Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Variáveis Constantes

A constante destas variáveis é que fazemos anos juntos há 28 anos. O resto, temos reinventado.

Esta aventura africana tem sido uma reinvenção constante dentro da reinvenção genérica que ela constitui. E foi assim que vieste a ter frangipanis à janela como no livro do escritor e estrelícias  e hibiscos… flores de plantar, portanto. Como tu gostas. E foi assim que o teu bolo de anos foi um Bolo Rei num dia de 25ºC, muito sol, trovoada pelas 18h, Primavera em novembro e tu a dizeres, ‘Este ano vai um verão seco…’ e houve champanhe. Sul-africano, com o rótulo em português!

Os portugueses a levar Bolo Rei prenhe de histórias por esse mundo…

Tchim, tchim!
Parabéns!

jpv

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Excelente Ideia

Concordamos com a homenagem e saudamos o bom gosto do produto final…


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Citação de Teor Otorrinoftalmológico

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“Não me posso esquecer dos óculos, senão não oiço os meus alunos!”

APC


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Crónicas de Maledicência – O Skype e Eu

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Crónicas de Maledicência – O Skype e Eu

Há uns tempos escrevi uma crónica de maledicência intitulada “O Facebook e Eu”. Hoje é a vez do Skype.

Ainda sou do tempo em que o Skype só existia na ficção científica. Por essa altura, a existência de um telefone através do qual fosse possível ver quem estava do outro lado da linha era uma deliciosa, mas remota possibilidade.

Hoje é real e une e aproxima famílias e amigos por todo o mundo. Atenua ausências, ilude presenças. As pessoas percorrem as casas com o portátil na mão para mostrar como vivem, passam os dedos pelo ecrã simulando que tocam quem está do lado de lá, mostram os animais domésticos, o que estão a comer, o que trazem vestido, e olham-se como se estivessem a ver-se… mas não estão!

Eu não gosto do Skype. Uso-o mais para não desiludir os meus familiares do que por gostar da experiência. Eu sinto as mesmas profundas saudades que os outros, as mesmas dores de separação, as mesmas dúvidas… mas o Skype não me atenua nada disso, pelo contrário. E é por isso que não gosto dele.

O Skype não me atenua a distância, torna-ma mais vívida. O Skype não me cria a sensação de que estive com as pessoas, aviva-me a distância que me separa delas. O Skype não me cria a ilusão de que estive com os familiares, consciencializa-me o quão longe estou deles. O Skype torna-me mais pesado cada dia que falta até ao próximo reencontro. O Skype incomoda-me como me incomoda saber que não há magia, mas ilusionismo. Não é para mim uma quase possibilidade, é uma impossibilidade, não é para mim uma quase verdade, é uma mentira enganosa.

Sim, por vezes, lá de longe a longe, gosto de rever a família e trocar umas palavras como quem mata saudades. Lá de longe a longe… Tirando isso, prefiro saber que a família está bem e manter essa distância para revê-los ao vivo quando for possível, do que me enganar com a falsa proximidade digital. Prefiro três linhas escritas. Um telefonema rápido. Aquilo de ver as pessoas, ali mesmo, ao alcance da mão e não poder tocar-lhes é como se fosse uma promessa de vida quebrada à partida, um beco sem saída onde nos metemos sabendo para onde vamos, um Sísifo, um Tântalo…

O Skype magoa-me e incomoda-me. Lembra-me que algo está errado. Fora do sítio. Peça perdida de um puzzle inacabado. Mas isto sou só eu… um tipo esquisito.

jpv

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Fotos de Família

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Crónicas de Maledicência – Daqui, eu vejo um país…

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Crónicas de Maledicência – Daqui, eu vejo um país…

Daqui, eu vejo um país…
Preparado para o ébola, mas incapaz de resistir a um surto de legionella, nem tão pouco a perceber a sua origem.
[Nós, emigrantes, por aqui mais comummente designados de expatriados, não só temos uma visão distante da nação, como, mais do que por vezes os nossos irmãos pensam, sofremos na pele as consequências do que se passa em Portugal. Seja porque sofremos consequências diretas, seja porque as sofremos de forma indireta, nomeadamente, pela confrontação das misérias da nação. Viver no estrangeiro não é estar mais longe. Bem pelo contrário. É ser um símbolo, alvo fácil, de tudo o que se diz e faz em Portugal. Desde os resultados do futebol, às politiquices caseiras ou às opções e atitudes de política externa. Recentemente, ouvimos com espantado agrado que Portugal estava preparado para um surto de ébola, caso o mesmo viesse a registar-se. Afinal, dizem-nos por aqui, viver na África subdesenvolvida é mais seguro. A água até pode nem ser potável, mas a população sabe! A incapacidade para lidar com o fenómeno legionella deixa-nos preocupados com os nossos familiares e apreensivos em relação às verdadeiras capacidades do país para reagir ao que quer que seja.]

Daqui, eu vejo um país…
Decente e civilizado, mas a transformar a casa da democracia num circo sem dignidade.
[A chocarreira pouco digna em que se transformou a Assembleia da República de que foi protagonista o Dr. Pires de Lima, infelizmente, não é um fenómeno próprio de um partido. É uma recorrência transpartidária que, de quando em vez, envergonha os portugueses um pouco por todo o mundo. A Assembleia da República não é um bordel, não é um café, não é uma discoteca. É a casa onde se asseguram os nossos direitos e definem os nossos destinos. Nem se coloca a questão de ter razão ou não. Perdeu-a de imediato. Não pode habitar a AR quem age assim, seja de que partido for.]

Daqui, eu vejo um país…
Muito democrático, mas onde a Assembleia da República se preocupa mais com o Orçamento da Câmara de Lisboa do que com o Orçamento Geral do Estado.
[A discussão do Orçamento da Câmara de Lisboa, tenha a importância que tiver, emane de quem emanar, nomeadamente, no caso presente, do homem que ensombra a continuidade do atual Governo, não pode sobrepor-se àquilo que nós, portugueses, realmente precisamos: que se discuta e esclareça o Orçamento Geral do Estado. Quem está de fora pensa: ‘O Costa já ganhou. Até consegue ofuscar o OGE com o Orçamento da Câmara de Lisboa!’, mas a verdade é que o facto é preocupante porque é um sinal inequívoco de que as políticas se exercem em nome da continuidade do poder e não pelo debate e aplicação das ideias.]

Daqui, eu vejo um país…
Que anuncia, ao mesmo tempo, como se fossem fenómenos desligados, a diminuição da taxa de desemprego e o aumento do abandono dos seus jovens para o estrangeiro.
[Apareceu uma figura a provar com matemáticas diversas que a Taxa de Desemprego tinha baixado. Aceito sem discutir. Não sou, nunca fui, bom a Matemática. Mas penso. E não ouvi nesse arrazoado falar dos milhares de jovens que não estão em Portugal porque não conseguem lá viver. Esses, quer queiramos, quer não, são desempregados do nosso país. Ninguém abandona a Pátria como primeira opção de vida. Abandona-se a Pátria quando a vida se torna, nela, insuportável, sem esperança, prenhe de barreiras e cega de oportunidades. E essa é a mais grave e doentia forma de desemprego. É aí que habita o cancro. Passar por cima desses números, é ignorar os sacrifícios dos que partem com a esperança de um dia voltar. Essa esperança tombou pesada e teima em não reerguer-se.]

Daqui, eu vejo um país…
Com excelentes condições para se viver, mas onde se não consegue viver.
[Sempre que os portugueses expatriados comparam Portugal com qualquer outro país, nomeadamente, aquele em que estão a viver, a nossa terra sai a ganhar. É sempre o melhor sítio para se viver, é sempre o local onde tudo é melhor. E é! Mas já vamos evitando falar nisso porque, não raro, surge a pergunta, ‘Então porque é que não está lá?’ O irónico é que ninguém percebe a resposta ‘Porque não posso’. A verdade, é que Portugal tornou-se tão evoluído, os seus equipamentos sociais são tão bons, as condições de vida são tão fantásticas, que o país deixou de estar ao alcance do português comum. E nasce aqui o paradoxo social do ‘País demasiado desenvolvido”. O país são as pessoas, antes de mais. E as pessoas ou sofrem imenso por estar em Portugal, ou não conseguem lá estar. Depois há os outros, aqueles para quem o Paraíso foi erguido. Mas esses são um minoritário grupo de privilegiados…]

Daqui, eu vejo um país…
Com excelentes trabalhadores, mas cujo mérito é sempre reconhecido no estrangeiro.
[A malta aqui até já se ri. E gozam connosco! Sempre que um português tem um sucesso estrondoso, sempre que o seu mérito é social e profissionalmente reconhecido, isso acontece fora de Portugal. Das duas uma, ou os portugueses só têm comportamentos de excelência fora da terra natal, ou os portugueses de excelência estão todos fora do país, ou o país não vê e não reconhece o mérito dos seus cidadãos. É um penoso motivo de orgulho ler as notícias de grande sucesso dos portugueses e constatar que ou são notícias de reconhecimento de terra aliena, ou são notícias de reconhecimento em terra aliena.]

Daqui, eu vejo um país…
Muito preocupado com o estado da Nação, mas onde as casas políticas se digladiam pelo poder através do insulto pessoal, sem debate real de ideias e onde a tal Nação é preterida em nome de jogos de interesses.
[Quando as situações de crise se agravam, seria de esperar uma espécie de toque de recolher armas e trabalhar em prol de um bem maior, o estado da Nação. Não acontece. A primazia é invariavelmente a da divisão, a procura, antes de mais, do que divide os responsáveis pelo país e não aquilo que os deveria unir. Não há inocentes. O primeiro que se auto-proclamar inocente constitui-se, ato contínuo, culpado. Quem está de longe, não de fora, olha com desespero e incredulidade para as opções discursivas, os insultos, as picardias e a confrangedora falta de soluções que os políticos apresentam.]

Daqui, eu vejo um país…
Preocupado, tão preocupado, que os reality shows ganham nas sondagens logo seguidos das transmissões de futebol.
[Ou é o Sporting que perde, ou é o Porto que empata, ou é o Jesus que dá uma entrevista, ou são as diversas Casas com poucos segredos, ou são as tardes da Maria e as maratonas televisivas em que é sempre possível fazer fortuna com uma simples SMS, tudo isso invade as televisões e as notícias cibernéticas. Quando se tenta fugir a essas rotinas, embate-se no sensacionalismo vazio do homem que se suicidou com dois tiros de caçadeira e anda a monte! Cultura… Educação do gosto… O primado da qualidade na produção, isso são coisas raríssimas. Quase parece que alguém anda a entreter alguém… Uma coisa é certa, e disso não nos podemos queixar, todos sabemos em tempo útil e atualizado, como vai a vida emocional, gastronómica e a saúde física do CR7. Mai nada.]

Daqui, eu vejo um país…
E o que vejo é-me livremente oferecido pela televisão… ao longe. Imaginem, se olhasse de perto…
[Olhar de longe não é ver menos, mas, admito, pode falhar-nos o pormenor. O mais grave, penso, é que nós, portugueses, não sabemos da missa nem a metade. O que nos chega é escrutinado, selecionado, tratado e apresentado, na maior parte dos casos, já com os juízos de valor construídos. Aqui, longe, mora a preocupação e a impotência. O desespero. E mora, também, a certeza de que a verdade nos é servida às fatias, só aquelas que conseguimos engolir e pagar, à vez, e depois surgem outras, e outras, e outras, e acabamos a perguntar-nos, todos, porque pensamos nos nossos filhos e nos nossos netos, ‘Mas isto não tem fim’? É preciso que estas trevas, é preciso que este tolhimento tenham fim. É preciso que os nossos descendentes herdem um pouco mais do que esta trapalhada sócio-económico-política em que se transformou um país que em tempos valeu a pena. Olhamos em volta e não vemos as almas grandes. As maiores. E somos portugueses… todos…]

jpv


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A Paixão de Madalena – Capítulo 24 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 24 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA

LIVRO IV – ASCENÇÃO E QUEDA

24. Dizem que a noite africana esconde mais mistérios e mais perigos do que qualquer outra. Talvez por isso, encostadas à parede, por baixo da janela que estavam prestes a abrir, as gémeas conseguiam ouvir o coração uma da outra pulsar de emoção. Viraram-se as duas, sincronizadas, empurraram a janela de guilhotina para cima, colocaram a colher de pau a impedir que descesse e esgueiraram-se para o quintal. Era um espaço enorme, em chão térreo, tinha no centro uma mangueira tão grande que a copa cobria todo o quintal. Havia algumas mangas pelo chão, caídas de maduras e os morcegos razavam por cima das suas cabeças. Passaram para o lado de lá do tronco onde estava encostada uma pá. Abriram uma pequena cova, colocaram lá dentro folhas secas e pequenos ramos, atearam o lume com fósforos e abriu-se um clarão amarelo sob a imensa copa e o céu estrelado dos arredores de Nairobi. Tinham uma empregada queniana, alta, com o cabelo a cair-lhe pelas costas num cacho de tranças. A mulher, diziam, era mais antiga que o tempo, mais velha que a morte. Chamava-se Afrika e tinha-lhes ensinado o ritmo e as palavras do canto da união das almas. E advertira-as que o canto só por si era ineficaz, seria fundamental que as almas a unir para todo o sempre em qualquer que fosse o universo, trocassem sangue durante o ritual.

———————————- jpv ———————————-

[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 24 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]

 


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Citação da Loucura Partilhada

empinocada

Imagem que aparece no Google quando se faz uma busca por “empinocada”.

Quando o cansaço leva à loucura:

“E ela, toda empinocada, olhou de soslaio, lançou a melena para o lado e com aquele olhar que arrepia a espinha disse uma pequena falsa verdade…”

jm/jpv


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Back To Life

Nascer do Sol em Maputo

Nascer do Sol visto da nova habitação às 5:05h da manhã.

Caros Amigos e Leitores,

Depois de dezasseis dias sem publicações, uma eternidade(!), cá estamos de volta à vossa companhia. Claro que trazemos muitas histórias.

Já experimentaram fazer uma mudança em África? Nós já! Foi agora. Daí a ausência. Traquitanas às costas e mudámo-nos do centro da cidade de Maputo para os seus campesinos arredores. Um outro espaço, um outro sossego. Claro que levou o seu tempo até restabelecer comunicações e a falta de Internet bem como a exigência das tarefas de mudança e manutenção têm-nos mantido afastados da escrita.

Pelo meio, conhecemos algumas personagens bem interessantes e vivemos uns quantos episódios deliciosos. Claro que daremos fé de tudo!

Para já, só o regresso ao vosso contacto.

Até breve!
jpv


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A Paixão de Madalena – Capítulo 23 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 23 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA

LIVRO IV – ASCENÇÃO E QUEDA

23. Albertina nunca duvidou de que conseguiria criá-las. Mais dificuldade, menos dificuldade, a medida do amor que lhes tinha era a garantia do seu sucesso. Ainda a caminho de Lisboa tomou algumas decisões que são as viagens boas conselheiras, melhores, ainda, que os travesseiros, definiu as linhas mestras da educação das suas netas, coisas que aprendera com a sua própria experiência. Seriam educadas em liberdade e no mais absoluto respeito por esse valor. Seriam educadas para a solidariedade, a compaixão, a entre-ajuda. E seriam educadas na aceitação da diferença, na multiculturalidade. Queria-as longe do pensamento mesquinho, preconceituoso e retrógrado da aldeia que as vira nascer. Seriam mulheres do Mundo, aptas a defender-se, a defender a sua liberdade e capazes de aceitar o outro e a reconhecê-lo como um igual. Tudo o resto seriam pormenores circunstanciais e gravitantes destes pêndulos do pensamento e da ação. E, no dia a dia, nas pequenas coisas que nos ajudam a crescer, nas decisões que ninguém nota, mas nos fortalecem a confiança, ensinou-as a serem cúmplices, inseparavelmente amigas, inigualavelmente unidas.

———————————- jpv ———————————-

[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 23 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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Crónicas de África – Roteiro Gastronómico de Maputo (1)

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Crónicas de África – Roteiro Gastronómico de Maputo (1)

Maputo, 13 de outubro de 2014

Precisei de tomar banho. Às vezes, lá muito de vez em quando, acontece-me. A caminho da banheira, passei pela balança e assim que vi o número escarrapachado no visor, a pergunta estalou-me na cabeça como uma bomba:

– Mas como é que isto aconteceu?!

Foi ao tentar elaborar uma resposta para aquela pergunta que esta crónica me surgiu. Desde já aviso que isto não pretende ser um roteiro exaustivo, nem sequer pretendo aconselhar ninguém a ir a lado nenhum, nem tenho comissões, nem sou gastrónomo, nem fiscal. Gosto de comer, descansado, em boa companhia, e gosto das memórias que alguns locais me semeiam quando lá como. Ou seja, mais do que um roteiro, é um caderninho de boas memórias gastronómicas. Estou no meu terceiro ano em Maputo e o meu palato lembra-se de algumas coisas que decidi partilhar.

Maputo tem muito mais oferta do que aquela que vou referir e sei que vou voltar para referir outros locais, daí ter numerado a crónica com um (1)… Em todo o caso, vou registar um ou dois pratos por restaurante, aqueles que me agradaram mais, caso tenha lá comido mais do que uma vez, ou aquele que me causou uma excelente impressão. Claro que vou fazer juízos de valor, mas esses decorrem somente das minhas impressões. Não são nenhuma espécie de lei. Mas isso, os leitores já sabiam.

Piri Piri

É talvez o restaurante mais concorrido da cidade, tem uma clientela muitíssimo variada. Muitobem situado no coração da cidade, com serviço rápido e simpático e algumas confusões nas contas, mas nada de preocupante. É que a azáfama é muita. A oferta é variada, mas isso não interessa para nada. No Piri Piri come-se frango de churrasco. Ponto final. Invariavelmente bem confecionado. Há mais. Sem qualquer espécie de problema, afirmo que é onde se bebe a melhor imperial em Maputo. Sempre bem gelada. Sempre bem viva. Sempre perfeita. Não me lembro de ter bebido uma imperial assim-assim no Piri Piri. A mousse de chocolate termina bem. Gasto médio por pessoa: 500 meticais.

Cristal

Nem dá para pensar duas vezes: caranguejo ao natural. Ponto. É claro que a açorda de garoupa e a massada do mesmo peixe são excelentes, mas na Cristal é caranguejo ao natural. Serviço simpático e célere. Para terminar, tem tarte Tatin fantástica. Gasto médio por pessoa: 650 meticais.

Zambi

O ambiente deste restaurante é muito agradável, sobretudo, se decidirmos comer na rua, sob as palmeiras. Da variada oferta, que não conheço, nem é preciso, elejo o prato que comi quando lá fui a primeira vez e que sempre repito quando lá volto. Arroz de pato. É ao sábado. Deve acompanhar com a soberba sangria de champanhe e maracujá. No fim, há um petit gateaux de chocolate com bola de gelado que é divinal. Gasto médio por pessoa: 900 meticais.

Costa do Sol

Dizem as vozes da cidade que o restaurante Costa do Sol já foi bom, que já não é o que era, etc e tal. Mas isso diz toda a gente em relação a tudo. A não perder a decoração interior. A não perder os camarões grelhados com batata frita e molho acre. Tem uma boa imperial. Serviço simpático e célere. Gasto médio por pessoa: 600 meticais.

Mimmos

É um daqueles restaurantes de comida pré-feita, uma espécie de franchising de pizzas e massas ao estilo italiano. A imperial deixa a desejar. Mas o macarrão de galinha assada é delicioso. Vale a pena. O serviço é invariavelmente lento. Gasto médio por pessoa: 450 meticais.

Kalus

Ainda que tenha zonas cobertas, a sala de jantar deste restaurante é, basicamente, num jardim, no centro do qual ficam enormes assadores de carne. E é essa a especialidade da casa. Carne grelhada na brasa. A dita carne compra-se ao balcão, ainda crua, e só depois de feita a aquisição do naco é que ele vai a cozinhar. Ideal para quem quer fazer uma churrascada sem ter de lavar a loiça. O serviço é lento, mas carne grelhada não promete outra coisa. Gasto médio por pessoa: 400 meticais.

Hotel Cardoso

Esqueçam lá a comida. Aquilo é bom por causa da paisagem. O restaurante fica numa varanda com vista sobranceira ao mar. O naco na pedra é excelente. Ambiente super agradável. Serviço muito bom. Gasto médio por pessoa: 1000 meticais.

Clube Marítimo

A localização é convidativa. A esplanada do restaurante fica encostada à rebentação do pacato Índico. O som do mar é a música de fundo e a brisa é inspiradora. Todas as massas italianas são muito boas, mas o que mais me atrai neste restaurante nem é um prato, é uma salada. A salada de marisco é simplesmente divinal. Servida fria, claro, tem um equilíbrio fantástico entre o sabor do marisco e o das ervas usadas para aromatizar o prato. Aconselha-se a caipirinha de maracujá para empurrar. Além disso, este restaurante tem a melhor sobremesa de Maputo. Bolo de mousse de chocolate. É de comer e chorar por mais. Gasto médio por pessoa: 650 meticais.

Mundos

Também é um restaurante de comida pré-preparada. O ambiente é muito agradável. A sala central tem uma cobertura típica de África, feita de ramos muito juntos e apertados, o que a torna fresca e agradável. A espetada de galinha com molho shutney é muito boa. Boa imperial. Gasto médio por pessoa: 500 meticais.

A Casa do Peixe

Aqui está outro restaurante onde o que mais me atrai não é um prato principal. Claro que o filete de garoupa grelhado é soberbo, mas ir à Casa do Peixe e não comer uma sopa rica do mar, é como ir a Roma e não ver o Papa. A sopa é perfeita. É um generoso creme de frutos do mar. Generoso na qualidade da confeção e na quantidade servida. O serviço é simpático e célere. Para fechar, tem um bolo de chocolate que vale bem a pena, na boca, as calorias que hão instalar-se mais abaixo. Gasto médio por pessoa: 1000 meticais.

Marginal

Dar um passeio pela marginal até à Costa do Sol, ir à praia, sentar nas esplanadas improvisadas e comer com as mãos um frango no churrasco com uma 2M a acompanhar não é má ideia. Pezinho na areia e batatas fritas daquelas enormes como a minha avó fazia. Gasto médio por pessoa: 200 meticais.

E pronto, para já é tudo. Agora tenho de ir dar uma corridinha… Um dia destes, conto mais!

jpv