Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


2 comentários

O Ofício da Memória – 3

oficio-da-memoria-3-logoO Ofício da Memória – 3 O Livro

Há uma altura das nossas vidas em que tudo parece estar relacionado com a escola. Quase como se ela fosse a fonte de toda a vida, o mar onde todos os rios de afetos vão desaguar. Esta história nasce na escola, vive na escola e adormece com a escola.

Era um miúdo bem disposto. Um tanto inconsciente. A inconsciência própria da idade. E queria poucas coisas naquela altura. Salvar o mundo, amar todas as mulheres e ser poeta. A descoberta das palavras e do poder delas traziam-no encantado. Deixou-se entusiasmar, até porque era de entusiasmos fáceis, com as palavras que a professora escolhera para apresentar aquele livro. Um livro sobre a Liberdade. E lá foi à procura do livro, carteira de cabedal no bolso com o B.I., uma nota de vinte escudos, um bilhete de elétrico e o cartão de leitor da Biblioteca Municipal. Como sempre fazia, passou as mãos no imenso balcão de madeira maciça a sentir-lhe o toque e o odor a lenha e a livros. Estendeu o cartão de leitor e o papelinho da requisição onde já ia escrita a quota do livro para que pudesse ser encontrado com facilidade. Muito requisitado devia ser o livro porque a senhora demorou poucos segundos a trazê-lo. Era pequeno, pintado de negro como a vida das pessoas nele, uma estrela de David em rosa forte a ocupar o centro da capa, o título e o autor. “O Judeu”. Bernardo Santareno.

Ainda bem que leu o livro todo. Se não o fizesse, esta história não teria acontecido. Gostava de ler na sala da biblioteca. Fazia-o sentir-se importante, como se tivesse acesso a um clube restrito de privilegiados, e gostava da sensação de ler um livro rodeado de livros antigos, amarelecidos pelo tempo e desgastados pelo uso. Até que foi surpreendido. Ia algures pelo meio do livro, e sempre há aquelas páginas que ficam em branco porque acabou um capítulo ou, neste caso, uma cena, um ato, e nessa página em branco alguém tinha escrito um poema. Ocupava toda a página. Estava escrito à mão, com uma caligrafia ímpar, ornada de voltas retorcidas a começar e a acabar as letras e, sendo complexa, havia nessa complexidade certa harmonia. Era belíssima.

Preocupou-se. Era um texto muito bem construído, mas perturbante. Falava do aprisionamento da alma, de lobos e unhas sangrentas e anunciava um fim. Um suicídio. Será que acontecera? Teria aquela alma perturbada entregado o livro à mesma senhora que lho dera a ele e partido a cumprir o destino que escrevera? Custou-lhe separar-se daquele texto. Não conseguiu. Decidiu fazer uma requisição domiciliária e saiu da biblioteca com “O Judeu” debaixo do braço. Versão aumentada com um poema que obliterara a luta e o destino do António José da Silva.

Trabalho de Grupo

Desde que me conheço, sei, por experiência, que tudo, ou quase tudo, seja bom ou mau, é culpa dos professores. Enfim, substitua-se culpa por responsabilidade e a versão fica mais intrigante e… polida. A professora queria um trabalho de grupo sobre “O Judeu” de Bernardo Santareno e teve a impertinência de pré-selecionar os grupos de trabalho. Como sempre, o moço de que aqui se fala estava entusiasmado e queria saber quem lhe calharia em sortes. Eram grupos de três ou quatro que começavam a dispor-se na sala com o burburinho animado de quem se prepara para trabalhar em conjunto. Foi isto no tempo em que uma aula com trabalho de grupo era diferente. Para seu espanto, a professora distribuiu-os todos até que restaram só eles. Mais ninguém. Só os dois. Ele nem tinha bem a certeza de que dois poderia ser um grupo. Um ajuntamento não era, por certo, desde que Salazar definira que para haver um eram precisas três ou mais pessoas. Era uma moça discreta. Participava pouco. Preferia o silêncio das palavras. Parecia ter uma maturidade superior à generalidade dos colegas. O cabelo farto a emoldurar a face oblonga donde emergiam uns olhos redondos e enormes, marejados de curiosidade e, descobriria mais tarde, atrevimento. Um semblante triste de onde despontava de quando em vez a luz de um sorriso. Não reparou de imediato noutros atributos. Seria ela a acordá-lo para eles. Chamava-se C. Começaram por reler o livro, pelo menos, as partes mais importantes. Ele trazia consigo há vários dias o exemplar da biblioteca e o seu misterioso poema de sangue e morte anunciada. Ela tinha fotocópias. Depois, discutiram as ideias. A rapariga inteligente e sensível por trás da máscara da colega tímida e contida começou a revelar-se. Era contundente nas palavras e agarrava-se às suas opiniões como se as não quisesse largar. E debateram um debate aceso e entusiasmado, discordante e concordante, e acertaram no caminho a dar ao trabalho. Quando decidiram escrever, ela puxou de uma caneta, começou a tomar notas e ele fez o que  nunca fizera antes na sua vida de estudante. Pediu para ir à casa de banho.

Revelações

Enquanto lavava a cara com água fria, vários pensamentos lhe cruzavam e baralhavam a mente. Seria impressão sua ou, efetivamente, a caligrafia da C era a do poema com lobos e desespero nas páginas intermédias de “O Judeu”? Se fosse, o que fazer com essa informação? Como agir? Dizer-lhe? Não lhe dizer? E, por fim, o que mais o perturbava era o significado daquela imensa coincidência. Tantas escolas na cidade, tantos livros na bilbioteca e nas livrarias, tantas turmas naquela escola, tantos alunos naquela turma… tinham de ser dois leitores da mesma biblioteca a quem calhou o mesmo exemplar, que andavam na mesma escola, ficaram na mesma turma e foram unidos pela professora num inusitado grupo de dois! Dois e um livro. Dois e um poema. Talvez, afinal de contas, fossem um ajuntamento.

-Essa letra é tua, certo? – Hã?! Sim, é. – Fazes sempre a mesma letra? – Sim faço. Avançamos nisto? – Claro. Mas preciso mostrar-te uma coisa. Foste tu que escreveste isto? – Fui. Estava num dia mau. – Isto é muito bom. Escreves muito bem. – Achas? – Tenho a certeza. – Eu não acho. – É triste… – Pois… – Pensaste mesmo… – Estou sempre a pensar. Não é que o vá fazer, mas penso nisso. A escrita é um desabafo.

O trabalho fez-se. Apresentou-se, entregou-se, não me lembro da nota que tivemos nele. Lembro-me do olhar dela, sorrindo na minha direção enquanto eu o apresentava. E lembro-me de que a professora também sorria. Lembro-me que continuámos a conversar e a debater ideias. Lembro-me de que gastávamos todo o tempo livre nisso. E lembro-me, neste delicioso ofício da memória, de que não acordei para ela de outra forma. Foi ela que fez a gentileza de despertar-me. À bruta! Talvez por eu ter o sono pesado.

O A e a R andavam a acercar-se um do outro. Devagarinho. E convidaram-me para um baile temático numa paróquia da cidade. Perdoai-nos, Senhor, se for pecado, o que estamos prestes a fazer esta noite. Eu fui. E quando lá cheguei, encontrei a C, sentada a um canto, mais entediada que as coisas entediadas. Soube depois que ela estava ali para fazer o jeito à avó. Assim que pude, despachei o A e a R, ou foram eles que me despacharam a mim, já não sei, e fui ter com ela. Pedi-lhe para dançar. Era o que se fazia naquele tempo, mas em abono da verdade, nenhum de nós fazia muita justiça ao verbo. Estávamos às voltas na pista, agarrados um ao outro, mais conversando do que dançando, quando ela perguntou sem mais avisos nem rodeios:

– JP, tu és potente?

O moço ficou ali parado, quase engasgado, engolindo em seco e pensando se a pergunta teria alguma coisa a ver com carros. Era óbvio que não tinha. Naquele caso, o motor era outro. E sentiu-se dividido entre a obrigatoriedade máscula de dizer que sim e a honestidade de não saber a resposta para aquela pergunta. Sabia lá se era potente! Sabia lá o que era ser potente! Nunca ninguém se queixara, mas não sabia, sequer, que isso se media ou que a questão podia colocar-se assim. E também não sabia se nunca ninguém se queixara por satisfação ou pudor crítico. E, isto lembro com precisão, a resposta saiu-lhe o mais honesta possível sem que, contudo, criasse barreiras ao que parecia anunciar-se.

– Quer dizer, não sou nenhum super-homem, mas cumpro a minha parte. – Está bem, mas quantas?

Ele refugiara-se numa formulação genérica, à laia de um descritor impreciso de boas práticas, mas ela avançava pelos objetivos específicos dentro com a mania da mensurabilidade. Não ficou sem resposta.

– Sei lá, duas, três… também depende da outra pessoa.

Nunca soube o que a C pensou da resposta, mas lembro com clareza o que ela disse a seguir:

– Vamos embora daqui? – Vamos.

E não fomos para longe. Os beijos apaixonados e as carícias voluptuosas começaram no jardim atrás da igreja, prolongaram-se calçada acima e vieram a fazer-se mais confortáveis no que restava de um mosteiro abandonado. Foi toda uma descoberta, todo um desvendar, toda uma volúpia e uma sedução. Não havia dúvidas, aquela pessoa desfolhava-o a uma velocidade impressionante e ensinava-o a ser melhor do que sabia. E ele fez-se generoso na entrega e na investidura e perdeu o conto às contas que planeara fazer.

– Amanhã é domingo, a minha mãe não está. Queres ir passar a tarde lá a casa?

Ele andava há muito a preparar-se para o Académica-Sporting do dia seguinte e homem que é adolescente não falta a esses compromissos. Demorou um segundo a decidir-se.

– Quero. Claro que sim.

Quando se despediram, ele voltou ao salão de baile, encontrou o A, estendeu-lhe o cartão de sócio da Briosa e disse, Toma, vai tu ver o jogo! Então, já não vais? Não, surgiu uma coisa mais interessante. O A era parecido na fisionomia consigo e tinha-lhe pedido o cartão de sócio para ir ver o jogo sem pagar. Ficou com um sorriso nos lábios. Não sei o resultado. Sei que disse em casa que ia ao jogo, não porque costumasse mentir, só para evitar perguntas, e quando regressei dos meus jogos com a C perguntei o resultado final a alguém na rua não fosse a pergunta ser-me atirada em casa…

Foi uma das mais memoráveis tardes da minha vida. Todo um dar, todo um receber, toda uma diversão e um despudor. Ter o tempo todo do mundo para descobrir aquele mundo todo. Aconteceram outras tardes, manhãs, noites, conforme a oportunidade se nos apresentava. Às vezes conversávamos, vasculhávamos as gavetas da mãe da C à procura de anticoncetivos, quaisquer que fossem, e usávamos tudo. E olhávamo-nos nos olhos. E ríamo-nos. Lembro-me das manhãs tórridas de terça-feira, cada segundo contava, cada loucura parecia querer estender-se para além do tempo possível. E eu ficava até ao limite dos segundos necessários para estar a horas na aula de Grego, pelas catorze. E chegava suado dela e do elétrico, atrasado, claro, e sentava-me e cheirava a prazer e a sexo e a minha mente não entrava comigo. O professor olhava-me curioso assim como quem se pergunta, Mas donde é que este saiu? E só eu sabia de onde tinha saído… e era para lá que queria regressar o quanto antes.

Nunca poderei agradecer o suficiente à C por aquele abrir de olhos, por aquela passagem do missionarismo à descoberta plena do corpo e do prazer. Um dia levei comigo um objeto dela. Era um skate. Meses mais tarde devolvi-lho. Beijámo-nos. Dissemos adeus como tínhamos dito olá. Vi a C na faculdade. Poucas vezes. Depois disso, nunca mais. E, contudo, a memória desses dias une para sempre o menino à rapariga dos olhos grandes.

A Troca

Chegou o tempo da C fazer anos. Claro que queria dar-lhe um presente bonito e com significado. Fazíamos isso, naquele tempo, construíamos os presentes, mais do que os comprávamos. Fui à Livraria 115, comprei “O Judeu” de Bernardo Santareno, escrevi uma carta à Biblioteca Municipal dizendo que pretendia trocar um livro velho por um novo e prontifiquei-me a oferecer o novo. A troca foi aceite com um obrigado e o poema voltou à sua origem, à sua criadora. Reuniu-se com a poetisa. Ela desembrulhou o livro, fez um sorriso, agradeceu-me e beijou-me nos lábios. Às vezes, tenho a sensação de ainda ver esse sorriso a esboçar-se sob o olhar redondo e grande onde uma lágrima viera espreitar. Às vezes, neste complexo e conturbado ofício da memória, já não sei bem o que aconteceu e o que fui eu que inventei, mas sei sempre que a memória da C é quente e acolhedora e repleta de gratidão e revelações.

—————————– jpv ————————-


Deixe um comentário

O Corpo do Jovem

0c66a-mortedalma

Nesse sinuoso caminho,
Trilhado com dor e sangue
Jaz morto e frio,
O corpo do jovem, exangue.
Tombou lá longe, sozinho.
Não tinha nada de seu,
De seu não tinha nada.
Só a alma envolta no breu,
E a carne, a golpes, dilacerada.
E vive exultante em meu peito,
Neste fogo de paixão que me consome.
Esse menino que morreu lá longe,
Viveu e fez-se homem.
Por cada golpe
E por cada ferida que dói,
Morre mais o menino
E cresce, em mim, o herói.

E tenho esta visão,
Este conforto de assistir
À grande revolução
Que é ver-te partir.

 jpv


6 comentários

Crónicas de África – Miúdos de Rua

18d31-cronicas-de-africa-img-2
Crónicas de África – Miúdos de Rua

Maputo, 1 de março de 2015

Em Maputo, cada miúdo de rua é uma surpresa. Surpresas de sorrir, de chorar, de sofrer, de entender, de não perceber nada. Conto hoje a história de três miúdos de rua que se cruzaram comigo.

JQ

Quando conheci o J, ele ainda era um adolescente. Tinha dezassete anos e vendia capulanas e panos com animais selvagens pintados à mão para se pendurarem numa parede ou colocarem numa mesa, numa cama. Corria ao lado dos carros quando o trânsito estava lento e dizia às pessoas que elas precisavam muito do que ele tinha para vender, até porque ele só tinha coisas boas para vender. Gostava de regatear e quando o preço chegava ao limite do que ele estava autorizado a baixar, ligava para o boss dele e ficávamos a negociar os três, sendo ele o intermediário e tradutor das conversas. Comprei-lhe diversos panos por aquela altura, em dias diferentes, e por isso nos marcámos. Não lhe esqueci a face, nem ele a minha. Estranhou, um dia, quando lhe perguntei o nome e quis saber o meu de volta. Só vim a saber que ele não o esquecera quase três anos depois, quando nos reencontrámos. Eu, ainda professor, mas muito mais africano. Ele já deixara de passar os dias deitado na areia ou a correr ao lado dos carros. Agora, era segurança. Eu entrava para um restaurante, quando senti uma mão tocar-me no ombro, virei-me e lá estava o sorriso inconfundível do J.

– Patrão João, lembra-se de mim?
– Claro! Tu és o J.
– Lembra!

Abriu mais o sorriso e deu-me um aperto de mão à moçambicano. Tinha sido pai há somente quinze dias, mas a criança falecera há três noites atrás. Mas sorriu ao ver-me porque rever uma pessoa que se lembra do nosso nome é uma coisa boa mesmo quando a alma anda triste.

– A criança caiu bem. Nasceu lá no Hospital Central e nos mandaram para casa. Estava a comer bem. Uma noite, a minha esposa levantou-se para ir na casa de banho e ele já não se mexia. Levámos para o hospital. Já não voltou.

As ruas de Maputo fazem homens de muitas maneiras. Há os que casam e vão ser pais e há os que ficam órfãos dos seus filhos e nos sorriem como se o sol tivesse acabado de nascer.

FR

Em Maputo, um trabalho não precisa estar reconhecido como profissão para ser exercido e ter uma remuneração. Quando alguém se consegue fazer útil por algum meio, tem um trabalho e faz-se pagar por isso. Quando conheci o F, ele trabalhava no mercado. Acartava os sacos de compras das pessoas. Tinha onze anos. Hoje, tem catorze e ainda faz o mesmo trabalho. Ao fim de semana. O Mercado Central de Maputo está repleto destes miúdos que esperam pelas pessoas e se oferecem para andar com os sacos das compras. Seguem os clientes do mercado aliviando-os do peso e quando as compras terminam, acompanham as pessoas ao carro e esperam por uma moeda. A maioria destes miúdos é atrevida, persistente, e a sua vida resume-se a pouco mais do que ao dia a dia no mercado. O F afeiçoou-se à senhora e ao cãozinho e pergunta sempre por eles, mesmo sabendo que é comigo, e só comigo, que trabalha. E informou desde cedo que ia à escola. Interessei-me por ele, entre outras coisas, por este pormenor de ir à escola.

– Então estás aqui todos os dias?
– Não. Só venho ao fim de semana. Durante a semana, ando na escola.
– Estás em que classe?
– Quase a acabar a sétima.

Com o tempo e as conversas enquanto ele me ajudava com os sacos, o F tornou-se em algo mais do que o miúdo que me acarta os sacos. De resto, eu gosto de acartar os meus sacos. Partilho-os com ele. Ele trabalha ao fim de semana para ajudar a pagar os estudos. Começou por trazer-me uma foto com a farda da escola, depois o documento com as notas da oitava classe, e este ano trouxe-me toda a documentação da matrícula na nona. Guardou na senhora que vende ananás para me mostrar. Quando chegou ao carro, encontrou um saco com material escolar que eu lhe tinha levado. O F é um trabalhador estudante. Aos catorze anos. Respeito isso. Há muito que não lhe dou moedas. Dou-lhe notas e material escolar. E ele acarta-me os sacos, pergunta pela senhora e pelo cão e vai-me trazendo as folhas com as notas dos exames.

Nas ruas de Maputo, também há marginais da marginalidade. E esperança. E resiliência.

JL

Não conheço o J de lado nenhum. Não sei quem seja. Só o vi uma vez. O suficiente para lhe perguntar o nome e trazê-lo para esta crónica. Impressionou-me e pronto.

Tinha acabado de sair do supermercado, levei o carrinho das compras, que estava praticamente vazio, meia dúzia de coisas, e coloquei entre elas a minha caneta e a minha agenda, presas uma à outra. Abri o porta-bagagens, coloquei as compras nele e fui para o lugar do condutor. Já estava a sentar-me quando percebi que me tinha esquecido da agenda no carrinho das compras. Voltei atrás, mas não cheguei a dar dois passos. Ele vinha na minha direção com a agenda e a caneta na mão. O miúdo estava aterrado, o seu rosto espelhava medo. Vi que ele quis, a todo o custo, evitar um equívoco, uma acusação. Segurou a mão direita com a esquerda, estendeu-me a agenda e baixou a cabeça fitando o chão. Não foi capaz de me encarar.

– Obrigado.
– De nada.
– Como te chamas?
– J.
– Tens quantos anos?
– Onze.
– Fizeste uma boa ação, J. Obrigado.

A última frase era verdade, mas a verdade é que a disse mais para o tranquilizar do que outra coisa qualquer.

– Andas na escola?
– Ando.

A pergunta e a resposta era inúteis porque ele estava fardado. Num espaço de poucos segundos, enquanto ele se afastava, pensei que não devia dar-lhe nada porque o meu pai me ensinou que das boas ações não devemos esperar recompensa. E, no mesmo instante, pensei que estava em Maputo, que as coordenadas eram diferentes. Não tinha ali nenhum material escolar, peguei numa nota e chamei-o:

– J!

Ele virou-se, dirigiu-se para mim, quando levantei a nota, ele benzeu-se, estendeu a mão direita que segurou com a esquerda e colocou os olhos no chão.

– Fizeste uma boa ação. Compra uma coisa para ti.
– Obrigado.

Tive a sensação de que ele nem vira a nota e segundos depois a sensação confirmou-se. O J atravessou as quatro faixas da estrada e já estava do outro lado da rua quando levou a mão ao bolso e tirou a nota. Viu qual era. Voltou a guardá-la, benzeu-se de novo e fez-se ao caminho.

Nas ruas de Maputo, também crescem os valores e a fé. E o medo!

jpv

———————————————–
Nota 1. O aperto de mão moçambicano consiste num movimento em três momentos. Mãos na horizontal, na vertical e de volta à horizontal. É uma senha que faz parte dos tempos da libertação. Os três movimentos correspondem a três valores. Liberdade. Igualdade. Fraternidade. Tenho reparado que a maioria dos moçambicanos já não sabe o seu significado, mas este aperto de mão é muito comum.

Nota 2. Segurar a mão direita com a esquerda é um gesto de respeito e humildade. A mão esquerda segura o pulso da mão direita mostrando à outra pessoa que aquilo que vai ser dado ou recebido está seguro.


Deixe um comentário

O Ofício da Memória 3 – Apresentação

oficio-da-memoria-3-logo

O Ofício da Memória 3 – Apresentação

Caros Amigos e Leitores,

A série de contos autobiográficos intitulada “O Ofício da Memória” terá muito em breve mais uma história narrada entre a certeza da vida e a ficção da memória.

Depois de conseguidas as autorizações necessárias à sua publicação, o terceiro conto desta série, escrito nas últimas 12 semanas, será em breve publicado.

É ligeiramente mais curto que os outros contos da série, tem coincidências, verdades, mentiras, judeus, quase suicídios, amor e sexo, sexo e amor, e tem… o nobre e humilde ofício da memória como quem preserva a vida vivida e garante a vida a viver!

 

Até breve!

jpv


Deixe um comentário

Pré-História

c1c93-sexo

Pré-História

Mora, intacto, em mim,
O teu corpo.
Em tangências de luz e perfeição,
Ainda sinto a suavidade dos teus seios
Preenchendo-me a mão.
Ainda te arqueias e ofereces
Em movimentos lentos e sedutores,
Ainda me lembro das preces
Gemidas sem fronteiras nem pudores.
Ainda sorris convidando,
Ainda chamas empurrando,
Ainda te sacias em mim
Como num altar de promessas.
Ainda te encostas e te entregas,
Sem máscaras nem pressas.
Ainda é vívida a memória
Desses corpos abandonados
À luz da noite,
No tempo antes da história!

jpv


Deixe um comentário

Vermelho Direto – Je Suis Sagres

Diapositivo1

Vermelho Direto – Je Suis Sagres

Era o que mais faltava. Censura a partir de um clube de futebol.
Toda a gente sabe que sou benfiquista e toda a gente sabe que, quando entendo, zurzo no Benfica. Tenho esse direito. O direito de me expressar. De zurzir em quem me apetece, de dizer o que me apetece dentro das regras do exercício da liberdade, de brincar, de criticar, de gozar e de aceitar com respeito as opiniões dos outros. E zurzo nos adversários do Benfica quando me apetece e a propósito do que me apetece. É só a minha opinião. Não peço a ninguém que concorde comigo, só que respeitem o que penso da mesma forma que respeito os outros.

Para mim, o Rui Patrício sempre foi uma mau guarda-redes, muito inseguro, sobretudo quando a pressão aumenta. Viu-se isso inúmeras vezes ao serviço da Seleção Nacional. No jogo do Sporting contra o Belenenses foi protagonista de duas jogadas caricatas e ridículas, próprias de um tipo que treme como varas verdes quando é precisa fibra.

E a Sagres fez um vídeo, onde nem sequer se vê o guarda-redes do Sporting, a brincar com as trapalhadas que ele fez no estádio do Restelo. Trata-de de alguém a preparar um frango no forno enquanto o jogo evolui e termina com um slogan do tipo Frango à Rui Patrício servido no Restelo.

O presidente do Sporting apressou-se a defender o seu jogador, o que é normal. O que já não é normal é exigir pedidos de desculpas e ameaçar com processos e exercer pressões para que o vídeo saísse de circulação. E saiu. A Sagres retirou o vídeo e pediu desculpas ao jogador. Ou seja, a pressão exercida por Bruno de Carvalho calou a opinião da Sagres, o seu direito a brincar e a gozar com uma situação caricata. A meu ver a Sagres errou. Mas não foi quando publicou o vídeo, foi quando o retirou da web.

Bruno de Carvalho agiu como os extremistas islâmicos: calou aqueles com que não concordava. Felizmente diferiu nos processos e nos meios, felizmente, a proporção do crime não é, nem de perto, a mesma. Mas o crime é o mesmo. O de silenciar aqueles com que não concordamos.

Eu não concordo nem um bocadinho com a linha editorial do “Charlie”, respeito mais os meus amigos islâmicos do que alguma vez respeitarei o semanário francês, mas também fui “Charlie” porque a liberdade de expressão é um pilar da vida social e da democracia. Fui “Charlie” porque não se pode matar em nome de nada, não se pode silenciar os outros só porque não se concorda com eles.

E é por isso que agora sou Sagres. Qualquer pessoa tem o direito de pensar e de expressar a sua opinião acerca da prestação de um jogador de futebol. E a brincar com isso. Ou de um político. Ou de um médico. Ou de um advogado. Ou de um empresário. Ou de um jornalista. Eu sou Sagres porque o que a Sagres fez foi uma brincadeira inofensiva que, naturalmente, incomoda os sportinguistas, mas amanhã poderá ser sobre outros. Ainda me lembro o que gozavam com o SLB quando tivemos como guarda-redes aquele espanhol alto e frangueiro. E também me lembro o que gozaram com o Nuno Espírito Santo quando, ao serviço do Porto, deixou entrar um monumental frango na final da Taça da Liga contra o Benfica. Não me lembro, nem do Benfica, nem do Porto, se terem armado em Prima Donna ofendida. O senhor Bruno de Carvalho há muito que perdeu o controlo do clube que dirige e a noção da realidade. É um homem perdido, à deriva, patético. E depois age desesperadamente tentando provar que é líder quando toda a gente, incluindo muitos sportinguistas, se envergonham com as figuras que ele faz. Mas conseguiu calar uma brincadeira. Conseguiu censurar. Conseguiu matar a liberdade de expressão de uma instituição. O senhor Bruno de Carvalho pode ser presidente do Sporting, mas não pode ser censor de coisa nenhuma.

Eu sou Sagres! E o Rui Patrício é um frangueiro!

Tenho dito!
jpv


Deixe um comentário

Crónicas de África – A Boleia

18d31-cronicas-de-africa-img-2

Crónicas de África – A Boleia

Dar boleias não é prudente. Nem aqui, nem em qualquer outro lugar. Este homem anunciava histórias interessantes. Era uma carrinha branca, agastada com a idade, a resmungar quilómetros e a revoltar-se contra a falta de combustível. E, junto a ela, um senhor de cabelos brancos, ar humilde e respeitável, um pequeno jerrican improvisado de uma lata de óleo do motor, o braço a fazer sinal, não como quem manda parar mas como quem pede ajuda.

E eu parei. Abri o vidro do lado dele:
– Então, há azar?
– Sim, pode chamar-se azar. Fiquei sem combustível. Ainda pensei que ela aguentasse, mas ela se negou. Não quer ir mais. Há um posto de combustível junto ao Game, não precisa levar-me até lá, posso apanhar uma ligação.
– Não há necessidade disso. Eu passo à frente do Game, deixo-o lá.
– Muito obrigado.
– Não tem de quê.
– Eu tenho tempo, sabe. Saí cedo de casa. Sou reformado do Estado há 4 anos.
– Posso saber a sua idade?
– Tenho 65.
– É um homem novo.
– Ainda sou novo, mas já fui mais novo. Sabe, às vezes bebo umas…
– Desde que não seja em excesso…
– Claro. O excesso faz-nos perder a responsabilidade. Eu bebo só o suficiente para abrir um sorriso. Por vezes, é preciso abrir um sorriso.
– E gosta da vida de reformado?
– Claro. As reformas do Estado são pobres, sabe, mas a vida privada tem muito valor. Não é incómodo ir até ao Game?
– Não, nada disso. Eu trabalho na Escola Portuguesa.
– É professor?
– Sou.
– Eu fui aluno, sabe. Fiz a sétima classe do Curso Industrial. Naquele tempo não havia energia. Estudávamos à luz das velas. A energia traz das suas. Quando estudávamos à luz das velas não chumbávamos. Quando veio a energia começámos a chumbar.
– Distrações…
– É… mas hoje ainda é pior. Eu vejo pelos meus netos. Na hora de estudar estão ali a ver a telenovela quando deviam estudar.
– Os tempos mudam, sabe.
– Mas não mudam sempre bem. Primeiro veio a liberdade, depois houve ali 10 anos que estivemos morrendo um bocadinho e depois levantámos a cabeça. É, nem tudo muda bem. No meu tempo não tínhamos dinheiro de lanche, mas nos divertíamos e brincávamos e poupávamos para ter um dinheirinho de lanche. Hoje, pai que não dá dinheiro de lanche parece que é criminoso. Isso está mal.
– Chegámos, senhor…
– Sibambo. Era para ter o nome do revolucionário, mas depois mudaram para Sibambo. Acho que tiveram medo.
– Tenha um bom dia senhor Sibambo.
– Muito obrigado, senhor professor.

Andamos nós gastando tempo à procura das causas do insucesso e elas aí estão. Energia e seus derivados. O senhor tinha uma dicção perfeita, falava pausadamente e não tinha dúvidas em relação às suas reflexões. Pensava e estatuía as ideias com as palavras serenas e firmes que encontrava. E nós podemos discorrer das dicotomias do empirismo e conhecimento construído, mas o certo é que o conhecimento do senhor Sibambo também é construído. Construído com as suas experiências e convicções, estudado à luz da vela, posto em prática ao serviço do Estado ao longo de 35 anos. Uma boleia para ele. Uma aula para mim.

jpv
———————————————
*Game: superfície comercial em Maputo, mais precisamente na Costa do Sol, ao longo da Marginal.
*Sibambo: nome semelhante ao do herói moçambicano Eduardo Chivambo Mondlane.


4 comentários

Crónicas de Maledicência – As 50 Parvoíces de João Paulo Videira

fccc1-sexy-red-dress

Crónicas de Maledicência – As 50 Parvoíces de João Paulo Videira

Levantei-me cedo, passei pelo duche e depois pelo espelho, olhei as curvas esculturais do meu corpo. Aqueles vinte quilos a mais vinham mesmo a calhar. Davam-me volume. Lavei as mãos, fiz xi-xi e saí para a rua com um olhar lânguido para o indicador de combustível. O tanque, tal como eu, estava cheio.

Fui ao ‘Builders’ da Matola. Comprei um berbequim de 1200 watts, uma serra manual, 5 metros de corda, uma catana, uma caixa de parafusos de 12 milímetros e outra de buchas, dois ganchos tipo arnês, um tubo de silicone, um par de luvas de pedreiro e um martelo. Regressei em excesso de velocidade, tinha um enchumaço entre pernas, levei a mão ao dito, era o porta-chaves. Cheguei a casa, dirigi-me ao quarto, ela esperava-me com seu corpo de mulher de vinte e quatro anos vezes dois, estava húmido e brilhante, lá fora o sol brilhava, 38 graus centígrados e 87% de humidade relativa do ar. A conversa não poderia ter sido mais explícita:

– Então, vens remodelar o quarto?
– Não. Venho fazer amor à moda de Grey.
– ‘Tás parvo!

E bazou.

——————————————————-

Venho falar-vos do que não conheço e também do que conheço. Não li o livro. Não conheço. Ainda não vi o filme. Ainda não conheço. Tenho lido as reações pró e contra e não posso ficar-lhes indiferente. Conheço. Se é verdade que aquele tipo de literatura não me atrai, não me cativa, tenho de admitir que já teve duas virtudes. Pôr toda a gente a falar de sexo sado-masoquista e bondage e nossa sociedade precisava disto pois já que temos de ser masoquistas por via da crise, ao menos que o sejamos na cama. A outra virtude, ao que dizem, foi ter dado a conhecer ao mundo a filha do Don Jonhson. Ora, eu devo ser um tipo antiquado, mas assim muito antiquado, mesmo mais antiquado que o Marquês de Sade. Eu explico. O sexo, na minha mente retrógrada, tem a ver com amor e com prazer. Muito prazer. Ora, tanto quanto me consegui informar, o sado-masoquismo o o bondage têm a ver com dor. Seja lá porque razão descabida for, o meu cérebro tem dificuldade em associar a dor ao prazer. Já, por outro lado, o meu cérebro associa o sexo a libertação o que, quer queiramos, quer não, não combina muito bem com algemas. Da última vez que verifiquei, as algemas eram umas cenas metálicas que serviam para prender criminosos. Mais uma vez, há uma ligação que tenho dificuldade em fazer: associar o sexo ao encarceramento. Então mas somos amantes ou criminosos? O que me dá Vigor não é a companheira com as mãos amarradas, é a companheira com as mãos livres para… sei lá, fazer coisas!

Se eu não percebo porque é que? Percebo. Mas temo as consequências. Imaginemos que um casal vai para um hotel, ela amarra-o à cama com as algemas e na hora de o libertar aquilo encrava ou a chave parte. Tomba uma sombra de Grey sobre aquele casal. É que a próxima vez que estiverem juntos, vai ser quando ela regressar da rua com um serralheiro. Mas há mais. Estou mesmo a ver escoriações por via de cordas super apertadas, chicotadas que foram além da força, Ups, querida, desculpa… vou buscar um pouco de algodão e álcool para desinfetarmos isso, chapadões que eram para ser na face e acertaram na vista e mesmo, sabe-se lá, a metade do chicote que ficou partida e presa não sei onde, mas onde não chega muita luz e coisas do género. As casas de artigos de construção e carnaval vão esfregando as mãos de contentes, mas a malta do Sistema Nacional de Saúde anda preocupada. Já não bastavam as Urgências cheias de gente a desfalecer de gripe e outras doenças sérias, quanto mais agora terem de ajudar casais que resolveram virar-se à bordoada uns aos outros durante o ato. E com adereços! Ah Xôtor, o meu marido estava a mudar uma lâmpada, desequilibrou-se e caiu sentado em cima da garrafa de cerveja, veja lá o Xotôr o azar!

Mas há mais… nem tudo é negativo. Até aqui, os cônjuges que gostavam de uns filmes pornográficos, andavam à socapa uns dos outros em pesquisas na Internet para as teses de mestrado e doutoramento. Agora, já podem dizer que estavam a ver o clip promocional das “Cinquenta sombras de Grey” e, bem vistas as coisas, podem fazer a investigação juntos e coiso e tal, mas deixem-se de brincadeiras com adereços.

Se as relações entre as pessoas, no plano horizontal, podem ficar aborrecidas? Podem. Mas não é preciso arranjar escoriações para que as mesmas recuperem o interesse. Um jantar à luz trémula e amarelecida das velas, umas pétalas de rosa na cama, uma musiquinha de fundo, um fim de semana em que se entregam os crianços à avó e se vai a um SPA ou a um hotel super romântico. Caro? Há quem ache isto caro? Então experimentem pagar a um serralheiro para desencravar umas algemas e fingir que nunca o fez, experimentem perguntar quanto é que custa encontrar a metade do chicote ou os restos da garrafa de cerveja… isso é que é caro.

E agora, se me permitem, vou-me daqui que a patroa aguarda-me, plena de sensualidade. Brrrrruuuuiiiiiimmmm, brrrrruuuuiiiiimmmm… (tentativa de reproduzir o som de um berbequim)

jpv

 


Deixe um comentário

Vermelho Direto – Claques e Presidentes

66284-red-card-sexyVermelho Direto – Claques e Presidentes

Sejamos diretos e frontais.

1) Eu sou contra todo o tipo de claque de futebol organizada e apoiada por um clube. Esse tipo de organização nunca trouxe nada de positivo ao futebol português e, por mim, poderiam e deveriam acabar todas.

2) Eu abomino o que se passou no pavilhão da Luz, nomeadamente, a evocação, através de uma tarja, de um dos mais trágicos e condenáveis incidentes, a meu ver a configurar um homicídio, do futebol português.

Dito isto. Tomando estes dois pressupostos para início de conversa, não me parece que qualquer clube dos grandes, e não só, possa acusar os outros. A verdade é que todas as claques já perpetraram atos de violência inomináveis. E, sim, um dos mais recentes foi a vandalização do estádio da Luz por adeptos sportinguistas que queimaram umas centenas de cadeiras. Nunca ouvi uma declaração pública de repúdio como ouvi esta semana por parte do presidente do Benfica em relação à abominável tarja. Penso que Luís Filipe Vieira esteve muito bem em relação ao que disse e quando disse. Se eu fosse sportinguista, também gostaria que ele tivesse dito mais cedo, mas a verdade é que estava uma investigação a correr e esses processos requerem alguma prudência. De resto, o presidente do Benfica tocou no ponto certo da ferida: o problema não é esta ou aquela claque, o problema que é preciso atacar é o da violência no futebol. E, no seu discurso condenou claramente o ato. Isso é inequívoco.

Bruno de Carvalho esteve igual a si próprio: mal! Dificilmente estaria pior. Cortar relações em vez de unir esforços, culpar um adversário para branquear um empate que compromete o título, são marcas de atuação que, infelizmente, já vão sendo hábito no atual presidente do Sporting. Quase apetece perguntar com quem é que ele ainda não cortou relações dentro e fora do Sporting? Bruno de Carvalho não veio para acrescentar nada ao futebol português, veio para destruir. E tem conseguido. O Sporting, por exemplo, está de rastos. O treinador não tem paz, está uma pilha de nervos, os jogadores andam perdidos em campo e não, não jogaram bem contra o Benfica, se tivessem jogado bem, tinham ganho por vários a zero porque o SLB, infelizmente, esteve muito fraco, mas suficientemente forte para marcar quando precisou, e toda a estrutura anda em ansiedade. É vê-los a comemorar golos contra o Penafiel, o Arouca e o Belenenses como se fossem os golos das suas vidas. É vê-los a serem campeões dos empates. É ver a figura ridícula e humilhante que um, outrora, muito bom guarda-redes, fez ontem no jogo contra o Belenenses. Patrício, que não merece, foi a imagem de um Sporting instável e esfrangalhado não obstante ter um bom punhado de jovens jogadores. Inácio um excelente ex-jogador e ex-treinador era, no banco, a imagem do desespero provocado pela instabilidade e pelo desacerto da equipa.

Penso que os tipos da claque que colocou a tarja deveriam ir a tribunal, cumprir pena de prisão e nunca mais pôr os pés num estádio de futebol.

Penso que Bruno de Carvalho deveria ter um assomo de consciência e sumir de mansinho.

Penso que Luís Filipe Vieira está obrigado a levar o inquérito e a investigação até ao fim e a identificar e banir os culpados para fora do SLB.

Tenho dito!
jpv


Deixe um comentário

Crónicas de África – Do Amor e Das Feridas

Dia-dos-Namorados

Crónicas de África – Do Amor e Das Feridas

Do Amor
Em Maputo, o Dia dos Namorados é mais vulgarmente conhecido como o Dia do Amor. E é um acontecimento. As pessoas não lhe ficam indiferentes. Os restaurantes preparam menus temáticos, os supermercados decoram camas com roupas temáticas e mesinhas com champanhe a condizer, os namorados compram e vestem t-shirts encarnadas por ser a cor do amor e há uma corrida à melancia, pelas mesmas razões. Todo este folclore explana-se numa sociedade cujas coordenadas culturais são muito diferentes das nossas. Era um homem bem posto. Um senhor. Aproximou-se da bancada das flores. Seria, sem dúvida, uma flor de vaso. Uma gloriosa orquídea. Ele olhava-as, pegava nos vasos, rodava-os para, pensei eu, escolher a mais bonita, a que estivesse em melhor estado. Estava a ser exigente. Passou-me pela cabeça que a visada seria uma sortuda. Se, na simples escolha de uma flor, ele colocava tanto empenho, o que não seria no dia a dia. E foi aí que ele me surpreendeu. Depois de rodar e olhar e voltar a olhar as flores, escolheu e levou… três! Das duas uma, ou a visada é mesmo uma grande sortuda, ou as visadas são um pouco sortudas cada uma. Partindo do princípio de que o Dia do Amor implica uma refeição a dois, fiquei a pensar que este homem iria ter um dia atarefado. Pequeno-almoço, almoço e jantar, no mínimo!

 Das Feridas
Faz amanhã quatro semanas, dei uma topada com um dedo do pé, o do meio, num bloco de cimento. Como estava de chinelos, esfolei a pele do dedo. Nada de mais. Fiz o que faria na Europa. Limpei e pronto. Para meu espanto, na primeira semana, a ferida cresceu e tomou conta da cabeça do dedo. As dores eram tantas que não conseguia dormir. Comecei a tomar anti-inflamatório. A ferida cresceu para baixo da unha que começou a ficar baça, como quando as unhas vão cair. Comecei a colocar uma pomada cicatrizante. Volvidas quatro semanas, a ferida começa, finalmente, a querer fechar e a estar mais seca. A unha, parece-me, morreu. Aí à terceira semana, fui ao mercado e encontrei, como sempre, o meu amigo Francisco. Queixei-me da ferida, que até coxeava, que não sarava. E ele respondeu com toda a calma:

– Com esse calor e essa humidade não vai sarar. Tens de esperar.

E pronto, cá estou à espera. Já tinha ouvido histórias das consequências da monção. Nunca as tinha vivido.