Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


1 Comentário

O Suporte

[Christian Science Monitor, em prefácio ao novo livro de Todd Oppenheimer, ‘The Flickering Mind- The False Promise of Technology in the Classroom’, reflectindo sobre o impacto da tecnologia dos computadores nas escolas norte-americanas, afirma que “putting computers in classrooms has been almost entirely wasteful, and the rush to keep schools up-to-date with the latest technology has been largely pointless”. Os novos programas de Português para o Ensino Secundário continuam a ser alvo de contestação: desta vez é a referência ao programa televisivo “Big Brother” num manual. A Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) considerou uma prática ilícita “a intercepção de conversas telefónicas por iniciativa de jornalistas, seja em que circunstâncias for”.

[Data da primeira publicação: 17 de Outubro de 2003]

O Suporte

Querida mana,

Cumprindo o prometido de há umas semanas atrás, venho oferecer-te, como quem dá uma flor a cheirar, o odor nostálgico da minha primeira memória. Presente agradável, talvez, como as flores e, certamente, efémero como a memória dos homens. Emerge do gesto a intenção clara de partilhar contigo algo que me é muito caro, muito precioso, pois representa para mim o princípio de tudo, a primeira de todas as coisas, a imagem primeira e a primeira sensação. Por egoísta que te possa parecer, a verdade é que não me interessa muito a teoria do “Big Bang”, o evolucionismo darwinista, e mesmo, com o devido respeito, Adão e Eva me dirão pouco a partir do momento em que me roubarem o que estou para dar-te. A brincadeira tinha-me esgotado as forças, o dia fora, decerto, repleto de aventuras e imaginações e o sono abatera-se-me pesado e algures no regresso adormecera no banco de trás. Sei que isto foi assim mas não me lembro de nada! A única e primeira coisa de que lembro é de ir, com os olhos fechados a subir as escadas para o primeiro andar. Levava o corpo todo inclinado para trás. Não fiques perplexa. Eu sei que uma pergunta te salta agora à mente: como é que um miúdo de dois anos e picos sobe escadas de olhos fechados e corpo inclinado para trás? A resposta é simples. Tinha uma orientação e, fundamentalmente, tinha um suporte. Uma mão forte e enorme, aberta e espalmada a ocupar-me as costas todas evitava a queda, orientava o caminho e, sobretudo, oferecia-me a força para subir. Pois… o quadro não é muito nobre, a primeira recordação de uma pessoa ser a subida de umas escadas. Mas, para mim, é nobre o suficiente. Mais tarde já os meus olhos viam pouco mais do que as raparigas a rondarem-me a alma e a ocuparem-me o tempo tive a mesma sensação. Teria, talvez, quinze anos. Estava doente. Necessitei de ir à casa-de-banho. Quando lá cheguei uma tontura tomou conta do mundo esfumado e toldado pela semi-inconsciência e tombei para trás. Ainda hoje penso que semelhante queda, assim, de corpo morto, a encontrar o duro do chão poderia ter sido fatal. Mas o meu suporte lá estava. A mesma mão a amparar-me as costas, a mesma força, o mesmo orientar. Parecia uma predestinação ter aquela mão comigo nos momentos chave. Uma coisa que eu sempre achei extraordinário no nosso pai foi a forma intuitiva mas incrivelmente oportuna como ele escolhia os momentos para nos tocar. Se bem te lembras não era homem de beijinhos e festinhas constantes, não era frequente, diria mesmo o contrário, era raro vê-lo dirigir-se-nos para nos abraçar mas… a ausência da quantidade nunca perturbou a eficácia da qualidade. Olhava-nos, falava-nos e tocava-nos exactamente quando precisávamos que o fizesse. É esse o discernimento que invejo e procuro. Como é difícil!

Um dia destes, esta minha primeira memória cruzou-se-me nas entrelinhas do cérebro com esta questão tão feia e melindrosa que nos assalta os lares todos os dias. A Pedofilia. Algo que me parece claro é que o sistema judicial português a que chamamos mais latamente e plebeiamente de justiça não funciona, funciona mal e, pelo menos, da suspeita já se não livra. Há pessoas que são presas e soltas. Outras há que são soltas e presas. Outras há que são só presas e também as há que nunca são presas. Tudo isto, depois, é alvo de uma série de combinatórias politico-sociais que emergem mais da nossa revolta de pais e cidadãos do que propriamente de raciocínios bem estruturados. Algo há, no entanto, que fica iniludível: ninguém ainda deu mostras de ter compreendido o critério. O critério moral, o critério religioso, o critério social, o critério político, o critério criminal, o critério… o critério… resta invisível e um dia destes vai-se a ver e a culpa de tudo isto era das criancinhas!!!

E porque te falo disto agora? Que tem isto a ver com a minha primeira memória? É o suporte, mana, é o suporte! Não podendo contar com a eficácia e rapidez da justiça temos de apostar no suporte. Temos de construir e ajudar a construir pais atentos, pais que se não distraiam, pais que, como o nosso, estejam lá quando os filhos precisarem mesmo que sejam poucas vezes. A nossa acção não se deve deixar levar pelo jornal das oito. O país não se pode decidir à hora do jantar. Os castigos pesados não serão sentenciados em directo se é que alguma vez serão sentenciados! Os autores do nojo nunca sentirão nojo porque não sabem o que o nojo é… resta-nos amparar as nossas crianças quando estiverem para cair, resta-nos apostar na família. Não tem de ser uma família de sangue. Basta que seja uma família de amor, uma família prevenida. Não precisa de ser uma família numa vivenda, basta que seja na escola, na igreja, num lar, na rua! Prevenida! Não são precisos tribunais inaptos nem advogados que dizem as mesmas coisas de maneira diferente, basta que haja uma mão aberta a orientar e a amparar aqueles que têm o direito de viver a inocência nos dias de inocência.

Um beijo grande,
Mano.


Deixe um comentário

Mimi

[Christian Science Monitor, em prefácio ao novo livro de Todd Oppenheimer, ‘The Flickering Mind- The False Promise of Technology in the Classroom’, reflectindo sobre o impacto da tecnologia dos computadores nas escolas norte-americanas, afirma que “putting computers in classrooms has been almost entirely wasteful, and the rush to keep schools up-to-date with the latest technology has been largely pointless”. Os novos programas de Português para o Ensino Secundário continuam a ser alvo de contestação: desta vez é a referência ao programa televisivo “Big Brother” num manual. A Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) considerou uma prática ilícita “a intercepção de conversas telefónicas por iniciativa de jornalistas, seja em que circunstâncias for”.

[Data da primeira publicação: 3 de Outubro de 2003]

Mimi
Querida mana,

Escrevo-te hoje sobre a Primavera, a Convicção e a Fé. Porquê? Não sei bem, talvez porque se aproxima o Outono, porque as convicções estão em falência e a Fé vai, a pouco e pouco, perdendo a força de outros tempos. Tempos em que era mais autónoma, menos justificada e mais justificação, menos imiscuída em assuntos da razão e da ciência e mais ligada àquilo a que realmente pertence: a nossa existência espiritual.

O dia não podia estar mais radioso como ainda o atestam as fotos que por cá ficaram a mostrar-nos que estamos mais velhos, gordos e sedentários. O Sol despontou com vontade de fazer sorrir os mais tristes, com ânsias de fazer acordar na nossa existência pequena e condicionada de humanos e terrenos vontades empreendedoras de ser melhor, de ir mais além… a felicidade talvez. É assim o astro rei: lembra-nos, por vezes, coisas que não sabíamos ter na memória, no espírito. A Ladeira de Santa Justa perdera o seu ar pedregoso e pardacento e a igreja com o mesmo nome exalava vozes, sussurros, passar atarefado de gentes que, de certo, preparavam algo. Mesmo os que a não frequentavam se aperceberam com facilidade que aquele Domingo não era só de missa sendo, bem entendido, que a missa nunca é só no que a quantitativas medidas diz respeito. É sempre uma festa, uma comunhão. Mas aquele dia era, sem dúvida, diferente. Subi a ladeira e entrei na igreja e lembro agora para nós o que minha mente registou então. Do escuro e do fresco sobressaía o branco. O branco das flores nos altares e nos bancos. O branco das fitas. O branco das camisas e o branco dos vestidos das meninas que faziam a primeira comunhão. De todas, uma me interessava em particular. Emergia-lhe a face morena de tanto branco, brilhavam os olhos negros que não escondiam alguma apreensão ou, pelo menos, a seriedade e a responsabilidade que o acto impunha. Estavas bonita, ali, de olhos postos em não sei quê, em nem tu sabes o quê. O inegável é que a Primavera entrara na igreja para ajudar à festa. Entrara com as flores, com os sorrisos abertos, com os olhares de esperança e com aquela pontinha de vaidade não pecaminosa que emanava dos familiares de vós todos. A convicção entrara contigo e com quem te guiara até ali com a sua voz alta e forte e convicta de fazer bem, com a sua forma franca e aberta de encarar a vida, de a abraçar, de a viver sempre de peito feito e intenções claras. Era daquelas presenças de encher salas vazias, de por a comunicar os mais tímidos e punha convicções em tudo o que fazia, até na forma com partia o pão para as torradas! E foi assim que esse se tornou num dia de convicções. As convicções do pastor que acredita no seu mais íntimo sentir que está a orientar para o melhor e a convicção do cordeiro que quer ser orientado.

Colocadas na ordem dos pensamentos a Primavera e a Convicção, falta dizer-te por que é que, para mim, esse foi um dia de Fé. A bem da verdade não se tratava da minha Fé, eu acordei bem mais tarde para esses caminhos da vida, tratava-se da tua Fé. Os professores tinham-me ensinado até então e mesmo depois disso que a Fé era uma coisa que se sentia mas não se via. Erraram. Humanos que são é natural que errem mesmo tendo o fardo pesado da responsabilidade de ensinar. E erraram porque nesse dia eu vi a Fé. Não sabia que a estava vendo, é certo, mas vi-a. Na altura senti uma coisa esquisita, assim como quem olha para a paisagem e não sabe o que está a ver mesmo estando perante ela. Anos mais tarde, quando o destino me deu esta missão formidável de ter um filho e ser obrigado a encontrar resposta para todas as perguntas, mesmo as que a não têm, sou surpreendido com esta: “Ó pai, o que é a Fé?”. E foi aí que senti o flash da memória escarrapachar-me diante dos olhos a tradução em letras garrafais do sentido daquela tua imagem forte e compenetrada de menina vestida de branco no terceiro lugar do quarto banco ao lado daquele teu colega loirinho com quem se dizia namoriscavas, mas, claro, tudo mentiras de quem gosta de se armar em Santo António e ver o casamento onde o não há. A Fé eras tu, ali, de branco, com olhos postos No melhor de ti que é isso que é Deus, o melhor que há em nós. A Fé é aquela força de querer seguir um caminho bom, de acreditar porque… se acredita, de acender uma velinha todas as noites durante mais de cinquenta anos, sem nunca falhar, para iluminar uma santa que só foi de barro quando lhe faltou a dedicação e desvelo de quem a iluminava. Ou se iluminava. Foste uma menina de sorte. E fui-o eu, também, por termos tido a oportunidade de partilhar o correr dos dias com a senhora que todas as noites punha uma velinha. Como deves calcular, eu não disse ao meu filho que a Fé eras tu! Mas a verdade é que és a minha primeira imagem de Fé, a minha aparição pessoal e egoísta e a ti fica-te a responsabilidade de honrares os sentimentos que despontaste.
O resto é assunto pessoal de cada um, a ser gerido por cada um. Mas ainda gostava de ver outra vez a Fé!

Talvez te fique uma questão na mente ao ler o atabalhoado destas linhas. Porque é que chamei “Mimi” a este texto. Tem a ver com a Primavera, com a voz de rouxinol impregnando os dias, com convicções de fazer as coisas, com Fé de viver. É só um nome. Um nome que tu conheces bem, melhor do que eu, até, e que espero se cruze na tua mente com as palavras que agora te deixo.

Um beijo grande,
Mano.


1 Comentário

O Mundo Depois de Harry Potter

[Continua, em Portugal, uma das mais violentas vagas de incêndios. Para além da suspeita de fogo criminoso, vêm a lume, na imprensa, notícias que envolvem interesses paralelos como seja o comércio de aluguer de helicópteros para o combate às chamas. A saga de Harry Potter conquista o estatuto de livro mais vendido do mundo. A sua divulgação não é pacífica.

[Data da primeira publicação: 19 de Setembro de 2003]

O Mundo Depois de Harry Potter

Querida mana,

Fiz hoje um exercício que costumamos fazer na adolescência quando nos assaltam as grandes dúvidas existenciais, quando queremos saber quem somos, donde viemos e qual a nossa missão neste mundo que nos reveste. Tentei fixar a memória no seu ponto mais remoto: a minha primeira lembrança. Quase sempre fazemos isto levados pelo humano e natural impulso de querer saber onde começámos. A experiência não é de fácil resolução uma vez que o nublado do tempo adensa-se à medida que recuamos e esfumam-se as certezas para ficarem as impressões. Ainda assim, tentei mexer na memória como faziam algumas pessoas antigamente com a água quando esta se bebia dos lagos e nos não chegava a casa pela comodidade e higiene dos canos públicos. Juntei as mãos abertas e depois em movimentos lentos e cuidadosos ia-as separando para as juntar outra vez. A ideia era separar a lembrança pura e potável dos lixos que o tempo lhe havia juntado. Sosseguei, pouco depois, quando isolei a minha primeira memória, como se de algo precioso se tratasse, embrulhei-a em veludo e guardei-a numa caixinha de prata e prometo falar-te dela um dia destes. Por agora venho falar-te de aventuras que nós dois protagonizávamos a expensas da minha malandrice e do teu tácito e cúmplice acordo. A verdade é que não podias fazer nada senão estar de acordo porque eras um bebezinho pequenino que dormia a maior parte do tempo um sono inocente e só despertavas dele para o mais urgente. Na altura davam-me a missão de tomar conta de ti. Colocavam-te num carrinho de bebé enorme, com umas enormes rodas com molas e um travão e eu tinha-te a ti e à rua inteira para desbravar. Sem que nenhum livro ainda me tivesse educado o pensamento, sem que nenhum jogo didáctico me tivesse ensinado a ser melhor, a ser gente, sem que nenhum plano de apoio pedagógico me tivesse sido aplicado, a minha imaginação funcionava e cavalgava à solta até onde lhe apetecia. Empurrava lento e a muito custo a minha carroça de cow-boy rua acima, escondia-me de índios ferozes e ululantes, protegia deles e dos animais ferozes do velho Oeste o tesouro precioso que transportava comigo e uma vez chegado ao cimo da rua, perdão, ao cume da ravina, havia que descê-la ágil e veloz por entre as gentes que ali passavam onde via hordas de inimigos em perseguição. Preparava a carroça o melhor que podia, verificava os travões, olhava em desafio a descida e a correria iniciava-se, excitante e divertida, e só acabava quando a rua que lhe servia de palco não permitia continuá-la. Voltava a subir a rua e, enquanto o fazia, mudava o cenário, inventava uma aventura nova que justificasse a nossa correria por ali abaixo e depois era mais uma volta na montanha russa da minha imaginação. Nunca precisei que me dessem uma receita, nunca senti necessidade de comprar um imaginário!

Por esses dias dava os primeiros passos na escola. Gostava da bola nos recreios e de jogar às escondidas, gostava da caminhada de casa até à escola pelo fresco da manhã e, pensando bem, até gostava daquela pontinha de medo de poder vir o comboio cuja linha eu segui a pé durante parte do percurso. Ao terminar a primeira classe, quando ainda se chamava assim, ofereceram-me um livro da Anita. Fiquei maravilhado com os desenhos, com as cores, com as expressões do cão, com olhos muito abertos da Anita e li-o com avidez mas, depois dessa experiência maravilhosa de descoberta o meu mundo continuou intacto e à minha espera. O livro era mais limpo e mais perfeitinho do que as coisas que me rodeavam mas era, fundamentalmente, sobre as coisas que me rodeavam e que eu dominava. Fora uma magia, mas uma magia que ocupara só o seu espaço, só o espaço que uma magia deve ocupar.

A semana passada, por entre os afazeres de um ano lectivo que se anuncia a esta minha condição de professor, fui consultar o meu correio electrónico e vi que alguém me propunha que reservasse já o quinto volume de “Harry Potter” em Português pois, apesar de só sair em vinte cinco de Outubro, prevê-se que esgote, aliás, a verdade é que a mais de um mês da sua publicação na versão lusa, milhares estão antecipadamente guardados, reservados, enfim, vendidos. Enquanto fenómeno de vendas e no que concerne à sua aceitação junto dos jovens e não só, “Harry Potter” não é discutível. E é precisamente isso que me assusta: a forma absoluta e avassaladora como se impôs. A forma como tão rapidamente se constituiu num receituário para o imaginário infanto-juvenil. Será que os jovens dos quatro cantos que habitamos não viviam aventuras inimagináveis antes? Será que as vão viver depois? Até que ponto é que “Harry Potter” é uma busca interessante e bem arquitectada da essência do que é ser jovem, nobre e corajoso e até que ponto é que é um livrinho de aventuras como tantos outros mas com uma estupenda máquina de marketing que vende filmes, pastas da escola, estojos, lápis, cromos, copos, canecas almoçadeiras, camisolas, sapatilhas, caramelos e mais um sem número de coisas que já existiam mas que agora “são do Harry Potter”?

O que me assusta na realidade é o espaço que este fenómeno está a ocupar no mundo dos jovens. Será o espaço próprio de um livro, de uma aventura, o espaço próprio da magia de ler, ou estará a impor-se, no quotidiano, para além dos limites do razoável? Uma coisa é imaginar imaginações, outra, bem diferente, é consumir imaginações… É por isto que, pensando que vai sair agora o quinto volume, e que só restam mais dois volumes de magia, me apetece perguntar: que será do mundo depois de “Harry Potter”? Para o teu sobrinho eu já encomendei o quinto mas, se fosse no meu tempo, voltava a subir a rua!

Beijo
Mano


2 comentários

As Chamas da Impunidade

[Continua, em Portugal, uma das mais violentas vagas de incêndios. Para além da suspeita de fogo criminoso, vêm a lume, na imprensa, notícias que envolvem interesses paralelos como seja o comércio de aluguer de helicópteros para o combate às chamas.

[Data da primeira publicação: 5 de Setembro de 2003]

As Chamas da Impunidade
Olá Mana,
As linhas que te escrevo hoje são de tristeza e apreensão.

Invertendo um pouco o que é habitual, não fui ao baú poeirento e nublado da memória arrancar uma qualquer lembrança preciosa e adormecida para depois a rememorar contigo até ao presente e reflectir sobre ele. Desta vez, a força e a pujança dos acontecimentos que marcaram o Verão português fez-me começar por este mesmo presente e as memórias vieram depois a tropel e, também elas, violentas.
Já não posso dizer como tanto se disse e escreveu que “Portugal está a arder”. Neste momento, o destino limita-me as palavras a um odor a cinza e a morte, a uma cor negra e desgraçada e a expressão que me atormenta a alma é tão só “já ardeu!” Como quase todos, sinto uma impotência e uma revolta viscerais que me saem das entranhas pela lágrima, pelo grito surdo, pela contemplação absurda de uma imagem inverosímil há um mês atrás e real de arrepiar, hoje. No regresso de férias vi o inferno, os meus olhos não queriam ver o que o cérebro me estava dizendo que viam. Entre Portalegre e Abrantes numa extensão só mensurável pela expressão “até onde a vista alcança” tudo está queimado, seco, negro, morto. E contudo, este horror era só uma parcela do verdadeiro desastre, da tragédia inteira que ceifou flora, fauna, habitações e vidas humanas. Ainda que muito nos custe admitir a verdade é que o Portugal verdejante de pinhais de beira da estrada a festejar piqueniques está a agonizar em cinzas.

Como é costume, como é natural e como é humanamente desejável multiplicaram-se os esforços e as ajudas e as tentativas de atenuar a miséria que o fogo semeou. Nisto, portugueses, somos bons. No remediar humanitário, no estender de mão. Sem dúvida. Não é isto que me preocupa. O que realmente me preocupa é a impunidade. Pelo que leio nos jornais e vejo na televisão, toda a gente sabe que há “esquemas” que envolvem uns e outros, proprietários de aviões, madeireiros, investidores em terra, construtores de grandes complexos turísticos. Só nunca vejo nem os uns nem os outros. A Culpa, em Portugal, raramente tem rosto embora se saiba que tem mão criminosa! Os suspeitos entram e saem das cadeias mais depressa do que os doentes das filas de espera nos hospitais. Começam por ser grandes criminosos e afinal nunca o eram. Se reparares bem, mana, o fogo que devorou o nosso país este Verão em proporções inimagináveis foi todo acidental, obra do acaso, e, mais abstracto ainda, função do azar.
Faço este parágrafo propositadamente para te escrever a minha tese que, de resto, é curta e linear: o que consumiu Portugal foram as Chamas da Impunidade. O saber antecipado do funcionamento entorpecido do sistema de prevenção, do sistema de vigilância, do sistema policial, judicial e punitivo. Já disse. E chega-me. Claro que podia alongar-me com teses do género: o dinheiro que se gastou em estádios de futebol… mas não vamos por aí que essa conversa é fácil, facilmente polémica, não leva a lado nenhum e distrai-nos do assunto central.
Vamos às memórias.
Se bem te lembras, durante muitos anos, quando chegava sábado depois da hora do almoço, acomodávamo-nos na 4L do pai e fazíamos uma pequena grande viagem entre Coimbra e São Pedro de Alva. Na altura aquilo era coisa para quarenta quilómetros e cerca de uma hora e quinze minutos de espectáculo. Percorríamos o Mondego “ao contrário” sem percebermos bem se era ele que acompanhava a estrada ou a estrada que o acompanhava a ele. Quase invariavelmente parávamos na fonte mais para saborear a paisagem do que a água. A montanha estendia-se esplendorosa do rio até ao céu e o fim-de-semana começava da melhor forma possível. Em tons de verde e azul, odores formidáveis, e uma banda sonora de marulhar de águas e conversas vadias da passarada. Torres do Mondego, Rebordosa, Penacova, Miro, Friúmes, Porto da Raiva, Silveirinho e por fim São Pedro. Era um caminho de comunhão com a natureza, de cortar a respiração. Nunca cheguei a perceber se demorávamos tanto a percorrer tão pouco por causa da estrada ser mazinha ou se era o pai que, em vez de conduzir o carro, saboreava a paisagem… foi observando esta paisagem que o pai contou uma história que se passara numa terra ali da região. Um homem havia pegado fogo à mata. Apanharam-no. Foi preso. Saiu rapidamente. Apanhou o autocarro para casa. O povo esperou-o. Tal como o fogo que consumiu a nossa floresta este ano, a sua vida fora consumida. Tal como a Culpa dos culpados que estão a assassinar o nosso país, a Culpa da sua morte nunca teve rosto. Todos lá estavam mas ninguém viu nada. O pai contou a história uma única vez e fê-lo com tom sério e grave. O suficiente para eu perceber que os seus contornos morais não eram de perfil fácil. Aquilo não estava certo, na altura, como o não estaria hoje. Mas também não estava errado!

Beijo, mano.


Deixe um comentário

Férias para Sempre, outra vez.

[Políticos franceses entram em reality show. As notícias relativas ao processo Casa Pia mostram que o mesmo está longe de resolvido. Apagão eléctrico em Nova York: inquietante a fragilidade de um empório tecnológico; admirável a tranquilidade e bonomia nas ruas novaiorquinas; recorrente o medo de uma nova tragédia accionada pelo terrorismo. Vaga de incêndios assola Portugal.

[Data da primeira publicação: 22 de Agosto de 2003]

Férias para Sempre, outra vez.
Olá manita,
Não sei que me deu, que avaria foi esta na cabeça ou no teclado do computador, mas o certo é que neste mês de Agosto só me apetece escrever-te sobre férias. Uma noite destas sentei-me à secretária e tentei obrigar-me a escrever sobre outra coisa qualquer. Mas os dedos fugiam-me, as palavras desobedeciam-me à formulação e tudo acabava em férias. Tanto mais esquisito isto se torna, quanto é verdade que não tivemos assim tantas nem tão prolongadas férias. Talvez, por isso, as que tivemos se imponham tanto à memória e forcem a saída para o papel.
Um dia destes, em reflexão vagabunda e desenfreada, concluí que há um verbo privilegiado quando se trata de falar de férias: IR. Ora, IR acorda-me as caravelas da memória, a lembrança de dias que não vivi mas quero contar, recontar, atirar para os mares de gerações não nascidas ainda. Há uma relação íntima entre este ser português que nasceu connosco e a ideia de IR, de viajar, de partir, de regressar. Por vezes, ainda não partimos e já sentimos saudades, já planeamos o regresso. Provavelmente porque nos agrada tanto regressar quanto partir. Por outro lado, partir tem a força de soltar amarras, de virar costas aos velhos do Restelo que nos assustam a alma. O que se me afigurou, de repente, e de forma muito portuguesa, foi que a viagem, propriamente dita, não é, afinal, o mais importante. O fundamental são a coragem de partir e o prazer de regressar. Há Ulisses e há Eneias e há Gamas à solta nisto que acabámos por vir a ser neste canto da península. Imagina uma viagem como uma corda. Quem quer saber do meio da corda? Quem lhe pega pelo meio? Ninguém! Queremos, sôfregos, uma das pontas para poder puxá-la, atá-la, talvez, para poder vivê-la! Talvez só queiramos as pontas porque sabemos o que fazer com elas; é como as viagens: sabemos sempre o que PARTIR e REGRESSAR querem de nós. O que não sabemos é o que fazer com a imensidão de opções que o meio da corda nos oferece. Vem isto a propósito de dizer que os portugueses são valentes “iniciáticos”, extraordinários “conclusores” mas atrapalham-se um pouco com o processo. O processo é que é o diabo.
Já não sei se foram as divagações que me despertaram a memória ou se a memória que divagou e se perdeu nas linhas que acabei de deixar-te. Sei, somente, que tudo isto surgiu quando me lembrei de ter viajado sozinho pela primeira vez. Fui (perfeito do verbo IR) ao Algarve! Tinha terminado o nono ano (quantos séculos!), e os pais ofereceram-me a oportunidade. Como quase sempre na minha vida, agarrei-a. Mochila azul até não poder mais, roupa, alimentos e a alma aparelhada para a aventura. Duas semanas inteiras de liberdade absoluta pela frente e, curiosamente, pouco mais me lembro do que da partida e do regresso! Lembro-me de firmar as pernas e subir para o autocarro, um aceno, um adeus, a mãe para trás, uma coragem de partir. Lembro-me, mais tarde, do fresco da minha Ítaca de primeiro andar em Coimbra e dos despojos de viagem pelo chão à mistura com narrativas empolgadas do que quer que seja que ficou no meio da corda.

Por que te escrevo disto hoje? Por que relembro uma viagem em que não participaste? Para dizer-te que foste comigo naquela altura como estás comigo hoje. Para dizer-te que faltaste tu na minha bagagem, para dizer-te que vinte e muitos anos passados e ainda hoje penso que tudo teria sido mais extraordinário se te tivesse levado comigo mais do que na alma. Para dizer-te que ser irmão é assim: ser o mesmo noutro corpo.

Beijo
mano


Deixe um comentário

Férias para Sempre

[Políticos franceses entram em reality show. As notícias relativas ao processo Casa Pia mostram que o mesmo está longe de resolvido. Apagão eléctrico em Nova York: inquietante a fragilidade de um empório tecnológico; admirável a tranquilidade e bonomia nas ruas novaiorquinas; recorrente o medo de uma nova tragédia accionada pelo terrorismo. Vaga de incêndios assola Portugal.

[Data da primeira publicação: 8 de Agosto de 2003]

Férias para Sempre

Olá mana,
Porque se aproximam as do presente, lembrei-me de rememorar para nós as férias do tempo em que ainda as não organizávamos, as não pagávamos. As férias do tempo em que ir de férias era só isso mesmo: ir de férias. Para ti a festa começava em Julho. Deixavas-nos a caminho da Figueira onde partilhavas emoções e sol quente com a generosidade da Mimi. Por essa altura, usavas o cabelito curto, os olhos despertos e as vontades aguçadas pelo génio de menina-senhora-do-seu-nariz. Eras um poço de força. Durante esse mês rumávamos à Figueira todos os fins-de-semana mais para ver-te do que por causa da praia. “Praieira” eras tu, escutando o vento, horas a fio na água a despeito das vozes adultas cá de fora: “Ó Ângela, já chega! Aquela miúda passa o dia de molho!”
Sempre te ficou bem o mar a enfeitar-te o espírito.
Depois vinha Agosto e a festa era diferente, mais familiar, mais nossa. Lembro-me bem das tardes intermináveis de sábados construídos de emoções carregando sacos, embrulhos, embrulhinhos e tudo o que coubesse e a mãe se lembrasse. Praticamente acartávamos a casa do primeiro andar para dentro do carro. Os colchões, as tendas, os pratos, os talheres, as almofadas, os baldes, as vassouras e quando já parecia estar tudo e o carro não podia com mais nada a mãe inventava mais uns embrulhinhos que acabavam, inevitavelmente, num saquinho com um frasco de vidro com um bocadinho de detergente, outro com sal e, claro, a cafeteira do café. A mãe providenciava, nós transportávamos escada abaixo e o pai, de paciência extrema, arrumava o inarrumável, inventava espaço para os sonhos de partir. Seguia-se o folclore da viagem. O espaço contado, ao milímetro, para cada um, a esperança de aventuras inigualáveis em cima de quatro rodas. Comentávamos os mesmos buracos na estrada, as mesmas curvas, aquela janela, esta casa, um telhado engraçado, e viajávamos em sonhos livres do que deixáramos para trás. Cantavam-se irrepreensivelmente as mesmas desafinações e parávamos mais ou menos nos mesmos locais para oficiar os mesmos rituais. Hoje sei que eram só quarenta quilómetros. Na altura diria que tinham sido dias intermináveis de viagem (a)venturosa. Na altura diria que tinham sido férias para sempre. Hoje sei que foram só alguns fins-de-semana em família. E volta-me sempre esta palavra como marca na pele, como responsabilidade de fazer de novo, de não deixar morrer: família!
Claro que nos instalávamos com alarido, perdíamos os ferros da tenda, falávamos alto, deixávamos de ver-te, aventureira de procurar outros espaços. Mas, como relógio interior da nossa aventura, concluíamos as tarefas essenciais à medida que o dia fenecia. E tudo terminava numa refeição ligeira adoçada com um café. E parece que vejo o pai de perna traçada, muita alva de não ver sol o ano todo. Calções cinzentos e camisa branca de manga curta e dobrada. A mãe envergava um vestido-bata, quase sempre em tons de verde, e movimentava-se afanosa em torno de nos fazer confortáveis. Nessa noite, depois de esticarmos as pernas e encostarmos os pés contra o pano fresco da tenda, adormecíamos felizes!
Nada disto era sofisticado. Tudo isto era verdadeiro.
Nada disto era grandioso. Tudo era à medida do que se podia e nunca acima do que se podia. E essa foi uma lição importante. Uma lição de Liberdade e Responsabilidade. É que, ao contrário do vou vendo e lendo à minha volta, as nossas férias não eram à medida do que se não podia gastar, não eram à medida do que estava para além de nós: eram à nossa medida. À medida da partilha em família, dos momentos em que nos olhámos, dos momentos em que conversávamos, ríamos juntos! As nossas férias não eram marcadas por bilhetes de avião, não tinham o selo de hotéis de luxo e o milagre é que hoje conheço isso tudo mas consigo lembrar-me de ser feliz sem ter necessitado disso. É como se o segredo da vida estivesse em aproveitar muito bem o que se tem e não em ansiar o que se não pode ter. Depois, quem tem uma família, de que precisa mais?

Beijo
mano


Deixe um comentário

A palavra dada

[Em Itália, o Ministro da Justiça, Roberto Castelli, tenta impedir as investigações judiciais a alegadas fraudes fiscais no grupo mediático Mediaset, do primeiro ministro, Silvio Berlusconi, argumentando que o caso caía sob a alçada da lei de imunidade, recentemente aprovada (de certo modo “ad casum”). Não só a oposição, mas inclusivamente parceiros da coligação, como os democratas cristãos, reagiram duramente contra esta pretensão. O Vaticano anuncia que pretende fazer do acto de beatificação de Madre Teresa de Calcutá, em 19 de Outubro próximo, um “acontecimento televisivo de repercussão mundial”. A TVE – Televisão Espanhola – é condenada por ter violado os direitos fundamentais da greve e da liberdade sindical. Esta situação surgiu na sequência da denúncia do sindicato Comisiones Obreras ter denunciado a TVE de manipulação informativa nos “Telediários” do dia 20 de Junho de 2002, dia de greve geral em Espanha. A Direcção do PS diz existir contra este partido uma cabala.

[Data da primeira publicação: 11 de Julho de 2003]

A Palavra Dada
Lembras-te, mana, dos natais em casa do avô Velez em Odivelas?
Lembras-te do alarido dos primos em correrias e risos de celebração de estarmos juntos?
Por essa altura, a avó fazia bolo-rei, torta de chocolate e moldava os seus cozinhados com a dedicação de quem ama, o carinho de quem dá e só quer em troca o sorriso de um neto. A sua figura pequena e a voz macia enchiam a cozinha e quando vinha à sala era para presenciar, com glória, a sua vitória. A vitória de ter as filhas à sua volta, os genros com elas e os netos a desarrumarem-lhe a casa de felicidade.
O avô, esse, como é seu timbre, falava alto, gesticulava, contava histórias de Áfricas antigas e trazia para a conversa todos os que o rodeavam. Era o exercício da memória; era o afanoso relembrar de sermos um clã em torno de si, para si.
Por vezes, as conversas ganhavam o entusiasmo dos argumentos esgrimidos com palavras. O avô, o pai, os tios, até a pequenada, todos opinavam e quem ganhava as batalhas aquecidas pelos petiscos e pelos vinhos da alegria era sempre a palavra dada!
Por alguma razão, as grandes questões eram sempre resolvidas em nome da honra, eram sempre assacadas as responsabilidades à palavra dada.
Lembro-me de pensar, um dia, que falar era como agir: uma palavra, um acto, uma consequência.
Entretanto, crescemos, cresceu o mundo à nossa volta, cresceram as explicações pedidas, multiplicaram-se os pedidos de provas. Apareceram no nosso quotidiano televisivo os tribunais, as testemunhas, as contratestemunhas e Dizer já não vale nada.
Que saudades tenho do eco das vozes numa mesa de família, da segurança de poder confiar numa afirmação só porque foi proferida.
É pena, mana, que a honra que brotava das palavras do avô e do pai não se veja já, nem escrita, nos papéis assinados e reconhecidos no notário.
Um beijo.
Mano


Deixe um comentário

Bons Malandros

[Pacheco Pereira publica no Público, a crónica “O Iraque É Também Nossa Responsabilidade”. Realiza-se, em Lisboa, a segunda “Marcha do Orgulho Gay” que, segundo o Diário de Notícias, tentou desfazer a associação ao escândalo Casa Pia. A AOL Time Warner Foundation anuncia, após realização de um inquérito que para além de ler, escrever e contar, a alfabetização do século XXI deveria possibilitar aos jovens aprender novas competências que há 20 anos não eram tidas como essencias. O CDS-PP desiste do projecto v-chip para controlar a violência e a pornografia na televisão. Fátima Felgueiras dá uima polémica conferência de imprensa no Rio de Janeiro. O Porto vence (1 – 0) a União de Leiria e conquista a Taça de Portugal.

Data da primeira publicação: 27 de Junho de 2003]

Bons Malandros
Querida Mana,

Lembras-te de como te li a “Crónica dos Bons Malandros”?
No quarto em que partilhávamos o quotidiano, no mesmo quarto em que adoecíamos e recuperávamos juntos, naqueles nove metros quadrados de partilha em que trocávamos segredos e brincadeiras. Foi lá que abri, desconfiado, a crónica que se seguiria e que, sem saber, viria a mudar a minha vida. A cama tinha um dos lados encostado à parede coberta de papel de fantasia de fundo azul muito claro sobre o qual vadiavam umas florzinhas de um azul mais escuro e outras de cor-de-rosa como que a sugerir, esta combinação cromática, que o quarto não era teu nem meu mas dos dois. De muito grossa, a parede tornava-se fresca e eu oferecia-lhe as costas deixando o resto do corpo atravessar a cama até que os pés ficassem suspensos. E lembro-me de rirmos de satisfação com as venturas e desventuras das suas personagens. Lembro-me de voltar atrás em alguns parágrafos para os saborearmos de novo. O entusiasmo era de levar a mãe a chamar para mesa uma vez, duas e três e a refeição era apressada para voltarmos à aventura. O que eu realmente gostava e queria partilhar com todos à minha volta era a boa disposição, o imprevisto, o caricato e por vezes, porque não, o arrojo da linguagem que assumia traços de vernáculo. O fenomenal, para mim, era o contraste! Eu só não sabia defini-lo e traçar-lhe os contornos exactos mas apercebia-me claramente de que havia ali um contraste. Hoje percebo que residia, fundamentalmente, na antítese entre o formalismo e a seriedade como me apresentavam a Literatura na escola, sempre tão longe da vida, e a fluência de viver que aquele pequeno livro me escancarava à frente dos olhos, às portas da alma. Cheguei a estranhar alguma linguagem. Como era possível um livro ter a palavra “preservativo”, como era possível as personagens serem tão parecidas com as pessoas que se cruzavam comigo no caminho para a escola, tão humanas, tão cheias de defeitos? … Cheguei a duvidar ser Literatura aquele arrazoado de maravilhas surpreendentes que me faziam rir e comover e me impeliam a ler-te o livro.
Porquê estas recordações tantos anos depois? Por que me puxa a memória para um livro? A resposta é simples. A “Crónica dos Bons Malandros” foi, para mim, uma tomada de consciência. Foi o perceber e o apreender da Literatura como manifestação de vida, de toda a vida. Mais do que isso, a Literatura, para mim, deixou de ser uma manifestação de vida, passou a ser a própria vida. Os livros deixaram de ser textos muito bem escritos, sem erros, que senhores muito inteligentes e estudiosos, a que chamávamos autores, escreviam para que o resto da Humanidade pudesse aprender. Os livros e a leitura deixaram de ser, para mim, paradigmas do que é bom, perfeitamente dissociáveis de mim, do meu quotidiano, da minha família. A “Crónica dos Bons Malandros” integrou a leitura, a escrita, a minha vivência e colocou-os a todos no mesmo plano: o da vida. Afinal, havia pessoas boas que faziam coisas más, pessoas más que faziam coisas boas, havia mau cheiro e sujidade na Literatura, as personagens, surpreendentemente, falavam como se fala nas ruas, diziam palavrões, tinham sotaques, vestiam mal e o milagre, para mim, foi a perfeição residir no facto de a imperfeição estar por todo o lado. A Língua servia a sua configuração mais extraordinária: a Literatura. E esta, por seu lado, jamais poderia existir e continuar a maravilhar-me sem o serviço da primeira. Eu encontrara o casamento perfeito, vislumbrara uma união que jamais alguém conseguiria desfazer. O corpo e a alma, a palavra e a ideia, a mão e o gesto, a Língua e a Literatura! Por isso me arrepio, hoje, e, mais do que isso, me entristeço, quando oiço as defesas das mais modernas teorias pedagógicas que em nome da alfabetização e da competência linguística propõem ensinar aos jovens a Língua e a Literatura separadamente. Preocupo-me quando oiço pessoas preocupadas com a incompetência linguística e pensam estar a solução em dar mais atenção à Língua em detrimento da Literatura. Será que não vêem que este detrimento não existe? Onde aprender uma carta melhor do que em Pessoa ou Saramago? Onde compreender a estatística melhor do que em Gedeão? Onde aprender o manuseio da Língua melhor do que naqueles que o fizeram com a excelência da vida? Onde encontrar os segredos de uma pontuação extraordinariamente correcta e de uma frase maravilhosamente bem organizada melhor do que em Vergílio Ferreira.
O que eu percebi, mana, naquele dia em que me encostei à parede do nosso quarto e te li a “Crónica dos Bons Malandros” foi que há coisas que o Homem não pode separar porque estão unidas na sua natureza intrínseca, porque são elementos de uma mesma força. Alma e Corpo num só ser.
Aliás, que ofereceremos nós aos alunos que só aprenderem a Língua? Deixamos-lhes a ferramenta mas negamos-lhes o golpe de asa de que falava o poeta. E aos outros? Àqueles a que só ensinarmos a Literatura? Que lhes ofereceremos nós? Oferecemos-lhes o golpe de asa, o milagre da vida, mas vedamos-lhes o caminho para lá chegar…
Se isto chega acontecer, mana, começo a acreditar que os malandros são menos bons do que pensava!
Beijito,
Mano.


4 comentários

A mercearia do senhor Luís!

[Pacheco Pereira publica no Público, a crónica “O Iraque É Também Nossa Responsabilidade”. Realiza-se, em Lisboa, a segunda “Marcha do Orgulho Gay” que, segundo o Diário de Notícias, tentou desfazer a associação ao escândalo Casa Pia. A AOL Time Warner Foundation anuncia, após realização de um inquérito que para além de ler, escrever e contar, a alfabetização do século XXI deveria possibilitar aos jovens aprender novas competências que há 20 anos não eram tidas como essencias. O CDS-PP desiste do projecto v-chip para controlar a violência e a pornografia na televisão. Fátima Felgueiras dá uima polémica conferência de imprensa no Rio de Janeiro. O Porto vence (1 – 0) a União de Leiria e conquista a Taça de Portugal.

Data da primeira publicação: 13 de Junho de 2003]

A mercearia do senhor Luís!

Querida mana,

Hoje trago-te memórias de imagens e odores dificilmente igualáveis. Há vinte e muitos anos atrás (anos do relógio, porque se se tratasse dos anos da cabeça eu diria que tinha sido há muitos séculos, noutras vidas), empoleirado na janela, eu via-te, pequenina, com uns calções amarelos de algodão e correspondente camisolinha de alças atravessar a rua de passo seguro após o prudente olhar para a esquerda e para a direita. O olhar para a esquerda era impelido pela força do ensinamento paterno, coadjuvada pelo hábito, mas perfeitamente inútil porque, como vim a concluir, consciente, anos mais tarde, a rua era de sentido único! Dirigias-te para a mercearia do senhor Luís. Lá dentro encontravas um balcão enorme de madeira já muito tratada pelo tempo, pelos avios, as satisfações e as arrelias de proprietários e clientes. Por trás do balcão erguia-se a figura enorme e cinzenta do senhor Luís, de bata pelo joelho, cabelos a reflectir o peso da idade na coloração de imitar a bata. A voz era pausada, a simpatia quanto baste, como convém nos negócios, as coisas faziam-se bem, não se faziam depressa. Mais ao fundo uma enorme estante a acompanhar toda uma enorme parede. Mercearias mais à mão, drogarias mais a fugir para o fundo do estabelecimento. Da altura da cintura para baixo não havia estantes mas uma fila infindável de depósitos para produtos avulso, cada depósito com sua tampa a fechar na diagonal. Dentro de cada uma destas arcas de madeira pousava uma medida ou instrumento de aviar e era raro que não chegasse à balança o peso já certo, pré-medido pela mão do tempo, pela prática da vida. Cá fora, pelo chão, havia sacas de batatas, cebolas, garrafões de vinho, vassouras encostadas à parede e todo o local parecia a recriação de um mercado inteiro incluindo o “comes e bebes” lá ao fundo a que se acedia por uma portinha e onde costumavam estar sempre os mesmos homens com os mesmos copos à frente que nós pressentíamos mas que, por um qualquer pudor não compreendido à altura nos eram vedados ao contacto da vista. O odor das especiarias e do açúcar amarelo misturava-se com o dos restos de Omo que caía, inevitavelmente, pelo fundo da embalagem de cartão, misturava-se com o aroma do café em grão, das cebolas, do vinho lá de dentro e entrar ali era despertar o olfacto com uma sinfonia complexa de ocidente e oriente, de passado e presente. A vista deixava-se enfeitiçar pelas cores das embalagens nas prateleiras, metodicamente arrumadas. E regressavas satisfeita com mais uma história para contar. Trazias o troco numa mão e, na outra, um embrulho que demorava mais tempo a fazer do que hoje uma operadora de caixa a despachar cinco clientes com dois carrinhos de compras cada um!

Ias e vinhas e parte do percurso não se via pela janela mas acreditávamos todos que tudo ia correr bem, havia esperança nos nossos corações. Nos dos pais pairava a confiança numa vida melhor, nos dos filhos a esperança de fazer coisas, de ser gente, de ser grande. Queríamos, todos, ser heróis de feitos inolvidáveis mesmo que começassem numa singela aventura até à mercearia do senhor Luís. Acontecia, mesmo, excedermos o que julgávamos inexcedível: íamos para a escola sozinhos e a pé! Atravessámos a cidade inteira para lá e para cá e era vida o que acontecia, e era Liberdade o que se realizava. O medo do Salazar, a suspeição, a dúvida e os olhares por cima dos ombros estavam, definitivamente, mortos. Levantavam-se as cabeças das pessoas para olhar em frente e percorrer um caminho melhor. Os adultos contavam histórias diferentes da mesma revolução que desembocavam todas numa palavra: Liberdade.
Hoje ligo a televisão e as palavras que dominam o quotidiano do meu filho são “arguido”, “pedofilia”, “peculato”, “suspeito”, “crime”, “prisão preventiva”. E vou buscá-lo à escola e já não há a mercearia do senhor Luís mas, mesmo que houvesse, não ousaria deixá-lo percorrer sozinho aquele troço do percurso que se não via da janela! Paira no ar um clima de suspeição, dúvida e desconfiança como no tempo de Salazar só que agora já não há Salazar! Que percurso traçámos nós a ponto de herdarmos o que não era para herdar? Que fizemos da Liberdade se o meu filho não pode, com a tua inocência de outros tempos, fazer o que fazias, de cabeça erguida e sorriso nos lábios, sem que eu tema: estará bem?
Um beijo amigo do mano


5 comentários

Três à mesa

[A razão principal da guerra no Iraque não foi a questão das armas de destruição maciça, mas o afastamento de Saddam, a fim de permitir a Washington “retirar as suas tropas da Arábia Saudita e abrir caminho ao controlo global do conflito no Próximo Oriente”. A afirmação é de Paul Wolfowitz, braço direito de Donald Rumsfeld e número dois do Pentágono. Herman José é constituído arguido no caso da pedofilia. Paulo Pedroso é detido no âmbito da investigação do mesmo caso. O F.C. Porto vence a Taça Uefa na final contra o Celtic de Glasgow treinado pelo incontornável José Mourinho.

Data da primeira publicação: 30 de Maio de 2003]

Três à Mesa
Olá mana,
Lembro-me de quando ainda éramos quatro à mesa.
O pai no topo, cotovelos assentes e mãos entregues uma à outra como que encimando uma pirâmide. Olhava-nos com a alegria de quem vê crescer uma obra de arte. A sua obra de arte. E o seu sentir era um misto paradoxal do altruísmo de quem deixa crescer, de quem sabe deixar viver, e do narcisismo de quem se regozija na contemplação de si na sua obra. Nós ladeávamo-lo. A mãe e tu de um lado, eu do outro, bem de frente para ti, à distância de uma malandrice, de um risinho, de um segredo por desvendar. A mãe chegava-se bem para cima até conseguir cruzar um braço seu com os do pai. Às vezes penso que fazia isto só para sentir a força. Era a nossa mestra da mesa no preparo dos alimentos, no cruzar artista dos temperos. Lembro-me de a ver olhar o pai e servi-lo com o carinho e o desvelo de quem guarda um tesouro. E nós, cachopos de pontapés por baixo da mesa a retomar uma qualquer escaramuça de antes da refeição, nem reparávamos no milagre que ali tínhamos. E com o passar do tempo aquele ritual de quatro à mesa instaurou-se nos hábitos, no estar, no ser e ajudou a construir as pessoas que somos hoje. Era muito mais do que estarmos juntos. Tratava-se de um momento íntimo daquele núcleo de força, daquela família. O mundo lá fora podia estar a desabar de desgraça, a inchar de riso, a política podia mudar, a finança podia colapsar, podíamos até estar zangados, tristes uns com os outros ou só com o rumo da vida mas… àquela mesa não se faltava. Aquele era um momento em que estávamos os quatro em um só. Era a reunião do clã. Tudo ficava para trás e o mundo era nosso por uns momentos. Por esse tempo, de vez em quando, um de nós caía à cama com as maleitas próprias do tempo ou dos descuidos que marcavam a idade em que os casacos estorvavam e os chapéus-de-chuva eram para os velhos. Depois do tempo necessário para a recuperação ter passado, assinalavam-se as melhoras do paciente com o retorno ao convívio à mesa dos quatro. Ainda me lembro de pensar, ingénuo, no dia em que regressou à mesa após o primeiro enfarte que o pai estava curado, até já tinha jantado connosco!
Sabes, assaltaram-me estas lembranças quando um destes dias fui a Lisboa com a Paula participar num congresso. Numa das pausas para almoço dirigimo-nos a um restaurante da Universidade e, por via da falta de lugares, partilhámos a mesa com uma pessoa desconhecida. Foram minutos dolorosos de silêncio, dolorosos de indiferença, de nada para dizer. Três à mesa e ninguém parecia estar ali ou querer ali estar. Só então percebi o quão íntima é uma refeição. Tudo o que de nós revelamos nos pequenos gestos, nas opções mais insignificantes. Só então percebi que a impessoalidade cresce entre nós por mais que sejamos. Ali estava eu numa urbe de milhões, cercado de semelhantes aos milhares e completamente só numa mesa com três pessoas. Ali se cometera um crime. Ali se assassinara o milagre da refeição. Em nome de quê? Em nome de quê a indiferença? Em nome de quê a impessoalidade? Em nome de quê a solidão? Em nome de que crescimento este definhar das relações humanas? Ainda esbocei um gesto que salvasse o momento:
– Vou buscar cafés, a senhora aceita um café?
– Eu pré-comprei o meu. Obrigada.

E pronto. A tecnologia dos almoços em pé, dos pré-adquiridos, dos pré-comprados, dos pré-pagamentos, aniquilou o meu estender de mão e hoje guardo, para contar aos netos, a história triste do dia em que almocei com uma desconhecida, em que violei a sua intimidade e vi a minha devassada sem saber porquê. É essa a parte que me assusta : três à mesa sem saber porquê!

Beijo,

Mano.