Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

A pedido…

Roseira brava, roseira
Barco sem leme nem remos
Roseira brava é a vida
Que amargamente vivemos.
Roseira brava não tem
Rosas abertas nos ramos
Roseira brava é espinho
Que em nosso peito cravamos.
Roseira brava, roseira
Rosa em botão desfolhada
Roseira brava é teu rosto
Rompendo da madrugada.
Roseira brava no vento
Vai espalhando a semente
Roseira brava é lembrar
Quem se não lembra da gente.
Roseira brava, roseira
Que o sol de Verão não aquece
Roseira brava é o amor
A quem amor não merece.
Roseira brava é o ódio
Que vai minando a raiz
Roseira brava, roseira
Roseira do meu país.
Roseira brava é o ódio
Roseira do meu país.

Adriano Correia de Oliveira


10 comentários

A DÚVIDA – CAPÍTULO IV

A DÚVIDA
CAPÍTULO IV

– Ó cabrão, ó meu grandessíssimo filho de um cabaz de cornos, tira daí essa lata velha…

Este gajo ia-me matando! A bófia não vê estes tipos nem os multa, mas se eu passo numa passadeira sem parar ou vou a 55 em vez de a 50 como logo com uma coima. A vida está-me toda a correr mal. Tenho quase a certeza de que a Isabel me anda a enganar com o meu cunhado. Se ao menos pudesse apanhá-los em flagrante… Eu bem lhe disse para cuidar da mulher dele e deixar a minha comigo, mas o tipo não sai lá de casa. Tenho quase a certeza que esta semana esteve lá em casa sozinho. Não sei se fale com a minha cunhada sobre essa possibilidade. Claro que quero apanhar o gajo, mas não queria lançar a dúvida sobre o casamento deles. A dúvida corrói. A dúvida mata.

Por falar em dúvida, esta minha secretária, a Manuela, está a fazer-me duvidar. Mas que mulherão! Aquele cabelo loiro e sedoso, aquelas formas, o tom de voz, o olhar, o sorriso, a simpatia e, sobretudo, a disponibilidade. Até onde irá aquela disponibilidade?! Eu podia sondar, dar um passo na direção dela mas se corre mal, fico com o ambiente do trabalho todo estragado… Enfim, tenho de pensar nisso… mas, por outro lado, não quero dar àquela maluca que tenho lá em casa razões para desconfiar… razões para ter razão, porque desconfiar, ela já desconfia, ou a tipa pensa que eu não sei que ela me foi ao telemóvel vasculhar tudo? Estava lá uma SMS que eu tinha a certeza que não tinha aberto e hoje de manhã encontrei-a como lida… A espertinha! Não havia lá nada que me comprometesse porque não tenho nada comprometedor, mas o certo é que, quando se desconfia, até as coisas mais simples e naturais podem ser vistas como comprometedoras. Sinto-me devassado. E aposto que me viu a pasta e a carteira. Felizmente tinha deixado os recibos do hotel no escritório. Bem, isso é que ia ser um caldinho se ela os chegasse a ver… mas porque é que eu me estou a enganar? Eu quero mesmo é pensar na Dulce, a minha cunhada. Temos falado imenso ao telefone, ela tem sido fantástica, somos o suporte um do outro, o desabafo, o ombro amigo um do outro… ela tem sido maravilhosa. Ajuda-me imenso a conhecer melhor a Isabel. Se a minha mulher foi ver as chamadas feitas, deve ter estranhado tantos telefonemas meus para a irmã dela, mas acho que não é pecado conversar com a cunhada… Embora seja pecado o que às vezes penso fazer com ela. Acho que esta proximidade está a gerar uma atração. Acho, não, tenho a certeza. Do meu lado. Dela não sei. Ela é certinha. Não vou arriscar a estragar todo o ambiente da família… Isso é que seria uma bronca das grandes, mas lá que ela me enche as medidas… Enfim, nunca dei à Isabel nenhum motivo para desconfiar de mim, mas lá que as tentações não me largam, lá isso não! Será pecado fantasiar?

Telefone a tocar? Quem será agora?

– Estou? Bem, obrigado, e tu? Sim… sim… claro que sim, sem problema. Não, não acho estranho. Adeus.

Porra, que estranho!! O meu cunhado quer encontrar-se comigo para falarmos a sós! Não podia ser mais estranho. Não disse sobre o que era, quer que estejamos só os dois. Cá para mim vem aí chatice. Se a coisa corre mal, ainda lhe dou dois bananos naquela tromba de nonhinhas!

– Saí daí cabrão, queres a estrada toda para ti?!

Estes gajos são uns assassinos na estrada!

jpv


Deixe um comentário

Briooooooooosaaa!

Brioooooooosaaa!

Quarenta e três anos depois, a Briosa volta, finalmente, a uma final da Taça de Portugal.
Depois de ter protagonizado, em 1969, a mais emblemática final da Taça de Portugal de sempre uma vez que converteu a festa do futebol num momento de afirmação social e numa manifestação de mudança em pleno regime salazarista, a Briosa, de novo em tempos de crise, com contornos forçosamente diferentes, volta ao Jamor! 

Então, o adversário foi o Benfas que ganhou porque o Ósébio não perdoou. Desta vez é o Sportengue, mas isso não interessa para nada. A Taça é nossa! E o Domingos vai ter de ter paciência!

Brioooooooosaaa!

———————————————-

Um cheirinho do fantástico documentário Futebol de Causas


1 Comentário

Ele e Ela

Ele e Ela

Nasce
No seio das tuas certezas
A força
Para as minhas fraquezas.

Morre
No vórtice da minha alegria
O silêncio
Da tua teimosia.

Germina
Na impossibilidade de pedires perdão
A essência
Dessa inexorável solidão.

Vive
Na solidariedade da minha ausência
O fim
Da tua pobre inconsciência.

jpv


2 comentários

O Clã do Comboio – Fuso Horário

Fuso Horário

Semana de Aniversários

Segunda-feira. Frio de rachar. Olhos brilhando antecipação. O rapaz do Fato Cinzento trouxe uma torta de claras de ovos, o Escritor trouxe um espumante, a Senhora da Revista de Culinária trouxe copos, pratos e guardanapos. Quando o interregional das 7:18 parou em Santarém, a trupe escalabitana entrou, há duas velas em forma de algarismo a arder, um 5 e um 0, há outras duas, daquelas faiscantes, a emanar brilho e luz e faisquinhas de lume, todo o Clã, sem prudências em relação ao ruído, entoa alto e bom som o “Parabéns a Você”. O nosso amigo merece. O VM fez anos! Boa disposição, humor, vozes destilando alegria e companheirismo. O Clã é irrepetível. Parabéns VM!

Sexta-feira. Frio de rachar. Olhos brilhando antecipação. A Senhora das Caralhotas trouxe um bolo de chocolate propositadamente confecionado na Bimby, a Rapariga do Riso Fácil trouxe abafadinho. Quando o interregional das 7:18 parou em Santarém, a trupe escalabitana entrou, a malta entoa, pela segunda vez na mesma semana, o “Parabéns a Você” alto e bom som. Risos, abraços e felicitações. O nosso amigo merece. O JJ fez anos. Parabéns JJ.

Estes momentos vão acentuando a camaradagem e, ou me engano muito, ou aquilo que começou por ser um conhecimento espontâneo e vulnerável, começa a fundear entre alguns elementos do Clã uma amizade bonita que se vai solidificando a cada viagem, a cada evento, a cada partilha.

Chocolates

O VM tem esta caraterística: sempre que nos deixa para ir em trabalho ao estrangeiro, em vez de nos trazer qualquer outro tipo de recordação, tem o bom senso de perceber que a malta gosta é dos morfes e, vai daí, presenteia-nos com chocolates! Desta vez trouxe uma caixa inteirinha, e grande, de bom-bons de Liège. É claro que voaram em minutos e eu só escrevi este parágrafo para registar dois pormenores. A simpatia do VM. E, Rapariga com Brinco de Pérola, nós reparámos que tu comeste metade da caixa! Gulosa!

Tangerinas

Ao que parece, a Senhora da Revista de Culinária tem tangerineiras, ou dão-lhe tangerinas, ou rouba tangerinas no caminho para a estação. A nós, não nos interessa nada como é que ela arranja as tangerinas. O que interessa é a simpatia dela que todos os dias se lembra do seu Clã de Amigos de viagem e traz uma sacada de tangerinas. E depois é ver o Clã no ritual de as distribuir, de as descascar, de as saborear, de cuspir caroços, de juntar as cascas num papelinho dobrado em forma de caixa como fazíamos na Escola Primária, de as ir colocar no lixo e de fazer fila indiana para a casa-de-banho a lavar as mãos. Como se aquele perfume saísse assim às primeiras! São manhãs frutadas, as do Clã do Comboio!

Três no WC

Um dia destes, na sequência do ritual das tangerinas, o Rapaz do Fato Cinzento, o Escritor e a Senhora das Caralhotas, foram lavar as mãos. Entraram na casa-de-banho e deixaram a porta aberta. Um malandreco qualquer carregou no botão e fechou-a. Claro que eles não se inibiram e, enquanto lavavam as mãos, começaram a dizer frases do tipo, Passa aí a coisa, Põe a mão naquilo, Tira daí a mão que é a minha vez, Chega-te para lá que agora sou eu. É evidente que se referiam ao sabonete líquido e ao lavatório! Mas, ouvido cá fora, o efeito era um tudo-nada mais comprometedor. Saíram com um ar muito sério esperando não ser expulsos do comboio, em movimento! o Clã desabou numa gargalhada!

Fuso Horário

A CP mudou o fuso horário do Clã. Do Clã e dos outros passageiros todos! Durante 99 histórias, os leitores de Mails para a minha Irmã leram inúmeras vezes episódios passados a bordo do já mítico interregional das 7:18. Pois, já não existe! Este comboio costumava chegar a Santa Apolónia por volta das 8:35. Depois começou a esperar pelo Alfa, depois começou a esperar pelo Intercidades, depois começou a parar no Setil, depois deixou de parar no Setil e começou a parar no Reguengo, depois começou a ficar parado no Oriente e, quando demos por ela, o interregional das 7:18 estava a chegar a santa Apolónia entre as 8:45 e as 8:55. Como é natural, e porque as pessoas precisam de chegar a horas ao trabalho, houve reclamações. E o que fez a empresa? Resolveu os problemas técnicos e pôs o comboio a chegar à hora a que chegou durante anos? Não! Mudou-lhe o horário! Agora sai mais cedo. Já não é o interregional das 7:18. É o interregional das 7:05. Claro que os incómodos causados aos utentes e às respetivas famílias não são para aqui chamados! É uma empresa portuguesa, com certeza!

Precisamente para tentar escapar à violência de ter de me levantar às 5:30 com temperaturas negativas, um dia destes experimentei o regional das 7:40. Achei muito interessante como 35 minutos num dia alteram por completo os comportamentos das pessoas. O comboio é mais demorado porque é regional, é incrivelmente mais concorrido porque para em mais estações e porque é a uma hora mais cristã. A partir de Santarém, já vai muita gente em pé por não haver lugares sentados, a população parece-me substancialmente mais envelhecida e, diferença das diferenças, as pessoas vão muito mais acordadas. Conversam umas com as outras, falam alto, poucas leem e muito poucas dormem. A viagem foi agradável. Foi nela que escrevi estas linhas. Mas… mas… senti-me órfão do Clã do Comboio. Fez-me falta o humor, a amizade, as partilhas múltiplas, as conversas, as brincadeiras. O Clã do Comboio é um tesouro. Um tesouro sobre o qual se contaram, com esta, 100 histórias! E a próxima já está na calha…

jpv


Deixe um comentário

Anúncio – Senhoras, ajudem este homem!

(Clique na imagem para aumentar)


Caro anunciante, apesar de perceber a sua situação, não resisto a comentar:

a) Ó amigo, então e se foçe uma prefeçora de purtugês, não éra melhore?!

b) Tem a certesa que preciza? Então, ainda agora se viu livre de uma e já quer outra? 

c) Costuma pedir sempre impossíveis?

d) É só pra dizer que a mulher que há em mim não está entreçada!

Obrigadus


Deixe um comentário

A DÚVIDA – CAPÍTULO III

Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo III de “A Dúvida” no Crazy 40 Blog.

Cabe-nos agora continuar a história, o que faremos em breve.


Boas leituras!


Deixe um comentário

Como é que diz que disse?


“Ainda te dava um molho de murros na tromba!”

SC


4 comentários

A DÚVIDA – CAPÍTULO II

A DÚVIDA
CAPÍTULO II

O meu carro é a casa dos meus pensamentos, uma espécie de incubadora onde eles nascem antes mesmo de eu perceber as consequências do que pensei. É ótimo rolar na estrada e pensar sem ninguém por perto, sem uma voz a incomodar-me, sem uma voz a interromper-me. O meu carro é uma ilha. A minha ilha de pensar.

A minha mulher anda diferente. Não sei o que é que se passa com aquela gaja, mas não é coisa boa. Anda triste. Ignoro o que possa ser, mas uma coisa eu sei, não é a mesma mulher de há oito anos. Falta-lhe alegria, o brilho no olhar. É normal que se instale alguma rotina num casamento e que daí advenha certa tristeza, mas isto é diferente. Parece-me preocupada, alheada deste mundo. Pressinto que tem algo para dizer-me, mas não sei se quero perguntar-lhe. Na volta quer-se ir embora e isso não quero eu que aconteça… Acho!

O problema é que não sei mais o que fazer. Já trabalho tanto! Ganho bem. Providencio-lhe tudo o que precisa… Acho que tínhamos todas as condições para ser felizes, mas há sempre aquela insatisfação, aquele querer mais… que me obriga a trabalhar mais, o que a leva a queixar-se de que não estou presente.

Mas não sei se será disso que se trata. A verdade é que,  sendo honesto comigo mesmo, aquilo de que não tenho gostado nada é da proximidade do meu cunhado. O tipo não descola. Sempre a compreendê-la, sempre a dar-lhe razão em tudo, a pôr-se do lado dela. Será possível que ela esteja interessada nele? Huumm… Acho que não, quer dizer, nem sei, já não sei o que pensar. A verdade é que ela prefere conversar com o cunhado do que a própria irmã. Ainda bem que tive aquela conversa com a minha cunhada. Fiquei a saber coisas interessantes sobre a minha mulher. Deu-me um diário dela, enfim, é mais um livro de pensamentos, quando era adolescente. É um miminho. Tenho de o ler com atenção. Bem, quase a chegar ao trabalho, a minha secretaria à espera. Bem simpática! Bem gira! Gira é pouco. Ela é boa! Também, o que é que eu ia fazer? Não a contratava por ser bonita? Isso era discriminação ao contrário. A minha mulher é que não gostou da ideia… Enfim, deixa-me concentrar no trabalho…

jpv


5 comentários

ErotiKa – Eduardo

AVISO
Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
Do mesmo modo, o conteúdo desta publicação só pode ser acedido por pessoas maiores de 18 anos.
Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.
Obrigado
jpv
——————————————————————

Eduardo

Há quem defenda, e eu aceito, pelo menos em parte, a teoria de que o erotismo e o sexo estão, antes de mais, na cabeça.

A história que vai contar-se não pretende provar a teoria, será tão-só um reflexo dela. Quanto ao resto, caberá a cada um de vós fazer as projeções, regressivas ou progressivas, consoante os casos.

O casal é jovem. Sendo jovem, não é recém-casado. São pessoas nos seus trinta e poucos anos que levam sete de casamento. Eu não acredito na teoria da crise dos sete anos pelo que, infiro, será coincidência o facto de viver este casal uma profunda crise de cansaço matrimonial. Deixaram de sair juntos, deixaram de tolerar-se as pequenas falhas, discutem exaltados com frequência desaconselhável e, não menos importante que tudo isto, não fazem amor. E quando fazem, é maquinal, como quem cumpre um ritual que outrora foi um jogo de sedução e desejo.

Quando o dia nasceu, ele jamais imaginara o que iria passar-se num período tão curto de tempo. Um simples dia. Tinha agendada uma reunião que duraria exatamente um dia de trabalho. E durou. E foi cansativa. E houve momentos que lhe correram bem e outros houve de que não gostou tanto. Trocou palavras de circunstância ao almoço, apresentou projetos, debateu, discutiu, concluiu e, quando tudo terminou, quando já só se ouviam as vozes espaçadas dos últimos a abandonar a sala, ela aproximou-se. Era uma mulher baixa, de olhar azul e brilhante a enfeitar a face redonda. Tinha o cabelo farto e encaracolado e a passada pequena, mas determinada. Estava habituado ao caráter resoluto dela, mas também à distância que, até então, tinham mantido sem saberem porquê. E, talvez por isso, as palavras dela surpreenderam-no:
– Ouve lá, tu não achas que um tipo inteligente como tu merece ir para a cama com uma mulher bem resolvida como eu?
– Não sei… não te estarás a precipitar?
– Porquê? Vais terminar o dia voltando para a tua mulherzinha?
– É uma opção. Tu não vais voltar para o teu maridinho?
– Depende de ti!

Irrompem pelo quarto do hotel com gestos sôfregos e apressados. Mais tarde nem sequer saberão como é que o sutiã dela ficou pendurado no candeeiro e as cuecas dele foram parar acima da televisão. É como uma batalha. Os corpos entregam-se e exigem-se. Ele abre-lhe a blusa e mergulha nos seios dela. Ela desaperta-lhe o cinto das calças. Ele enfia-lhe uma mão por baixo da saia, percebe que ela usa uma lingerie diminuta, dá-lhe um puxão, mas as cuecas não cedem, ela diz, És um maricas!, ele puxa de novo e fica com elas na mão, projeta-a para cima da cama e invade-lhe o sexo com a boca ávida, ela empurra-lhe a cabeça como se quisesse devorá-lo por ali, ele percorre-lhe o corpo com a língua até lhe beijar a boca ansiosa e nesse momento penetra-a com vigor, ela crava-lhe as unhas nas nádegas e arranha-o, ele grita num misto de dor e prazer. A batalha das carícias sensuais continua até tombarem exaustos para o lado:
-Gostaste?
– Estás louca? Foi a foda do século!

José Carlos entra em casa e tenta fazê-lo com a maior naturalidade possível. Ao sair do hotel, tentou desligar da mente aquele fim de tarde tórrido e estonteante para assumir de novo o papel do marido tranquilo e previsível. Entrou. Beijou a esposa, como sempre, de forma fria e rotineira, dirigiu-se à casa-de-banho, lavou-se e preparou-se para o jantar. Quando chegou à sala, as luzes estavam apagadas, havia velas espalhadas pelos móveis projetando sombras trémulas, a mesa tinha dois pratos, dois copos de champanhe e uma garrafa num balde de gelo. A sua mulher tinha um avental de empregada que mal escondia a lingerie sexy:
– Hoje quero dar ao meu maridinho tudo o que ele merece… tudinho…

Vários pensamentos lhe ocorreram, várias hipóteses de atuação, uma delas, a mais viável, seria mostrar-se surpreendido, dizer que estava cansado e recusar o que lhe parecia ser um convite. Não é que estivesse descansado, pelo contrário, tinha o corpo exausto do trabalho e do sexo ardente com a colega, mas naquele momento dois pensamentos lhe assaltaram a mente. Em primeiro lugar, sabia que sentiria a consciência pesada se negasse à sua própria mulher o que acabara de dar a uma colega de trabalho para com quem não tinha qualquer obrigação. O que quer que fizesse fora de casa, fossem quais fossem os seus pecados e as suas sacanices, eles não podiam refletir-se em casa. Era uma regra que tinha para si e há muito respeitava. Em segundo lugar, acabara de fazer com a colega umas coisas inusitadas que não se importaria de repetir com a mulher, quem sabe se ela até alinharia nos jogos. Afinal de contas, toda esta encenação do jantar romântico era tão improvável e inesperada, porque não tentar ir um pouco mais longe?

Coloca-lhe as mãos sob o avental, segura-lhe as nádegas, senta-a na mesa, derrubam os copos, mas essa loiça, hoje, era mesmo para partir!

Os dias e as semanas têm corrido bem a José Carlos. São um caos total, mas entusiasmante. Divide as forças entre o trabalho, os encontros fortuitos com a amante e o surpreendente e efusivo sexo com a sua mulher. Nem parece a mesma. Ele começa a acreditar naquela teoria marialva de que um caso extra-conjugal pode apimentar ou mesmo ressuscitar um casamento desinteressante e condenado. Está convencido de que as suas escapadelas trazem outra vida à cama conjugal e isso, por sua vez, se reflete no quotidiano. Ele anda mais meigo com a mulher e ela com ele, retomaram certas carícias e atenciosidades, há um novo carinho e uma harmonia reconquistada.

José Carlos está certo no seu raciocínio. Só ainda não viu o quadro todo, mas vai vê-lo em breve.

Chega a casa. A mulher espera-o no quarto com uma túnica branca semi-transparente e roupa interior rendada e da mesma cor. Põe-lhe as mãos no peito e beija-o demoradamente enquanto lhe desaperta as calças. Quando elas caem, também ela desce para o acariciar com os lábios humedecidos, depois volta a pôr-se de pé e beija-o de novo. Pouco depois estão em perfeito frenesim entregando-se com sensualidade um ao outro. Satisfazem os corpos e ficam deitados e enroscados por longos minutos. Ele levanta-se, nu, para ir à casa-de-banho, dá dois passos e ouve a voz dela em tom admirado:
– Que arranhões são esses no rabo, José Carlos?
Ele gelou. Agora que as coisas estavam a correr tão bem, um pormenor iria deitar tudo a perder. Sabia que não havia resposta que a satisfizesse, não havia mentira credível para aquela situação, ela iria sentir-se enganada, zangar-se, gritar, iniciar uma discussão violenta e tudo voltaria ao inferno de uns meses atrás. Virou-se lentamente para ela e foi surpreendido porque ela já não estava na cama. Estava mesmo junto a ele. Quando o apanhou virado para si, segurou-lhe o sexo com a mão esquerda e começou a massajar-lho enquanto, com a direita, lhe percorria os arranhões nas nádegas:
– Com que então o meu maridinho gosta de ser arranhado?! Sussurrou-lhe ao ouvido. Segura-lhe o pénis com mais firmeza, puxa-o para si, dá dois passos para trás na direção da cama enquanto o beija e o deixa tombar sobre si. As mãos dele procuram-lhe os seios e acariciam-lhos, cai sobre ela e beija-lhe os mamilos, ela coloca-lhe as mãos na nuca e pede, Vem! Faz-me tua! ele penetra-a com ternura e inicia um movimento ritmado e certo, beija-a no pescoço, ficam entregando-se mutuamente, a excitação cresce e quando estão perto do êxtase, ela crava-lhe as unhas no rabo, arranha-o e diz com excitação, perdendo o controlo dos gestos e das palavras na loucura do momento:
– Vem, meu amor, faz-me tua! Vem, Eduardo, vem! Possui-me, meu amor, sim… sim… sim…
Ele espeta os olhos arregalados na parede e pensa:
– Eu não me chamo Eduardo, porra!

jpv