Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De Rerum Natura

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De Rerum Natura

Eu não sou aos 47 o homem que queria ser aos 17.
E não há nisso mal algum, nada de errado. Só desilusão. Toda a que foi nascendo de meus gestos e toda aquela imensa desilusão que nasce em mim só por ver os outros. O Homem é o animal que mais me desilude. Aquele de quem espero menos. O meu cão dá-me mais motivos de esperança do que a generalidade dos homens. Creio, firmemente, que a Humanidade está condenada. Não há ninguém de que não tenhamos de nos defender. O Homem move-se, unica e exclusivamente, pelos seus próprios interesses. Mesquinhos e egotistas. E disfarça. E cria máscaras. E engana. E acredita que está bem assim. Há pouca nobreza de caráter e nenhuma pureza de alma. A Humanidade é um lodaçal. É o estrume apodrecido dos seus próprios gestos. A hipocrisia medra, viçosa, adubada pelos jogos de ludibriar e pelas efémeras e ilusórias conquistas. Os vitoriosos são, normalmente, os melhores neste jogo. Aqueles cujo caráter apodreceu há mais tempo. Os derrotados não aceitam as derrotas e consomem-se em retomas de pelejas perdidas e vinganças a quente e a frio e a morno. Para mim, há em cada gesto humano um motivo de suspeição.

Aos 17, eu queria salvar o mundo e queria-o porque era possível. Quanta ingenuidade! O mundo esteve sempre irremediavelmente condenado. Aos 17, eu tinha ideais e planos. Os homens corromperam-nos todos. Envolveram-nos na sua teia de jogos de interesses, serviram-se da minha energia e eu acabei desviando-me do que queria ser. Uma vida desperdiçada. Com crueldade. Passo a passo. Momento a momento. Batalha a batalha. E hoje consigo orgulhar-me do que sou, de algumas coisas que tenho comigo, no meu peito, na minha mente, mas admito, dolorosamente, que me desviei do meu próprio caminho. Eu não sou aos 47 o homem que queria ser aos 17.

jpv


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O Ofício da Memória – 3

oficio-da-memoria-3-logoO Ofício da Memória – 3 O Livro

Há uma altura das nossas vidas em que tudo parece estar relacionado com a escola. Quase como se ela fosse a fonte de toda a vida, o mar onde todos os rios de afetos vão desaguar. Esta história nasce na escola, vive na escola e adormece com a escola.

Era um miúdo bem disposto. Um tanto inconsciente. A inconsciência própria da idade. E queria poucas coisas naquela altura. Salvar o mundo, amar todas as mulheres e ser poeta. A descoberta das palavras e do poder delas traziam-no encantado. Deixou-se entusiasmar, até porque era de entusiasmos fáceis, com as palavras que a professora escolhera para apresentar aquele livro. Um livro sobre a Liberdade. E lá foi à procura do livro, carteira de cabedal no bolso com o B.I., uma nota de vinte escudos, um bilhete de elétrico e o cartão de leitor da Biblioteca Municipal. Como sempre fazia, passou as mãos no imenso balcão de madeira maciça a sentir-lhe o toque e o odor a lenha e a livros. Estendeu o cartão de leitor e o papelinho da requisição onde já ia escrita a quota do livro para que pudesse ser encontrado com facilidade. Muito requisitado devia ser o livro porque a senhora demorou poucos segundos a trazê-lo. Era pequeno, pintado de negro como a vida das pessoas nele, uma estrela de David em rosa forte a ocupar o centro da capa, o título e o autor. “O Judeu”. Bernardo Santareno.

Ainda bem que leu o livro todo. Se não o fizesse, esta história não teria acontecido. Gostava de ler na sala da biblioteca. Fazia-o sentir-se importante, como se tivesse acesso a um clube restrito de privilegiados, e gostava da sensação de ler um livro rodeado de livros antigos, amarelecidos pelo tempo e desgastados pelo uso. Até que foi surpreendido. Ia algures pelo meio do livro, e sempre há aquelas páginas que ficam em branco porque acabou um capítulo ou, neste caso, uma cena, um ato, e nessa página em branco alguém tinha escrito um poema. Ocupava toda a página. Estava escrito à mão, com uma caligrafia ímpar, ornada de voltas retorcidas a começar e a acabar as letras e, sendo complexa, havia nessa complexidade certa harmonia. Era belíssima.

Preocupou-se. Era um texto muito bem construído, mas perturbante. Falava do aprisionamento da alma, de lobos e unhas sangrentas e anunciava um fim. Um suicídio. Será que acontecera? Teria aquela alma perturbada entregado o livro à mesma senhora que lho dera a ele e partido a cumprir o destino que escrevera? Custou-lhe separar-se daquele texto. Não conseguiu. Decidiu fazer uma requisição domiciliária e saiu da biblioteca com “O Judeu” debaixo do braço. Versão aumentada com um poema que obliterara a luta e o destino do António José da Silva.

Trabalho de Grupo

Desde que me conheço, sei, por experiência, que tudo, ou quase tudo, seja bom ou mau, é culpa dos professores. Enfim, substitua-se culpa por responsabilidade e a versão fica mais intrigante e… polida. A professora queria um trabalho de grupo sobre “O Judeu” de Bernardo Santareno e teve a impertinência de pré-selecionar os grupos de trabalho. Como sempre, o moço de que aqui se fala estava entusiasmado e queria saber quem lhe calharia em sortes. Eram grupos de três ou quatro que começavam a dispor-se na sala com o burburinho animado de quem se prepara para trabalhar em conjunto. Foi isto no tempo em que uma aula com trabalho de grupo era diferente. Para seu espanto, a professora distribuiu-os todos até que restaram só eles. Mais ninguém. Só os dois. Ele nem tinha bem a certeza de que dois poderia ser um grupo. Um ajuntamento não era, por certo, desde que Salazar definira que para haver um eram precisas três ou mais pessoas. Era uma moça discreta. Participava pouco. Preferia o silêncio das palavras. Parecia ter uma maturidade superior à generalidade dos colegas. O cabelo farto a emoldurar a face oblonga donde emergiam uns olhos redondos e enormes, marejados de curiosidade e, descobriria mais tarde, atrevimento. Um semblante triste de onde despontava de quando em vez a luz de um sorriso. Não reparou de imediato noutros atributos. Seria ela a acordá-lo para eles. Chamava-se C. Começaram por reler o livro, pelo menos, as partes mais importantes. Ele trazia consigo há vários dias o exemplar da biblioteca e o seu misterioso poema de sangue e morte anunciada. Ela tinha fotocópias. Depois, discutiram as ideias. A rapariga inteligente e sensível por trás da máscara da colega tímida e contida começou a revelar-se. Era contundente nas palavras e agarrava-se às suas opiniões como se as não quisesse largar. E debateram um debate aceso e entusiasmado, discordante e concordante, e acertaram no caminho a dar ao trabalho. Quando decidiram escrever, ela puxou de uma caneta, começou a tomar notas e ele fez o que  nunca fizera antes na sua vida de estudante. Pediu para ir à casa de banho.

Revelações

Enquanto lavava a cara com água fria, vários pensamentos lhe cruzavam e baralhavam a mente. Seria impressão sua ou, efetivamente, a caligrafia da C era a do poema com lobos e desespero nas páginas intermédias de “O Judeu”? Se fosse, o que fazer com essa informação? Como agir? Dizer-lhe? Não lhe dizer? E, por fim, o que mais o perturbava era o significado daquela imensa coincidência. Tantas escolas na cidade, tantos livros na bilbioteca e nas livrarias, tantas turmas naquela escola, tantos alunos naquela turma… tinham de ser dois leitores da mesma biblioteca a quem calhou o mesmo exemplar, que andavam na mesma escola, ficaram na mesma turma e foram unidos pela professora num inusitado grupo de dois! Dois e um livro. Dois e um poema. Talvez, afinal de contas, fossem um ajuntamento.

-Essa letra é tua, certo? – Hã?! Sim, é. – Fazes sempre a mesma letra? – Sim faço. Avançamos nisto? – Claro. Mas preciso mostrar-te uma coisa. Foste tu que escreveste isto? – Fui. Estava num dia mau. – Isto é muito bom. Escreves muito bem. – Achas? – Tenho a certeza. – Eu não acho. – É triste… – Pois… – Pensaste mesmo… – Estou sempre a pensar. Não é que o vá fazer, mas penso nisso. A escrita é um desabafo.

O trabalho fez-se. Apresentou-se, entregou-se, não me lembro da nota que tivemos nele. Lembro-me do olhar dela, sorrindo na minha direção enquanto eu o apresentava. E lembro-me de que a professora também sorria. Lembro-me que continuámos a conversar e a debater ideias. Lembro-me de que gastávamos todo o tempo livre nisso. E lembro-me, neste delicioso ofício da memória, de que não acordei para ela de outra forma. Foi ela que fez a gentileza de despertar-me. À bruta! Talvez por eu ter o sono pesado.

O A e a R andavam a acercar-se um do outro. Devagarinho. E convidaram-me para um baile temático numa paróquia da cidade. Perdoai-nos, Senhor, se for pecado, o que estamos prestes a fazer esta noite. Eu fui. E quando lá cheguei, encontrei a C, sentada a um canto, mais entediada que as coisas entediadas. Soube depois que ela estava ali para fazer o jeito à avó. Assim que pude, despachei o A e a R, ou foram eles que me despacharam a mim, já não sei, e fui ter com ela. Pedi-lhe para dançar. Era o que se fazia naquele tempo, mas em abono da verdade, nenhum de nós fazia muita justiça ao verbo. Estávamos às voltas na pista, agarrados um ao outro, mais conversando do que dançando, quando ela perguntou sem mais avisos nem rodeios:

– JP, tu és potente?

O moço ficou ali parado, quase engasgado, engolindo em seco e pensando se a pergunta teria alguma coisa a ver com carros. Era óbvio que não tinha. Naquele caso, o motor era outro. E sentiu-se dividido entre a obrigatoriedade máscula de dizer que sim e a honestidade de não saber a resposta para aquela pergunta. Sabia lá se era potente! Sabia lá o que era ser potente! Nunca ninguém se queixara, mas não sabia, sequer, que isso se media ou que a questão podia colocar-se assim. E também não sabia se nunca ninguém se queixara por satisfação ou pudor crítico. E, isto lembro com precisão, a resposta saiu-lhe o mais honesta possível sem que, contudo, criasse barreiras ao que parecia anunciar-se.

– Quer dizer, não sou nenhum super-homem, mas cumpro a minha parte. – Está bem, mas quantas?

Ele refugiara-se numa formulação genérica, à laia de um descritor impreciso de boas práticas, mas ela avançava pelos objetivos específicos dentro com a mania da mensurabilidade. Não ficou sem resposta.

– Sei lá, duas, três… também depende da outra pessoa.

Nunca soube o que a C pensou da resposta, mas lembro com clareza o que ela disse a seguir:

– Vamos embora daqui? – Vamos.

E não fomos para longe. Os beijos apaixonados e as carícias voluptuosas começaram no jardim atrás da igreja, prolongaram-se calçada acima e vieram a fazer-se mais confortáveis no que restava de um mosteiro abandonado. Foi toda uma descoberta, todo um desvendar, toda uma volúpia e uma sedução. Não havia dúvidas, aquela pessoa desfolhava-o a uma velocidade impressionante e ensinava-o a ser melhor do que sabia. E ele fez-se generoso na entrega e na investidura e perdeu o conto às contas que planeara fazer.

– Amanhã é domingo, a minha mãe não está. Queres ir passar a tarde lá a casa?

Ele andava há muito a preparar-se para o Académica-Sporting do dia seguinte e homem que é adolescente não falta a esses compromissos. Demorou um segundo a decidir-se.

– Quero. Claro que sim.

Quando se despediram, ele voltou ao salão de baile, encontrou o A, estendeu-lhe o cartão de sócio da Briosa e disse, Toma, vai tu ver o jogo! Então, já não vais? Não, surgiu uma coisa mais interessante. O A era parecido na fisionomia consigo e tinha-lhe pedido o cartão de sócio para ir ver o jogo sem pagar. Ficou com um sorriso nos lábios. Não sei o resultado. Sei que disse em casa que ia ao jogo, não porque costumasse mentir, só para evitar perguntas, e quando regressei dos meus jogos com a C perguntei o resultado final a alguém na rua não fosse a pergunta ser-me atirada em casa…

Foi uma das mais memoráveis tardes da minha vida. Todo um dar, todo um receber, toda uma diversão e um despudor. Ter o tempo todo do mundo para descobrir aquele mundo todo. Aconteceram outras tardes, manhãs, noites, conforme a oportunidade se nos apresentava. Às vezes conversávamos, vasculhávamos as gavetas da mãe da C à procura de anticoncetivos, quaisquer que fossem, e usávamos tudo. E olhávamo-nos nos olhos. E ríamo-nos. Lembro-me das manhãs tórridas de terça-feira, cada segundo contava, cada loucura parecia querer estender-se para além do tempo possível. E eu ficava até ao limite dos segundos necessários para estar a horas na aula de Grego, pelas catorze. E chegava suado dela e do elétrico, atrasado, claro, e sentava-me e cheirava a prazer e a sexo e a minha mente não entrava comigo. O professor olhava-me curioso assim como quem se pergunta, Mas donde é que este saiu? E só eu sabia de onde tinha saído… e era para lá que queria regressar o quanto antes.

Nunca poderei agradecer o suficiente à C por aquele abrir de olhos, por aquela passagem do missionarismo à descoberta plena do corpo e do prazer. Um dia levei comigo um objeto dela. Era um skate. Meses mais tarde devolvi-lho. Beijámo-nos. Dissemos adeus como tínhamos dito olá. Vi a C na faculdade. Poucas vezes. Depois disso, nunca mais. E, contudo, a memória desses dias une para sempre o menino à rapariga dos olhos grandes.

A Troca

Chegou o tempo da C fazer anos. Claro que queria dar-lhe um presente bonito e com significado. Fazíamos isso, naquele tempo, construíamos os presentes, mais do que os comprávamos. Fui à Livraria 115, comprei “O Judeu” de Bernardo Santareno, escrevi uma carta à Biblioteca Municipal dizendo que pretendia trocar um livro velho por um novo e prontifiquei-me a oferecer o novo. A troca foi aceite com um obrigado e o poema voltou à sua origem, à sua criadora. Reuniu-se com a poetisa. Ela desembrulhou o livro, fez um sorriso, agradeceu-me e beijou-me nos lábios. Às vezes, tenho a sensação de ainda ver esse sorriso a esboçar-se sob o olhar redondo e grande onde uma lágrima viera espreitar. Às vezes, neste complexo e conturbado ofício da memória, já não sei bem o que aconteceu e o que fui eu que inventei, mas sei sempre que a memória da C é quente e acolhedora e repleta de gratidão e revelações.

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Crónicas de Maledicência – As 50 Parvoíces de João Paulo Videira

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Crónicas de Maledicência – As 50 Parvoíces de João Paulo Videira

Levantei-me cedo, passei pelo duche e depois pelo espelho, olhei as curvas esculturais do meu corpo. Aqueles vinte quilos a mais vinham mesmo a calhar. Davam-me volume. Lavei as mãos, fiz xi-xi e saí para a rua com um olhar lânguido para o indicador de combustível. O tanque, tal como eu, estava cheio.

Fui ao ‘Builders’ da Matola. Comprei um berbequim de 1200 watts, uma serra manual, 5 metros de corda, uma catana, uma caixa de parafusos de 12 milímetros e outra de buchas, dois ganchos tipo arnês, um tubo de silicone, um par de luvas de pedreiro e um martelo. Regressei em excesso de velocidade, tinha um enchumaço entre pernas, levei a mão ao dito, era o porta-chaves. Cheguei a casa, dirigi-me ao quarto, ela esperava-me com seu corpo de mulher de vinte e quatro anos vezes dois, estava húmido e brilhante, lá fora o sol brilhava, 38 graus centígrados e 87% de humidade relativa do ar. A conversa não poderia ter sido mais explícita:

– Então, vens remodelar o quarto?
– Não. Venho fazer amor à moda de Grey.
– ‘Tás parvo!

E bazou.

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Venho falar-vos do que não conheço e também do que conheço. Não li o livro. Não conheço. Ainda não vi o filme. Ainda não conheço. Tenho lido as reações pró e contra e não posso ficar-lhes indiferente. Conheço. Se é verdade que aquele tipo de literatura não me atrai, não me cativa, tenho de admitir que já teve duas virtudes. Pôr toda a gente a falar de sexo sado-masoquista e bondage e nossa sociedade precisava disto pois já que temos de ser masoquistas por via da crise, ao menos que o sejamos na cama. A outra virtude, ao que dizem, foi ter dado a conhecer ao mundo a filha do Don Jonhson. Ora, eu devo ser um tipo antiquado, mas assim muito antiquado, mesmo mais antiquado que o Marquês de Sade. Eu explico. O sexo, na minha mente retrógrada, tem a ver com amor e com prazer. Muito prazer. Ora, tanto quanto me consegui informar, o sado-masoquismo o o bondage têm a ver com dor. Seja lá porque razão descabida for, o meu cérebro tem dificuldade em associar a dor ao prazer. Já, por outro lado, o meu cérebro associa o sexo a libertação o que, quer queiramos, quer não, não combina muito bem com algemas. Da última vez que verifiquei, as algemas eram umas cenas metálicas que serviam para prender criminosos. Mais uma vez, há uma ligação que tenho dificuldade em fazer: associar o sexo ao encarceramento. Então mas somos amantes ou criminosos? O que me dá Vigor não é a companheira com as mãos amarradas, é a companheira com as mãos livres para… sei lá, fazer coisas!

Se eu não percebo porque é que? Percebo. Mas temo as consequências. Imaginemos que um casal vai para um hotel, ela amarra-o à cama com as algemas e na hora de o libertar aquilo encrava ou a chave parte. Tomba uma sombra de Grey sobre aquele casal. É que a próxima vez que estiverem juntos, vai ser quando ela regressar da rua com um serralheiro. Mas há mais. Estou mesmo a ver escoriações por via de cordas super apertadas, chicotadas que foram além da força, Ups, querida, desculpa… vou buscar um pouco de algodão e álcool para desinfetarmos isso, chapadões que eram para ser na face e acertaram na vista e mesmo, sabe-se lá, a metade do chicote que ficou partida e presa não sei onde, mas onde não chega muita luz e coisas do género. As casas de artigos de construção e carnaval vão esfregando as mãos de contentes, mas a malta do Sistema Nacional de Saúde anda preocupada. Já não bastavam as Urgências cheias de gente a desfalecer de gripe e outras doenças sérias, quanto mais agora terem de ajudar casais que resolveram virar-se à bordoada uns aos outros durante o ato. E com adereços! Ah Xôtor, o meu marido estava a mudar uma lâmpada, desequilibrou-se e caiu sentado em cima da garrafa de cerveja, veja lá o Xotôr o azar!

Mas há mais… nem tudo é negativo. Até aqui, os cônjuges que gostavam de uns filmes pornográficos, andavam à socapa uns dos outros em pesquisas na Internet para as teses de mestrado e doutoramento. Agora, já podem dizer que estavam a ver o clip promocional das “Cinquenta sombras de Grey” e, bem vistas as coisas, podem fazer a investigação juntos e coiso e tal, mas deixem-se de brincadeiras com adereços.

Se as relações entre as pessoas, no plano horizontal, podem ficar aborrecidas? Podem. Mas não é preciso arranjar escoriações para que as mesmas recuperem o interesse. Um jantar à luz trémula e amarelecida das velas, umas pétalas de rosa na cama, uma musiquinha de fundo, um fim de semana em que se entregam os crianços à avó e se vai a um SPA ou a um hotel super romântico. Caro? Há quem ache isto caro? Então experimentem pagar a um serralheiro para desencravar umas algemas e fingir que nunca o fez, experimentem perguntar quanto é que custa encontrar a metade do chicote ou os restos da garrafa de cerveja… isso é que é caro.

E agora, se me permitem, vou-me daqui que a patroa aguarda-me, plena de sensualidade. Brrrrruuuuiiiiiimmmm, brrrrruuuuiiiiimmmm… (tentativa de reproduzir o som de um berbequim)

jpv

 


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Citação do Pó

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“Por mais que nos amemos e nos lavemos os pés e nos purifiquemos, há sempre um pó que se agarra à pele, se cola à carne, às roupas e nos mancha a existência.”

João Paulo Videira
In “A Paixão de Madalena”
a publicar brevemente.

 


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Modo de Voo

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Longe.
Distante.
Dias e horas me separam
Desse abraço que anseio.
Queria já o momento
Saltando o que fica pelo meio.

Sem tecnologias,
Nem crédito, nem saldo,
Nem luz que anuncia
Ilusória presença.
Só tu e eu
E a deliciosa sentença
De um abraço,
Queimando o tempo
Suprimindo o espaço.

Falta ainda o asfalto
Cá em baixo,
E aquele outro lá no alto,
Impreciso e etéreo trilho,
Que começa no meu peito
E termina junto a ti, filho!

jpv


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A Paixão de Madalena – Capítulos 33, 34 e 35 (Excertos)

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Esta publicação apresenta excertos dos capítulos 33, 34 e 35 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve. Estes são os três últimos capítulos do livro. Até breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

33. Patrocínio Paixão fora sempre uma alma boa e na sua mente os factos, os problemas e as situações eram processados um de cada vez na sequência que entendesse ser a mais lógica. E assim se percebe que, quando fez amor com Maria de Jesus, estava só amando a mulher da sua vida, não estava traindo seu irmão porque não seria capaz dessa maldade. E por isso quis conversar com ele depois, e por isso sofreu a sua violência sem queixar-se e depois o seu desdém e a sua distância. Patrocínio Paixão acredita que todas as pessoas são boas, em particular, Manuel Paixão que lhe ensinou a ir aos ninhos, a armar costilos, a pescar à bóia e ao fundo, a andar de bicicleta e de mota e, indo mais longe no tempo, lembra-se, até, de ter sido ele quem lhe ensinou a dar um laço nos atacadores.

34. Mariana e Jacob não nasceram irmãos, mas foram criados como irmãos, foram amados como irmãos e cresceram como irmãos. Não se estranhou, por isso, que, quando veio a ser mãe, Mariana tivesse escolhido Jacob para padrinho de batismo da bebé a que chamara Dulce Felício. O apelido era do pai e o nome fora escolhido porque aprendera na escola que Dulce vinha do latim e queria dizer doce. Ora, Mariana queria a filha com a doçura de caráter do irmão, Jacob, agora seu padrinho.

35. É isto um jardim. Ouve-se o zumbido das cigarras sob o calor de julho e a água correndo em carreiros por entre as árvores que dão a sombra onde ela se senta. Criara o hábito de contar-lhe histórias no jardim. Fadas, princesas, príncipes a cavalo, reis autoritários e o amor que tudo vence. Há pouco, a doce menina, Dulce chamada, chegou-se ao pé dela e pediu:

– Vovó, contas-me uma história?
– Claro, minha querida. Pequena ou grande?

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[O presente texto constitui um excerto dos Capítulos 33, 34 e 35 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 32 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 32 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

 A PAIXÃO DE MADALENA

LIVRO V – FIAT LUX

32. Albertina foi mãe duas vezes. E duas vezes teve as alegrias de ser mãe e duas vezes as tristezas da maternidade. Tentou ser livre e educar na liberdade. Para a liberdade. Conseguiu, pode dizer-se, mas a liberdade tem o vicioso costume de fazer-se pagar. Caro. Educou no amor e para o amor e trouxe-lhe isso fartura de afetos, de alegrias e de desilusões e tristezas. Fez sempre aquilo em que acreditou e foi livre sempre que a vida a deixou.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 32 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 31 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 31 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

31. Maria de Jesus sofreu sempre. Até com o regresso da filha. A solidão e o desespero foram suas principais maleitas. Tivera um momento de felicidade com Patrocínio. Um momento de entrega livre e apaixonada e sacrificara toda a sua vida por esse momento. No início, logo após a partida de Albertina com as meninas, Manuel Paixão fora muito rigoroso. Fechou-a em casa, não permitia que saísse, exceto um domingo por mês para se ir confessar pela manhã e depois assistir à missa. Ele próprio se encarregava de a insultar e de a maldizer em público durante a semana e depois, ao fim de semana, quando ela saía vestida de negro, de luto por si mesma e pela vida que lhe coubera em sortes, com um imenso véu a cobrir-lhe o rosto, tinha de ouvir os comentários despudorados que o marido incentivara ao longo da semana.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 31 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]

 


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A Paixão de Madalena – Capítulo 30 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 30 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

30. Marcelle e Mark tornaram-se presenças distantes, os seus contactos eram escritos, por e-mail. Não se escreviam com frequência, em pequenas mensagens, a contar episódios da sua vida, como correra isto ou aquilo. Escreviam-se pouco, três ou quatro vezes por ano, mas quando o faziam, eram longas missivas carregadas de ilusões, de desilusões, de aventuras amorosas, de desventuras, de projetos profissionais, de emoções e saudades. Continuaram a comunicar-se como se estivessem juntos de quando em vez e continuaram até a fazer planos para coisas que haveriam de fazer quando estivessem uns com os outros, mas a verdade é que não se viam desde Joanesburgo. Marcelle entusiasmou-se com a separação de Madalena e Pablo Sentido, disse que a visitaria na aldeia. Precisava vê-la, estar com ela, a viagem do Canadá a Portugal seria baixo preço a pagar por estarem juntas. E veio mesmo. E esteve uma semana com Madalena. O suficiente para a amar com volúpia e desejo redobrado e o suficiente para aperceber-se de que, naquela fase, não havia espaço para si na vida de Madalena.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 30 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 29 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 29 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

29. Manuel Paixão baixou ao hospital em situação de emergência e risco de vida. O homem secara todo o terreno dos afetos à sua volta e era, por isso, uma criatura isolada e só. O pai, Toino Madeireiro, falecera debaixo de um trator que se virara quando ele andava a lavrar terrenos e deixou a Manuel o negócio das madeiras. Era tudo o que tinha. O negócio. A mãe morrera velhinha e entrevada a balbuciar umas palavras que ninguém entendia, a não ser Maria de Jesus, e que diziam qualquer coisa como Faz as pazes com o teu irmão.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 29 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]