Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de África – Questões Culturais

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Crónicas de África – Questões Culturais

Maputo, 1 de fevereiro de 2015

À medida que o tempo passa, as interações em Moçambique, com os diversos e extraordinários agentes das muitas culturas que aqui coabitam vão-se sedimentando e a novidade desvanece-se. Talvez por isso, menos crónicas vêm ver a luz dos vossos olhos.

Ainda assim, reúnem-se diversos aspetos e pormenores e, de quando vez, amanha-se uma Crónica de África.

Ébola.
Estivemos em Portugal pelo Natal. Por um voo Maputo – Lisboa – Maputo, a TAP, de que tanto se fala agora, pediu-me em setembro, quatro mil euros por pessoa. No mesmo dia, comprei dois bilhetes de avião, na South African Airways, Joanesburgo – Lisboa – Joanesburgo, por oitocentos euros cada. Eu quero que a TAP seja portuguesa. Mas a TAP não parece querer que eu utilize os seus serviços. Quando regressámos, em Lisboa estavam zero graus, em Joanesburgo trinta e dois. Com a preocupação de trazer as malas de mão e ver qual o tapete onde estariam as outras, esqueci-me de despir o casaco e comecei a suar. Estava à espera que me carimbassem o passaporte, quando reparei que uma câmara olhava para mim com ar suspeito. Uma luz vermelha acendeu. O funcionário do aeroporto veio ter comigo e perguntou, O senhor sente-se bem? Sinto-me muito bem. Mas o senhor está doente. Não estou não. Está, está, o senhor está todo suado. Sim, tenho calor. O senhor é suspeito de estar infetado com o ébola, a minha colega vai acompanhá-lo à enfermaria. Não me deram a escolher. Ou vais, ou vais. Uma vez lá chegado, apontaram-me uma pistola semelhante àquelas que as meninas dos supermercados usam para ver o preço dos produtos. Fizeram pontaria aos olhos. E a senhora redonda e simpática exclamou: Vejam só, ele só tem trinta e cinco! O senhor sente-se bem? Muito bem, estou suado é só isso, o calor pode fazer-nos suar. Quem diria, não tem febre! Respondeu ela, e simpaticamente despediu-me dali e a mesma alma que me havia levado à enfermaria, levou-me até às passadeiras onde as minhas malas já estavam tontas de tanta montanha russa!

Donde vens?
Raramente falo do meu ambiente de trabalho. É uma questão de separar águas. Por vezes, deixo um apontamento ou outro que possa ter algum interesse mas não revele nada do funcionamento da instituição. Assim continuará a ser. Este apontamento é sobre a multiculturalidade, as vivências tão diferentes que se experienciam por aqui, a enorme diferença nos referentes do quotidiano. Deslocava-me pelos corredores para ir a uma sala de aula quando me cruzei com ele. Não tinha mais de oito anitos, era do terceiro ano. Ora, estranhei vê-lo por ali sozinho e por isso fiz as perguntas que fiz, sabe-se lá o que pode andar a fazer um cachopo divagante pelos corredores de uma escola!
– Olá, onde vais?
– À casa de banho, setôr.
– E donde vens?
– De Portugal!
Toma e embrulha e para a próxima não faças perguntas desnecessárias.

Outros Parâmetros
Para nós, europeus, mestres da consciência cívica, reciclar consiste em dar nova vida a materiais que entretanto deixaram de ter préstimo. O conceito não tem nada de errado. Pelo contrário. É fundamental. Não posso deixar de notar, contudo, que, para os sul-africanos, o conceito é um tanto diferente porque não se aplica depois das coisas deixarem de ter préstimo, mas enquanto ainda o têm. Eles são mestres em prolongar a vida das coisas, sempre que algo tem ou possa ter arranjo, eles consertam não substituem. Isto aplica-se a eletrodomésticos, a automóveis e a todo e qualquer equipamento. Ainda me lembro, quando fiz a primeira manutenção ao meu carro, tinha os discos dos travões todos ferrugentos. Em Portugal colocavam-me uns novos, e pronto. Na RSA deram-me a escolher entre colocar uns novos ou reabilitar aqueles sendo que a reabilitação me custava um décimo do preço. Já lá vão quase três anos e os discos lá andam a travar. Mas não é só neste aspeto que os parâmetros são diferentes. Quando fui para Portugal, a caminho de Joanesburgo parei numa oficina para fazer uma manutenção. Correu tudo bem exceto o facto do empregado se ter esquecido de apertar as porcas das rodas. Ao cabo de dez quilómetros tinha danificado irremediavelmente o braço da direção do lado esquerdo. Telefonei ao dono da oficina a contar o sucedido. Ele disse-me para ir devagarinho até Joburg e passar pela oficina quando regressasse de Portugal. Assim fiz. No regresso, ele reparou o carro, colocou uma peça nova e, no fim, pediu-me desculpa pelo sucedido e assumiu toda a despesa da intervenção para ele. Sem discussões. Sem pressões… Só assim… pelos valores…

Assalto
Enquanto estive em Portugal, assaltaram-me a casa. A minha empregada identificou o ladrão. Fora o próprio guarda da casa. Contingências! O meu vizinho chamou a Polícia que fotografou o local. A Polícia solicitou que, quando eu chegasse, lá fosse levar um relatório completo do que faltava e apresentar queixa. Foi o que fiz. E quando lá cheguei, o Oficial de Dia chamou o detetive e perguntou:
– Sabes de algum assalto na rua tal?
– Sei, foi no dia dia tal, às tantas horas.
E ainda não tinha acabado de falar deitou a mão à camisa onde trazia uns óculos pendurados, estendeu-mos e disse:
– Tome, isto deve ser seu.
E era. Eram uns óculos graduados da minha mulher que o ladrão deixou cair na fuga. O detetive trouxe-os ao peito durante três semanas à espera que eu os fosse reclamar. E quando lhe agradeci, ele respondeu: Assim, pelo menos, já não perde tudo!
O guarda foi substituído por um guarda de uma empresa de segurança e quando cheguei à escola, os alunos quiseram saber porque tinha faltado o setôr que nunca falta. Contei a história sem referir quem tinha sido o assaltante. Quando terminei, três ou quatro disseram, com toda a naturalidade num coro de espanto por eu não ter percebido, à partida, o que iria passar-se: Foi o guarda!

Pré-pago e Contratos
Aqui é tudo pré-pago. O crédito do telefone, a Internet, o serviço de televisão e até a luz. Aqui não se diz luz, diz-se energia. É possível comprar energia numa mercearia, numa loja da EDM ou no multibanco. Escolhe-se o valor, dão-nos um recibo com um código que se insere no contador da luz que converte o valor em watts de consumo. Por um lado, não há aquela preocupação das faturas, por outro lado, cada utente compra à medida do seu bolso e só consome o que paga. Os contratos dos serviços de Internet e televisão são muito mais maleáveis e confortáveis do que em Portugal. Já telefonei para empresas portuguesas a perguntar porque é que não funcionam desta forma e ninguém me sabe responder. Eu explico. Quando se contrata um serviço de TV, por exemplo, se, por alguma razão, se falhar o prazo de pagamento, não há cá cartas de aviso, nem multas, nem comissões de reativação. Pura e simplesmente o fornecimento é cortado e, no dia em que se fizer novo pagamento, o fornecimento é retomado. Simples, não? Mas há mais. O teor do contrato muda automaticamente de acordo com o valor depositado, não é preciso contactar uma menina que remete para outra menina que remete para uma senhora que remete para um técnico que manda outro técnico a casa. Nada disso. Se pagamos mil meticais, temos 44 canais. Se, no mês seguinte, pagamos dois mil meticais temos 88 canais, se pagamos quinhentos, temos 20 canais, e assim sucessivamente. Os pacotes estão pré-definidos e ligados a um valor, o simples pagamento desse valor ativa um determinado pacote. Genial, não?

Ainda falta falar do F. Mas acho que fica para a próxima.
Todos os dias nos cruzamos com diferenças culturais muito acentuadas que, com o tempo, vamos interiorizando no nosso quotidiano e na nossa mente. Deixámos de estranhar, mas, por vezes, paramos para pensar e percebemos que vivemos noutro universo. Completamente diferente. Deliciosamente diferente.

jpv


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Confissão Sim, Sim…

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Aos leitores de MPMI.

Caros amigos, tenho andado nesta preguiça de escrever porque me enredam as coisas pequenas da vida. E essas, têm poderes maléficos. Os de nos distraírem do fundamental. Este Blogue tem tido umas crónicas, umas erupções poéticas, umas parvoíces… tudo espaçado de dias longos. Os meus leitores e os meus amigos e, garanto-vos, há grande confusão entre esses dois grupos, merecem melhor. E merecem mais.

Sim, sim, as viagens transcontinentais, vida cá, vida lá. Sim, sim, as responsabilidades no trabalho e o volume que ele assume. Sim, sim, a revisão do recentemente terminado romance para que possa publicar-se em breve. Sim, sim, a mudança de casa e mai-los episódios tipicamente africanos que a seu tempo contarei… Sim, sim… tudo isso são justificações válidas, mas são, também, no dizer antigo da minha querida e falecida avó Ana, desculpas de mau pagador.

Hei de dar-vos um conto da série “O Ofício da Memória”.  Hei de trazer-vos novidades acerca do próximo romance. Há de escrever-se um conto da série “Histórias a Preto e Branco”. E hão de ver a luz dos vossos olhos algumas dessas crónicas africanas.

Sim, confesso. A produção escrita anda devagarinho e desleixada. Talvez esteja descansando. Talvez… Mas ando incomodado com esta letargia que ataca de forma severa a minha caneta. Sim, a caneta. Eu escrevo primeiro à mão, depois passo para o processador de texto e finalmente tudo vem morar aqui… Sim, sim…

jpv


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Tenho Palavras

Tenho palavras
À janela da tentação.
Tenho palavras
Bailando na mão.
Tenho Palavras,
Mas não tenho tempo para elas.
Tenho palavras
Que morrem antes de escrevê-las.
Uma viúva de negro
Sulcada de rugas
E desesperada.
Um homem amordaçado
Em princípios e valores
E outro que rouba sem consciência
Nem pudores.
E há um cavaleiro que vem salvar uma donzela.
Emerge da noite
Em luminosa e moderna tela.
E vejo um homem que mendiga
Repudiado
E um outro vivendo incólume
Num conforto roubado.

Tenho palavras
Que não posso dizer.
Tenho histórias
Que não posso contar.
As palavras hão de morrer
E as histórias terão de acabar.

jpv


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Crónicas de Maledicência – E Agora, Europa?

greciaCrónicas de Maledicência – E Agora, Europa?

Lá, onde se inventou a democracia, lá, onde ela parecia estar moribunda e desnorteada, lá, esse povo parece querer tomar conta desse poder e reinventar, com novas linhas, essa mesma democracia. E agora, Europa?

O mundo estava já acomodado à alternância no poder de duas grandes forças. Os nomes variavam, a dança repetia-se. Os gregos rasgaram o livro de instruções e, parece, estão a trilhar novos caminhos. Imprevisíveis. Inusitados. E agora, Europa?

Esse mesmo mundo que se espantou, e ainda anda à procura de saber como se pronuncia “SYRIZA” E Tsipras, discute agora se haverá Euro ou não, se haverá Europa ou não, se haverá Troika ou não, se haverá austeridade ou não, se haverá radicalismo ou não. E agora, Europa?

Os gregos não parecem muito preocupados com todas estas questões. Na verdade, parecem mais preocupados com a sua soberania, com a sua dignidade e com aquilo que eles próprios querem para eles próprios. E isto, este simples exercício de autonomia e autodeterminação, parece estar a incomodar muita gente por esse mundo fora, a mobilizar muita gente por esse mundo fora. E é isto que merece a nossa reflexão. Se tudo isto está tão errado, tão fora das regras, porque aderem as pessoas com tanta esperança à ideia de mudança que as eleições gregas trouxeram consigo?

É verdade que há regras internacionais de funcionamento, é verdade que as regras e os acordos são para respeitar, mas é verdade, também, que foi com essas regras que os bancos e os banqueiros faliram as nações e os povos tiveram de sacrificar-se para pagar esses despautérios ao mesmo tempo que se convenciam as pessoas que a culpa era delas e de viverem acima das suas possibilidades. Dentro desta equação, o que se passou ontem e hoje na Grécia tanto pode ser visto como um desrespeito às regras de funcionamento da Europa, como a salvação e o resgate dessa mesma Europa.

Importará perceber qual a dimensão da determinação do novo Governo grego, qual a profundidade do seu ímpeto reformista e, sobretudo, que ideias tem para alicerçar uma nova ordem. Sendo que, para nós, algo se afigura como óbvio: é mesmo necessária uma nova ordem. Terá custos, naturalmente. Mas ainda não estamos nesse plano. É que os sistemas estatuídos têm tendência a segurar-se e a agarrar-se à sua própria existência. Ainda não aconteceu nada. Isto, ainda é só o começo. Importa ver como o resto da Europa vai reagir à nação que a (re)inventou.

E agora, Europa?

Tenho dito.
jpv


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Olhó Peixe Fresquinho! Em Maputo!

my-sea-peixariaQuando se fala de Moçambique, há três fatores que emergem de imediato na conversa. A simpatia das gentes, as praias magníficas e o peixe fresco.

Quando se cá vive, apercebemo-nos de que as gentes são, de facto, calorosas, de que há praias magníficas pelo país fora, sobretudo a Norte de Maputo, muito a Norte, e de que não é assim tão fácil encontrar o tal peixe fresquinho e fabuloso porque a oferta é muita, diversificada e nem toda de qualidade.

O Leandro Santos e a Mara Herequechand, algarvios, ela nascida em Moçambique, chegaram há um ano à Capital moçambicana e trouxeram-lhe o que tanta falta fazia: uma peixaria gourmet, com atendimento simpático e personalizado e peixe de qualidade suprema. Na Peixaria My Sea, até pode escolher o peixe de olhos fechados. Acerta sempre!

E depois há aquela bancada tão típica e sempre tão deliciosamente preenchida.

A Peixaria My Sea fica na avenida 24 de Julho, junto ao Ministério da Educação, do outro lado da avenida, e aguarda uma visita sua. Não vai arrepender-se!

Entretanto, contou-me um passarinho que, em breve, a My Sea vai ter… sushi! Isso mesmo, o cliente escolhe o peixinho e o sushi é preparado ali à sua frente. Depois leva para casa e delicia-se!

MPMI faz esta publicidade voluntária e gratuita porque o empreendimento de qualidade de jovens portugueses no estrangeiro merece sempre o nosso reconhecimento.

Até breve!

jpv

 


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Vermelho Direto – O Ouro da Bola

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Capa do jornal A Bola de 13 de janeiro de 2015 (o destaque é nosso).

Vermelho Direto – O Ouro da Bola

Esta crónica não é sobre futebol. Não é sobre a bola de ouro. É sobre o ouro da bola.

Se fosse sobre futebol, seria uma qualquer análise acerca do atual momento futebolístico, mas isso arruma-se em três penachadas. Penachada Primeira: toda a gente merecia ir em primeiro, mas quem vai é o SLB. Ou seja, mais do mesmo. No campo, que é bom, perdem pontos. Nos jornais e nas redes sociais são os campeões da conversa da treta. Penachada Segunda: A taça, ou vai para o SCP ou para o SCB. Ou seja, este ano o troféu será entregue a um daqueles clubes que, briosamente, costuma ser o primeiro ou o segundo dos últimos. Penachada Terceira: A taça da liga é uma incógnita e a Europa não vai dar em nada. Antes desse.

Se fosse sobre a bola de ouro, seria um corropio de elogios ao CR7, que muito admiro na sua profissão. Leva tudo a sério, prepara-se como ninguém, é ambicioso, mas mantém a humildade dos nobres. Eu penso que não se deve cair na tentação de comparar o CR7 com Messi. São universos diferentes, matérias diferentes. CR7 é todo profissionalismo. Messi é mais circo e vedetismo.

A crónica de hoje é sobre o ouro da bola. Essa filigrana de valores tantas vezes esquecida. Por baixo da merecidíssima primeira página que o jornal A Bola dedicou à conquista de CR7, surge, em letras pequeninas, uma notícia sem importância quase nenhuma para quase toda a gente, mas que mudará a vida de milhares de crianças. A Fundação Benfica vai construir em Cabo Verde, terra recentemente assolada pela catástrofe natural, uma escola com capacidade para 600 crianças! Há os que dizem que ganham tudo, há os que dizem que mereciam ter ganho tudo, há os que dizem que têm as melhores equipas, há os que dizem que formam os melhores jogadores, e depois há o Benfica. No meio de todas as competições, atingido, como todos, pelas condições financeiras débeis da conjuntura mundial, o SLB consegue olhar para o lado e desempenhar um trabalho humanitário, solidário, em prol do futuro dos jovens a quem o futuro parece não sorrir, e dedicar-se a uma causa tão nobre que, essa sim, merecia primeira página. Mas não teve. E nós, benfiquistas, não nos incomodamos nada com isso. A história do SLB não é feita só de primeiras páginas. É feita da nobreza das páginas todas. Obrigado Benfica!

jpv


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Saudação

A vida não nos dá tudo o que desejamos. Há que aceitar essa contingência da condição humana. Bem vistas as coisas, essa até deve ser uma situação desejável. Assim, mantém-se acesa a chama do desejo, motor precioso de vida.

Viemos por pouco tempo. Estivemos com alguns familiares e amigos. Poucos.

A todos os amigos e familiares que não foi possível dar um abraço aqui fica uma palavra de amizade e afeto. Não é possível estar com todos mas todos estão nos nossos corações e nas nossas preces.

Até breve.

jpv


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A Idade do Reumático

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 A minha avó, que era uma santa, tinha uma dor num braço e quando eu lhe perguntava porque é que lhe doía, ela dizia, entre o desespero e a conformação, que não havia nada a fazer, É o reumático, filho.

Amanhã iniciamos de novo a viagem de cruzar meio mundo, mudar de continente, saltar de hemisfério. E é precisa coragem e energia. Juventude! E, contudo, olha para nós. Estamos sentados na cama ainda a noite mal entrou. Tu lês uma revista com óculos de ver ao perto, queixas-te dos dentes e tomas dois ou três comprimidos antes de ires dormir. Eu esfrego pomada Voltaren no joelho que me dói sempre por causa do mesmo reumático da minha avó, coloco uma meia elástica e antes de ir dormir tomo dois ou três comprimidos. São diferentes dos teus, mas querem dizer a mesma coisa. O tempo. Estamos sós aos quase cinquenta. Lado a lado, dois companheiros do passado e para o futuro. Dois companheiros do reumático e dos óculos e das dores que surgem só porque sim. Tu tens brancas que pintas. Não precisavas. Ficas bem com as tuas brancas. E eu não tenho brancas porque me falta um requisito fundamental: o cabelo.

E aqui sentados lado a lado sob as mantas e as maleitas, nem parece que amanhã vamos cruzar meio mundo, conquistar novos horizontes, demandar outros futuros. A idade do reumático não é o fim. É só mais uma etapa deste caminho a dois.

jpv


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Feliz Ano Novo

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MPMI deseja a todos os amigos, leitores e familiares um fantástico ano de 2015!


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Gritos – O Silêncio

2014-12-28 23.54.13

O silêncio não é de ouro.

É uma mordaça.

E o que guarda o verdadeiro tesouro

São as palavras na boca da moça que passa.

Não te cales, grita!

Não cedas, ocupa!

Ergue a voz e o braço,

Dá um passo e luta!

Não cales, nunca, a palavra.

Não recolhas, nunca, o ato.

O texto é um arado que lavra.

Não dês espaço à ignorância,

Zurze e castiga os néscios.

Confina-os ao redil

Da sua própria imbecilidade.

Pisa e esmaga

A palavra assim proferida.

Ganha terreno ao silêncio

E, pelo verbo,

Conquista a vida.

jpv/dezembro 2014