Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Do AVC – 4/9

2 comentários

Universidade de Coimbra

Os outros mudam o olhar sobre nós

Indulgência. Condescendência. Tolerância.

É isto. É só uma coisa. Uso as três palavras porque são as mais usadas, parecidas pelo menos. Não ao pé de nós. Nunca dizem. A primeira forma de condescendência é, Coitado nunca mais será o mesmo. Ou pior. Há mesmo os que vão mais longe, Coitado nunca mais será o mesmo qualquer dia dá-lhe um enfarte. Diz-se tanta coisa. Pensa-se tanta coisa. E quase todas são erradas. Precipitadas. Mesmo quando feitas por bem.

Há os que não estão contra nós. Ignoram-nos. Por exemplo, há pessoas que nem sabem o que quer dizer AVC. E é a doença que mais mata em Portugal. Estão ocupados com as suas vidas. Há outras pessoas que sabem muito bem. Tão bem que até querem distância. Tive uma série de amigos que deixaram de o ser. Deixaram de me visitar. Fizeram de conta que estava morto. Depois há os que nos discriminam porque se o tivemos é porque comíamos demais. E eu a apetecer-me dizer que, É um AVC provocado pelo sono, palerma.

Muitas pessoas também me deram distância. E houve outras que até um processo disciplinar me abriram. Por acaso, eu não sabia bem o que era um processo disciplinar. Mas em frente. Depois há os que não entendem porque é que tenho menos turmas, considerando menos turmas a três que tenho. E eu não disse nada. Fui recuperando e desejando que tudo melhorasse. Assim como melhorou. E, por fim, há quem não compreenda o tempo que não tenho mais aulas. Estranham o facto de só ter três turmas. Como se fosse a mesma coisa. Como se o meu cérebro respondesse à mesma velocidade. É preciso descansar entre aulas. E o estar cansado é muito mais fácil de conseguir. É uma incapacidade que sentimos e nos corrói a alma. É algo que não se anuncia.

Num determinado dia, não interessa qual, eu fico muito cansado. Mas o corpo resiste. Quando chego a casa, só quero é dormir. E durmo. Nós somos vítimas de nada. Mas cansamo-nos. Uma TV ligada, às vezes, é o suficiente. Assim como uma pessoa. Um tom de voz. Não são vinte e quatro. É só uma. Mas somos fortes.

E depois, quem tem uma escola como eu tenho, onde impera a camaradagem e as pessoas fazem questão de saber, questão, efetivamente, de saber, como estou, tudo fica mais fácil. Sim.

Os outros mudam o olhar sobre nós, mas não há muito a fazer quando isso. É assim. Tenho de me inteirar que agora não sou o professor João Paulo Videira. Agora, sou só o professor João Paulo Videira. Houve tempos em que as pessoas abriam alas para eu passar. Agora, sou só mais um. Provavelmente, nem deveria de o ter deixado de ser.

jpv

Desconhecida's avatar

Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Do AVC – 4/9

  1. Jose Bernardes's avatar

    Terem deixado de abrir alas foi um ganho importante. Condicionava -lhe o ritmo. Assim, fica mais livre para caminhar por onde quer e como quer.

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