas ruas da cidade. Ele seguiu-a. Ela estacionou numa zona habitacional tranquila. Ele estacionou ao lado dela. Ela dirigiu-se para um prédio. Ele seguiu-a. Ela entrou e não fechou a porta. Ele entrou e fechou-a. Ela dirigiu-se à aparelhagem para colocar a Dulce Pontes a entoar a Canção do Mar. Ele aproximou-se dela por trás, tomou-lhe o sexo na mão, sentiu-o latejante e húmido e beijou-a com demora.
Não devassemos mais a sua privacidade. O que se seguiu foi a sinfonia das carícias, a troca das emoções, o bailado dos corpos na entrega e na dádiva dos gestos incendiários. Quando terminaram, trocaram poucas palavras. Ela começou:
– Fica dentro de mim!
– Ficarei.
– Como é que soubeste?
– Pelo olhar.
jpv

Em breve iniciar-se-á em Mails para a minha Irmã a publicação de uma série de contos com a denominação genérica de “ErotiKa”.
Sim, é exatamente o que o nome parece indicar. São histórias contemporâneas e não só, da nossa cultura, mas também de outras, que pretendem uma abordagem das diversas manifestações do erotismo na vida das pessoas.
Serão o que tiverem de ser. Mais explícitas, mais contidas, mais trepidantes e mais tranquilas. Mas serão sempre eróticas!
Não esperem um livro de posições mais ou menos sensuais. Esperem o erotismo das sensações, umas à flor da pele, outras nos cantos recônditos da mente.
As histórias serão precedidas de um aviso de conteúdo e só se acederão após um clique voluntário num botão “ENTRAR” que colocaremos por baixo do aviso.
Divirtam-se!
jpv

Vi no friso à contraluz
Uma ideia que germina
Uma imagem que produz
Sofrimento.
Eras tu partindo
Livre e liberta
Era eu sentindo
A porta fechada,
A janela aberta.
Houve em mim
E no friso,
O raciocínio
E o juízo
De querer prender-te livre,
Libertar-te presa.
E nessa ideia que tive,
Vivia a chama acesa
Deste paradoxo amado,
Deste desejo infiltrado
Desta vontade indomável.
E tu pacificaste-me a alma.
Entregaste-me com calma
A tua vida
Como se fosse coisa pouca.
E eu fiquei suspenso
De gesto tão intenso
E tão abandonado à fortuna.
Senti-me um friso de vida
Sustentado por grácil coluna
Firmemente erguida.
jpv
"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."
Fluxo inconstante.
Ler torna a vida bela
A esperança pra quem busca pequeno e grande detalhe do criador. Shaloom....
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