Ver o horizonte Não é cruzá-lo. Olhar o teu ombro Desnudo e sedoso Não é tocá-lo. Olhar a curva Tentadora e irresistível Do teu repouso Não é acariciá-lo. Sentir o odor perfumado De teu sexo Em especiarias aromatizado Não é beijá-lo.
Tem esse átomo De tempo E distância O peso inteiro Da errância De meus incertos Passos de amante. Não sei viver Esse delicioso instante De aproximação ao amor Senão com a voracidade E o fulgor De quem devora Uma essência. Desconheço o dom Da paciência Diante desse altar Que é teu corpo. Quando assim não sinto Suspeito sempre Que estou morto.
Saudade do teu sorriso, saudade da tua ousadia e dos equilíbrios que promovias com mestria. Fazes-nos muita falta.
Há dois anos, neste dia de 25 de outubro, almoçámos juntos. Jantámos juntos. A esta hora tinhas ido a casa mudar de roupa depois de uma passagem pelo Camões…
E depois, aqueles momentos deliciosos no Wine Lovers…
E o resto… já se sabe…
O tempo voa e apaga quase tudo, mas não apaga a memória de ti.
O sol amarelo com cores. A lua tem mar. Gaivota poisada na árvore. Praia preta, Praia escura. Uma porta para a lua. Papaias, mangas, Na árvore maduras. Ficas triste, Ficas magoado. Palavras escritas, Ficas contente.
É noite e não é cedo. E enquanto uns dormem e outros se desdobram em esforços nos preparativos, eu escrevo. Escrevo para ti, meu filho. Meu menino. Meu homem. Pai. Escrevo porque te casas amanhã. A vida vai mudar. Vais ser feliz. Eu sei que vais. Tu és daquelas pessoas que merecem mesmo ser felizes. Que trilham o caminho da felicidade como se fosse fácil encontrá-lo, percorrê-lo. Não é. Acontece que tu, meu querido filho, tens em ti uma natural resiliência, uma capacidade nata para aceitar o que a vida te traz e fazer o melhor possível com isso. Explora a inegável doçura que há em ti, agarra-te aos incontornáveis valores que sempre te têm orientado e sustenta-te no fortíssimo carácter que construíste.
O teu caminho será sempre um caminho de luz porque tu és uma pessoa de luz. Ancora a tua determinação no belíssimo amor que a Daša nutre por ti, foca-te sempre em tudo o que é positivo, nas tuas capacidades, conquistas e desejos… Ampara-te na família. É para isso que existimos. E nunca deixes que o ruído perturbe o teu silêncio, a tua tranquilidade. Nunca assumas para ti aquilo que não desejaste à partida, não percas um segundo, sequer, com propósitos que não são teus. Onde não ames, não te demores.
Sê sempre criativo, imprevisível, apaixonado, dedicado e ama. Ama sempre. Ama muito. Abraça. Beija. Explora. Protege a tua doce Daša e cria as condições necessárias para que cresçam juntos no amor, na dedicação, em família.
Ouve todos e decide tu. Quando estiveres certo, quando tiveres fé no teu raciocínio, persevera. E dá sempre prioridade à humanidade que há em ti. E ri. Ri muito, meu filho. Abraça o humor do quotidiano como um lenitivo para as dificuldades.
Não te preocupes comigo. Eu estou bem. Estarei sempre bem. Pelo menos, sempre que me lembrar de ti. Não precisas lembrar-te de mim quando estiveres bem. A mim, basta-me saber que estás bem e o Mundo fica concertado. Contudo, sempre que estiveres mal, que passares por uma qualquer necessidade ou estiveres em baixo por uma qualquer razão, lembra-te de mim. E eu cá estarei para te ouvir, para te amparar, para te ajudar, na verdade, para o que tu quiseres. Sem julgamentos nem condições. Só eu, tu, um abraço e a busca de uma solução.
Ainda ontem nasceste. E já te casas amanhã. Desejo-te um céu estrelado de alegrias e felicidades.
É complexo o desenho dos afetos. E, contudo, maravilhoso. Por exemplo, é esse intrincado avesso de emoções voluntariamente oferecidas e recebidas que constrói o direto da tapeçaria que é a família. O que define um laço familiar não é o sangue ou, pelo menos, não é exclusivamente o sangue. Nem tão pouco um papel assinado onde fica registado que fulano de tal é pai, filho, irmão, tio ou o que quer que seja de um outro fulano de tal. Em boa verdade vos digo, à falta de melhor e mais comprovada teoria, que aquilo que mais exatamente define um laço familiar é a intensidade do afeto que une os envolvidos. É esse amor puro que faz sofrer na ausência, preocupar na distância, auxiliar na dificuldade, perder o chão e encontrá-lo, ansiar por um desejo outro ou sofrer por uma dor que, não sendo nossa, é tão nossa como de quem a padece. Creio que seria mais indicado definir as teias familiares por laços de afeto do que por outros quaisquer, em particular, os de sangue. Pode uma mulher ter as dores de mãe de uma criança que não pariu? Claro que sim. Pode um homem ter o instinto de proteção em relação a um filho que não concebeu? Claro que sim. Basta que ame aquela como mãe. Basta que ame aquele como pai. Traz-me este pensamento um outro a provocar as ideias e as palavras para dar-lhes forma. O Amor aprende-se. O Amor cresce nas pessoas. E também definha. Quando um outro nos toca e nos faz sentir vivos e amados e desejados, quando um outro nos mostra nas palavras e nos atos que o seu sentir gravita o nosso, que o seu coração se ampara no nosso, então sabemos que chegou o momento de aprender a amar. De nos entregarmos à tarefa árdua de deixar crescer em nós a milagrosa flor da reciprocidade amorosa. De sermos mãe, pai, filho, filha, irmão, tio, primo, avô ou avó, antes e depois do sangue e antes, muito antes e muito depois, de um qualquer registo. É possível… Amar é sempre possível!
Depois do nosso casamento oficial em 23.08.2021, ontem foi o dia da festa com família e amigos. Um dia mágico. Maravilhoso. Um dia pelo qual estamos gratos. Um dia pleno de afetos e sorrisos e abraços…