Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Mãe

[Violenta explosão de um carro-bomba em Mosul, Iraque. Prisão de 2 líderes da Al-Qaeda em Punjab – Paquistão. Prisão de 13 supostos terroristas na Inglaterra. O Banco Riggs (Estados Unidos) inicia auditoria interna nas contas de Augusto Pinochet. Polícia de Inglaterra prende mais de 50 pessoas acusadas de pirataria. O piloto alemão Michael Schumacher conquista o seu 7º título mundial de F1.

[Data da primeira publicação: 27 de Agosto de 2004]

Mãe

Olá mana!
Nem todas as mulheres que têm filhos são mães!

O tempo, a ascese social e polida dos comportamentos humanos têm vindo a aniquilar os instintos primeiros, primários e primordiais do Homem. O instinto maternal não soube escapar a esta malha de embrutecimento educado, envernizado e profundamente estéril.
Já não caçamos. Vamos ao supermercado. O mais parecido que temos com caçar é um ritual de amontoar papéis burocráticos que entopem os canos das armas. Os tiros, quando surgem, já vêm desfalecidos do poder de caçar. Já vem morto o respeito pela presa.
Já não procriamos. Fazemos amor. Como se estas duas coisas pudessem ser uma só!
Já não comemos nem devoramos. Trinchamos, limpamos a comida e quando chegamos a dar a dentada já não sabemos o que estamos a morder! Os alimentos não são o que são. Não cheiram ao que são.
As mães já não amamentam, já não cuidam, já não acompanham. Forçadas a uma igualdade hipócrita e desumana já não parem, dão à luz! Como se parir tivesse algo que ver com luz. Parir é dor e sangue e medo e o milagre de trazer ao mundo mais um de nós. Forçadas ao trabalho quotidiano, despejam as crias numa gaiola de regras e artifícios com todas as coisas naturais e boas para o crescimento excepto as que fazem bem a quem cresce!

Hoje, quando uma criança diz mamã, não fala da mulher quente e fofa, como foi a nossa, que lhe dá a mama, o sorriso, a palmada, o amparo, aquela que cheira ao mundo que a rodeia. A mamã, hoje, é uma senhora que aparece com a noite à porta do jardim-de-infância, conduz o carro até casa e volta na manhã seguinte ao mesmo local.

Ora, mana, hoje venho cantar a nossa mãe. Venho lembrar-te as pequenas coisas que a fizeram grande. O tom calmo e pausado que punha na voz com propriedades verdadeiramente anestésicas para o medo que lhe acabáramos de revelar. O tom despreocupado com que dizia “isso não foi nada” depois de um sopro no local da ferida. A firmeza com que nos defendia dos outros quer tivéssemos razão, quer não… as contas ajustavam-se portas dentro. A zanga no desrespeito, a exigência de fazer crescer, a palmada no momento certo… às malvas a pedagogia. Crescer é sofrer para aprender a resistir. O ir connosco no primeiro dia de escola, o leite quente de manhã, o preparo do piquenique de casa às costas até com um saquinho de detergente e outro de sal. As batatas fritas, o “até amanhã se Deus quiser” e o riso…

Por vezes, quando quero explicar a alguém o que é o sentir materno, a tarefa complica-se por via dessa natural evidência que é eu ser homem e, preconceitos à parte, nunca ter sentido o que é olhar para um ser humano e saber que fui que o pari. Ainda assim, avanço sempre com este exemplo que é o de ter eu quase quarenta anos e, ainda hoje, a minha mãe julgar que só ela me sabe pentear. Esteja o cabelo curto, comprido ou assim-assim ela pergunta: “ó filho, quem te fez isso ao cabelo?”, põe os dedos em garfo e deixa-o na perfeição que só os seus olhos vêem porque mais ninguém me vê assim.

É a essa irrepetível singularidade do ser, do sentir, do pensar, do dizer e do calor das mãos que chamo mãe. É esse o calor a preservar e a reinventar para as gerações futuras.

Beijo.
Mano.


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O Futuro do Passado

[Por Razões de ordem familiar e profissional, a crónica autobiográfica “Mails a minha Irmã” esteve sem ser publicada durante meio ano entre Janeiro e Julho de 2004. No dia 16 de Julho desse ano foi retomada a publicação com o texto que aqui se re-apresenta.

[Data da primeira publicação: 16 de Julho de 2004]

O Futuro do Passado

Olá mana!

Quase todos nós, e o quase, neste caso, serve só para salvaguardar surpresas, pensamos na vida como um percurso, sobretudo, um percurso de trás para a frente, porque temos a tendência para contabilizar o que já somámos e não o que podemos somar ainda. Este hábito, tão naturalmente humano, tem vindo a servir para aprendermos com as acções passadas mas também nos tem limitado o levantar de cabeça para olhar mais longe, mais fundo e profundo à procura e perscruta do pode fazer-se. Resumindo o arrazoado, queria dizer-te que a humana tentação de olhar o passado tem prejudicado, por vezes, a arquitectura do futuro. Que fazer então? Inaugurar as memórias do futuro? Desprezar as do passado?

Não!

Prefiro pensar na vida sem passado nem futuro. Como uma súmula de intermináveis presentes que vamos construindo apaixonadamente, devotos do ser, hoje. Aliás, bem vistas as coisas, não estou sozinho neste intento. Já reparaste como os falantes da Língua que nos viu nascer usam cada vez mais e só o presente como reduto último da expressão das suas vivências? Já reparaste que, mesmo quando as formas verbais que bailam nos lábios dos portugueses surgem em pretéritos ou futuros, elas estão, de facto, no presente? Será que estamos a perder a capacidade de recuperar o que já foi para sonhar com o que há-de ser? Será que o medo de perdermos a vida que inexoravelmente perderemos nos torna hedonistas ao ponto de desperdiçar as construções que o tempo foi urdindo?

Espero que não! Espero que haja, ainda, algum futuro no passado de todos nós. Espero reinventar no presente a raça que fomos no tecer da que havemos de ser…
É por isso que te escrevo de novo.

É um reatar de presentes que ficaram para trás, é um construir do presente que viveremos amanhã. É este sentir partilhado na cumplicidade e no tempo de sermos irmãos hoje, hoje e hoje.
É um bater-te à porta para te acordar as memórias do que falta viver! É um sussurrar-te que a vida caminha pressurosa e diligente pelo tempo que desperdiçamos, pelas coisas que não dizemos nem fazemos. É um tocar-te no ombro com a suavidade das palavras irmãs, impressas nas linhas que te deixo. É um esperar que algures em todo o mundo e em todas as famílias haja um toque assim. Um olá. Um estou aqui. Um como estás. Um abraço.

Um Beijo.
Mano.


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Quanto vale um par de cornos?

[Esta é a primeira publicação deste texto: 3 de Julho de 2009]

Olá Mana,

O título, hoje, pode parecer-te estranho. E é!

A sua estranheza vem-lhe do estranhamento que sinto na evolução do mundo que nos circunda e da inversão de valores que, paulatina e gravemente, se vai operando. Estive para titulá-lo com um mais digno e ilustre “A inversão” mas depois decidi não fugir a este apelo ribatejano e intrínseco de ruralidade e realidade confrontadora!
Eu lembro-me, como tu te lembrarás, de que não tivemos uma infância marcada pela punição física. Nem o pai nem a mãe iam por esses caminhos com facilidade. E lembro-me também de que, quando optaram por essa solução, ela teve sempre duas características, resultou de algo desproporcionalmente grave que pudessemos ter feito ou dito, que é fazer com palavras, e a falha foi-nos explicada. Valha a verdade, nenhum de nós ficou traumatizado ou deixou de fazer o seu percurso por causa de umas palmadas! Enfim…

Ora, estive aqui a tentar lembrar-me que razões poderiam levar os nossos pais a darem-nos umas palmadas pedagógicas ou, com menos pruridos de linguagem, uma tareia à moda antiga. E a primeira, a razão central, é a mentira! A mãe e o pai suportavam-nos as falhas quase todas mas a mentira vinha à cabeça das inadmissíveis. Por exemplo, se um de nós, na malandrice da infância que leva aos primeiros desafios do status representado e mantido pelos adultos se lembrasse de fazer um par de cornos a alguém, levaria, por certo uma repreensão, uns olhos muito abertos, umas palavras mais severas mas nunca uma tareia, umas palmadas… pura e simplesmente não era falta para tanto. Era uma parvoíce e uma falta de respeito mas nada que se comparasse a uma mentira.

Repara como as coisas mudaram. o Primeiro-Ministro mentiu ao parlamento e à nação quando disse que não conhecia o que se passava no negócio PT/TVI que depois, afinal, já conhecia. O ministro Manuel Pinho fez um par de cornos na Assembleia da República. o Primeiro-Ministro continua em funções. O ministro Manuel Pinho demitiu-se! E a demissão foi aceite por quem? Pelo Primeiro-Ministro!

Ambos tiveram um comportamento reprovável na Assembleia mas repara na inversão. Um gesto, reprovável, é certo, mas superficialmente desrespeitoso, uma parvoíce, uma criancice, teve a reconhecida gravidade de uma demissão enquanto que um gesto profundamente desrespeitoso, um dolo, uma fraude de carácter, passa em branco e incólume.

O que me preocupa é que há pessoas adultas e crianças a ver, a assistir, a comentar e há uma mensagem que, subtilmente, passa: mentir já não é tão grave como dantes. Mentir são só palavras ditas ao contrário da verdade. Aquilo que era a essência passa para a periferia dos valores, bons e maus, e aquilo que era a periferia está a tornar-se essência. E porquê? Porque é visível, porque as câmaras mostram! Ou seja, eu não sei, mana, ao certo, quanto vale um par de cornos mas fico apreensivo quando um par de cornos começa a valer mais do que uma mentira!

Beijo,

Mano.


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Impunidade

[Apesar de muito divulgado na comunicação social, o caso “CAsa Pia” não sofre evoluções significativas.Sinal dos tempos: As marcas TMN e Vodafone posicionaram-se no topo do ranking do investimento em publicidade. Nos EUA, diversos jornais influentes – alguns dos quais apoiantes da guerra no Iraque – têm vindo a questionar a Casa Branca e os serviços secretos norte-americanos, perante a conclusão, que se vai generalizando, de que não existiam armas de destruição maciça no Iraque. Portugal assina o acordo internacional anti-tabagismo (Framework Convention on Tobacco Control). Início da missão do 3º Batalhão de Infantaria Páraquedista na Bósnia-Herzegovina.
[Data da primeira publicação: 23 de Janeiro de 2004]

Impunidade

Olá mana,

A impunidade arrepia-me.
Do que me lembro da nossa infância, nas conversas que os adultos trocavam com as vozes enervadas ou em frases sentenciosas de quem conclui e dá ou tira razão, o responsável encontrava-se sempre. Punia-se. O raciocínio lógico e primitivo de causalidade boçal com laivos e conotações de conotação rural funcionava bem. Havia um crime. Procurava-se um culpado. Encontrava-se. Punia-se. O processo era claro, lógico e não podia ser menos eficaz. Entretanto, o ser humano evoluiu, tornou-se mais democrático, menos bárbaro e passou a poder contar com a justiça… e que aconteceu? As palavras culpa e castigo riscaram-se do nosso quotidiano. Para não traumatizar ninguém, muito menos, quem assassina, desfaz lares felizes, ou viola impunemente crianças passou a articular-se um conjunto de termos obscuros, que ninguém percebe e que permitem o exercício público e descarado da impunidade. Hoje diz-se irresponsabilidade, diz-se culpa, diz-se arguido, diz-se suspeito, diz-se muito coisas como talvez, hipoteticamente, eventual e nunca mas nunca ninguém assume de cara lavada a coragem de chamar as coisas pelos nomes. O fenómeno é tal que, mesmo os comentadores desportivos, aderiram à praga da incerteza e, com as imagens claras e lentas das repetições ficam-se por um “poderá ter sido, eventualmente, no caso de haver contacto, um “penalty”. Quando toda a gente viu a falta, sem incertezas.

Com o malfadado e demasiadamente alongado caso de pedofilia em Portugal está acontecendo o mesmo. Não me interessam os nomes das pessoas. Interessa-me só que se não pode arrastar a gravidade de um caso assim por tantos meses de impunidade. Aquelas crianças maltratadas, sem direito a uma infância de inocência estarão loucas? Estaremos loucos todos nós? Tudo isto foi fumo? Só um sector do mundo político é que está envolvido? Não! Mil vezes não! As crianças estão lá, em sofrimento a serem ajudadas por que sabe e pode. O tempo arrasta-se porque há que possa contra os relógios de todos nós. Porque há quem pague. Não me interessa mais ver as notícias, não me interessa mais o nojo das patranhas argumentativas e contra-argumentativas. Interessa-me só a certeza de duas conclusões: uma: os crimes ocorreram. Duas: alguém os praticou. Tudo o mais é demagogia pura de fazer perder tempo num país adiado de decisões tomadas por pressão dos meios de comunicação. Tudo o mais são jogos inúteis de tentar disfarçar o indisfarçável: a nossa sociedade está podre e corrupta. E quanto mais depressa o assumirmos e começarmos a limpeza tanto melhor.

Muito se tem criticado a América (U.S.A.) e os americanos ultimamente mas uma coisa é verdade. Desde que um cantor, feito figura pública, se tornou suspeito, até ao seu julgamento dois meses bastaram. Só em Portugal podemos brincar com a Constituição, com as leis, com a desacreditação dos tribunais por tempos infindos. É triste e é pena porque vivemos num país cheio de pessoas e coisas bonitas. Falta-nos somente a força e a coragem dos nossos defeitos. A força e a coragem dos nossos erros. Pois que venha tal força e tal coragem, venha como lixívia e limpe as impurezas, arrase o pus que por aí anda! Que seja rápido. Sem misericórdia. Uma vez! Para sempre! já chega de fingir. Já chega de sessões e de homens que tentam, com argumentos retorcidos, estar acima da lei. Já chega de mau cheiro a processos inacabados. Queremos um ponto final. Queremos esperança de novo em Portugal. Queremos, como no tempo do pai, as certezas do que está certo, as certezas dói que está errado, os crimes, os castigos e, acima de tudo, queremos os culpados. Não culpados velados ou semi-culpados. Queremos tão só os culpados para os podermos enterrar e sermos Portugal outra vez!

Do sempre amigo
Mano.


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O ritmo das coisas

[Apesar de muito divulgado na comunicação social, o caso “CAsa Pia” não sofre evoluções significativas.Sinal dos tempos: As marcas TMN e Vodafone posicionaram-se no topo do ranking do investimento em publicidade. Nos EUA, diversos jornais influentes – alguns dos quais apoiantes da guerra no Iraque – têm vindo a questionar a Casa Branca e os serviços secretos norte-americanos, perante a conclusão, que se vai generalizando, de que não existiam armas de destruição maciça no Iraque. Portugal assina o acordo internacional anti-tabagismo (Framework Convention on Tobacco Control). Início da missão do 3º Batalhão de Infantaria Páraquedista na Bósnia-Herzegovina
[Data da primeira publicação: 9 de Janeiro de 2004]

O ritmo das coisas

Olá mana!
Um bom ano te desejo daqui, donde os sentimentos se sentem mais fundo, daqui donde se não pode fingir, donde se não pode enganar o juiz que é a alma, daqui, deste sentir irmão.

Hoje, quando faço estes votos que espero se realizem, envio-os em pensamento a uma irmã mulher, crescida, de responsabilidades imensas e mundo inteiro às costas. Vejo-te na plenitude do teu ser e do teu viver e orgulho-me da obra que o tempo fez. E lembro-me de outros anos terem passado e recuo trinta e tal desses anos no tempo e lembro o tempo em que o tempo não corria como hoje. Hoje, o tempo impressiona-me por ser tão pouco, tão curto. As pessoas correm cada vez mais, cada vez mais atarefadas, para usufruírem cada vez mais do tempo que cada vez menos têm e de que cada vez menos usufruem. Todos querem poupar tempo mas o intento parece nunca ser alcançado porque todos se queixam sempre de o não terem. Um ano como aquele que acabou ainda agora para todos nós ou como aquele que agora desponta parece ser incrivelmente mais célere, mais efémero, menos tempo, menos ano. Nos anos em que inauguraste o ser, arriscaste os primeiros passos ou estreaste as primeiras palavras a vida parecia mais lenta, mais calma e mais vivida. Os anos eram eternos. Por essa altura um automóvel que conseguisse a marca impensável dos 120 km/hora era uma máquina extraordinária. Na generalidade, 80 km/hora era já a fronteira do risco desnecessário. Daí que as viagens fossem mais longas e as distâncias parecessem maiores. Um simples Coimbra – Lisboa, que tanta vez fizemos, era obra para quatro a seis horas correndo as coisas bem. Uma carta em correio normal, que o não havia ainda às cores, percorria entre o dedicado remetente e o ansioso destinatário oito dias úteis, no mínimo e sem atrasos. Às vezes ainda sorrio ao lembrar-me do meu primeiro bilhete de identidade, a eternidade que esperei por ele: trinta dias inteiros. Um bolo, por exemplo, era tarefa para uma manhã ou uma tarde. Nos dias que correm qualquer pré-pré-pré-feito, em indo ao micro-ondas cinco minutos, está prontinho. E uma gravidez? Como quando a mãe e eu e o pai esperámos por ti… eram nove meses inteiros! Nove longos meses de esperar pelo primeiro pontapé, de pensar os nomes todos para escolher o melhor que o era só por ser teu! Hoje já nenhuma gravidez dura nove meses. Vemos a futura mãe uma ou duas vezes e, à terceira, ou a vemos com a criança ao colo ou esbarramos com o pai sorridente a dizer que a menina tem três meses e já quer agarrar as coisas. Às vezes parece-me, sinceramente, que o tempo vem em pastilhas compactas e gasta-se numa noite de frente para a televisão.
Sabes, manucha, a acreditar no que vão dizendo os cientistas na televisão, no que leio nos Atlas e outros livros da especialidade e até, porque não, no meu relógio de mesa-de-cabeceira, o tempo dura o mesmo tempo, hoje, que durava quando vieste ao mundo! O problema não me parece residir na passagem do tempo que se rege pelos movimentos dos celestes astros e esses, que eu saiba, pouco se ralam se nós contamos com mais ou menos precisão e paciência a forma como sempre se movimentaram, movimentam e hão-se continuar a movimentar. O problema reside no ritmo das coisas. Na forma como os meios de comunicação enfatizam a informação, na forma como compactam os anos em 3 minutos de bons momentos, maus momentos, quedas de motocicletas, desastres de automóvel, golos memoráveis, recordes impressionantes, catástrofes naturais, homens importantes em tribunais. O problema reside na forma como dependemos do relógio para deixar a criança em casa dos pais, no infantário, trabalhar à pressa, almoçar à pressa, ir buscar as crianças à pressa… tudo à pressa. O problema reside na forma como, pela facilidade do consumismo e pela facilidade do conforto, deixamos de estar uns com os outros, nos vemos menos, conversamos menos, temos menos histórias e, claro, vivemos menos embora, segundo as apuradas médias internacionais, passemos mais tempo vivos. Não sei que ilusão de rapidez é esta que nos leva a ser atraídos pela vertigem do Já em detrimento do apuramento do Durante. Somos, definitivamente, uma sociedade de produtos e, contudo, a vida é um conjunto de processos, é, ela própria, um processo.

E no atropelo de corrermos a vida em vez de a vivermos, atropelamos a calma das coisas, atropelamos o tempo que é preciso dar ao tempo, atropelamos as ideias, os conceitos, os valores. Tudo o que exija um processo é atropelado por aquilo que apresente um produto. E depois admiramo-nos com o pessimismo com que se encara este tão novo e já tão condenado 2004. Ele é o pessimismo em torno da economia, ele é o pessimismo em torno do desemprego, ele é o pessimismo em torno da pedofilia, ele é o pessimismo nacional, o europeu e o transcontinental… e bastava que, em vez de corrermos, parássemos para olhar, para mostrar atenção, para vigiar, para cuidar e conversar…

Por isso, mana, te não desejo que este novo ano seja um ano de paz, saúde, alegria e sucesso. Vou desejar-te, antes, que este ano seja um ano em que inicies e desenvolvas processos e projectos de paz, de saúde, de alegria e de sucesso. Em lume brando, ao ritmo das coisas!

Beijo
Mano.


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Dar as Mãos

[Como já se suspeitava, confirma-se a existência da doença das vacas loucas também nos E.U.A. Atinge um ponto alto a discussão nos media acerca dos reality shows. Saddam Hussein é capturado e feito prisioneiro.

[Data da primeira publicação: 26 de Dezembro de 2003]

Dar as Mãos
Querida mana,

Aqui sentado, confortável, de lume crepitando conforto, de família conversando aconchego, lembro, num relâmpago que me atravessa a memória, os Natais todos, todos os risos, as vozes todas altercadas, todas as vontades em uníssono e… todas as mãos todas. O pai apertava as mãos com a franqueza e a força de quem se entrega de cara e coração abertos, era uma força que, parece, ainda se sente. O avô abraçava como quem tem tudo para dar mesmo que fosse pouco. O tio Toneca apertava-nos as mãos com as duas mãos, a enchê-las como que a querer sentir-nos melhor. As mãos da mãe eram quentinhas e macias como são as mãos de todas as mães para os filhos todos. A avó não tinha mãos a medir que lhe não cabia nelas tudo o que sentia, tudo o que queria para os seus. A tia Geralda vivia o nosso Natal como se fosse o dela. Era um dar, um adivinhar os nossos pequenos grandes anseios só para fazer feliz a pequenada. De todas as particularidades recordo, sobretudo, o afazer das mãos, os gestos pequenos e os grandes, a forma com se abriam, cerravam, a forma como recebiam e se entregavam e, sorte a nossa, como, sempre prontas, davam.

E foi neste crescer que crescemos, foi neste amor que amámos. E fica-nos, agora, a responsabilidade de continuar as coisas simples como se fossem as mais importantes, as coisas rápidas como se fossem as mais demoradas, de trocar os olhares, de orientar as mãos e o que fazemos com elas. Sabes mana, creio bem que a importância dos nossos gestos não é solteira. É sempre o casamento do que eles representam para nós com o que significam para os outros. A bem dizer, os nossos gestos, de facto, não são nossos. Partem de nós, crescem nas intenções que lhes emprestamos, evoluem na capacidade que temos para os empreender e depois soltam-se do que queríamos com eles e vivem na forma como os outros os observam, como os interpretam e, inapelavelmente, nos juízos que formulam sobre eles e sobre nós enquanto seus autores. Verdade é que a forma como pensamos o mundo é muito umbilical, palavra simpática e suficientemente hábil para iludir o egoísmo, e assim pensamos que agimos de nós para nós. Mas não. Agimos de nós sempre para os outros até não sabermos onde. É por isso que, em tempos de Natal, julgo importante lembrar que o importante é dar as mãos. Gesto simples e ancestral que, dizem, começou no hábito antigo de mostrar as mãos livres de armas em sinal de paz e não agressão, clarificar de intenções, aproximação, aperto das mesmas e, para os mais entusiastas, o abraço, esse aperto de mão com o corpo todo.

Venho, por isso dar as mãos contigo, começar uma corrente humana que desejo continue nas famílias todas e em todos os lares. Simples e eficaz, de mim para ti, para o mundo, hoje, para sempre. O gesto dos gestos, o exemplo. O educar os pequenos de hoje a dar as mãos amanhã, como fizeram connosco na idade embrionária do homem que hoje te escreve para dar-te as mãos. Sem querer roubar ao verdadeiro autor destas palavras o jogo metafórico que elas implicam eu diria que esta é a altura de pormos “a mão na mão”.

Um beijo de mão dada

Mano.


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A Razão

[Como já se suspeitava, confirma-se a existência da doença das vacas loucas também nos E.U.A. Atinge um ponto alto a discussão nos media acerca dos reality shows. Saddam Hussein é capturado e feito prisioneiro.

[Data da primeira publicação: 12 de Dezembro de 2003]

A razão!
Olá mana,

As ruas já se vão iluminando de esperança, o coração pequenino das crianças sente a expectativa e os adultos querem acreditar mais. Interessante este fenómeno que se apodera dos homens quando o Natal se aproxima. Irrompe um inusitado querer dar, um estender de mão aberta ao vizinho de quem se não queria ver a cara. Até mesmo os problemas que continuam a atormentar-nos parecem mais leves, menos presentes, mais fáceis de resolver, menos problemas. As músicas tradicionais espreitam das lojas, invadem as ruas e preenchem os nossos dias deste querer ser melhor que é o melhor do Natal apesar de não se ver. O próprio trato se modifica e as vozes que soltavam os costumeiros e rotinados “bom dia, boa tarde” enchem-se de timbres, pintam-se de sorrisos e articulam cumprimentos mais demorados, mais dedicados:
– Bom dia vizinho, boas festas!
– Feliz Natal!
– Obrigado. Igualmente para si e para os seus.
Há uma inversão espontânea das prioridades do receber e do dar que desenham na alma vontades de dar primeiro. Como é natural, a astúcia dos homens dedica-se a tirar partido do espírito que se instalou, multiplicam-se as campanhas e as artes do comércio apuram-se. Mesmo assim, com o que possam ter de menos nobre porque aproveitador, gosto deste comércio e deste aproveitamento porque me mostra que o capital de dar tem saldo positivo nas humanas intenções.
Daí aos rituais das prendas e dos embrulhos com etiquetas e nomes de destinatário vai um saltinho. E é ver os sorrisos da criançada a iluminar as faces de quem deu porque dar é, ao mesmo tempo, receber. Acredito, até, que há no gesto da dádiva, um regozijo interior de ver receber que é muito semelhante ao receber propriamente dito. E segue-se o jantar dos jantares, as mesas postas com o cuidado de quem veste um fato domingueiro para se apresentar ao Senhor, vozes altas de histórias que marcaram o ano, receitas que marcam a noite. Um estar bem. Um fazer bem. Uma alegria. Uma partilha.
No fundo, mana, os dias de Natal são um pouco como Jesus. Parecem iguais aos outros mas não são. Há neles uma magia que faz apetecer acreditar na Humanidade, há neles uma aura que faz apetecer acreditar que o mundo é um local melhor. Há neles a esperança que faltou nos outros dias do ano. Há neles o gesto que escondemos, o sorriso que evitámos, o crer forte e pujante que foi tímido e encolhido nos outros dias. E porquê? Donde vem este espírito? Qual a sua razão de ser? A razão parece-me estar algures no percurso que precisamos traçar dentro de nós à procura do que de melhor há em nós. A busca desta razão pode bem ser a razão de estarmos vivos, de sermos gente. Pode bem ser o espírito primordial e primitivo que era antes do Homem e que será depois dele. Pode bem ser a força que nos criou e nos anima, o sopro de vida que uma vez por ano emerge da nossa humana pequenez e nos lembra que ficou em nós algo do Criador. Como sempre fica na pintura o olhar de quem a pintou, no poema, o pensamento de quem o pensou, na partitura, a melodia dos passos de quem a ouviu para a dar a ouvir depois. A razão pode bem ser que não sejamos, de vez em quando, tão humanos quanto julgávamos, que se nos desprendam as amarras do ser e busquemos estar mais perto de quem nasceu no Natal. A razão…

Beijo
Mano


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O Carro dos Bombeiros

[Uma enigmática campanha anti-terrorista promovida por uma organização desconhecida está a percorrer vários países europeus, incluindo Portugal, através de anúncios publicados em jornais e revistas de grande circulação, mas ninguém sabe quem a financia. O Exército americano prevê manter cerca de cem mil soldados americanos no Iraque até 2006. Jornalistas portugueses ficaram autorizados a acompanhar o Sub-Agrupamento Alfa da GNR para Nasiriyah, Iraque. Carlos Raleiras, repórter da TSF, continua desaparecido e sobre ele pesa um pedido de resgate de 50 mil dólares. O jornalista foi raptado perto da localidade de Marditz, no Sul do Iraque, quando seguia com mais oito enviados para Bassorá. No mesmo ataque foi ferida a tiro a jornalista da SIC Maria João Ruela, que teve que ser operada a uma coxa. Entre 24 de Outubro de 2002 e 24 de Outubro de 2003, os canais generalistas portugueses emitiram 5612 notícias (correspondentes a mais de 219 horas) sobre o “escândalo da Casa Pia”, as quais foram vistas por uma audiência média de 8,5% (798 mil indivíduos). Os dados constam do Telenews da MediaMonitor divulgados na mais recente edição da newsletter da Marktest.

[Data da primeira publicação: 28 de Novembro de 2003]

O Carro dos Bombeiros
Querida mana,

É interessante a mente humana. É interessante a lógica torcida, retorcida mas implacável e paradoxalmente correcta como se movimenta e manifesta mesmo quando erra! Frase complexa e complicada esta! Donde vem? Vem de pensamentos ainda mais emaranhados que procurarei desentrançar para ti. Estava aqui a pensar, para te dizer, como as noções de Espaço e Tempo se alteram à medida que crescemos e como isso altera, também a visão que temos do universo que nos rodeia e consequente gestão das nossas atitudes, da construção que fazemos da nossa própria imagem. Não raro surpreendemo-nos a pensar “eu não sou este” ou “eu já não sou este” ou ainda “eu já fui este? Como foi possível?” Estas reflexões não implicam, necessariamente, arrependimentos. Implicam somente mudanças, crescimento. A generosidade com que a Natureza nos presenteia o espírito leva a que os espaços comecem por ser enormes. Qualquer quintal é um bosque, qualquer rua é uma avenida, qualquer casinha humilde e parca de corredores e metros quadrados é um castelo de aventuras. O tempo passa, os olhos abrem-se para o mundo e, curiosamente, começamos a ver menos. Os espaços encolhem-se. Os sonhos entrecortam-se de sobressaltos e obstáculos. Com a ideia do curso do Tempo o fenómeno repete-se. No dealbar da vida os dias são longos, as semanas são extensas e os meses são vidas de histórias para contar, períodos infindáveis de grandes esperas, grandes ansiedades e, claro, sofrimentos incontáveis. Por essa altura, me parece, a nossa mente não alcança um ano no horizonte, daí o desapego material que tanto necessitaremos mais adiante no tempo e que, quase invariavelmente, esqueceremos absortos na prisão das liberdades que chegam com a idade adulta. Isto te escrevo para lembrar contigo como os dias eram longos quando brincávamos no quarto de arrumação. O mundo começava e acabava ali em tardes infindáveis de risos, de brincadeira inocente, de brigas, de corridas, de fazer prendas artesanais para o dia do pai, para o dia da mãe. Foi sentados no chão desse quarto que ensaiámos o crochet de um naperon para a mãe. Era aí que eu alinhava para as corridas os carrinhos de brincar que tinham sobrevivido à guerra colonial e, mais risco menos risco, mais amolgadela menos amolgadela, ainda davam para imaginar correrias. De todos eles, um havia que me entusiasmava mais que os outros. Um havia que eu, o motorista, secretamente e às escondidas de mim mesmo, o juiz da corrida, favorecia com empurrões extra para ganhar: era o carro dos bombeiros. Não é original. Todos os miúdos, um dia, quiseram ser bombeiros. É o dom da dádiva que nasce pujante connosco e que depois deixamos esmorecer à excepção daqueles que mantêm a força e a pureza de coração suficientes para continuarem.

São pessoas de excepção os bombeiros. E são-no, quanto a mim, porque conservam em bruto, pelos anos da vida, a capacidade de dar, o heroísmo intrínseco e anónimo que os caracteriza. Porque envergam uma farda que só tem dois destinos: superar uma dificuldade ou morrer a tentar! É por isso, mana, que me entristece e envergonha quando vejo, nos dias que correm, aparecer uns homenzinhos cinzentos na televisão a atribuir incompetências e culpas aos bombeiros. Onde pára o respeito pela nobreza de quem dá a vida pelos outros? Que incompetência é a dos bombeiros? A incompetência de defender voluntariamente aquilo que não é deles? A incompetência de arriscar a vida? A incompetência de morrer no posto de trabalho? Quantos, mana, desses senhores cinzentos de poder na mão, já morreram no posto de trabalho? É uma pena e uma tristeza que se esteja a matar a nobreza de ser-se bombeiro com a injustiça das palavras mal proferidas, com a cegueira dos interesses económicos. Eu cá gostava de poder acreditar que as crianças, pelo mundo fora, continuam a sentir o peito crescer de emoção e grandiosidade sempre que vêem um carro de bombeiros. Nem que seja de brincar. Nem que seja alinhado para uma corrida num soalho velho de uma casa velha, outrora castelo das nossas brincadeiras no tempo infinito da nossa infância.

Beijo
Mano


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Oh Toneca, viste o topázio?

[Uma enigmática campanha anti-terrorista promovida por uma organização desconhecida está a percorrer vários países europeus, incluindo Portugal, através de anúncios publicados em jornais e revistas de grande circulação, mas ninguém sabe quem a financia. O Exército americano prevê manter cerca de cem mil soldados americanos no Iraque até 2006. Jornalistas portugueses ficaram autorizados a acompanhar o Sub-Agrupamento Alfa da GNR para Nasiriyah, Iraque. Carlos Raleiras, repórter da TSF, continua desaparecido e sobre ele pesa um pedido de resgate de 50 mil dólares. O jornalista foi raptado perto da localidade de Marditz, no Sul do Iraque, quando seguia com mais oito enviados para Bassorá. No mesmo ataque foi ferida a tiro a jornalista da SIC Maria João Ruela, que teve que ser operada a uma coxa. Entre 24 de Outubro de 2002 e 24 de Outubro de 2003, os canais generalistas portugueses emitiram 5612 notícias (correspondentes a mais de 219 horas) sobre o “escândalo da Casa Pia”, as quais foram vistas por uma audiência média de 8,5% (798 mil indivíduos). Os dados constam do Telenews da MediaMonitor divulgados na mais recente edição da newsletter da Marktest.

[Data da primeira publicação: 14 de Novembro de 2003]

Oh Toneca, viste o topázio?

Querida mana,

Estava aqui a pensar na nossa família como quem passa as tropas em revista. De repente, apareceram-me todos à frente, os mortos e os vivos, encheram o peito de ar e perfilaram-se numa longa fila. Que heterogeneidade! Os mais simples, os mais complexos, os mais generosos, os mais extrovertidos, os mais preocupados, os mais tímidos, os mais baixos, os mais altos, os mais magros, os mais gordos e todos, sem excepção, com a marca indelével do amor que lhes tenho. Do amor que lhes temos. Enquanto os percorria, um a um, na minha mente, demorava-me um pouco em cada um e atirava-lhe um sorriso como que a dizer “conheço-te bem!”. Decidi, por razões que agora não vêm ao caso, parar junto de um tio nosso e conversar com ele. Sabes, há pessoas que nascem simpáticas, vivem simpáticas, e não sabem estar de outra maneira senão simpaticamente. Há mesmo pessoas em quem a simpatia não provem da educação. É um factor endógeno, determinante, não determinado e qualquer que fosse a educação que alguma vez tivessem recebido a simpatia precedê-los-ia, sempre! Nasceram assim como quem nasce com um sinal no braço, como quem nasce com esta ou aquela cor de olhos, como quem nasce com o dedo mindinho do pé esquerdo sem unha. Não é um defeito nem um feito, é uma forma de estar enraizada desde antes do ser. Eu acho que o nosso pai nasceu assim mas hoje não é sobre ele que reflicto, não é sobre ele que te escrevo.
Não quis Deus que este nosso tio viesse grande nos tamanhos físicos, mas quis que trouxesse consigo um coração que quase lhe não cabe no peito. É uma pessoa a aproximar-se e ele a dizer de braços abertos e olhos brilhantes “então, rapaz?!”. E aquela expressão vem sempre marcada de uma comunhão inexcedível, de um querer saber para fazer bem, de um sentir grande do tamanho do mundo como se dele fossemos filhos também. Tem pela vida um respeito extremo mas não a teme. Encara-a sempre com aquela disposição natural de quem quer seguir em frente, de quem sabe que se não pode parar, de quem quer tirar dela o melhor que ela tiver para dar.

Nos dias que vivemos, de tão soturnos e cinzentos contornos, e em que os seres humanos parecem estar a enveredar pelas opções complexas e complicadas da vida, venho admirar contigo a simplicidade com que o tio Toneca a doma. É quase como quem a orienta, amparando-a, mas a não agarra à força na ânsia de a dominar e controlar e, no entanto, controla-a. É um saber invejável este. É o saber viver deixando viver, é o saber respeitar ganhando assim o direito ao respeito. Quase parece simples, quase parece fácil. E depois, surpreende-me, por entre as dificuldades e as partidas que o destino lhe tinha reservadas, a alegria, o peito feito para mais uma história, para mais um sorriso. A simpatia. Parece-me mesmo que se um dia o tio Toneca quisesse ser antipático ou indelicado não o conseguiria. Há nele uma força que lhe sobrevém a todas as outras e essa impele-o a uma delicadeza, a um gesto cortês, a uma atitude conciliadora, a optar pelas coisas simples e bonitas do quotidiano. No outro dia, estivemos com ele e, terminada a visita, fiquei orgulhoso por ter um tio assim. Pensei nas semelhanças com o pai. Não nas mais evidentes, claro, essas saltam à vista: as mãos, a careca, a face… mas nas outras. Na força que se impõe pela serenidade, no coração grande de querer ver todos bem, no procurar uma solução que a todos agrade. E fico-me a pensar se não será ele o que temos de vivo e pulsante mais próximo do que seria o pai? Por vezes ainda me lembro das brincadeiras que tinham juntos. Tudo se resumia a jogos de palavras que resultavam de um passeio, de um piquenique, de um dia de farnel às costas, pinheiros verdes, dedos entalados nas portas e outras histórias que ficavam para contar. Tudo prometia um sorriso, tudo evocava um pensamento malandreco e divertiam-se assim, os irmãos, a brincar com as palavras. Fosse porque uma certa terra se chamava Mesão Frio, fosse porque num certo cruzamento e perante um sinal de STOP a tia Hilda advertira “Oh Toneca, viste o topázio?”.

Tiravam da vida tudo o que ela permitia e não pediam mais estes sábios de saber viver com o que se tem, sem pensar no que se não tem, sem saber nem querer saber como seria se se tivesse mais… só viver-se assim, simples, fácil e descomprometidamente com o que os rodeia, com os braços abertos, os olhos brilhantes e com simpatia… uma desconcertante e acolhedora simpatia: “então, rapaz?!”

Beijo
Mano


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A Espera

[Christian Science Monitor, em prefácio ao novo livro de Todd Oppenheimer, ‘The Flickering Mind- The False Promise of Technology in the Classroom’, reflectindo sobre o impacto da tecnologia dos computadores nas escolas norte-americanas, afirma que “putting computers in classrooms has been almost entirely wasteful, and the rush to keep schools up-to-date with the latest technology has been largely pointless”. Os novos programas de Português para o Ensino Secundário continuam a ser alvo de contestação: desta vez é a referência ao programa televisivo “Big Brother” num manual. A Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) considerou uma prática ilícita “a intercepção de conversas telefónicas por iniciativa de jornalistas, seja em que circunstâncias for”.

[Data da primeira publicação: 31 de Outubro de 2003]

A Espera

Olá mana,

Aproxima-se o dia 1 de Novembro, dia de todos os santos, dia que me acorda na memória rituais populares de recorte religioso e pagão. Pelo que me lembro, o frio mostrava-se forte mas quase sempre a chuva se encolhia e os dias abriam-se luminosos aos nossos desejos de uma jornada diferente. Pela manhãzinha, bem cedo, levantava-se a mãe e preparava o farnel da diversão. Pratos, talheres, copos, guardanapos, uma toalha estampada de frutos e algumas coisas menos comuns como um frasquinho com um pouco de detergente e uma cafeteira de café, um saquinho com um punhado de sal e duas folhas de louro. Juntava os embrulhos e os sacos e colocava-os ao cimo das escadas. Pouco depois juntava-se-lhe a Mimi e os gestos de preparação multiplicavam-se por dois. Por fim, eu, tu e o pai acordávamos para o dia com os corações à espera de coisas diferentes, de risos mais abertos, de momentos que sabíamos iam acontecer mas surgiam sempre renovados. São assim os rituais. Oferecem-nos a certeza das coisas que se repetem sem surpresas e a surpresa de se repetirem sempre diferentes. Todos no carro, lá íamos pelas curvas da conversa, pelo timbre entusiasmado das vozes a caminho de um dia diferente. Olhávamos o rio, as árvores e tudo transpirava harmonia. Comentávamos as mesmas filas de trânsito, discutíamos sempre onde teríamos assentado arraiais no ano anterior e acabávamos por ficar no mesmo local ainda que alguns de nós afirmassem que não havia sido bem ali. Chegados à Feira de Santa Quitéria iniciava-se o jogo de visita aos vendedores. O melhor pão aqui, a melhor carne ali, as morcelas, o chouriço e, claro, umas quantas castanhas para assar. Parávamos com frequência para cumprimentar outras famílias que, assim, fora da azáfama do quotidiano, pareciam mais felizes e bonitas.
Iniciava-se, depois, um ritual interessante. Era o acender do lume, o temperar das carnes, o retalhar das castanhas e outros pequenos gestos que acompanhavam a felicidade de estarmos a preparar uma refeição ao ar livre. O pai fumava um cigarro de contemplação, a Mimi desvendava os segredos de uma culinária empírica e, sem dúvida, extraordinária e a mãe garantia o sucesso da operação com a sua eficiência e a sua capacidade de trabalho mesmo quando já todos estávamos cansados. Nós corríamos monte acima e monte abaixo em aventuras de imaginosos contornos ou, se o frio apertasse muito, embrulhávamo-nos numa manta e ficávamos a ver como era bom estar quentinho com o frio à nossa volta. As conversas impunham-se, depois, com o cheirinho do café a dominar os ares e repetiam-se nos temas e nos assuntos. Os olhos de todos nós brilhavam mais, as vozes eram mais tranquilas e o coração dos homens abria-se mais para dar do que para receber.

E, nisto tudo, onde fica a espera? Porque venho falar-te de uma espera e ainda nada disse sobre ela? Por tradição e até por questões semânticas, a espera movimenta-se nos anéis da paciência e esperar é, de alguma forma, ter paciência, quiçá, capacidade de sofrer. Esperar é dar duas vezes. É dar a presença e dar o tempo de aguardar outra presença, uma que nos complete. Muitos dizem que não gostam de esperar nem de fazer esperar. Pobres! Duplamente pobres! Se não gostam de esperar é porque nada há que valha a pena a sua dádiva pessoal da paciência, do aguardar pelos que nos completam. Se não gostam de fazer esperar é porque não acreditam que possa haver quem queira sentir a sua falta por momentos para, pouco depois, a sentirem completada com a presença. Por vezes, penso mesmo que, se não houvesse espera, a presença não faria o mesmo sentido… tornava-se um petisco insosso, um dia sem sol, uma noite sem lua. E por que esperávamos nós nesses dias de todos os santos que foram levados na enxurrada do tempo e de que resta agora só o escolho da memória? Se bem te lembras, assim que saíamos de casa, o pai passava pelo cemitério. A Mimi comprava umas flores, entrava no recinto e nós esperávamos. Sentados, em silêncio, sem muito o que dizer uns aos outros, sentíamos um pequeno adiar das alegrias que estavam para seguir-se mas esperávamos sempre. Nunca contrariávamos aquele ritual de espera e de respeito. Era como se o silêncio dos silenciados falasse mais alto. Era como se se impusesse um respeito secular que não sabíamos bem de onde vinha mas que nos não atrevíamos, sequer, a questionar. É interessante pensar que passamos uma vida a tentar que nos oiçam, a tentar encontrar um lugar para estarmos e a tentar encontrar alguém que espere por nós, sempre! E é curiosamente quando superamos a fronteira fina e frágil da morte que o silêncio dos outros permite que fale a voz do que fomos, que conquistamos todos os espaços que ansiávamos e, mais do que isso, é quando partimos para não voltar que os outros encontram tempo para esperar! “Mísera sorte, estranha condição”.

No próximo dia um de Novembro estaremos juntos e subiremos, de novo, Santa Quitéria e eu venho propor-te que esperemos um pouco por duas das personagens que ocuparam estas linhas e que já tiveram a coragem de atravessar a fronteira. Um porque sabia fazer-se esperar no ofício de respeitar os que partiram. O outro porque esperava com a paciência e o respeito de quem abre o coração ao mundo para dar de si o que melhor de si encontrar!

Beijo
Mano.