Vã figura,
Traço imperfeito.
Esticada na altura,
Desajeitada no jeito.
Robusta estrutura,
Olhar cristalino.
Incerto, o cabelo,
E o lábio fino.
Passada errante,
Palavra pendente.
Alma distante,
Coração ausente.
jpv
Vã figura,
Traço imperfeito.
Esticada na altura,
Desajeitada no jeito.
Robusta estrutura,
Olhar cristalino.
Incerto, o cabelo,
E o lábio fino.
Passada errante,
Palavra pendente.
Alma distante,
Coração ausente.
jpv

Flui,
Precioso
E venenoso.
Passa
Como se não passasse,
Anuncia-se
Como se não anunciasse.
Escorre
Devagarinho
E corre apressado.
Passa
E mostra-se
Depois de ter passado.
E há algo de belo
E trágico
Nisto tudo.
Suave
Toque de veludo
Sentido na ausência.
O tempo,
Cruel,
Não oferece perdão
Nem tem consciência.
É um sedutor,
Faz magias
De toda a sorte.
Pede a vida
E, na troca,
Oferece a morte.
jpv

Não és terra de partidas.
És terra de chegadas.
Não é fértil, teu chão,
Em despedidas.
És mais de gargalhadas
E brisas volantes.
Não te puxa, o humor,
Para a melancolia.
Cresce melhor, e mais rápida,
A alegria.
Não és terra de planos.
Preferes os esquemas e os improvisos.
E ouço os alertas e os avisos,
Mas encosto-me ao teu ritmo.
Abraço essa poesia sem rima,
Esse olhar atrevido,
Essa facilidade desarmante.
Nunca serás companheira.
Sempre amante!
Nada me prende a ti,
E, contudo,
Choro na partida.
Agarro-me ao nada que és
E hesito na passada.
Sinto pesados, os pés,
Presos a nada.
Tens essa força oculta,
Essa macumba enfeitiçada!
Teu vazio cresce e avulta
Em meu peito.
E fico só e triste,
Sem palavras e sem jeito,
Na hora de ir.
Não és terra de sentir,
És terra de ser sentido.
Não és terra de gritar,
És terra de ouvir o grito.
Não és terra de possuir,
És terra de ser possuído.
Caminhas poderosa,
Altiva e sozinha.
África vaidosa,
Profunda…
África minha!
jpv

És a sombra
Do Amor que partiu.
És a luz
Que não entrou.
A ave assustada
Que fugiu.
E eu fui crescer
Noutro coração.
Alma errante
À procura de chão.
jpv

Acordar a teu lado
E beijar a tua face.
Olhar o teu sono,
Esperar que o momento não passe.
Acordar o veludo da tua pele,
Ajeitar-te os cabelos em desalinho.
Amar-te a noite toda
E acordar sozinho.
Esperar pela manhã
Para ver-te sorrir
Irradiando encanto e deferência.
Sentir os lençóis frios
E não perceber
A crueldade desta ciência.
Não é a tua distância que me dói.
É a tua ausência.
Não é o silêncio que me corrói,
É a certeza de não estares aqui,
Onde te quero
E desejo,
Onde possa tocar
O que sinto e vejo
E onde sejas minha
Para sempre.
Nenhum corpo
É um corpo
Se não estiver presente.
Vem de mansinho…
Vem devagarinho…
Saciar minha fome
De ti.
Vem deixar-me ajoelhar
E tomar para mim
Teu seio
E teu sexo.
Inaugura teu corpo
No meu
E desenha a carícia.
Rompe teu ímpeto em mim
Sem regras nem fronteiras.
E quando a noite se fizer longa
E teu cheiro de jasmim
Morar na minha pele,
Quando as aves acordarem
E derem vivas ao dia,
Encosta teu corpo ao meu
E adormece.
Meus lábios saberão,
De novo,
Beijar a tua face.
jpv

Partiste de meu silêncio
E gritaste cá dentro
Uma vontade cega!
Partiste de mim
E percebi, enfim,
Que um amor tão grande
Não se nega.
Partiste de minha ilusão
Sem teres pisado o chão
Que te oferecia.
Partiste,
Indiferente,
Como se não fosse
Sofrer de gente
Este sofrer
Que por ti sofria.
Partiste
E não soubeste
Como a esta alma vieste
Desarranjar o concerto.
Partiste
E não soubeste
Que, por me não ganhares,
Te perdeste.
As palavras que te disse
E as carícias que quis fazer-te
Morreram sozinhas.
Tuas mãos
Nunca foram minhas.
Teu êxtase
Não me aconteceu.
Não colhi
O teu Olimpo
E foste tu
Quem perdeu.
Não me vi nos teus gestos,
Não cresci no teu olhar
E não foram para mim
As palavras proibidas
Que andaste a sussurrar.
Não houve saudações,
Nem despedidas.
Nem se fechou a porta
Que nunca se abriu.
Teu peito gélido
Não me viu.
E hoje,
Neste pódio de emoções,
Com o mar a meus pés,
Sei que sou
Mais do que fui
E tu és
Só o que és.
Partiste…
jpv

Daqui,
Vejo o Mundo
Em todo o seu esplendor.
O mar imenso
Rebrilhando o sol,
Uma embarcação
Traçando destinos,
O céu beijando o oceano
E a urbe
Em tamanho pequenino.
As aves
Cruzam o meu olhar,
Suspensas
E velozes.
Ao longe,
Soam doces vozes
Entoando uma canção
Dolente.
Aqui, está Deus.
Ausente.
Presente.
E está aqui o Homem.
E tudo o que é humano
Aqui se sente
E aqui se suspende.
É um lugar de paz
E de gente.
E surgem, invasivas,
As palavras,
E teimosas.
Crescem versos,
Nascem prosas,
E tudo faz sentido.
Rasgam o pensamento
E a imagem,
Desenham a moldura
E a ideia.
Sem palavras…
Só noite escura,
Um barco perdido
Na imensidão,
Uma paisagem em vão.
jpv

Não tem mais poesia
No vento que passa.
Os meninos da rua
Já não riscam corações
Na tua vidraça.
Essa aura tanta,
Esse sorriso
E a emoção que ardia…
Nada ficou.
Nada mais que a fantasia.
Nada mais que o leve ensejo…
Nunca se fez beijo…
O destino de teus lábios
Nunca foi os meus.
A vida tem misteriosos caminhos
E são sempre sábios
Os conselhos da razão.
Mas está só
E imaculada
A vidraça.
Não tem luz,
Nem cor,
Nem risco,
Nem nada que faça
Vibrar um coração.
É só um vidro,
Limpo e sem alma.
Uma transparência vazia.
Uma noite solitária
Que não viu o dia.
Os meninos cresceram
E foram noutro lugar.
No meu peito
Ficou a rua vazia
E uma vidraça por riscar.
jpv

Ó senhora!
Ó deusa!
Ó musa maior!
Aceita minha dádiva,
Minha prece,
Meu suor.
Seja feita em mim
Tua vontade.
Envia pelo anjo
A sublime e espantosa
Novidade
Que há de surpreender
O Universo perplexo:
Tombou ajoelhado,
Perante tua figura,
O servo do sexo.
Deste forma
Ao meu desejo
E alma
À minha loucura.
És tudo
O que sinto e vejo,
Seio,
Colo,
Sepultura.
Teu corpo
É meu altar,
Teu gemido
Minha devoção.
Em ti
Procuro o grito sentido
Que completa minha oração.
jpv

Sou o apátrida
Dos teus afetos.
O banido
Dos desejos secretos
Onde escondes
O teu ser.
Amar-te
É morrer!
Sou a ferida
No teu corpo,
Ser estranho
E morto
Que rejeitas
Sem olhar.
E é porque sou tudo isso,
Oração e Feitiço,
Que não me consegues abandonar.
Nasceste onde terminei,
Vives onde me acabo.
És tudo o que tenho e sei,
Meu príncipe, meu rei,
Minha canção,
Meu fado.
jpv
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