Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Chão de Vida

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Chão de Vida

Estes são os meus dias,
As minhas cores,
Os meus pássaros,
Os meus animais selvagens,
Os meus ritmos,
As minhas manhãs,
Os meus perigos,
O meu peito cheio de esperança,
A minha paisagem,
A minha música
E a minha dança.

É aqui que pertenço em vida.

Cada hora vivida,
Doce ou amarga,
De chegada
Ou de partida,
É aqui o seu tempo.

É aqui o Paraíso
E a falta dele.
A liberdade
E o medo.
A revelação
E o segredo.

São daqui os momentos
Que vale a pena viver.
A minha família é este chão.
Este sentir que há tempo
Para além do tempo.
Este ir e voltar,
Partir e regressar
Sob a pele marcado.
Minha vida é uma viagem
E este é o porto
Que vê chegar o nauta cansado.

jpv


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São Tantos e Tão Intensos

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São tantos e tão intensos,
Os afetos.
E tudo isto é tão pouco.
Queria ver-te viver
Para sempre.
Não és uma pessoa,
Nem humana é tua
Essência.
Tu és a razão de toda a existência.
Tu és o espaço preenchido.
O coração enfunado
De amor.
Tu és o exercício vencido
De suportar qualquer dor.

Não temo a morte,
Venha quando vier,
Seria sempre essa a sorte.
Tenho só pena de deixar-te…
Tenho pena de não poder ouvir-te mais…
Ver-te desenhar a vida
A traços de loucura e coragem,
Desafiar os limites
Na insana voragem
Do horizonte.

Não há palavras
Para o que tenho no peito.
Há só estes versos sem jeito
A rasgarem lágrimas de alegria
E saudade.
Há a imagem de ti
Como um universo sem fim.
Há a minha vida
Nas tuas mãos…
Para além de mim.

jpv


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Prenhe Vazio

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No vazio das palavras,
O ato.
No vazio do tempo,
O momento exato.
No terreno estéril
E árido
De meu peito
Cresce uma esperança
Sem jeito
Nem destino.
Fenómeno inexplicável,
Como mão grande e afável
Percorrendo o cabelo do menino.

No vazio da cama
Um homem que ama.
No vazio de um peito de mulher,
Um homem que quer.
Numa folha branca
Uma palavra que grita
E deseja,
Uma linha sensual,
Uma vírgula que beija
A hesitação,
E de novo a mão.
Agora suave e sedosa
Em provocante e prazerosa
Provocação.

No vazio de tudo…
A reinvenção!

jpv

 


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Olhar

Essa pose serena,
Essa magia encantada,
Essa intenção não revelada
Por essa boca pequena.
Mas o olhar… o olhar, meu Deus, como te trai!
Olhas-me como quem despe o pudor.
Não. Não é amor,
É esse desejo, essa luxúria dos corpos suados,
Olhas-me, e a minha roupa cai
No chão do teu quarto.
E fazes, em gestos suaves e delicados,
A via sacra do meu corpo oferecido.
E antes mesmo de tocar-te,
Antes de me percorreres com o fogo da excitação,
Sou já um homem vencido.

jpv


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Retrato de Moça

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O olhar húmido
E inseguro.
Olhos pequeninos
Que brilham no escuro…
E suplicam.
Lábios finos
E gentilmente recortados
Ameaçam um sorriso
Que fica…
Na intenção.
Os dedos frágeis
E longilíneos
A explicarem-me as palavras.
Seios redondos,
Bem definidos,
E pequeninos,
Insinuam-se no teu peito
Ao peito que lavras…
De amor.
Tens a cintura da donzela
E o sexo da mulher.
Tens no corpo,
Sem saberes,
As obras do desejo
Que o homem quer.

Estás sentada
À porta do meu coração.
Sempre nua
Como a Thétis
Que o monstro petrificou.
Não estou mudo, eu,
Nem quedo.
Debato-me com a ânsia e o medo
De possuir-te,
De ter-te em meus braços,
E haver nisso
Um funesto e terrível feitiço.
Que estender-te a mão
E tocar-te
E prender-te minha
Desfaça a ilusão
E morra a esperança
E a melodia.

Ficarás sentada,
Em pose ténue e fugidia,
À porta de meu coração.

jpv


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Limiar

Limiar

Não há mais palavras
Nem vontade,
Nem desejo.
Há só a calma aceitação
Do que sinto
E do que vejo.

Era tão bom
Quando ainda me importava.
Quando havia luxúria no meu corpo.
Quando a energia me arrepiava as carnes
E o cheiro do teu corpo
Bloqueava os outros sentidos.
E o sentido era único.

Já não quero a eternidade.
Não me diz nada o tempo todo.
Tinha uma só vida…
E adiei-a.

Tinha uma só voz
E poupei-a.

Tinha um só corpo
E preservei-o.

E nada me resta mais
Que a condição miserável
De morrer conservado
E saudável.

Bebam o álcool todo!
Fumem todo o tabaco!
A vida é um barco
E não há terra.
Deleitem-se com todos os corpos,
Possuam todos os sexos!
E caminhem nus pela praia da vida
Na aurora de cada dia.
Nada mais existe do que o momento.
Cada momento
É todo o tempo
Que temos.
Cada dia é a hora de ser vivido.
Amanhã é tempo perdido.

E quando olhardes para trás,
Contemplai
Um lastro de vida vivida,
Um rasto de experiência
E desperdício.
Os verdadeiros despojos
Do exercício
De sentir-se único e vivo.

E pagai para ver!
Correi todos os riscos!
Só no limiar do azar
Abunda a sorte.
A vida inteira e única
Só se conhece nas fronteiras da morte.

jpv


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Ainda e Já.

Ainda e Já.

Ainda amanhecem azuis,
Os céus.
Ainda doura o sol,
Pela manhã.
Ainda são verdejantes
As imensas copas das árvores.
Ainda cantam, as aves,
Em voos acrobáticos.
Ainda correm os rios,
Para o mar.
E esse mesmo mar,
Ainda fustiga a areia
Com estrondo.
Só o meu olhar mudou.
Já te não vejo como dantes,
Já me não queres
Como os amantes
Se querem na praia.
Já desisto.
Já me abandono aos dias.
E já morro.

jpv


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Livro em Branco

Livro em Branco

Livro em Branco

Hoje comprei um livro.
Estava em branco.
O autor reclamou para si toda a originalidade.
Que felicidade!
A originalidade Já ter dono.

jpv


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Brisa

BrisaBrisa

As palavras sopradas à brisa
Têm mais sabor.
Sabem a histórias antigas
De mancebos heróicos
Amando raparigas.
E vem, com o restolhar da folhagem,
Bailando nas voltas da aragem
Fresca,
Uma promessa.
É uma vida nova e doirada,
Uma esperança renovada,
Uma imagem e uma ideia.
Tudo, preso na teia
De uma conversa que passa.
Passou.
E ficou só o canto da cigarra
E a brisa na minha pele.

jpv


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Ao de Leve

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Ao de Leve

Quando me tocaste
Assim, ao de leve,
Assim como quem tenteia e atreve,
Suspendeste minh’alma.
E por um fugaz segundo,
E breve,
Julguei ser tudo possível de novo.
Esse gesto inconsequente
Traz-me suspenso
Dos dias.
Traz-me perdido e ausente
De mim.
Mergulhado em sonhos e fantasias
Como quem renasce
E vive outra vez.
Como quem morre e se reúne
Como coisa que se não desune
Nem desliga
Do entusiasmo
E da volúpia.
Arranhaste-me a imaginação,
Deste culpa ao meu perdão,
Açúcar ao meu vinho ébrio,
Fogo à minha lenha…
E assim, como quem desenha
Ilusões e esperança
Tocaste ao de leve
E retomámos a dança
Da sedução.
Dois corpos vencidos,
Um do outro,
Jazem pelo chão…
Dos afetos.
Não foi fulgor,
Pequena chama acesa,
Suave e dócil empresa
A tentar-me os sentidos…

E como vieste,
Te fizeste distância
E frio
De um sorriso
Esvanecido.
De nós,
Só já existo eu
E a ideia de ti.
Tu foste viver
Outras vidas.
Eu…
Morri.
E nada disto é trágico
Nem doloroso.
Foi só uma chama,
Um roçar de pele
Em instante fugaz e breve.
A tua mão em mim
Tocando ao de leve.

jpv