Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de Maledicência

A Vida Depois do Pantoprazol

No meu caso, a vida depois do Pantoprazol começou de noite. Anunciou-se de mansinho, assim como uma indisposição ligeira, insinuou-se mais séria depois, sensação de empanturramento, digestão mal feita ou coisa que o valha. A meio da noite, quando era suposto dormir-se o justo sono dos justos, incendiou-se um fogo incontrolável no estômago, como se toda a Serra d’Aire e Candeeiros estivesse em labaredas no meu abdómen. Homem fiel aos masculinos propósitos e princípios de vida, pensei que ia ter um enfarte, que era melhor chamar uma ambulância, acordar os vizinhos, rezar a Deus, enfim, nada de mais, portanto. As passeatas a pé, no quarto, da janela da varanda para a casa de banho e regresso, incomodaram quem coabita comigo e, como se não fosse nada grave, olhai lá a desfaçatez, um gajo quase a morrer e ela nem os olhos abriu, estendeu-me um frasco redondo cheio de uns comprimidos de cor ocre, muito pequeninos, e disse, Toma um destes, vai fazer-te bem, isso foram as chamuças. É que é preciso lata! Nem abre os olhos, ignora o sofrimento atroz de um tipo, uma coisa de morrer, e ainda consegue fazer o diagnóstico e a prescrição! Mereceu, no mínimo, a dúvida:

– O que é isto?

– Pantoprazol.

– Pantó quê?

– Pantoprazol. É para a digestão.

– E como sabes que é da digestão?

– Foram as chamuças. Abusas, depois olha…

E fiquei, ali, desconfiado, a olhar aqueles comprimidinhos minúsculos. Quem padece de um fogo avassalador no estômago tem direito, pelo menos, a comprimidos para homem macho, coisa grande que se veja e custe a engolir, ou então uma injeção qualquer para um gajo sobreviver.

– Isto chega?

– Não tomes o frasco todo! Isso é só um!

Tomei. Poucos minutos volvidos, já não estava para ter um enfarte nem ia morrer tão cedo. Aquilo aliviou com eficácia. O nome é que é o caraças para um gajo se lembrar dele! Prantó quê? Também, para que é que havia de saber o nome daquilo? É o tipo de coisa que um gajo toma uma vez na vida.

Fosse por sugestão, por vingança dos comprimidos por não me lembrar do nome deles, ou fosse lá pelo que fosse, duas noites volvidas, deu-se o diálogo que agora recordo e me fez não mais esquecer o nome dos comprimidinhos minúsculos de cor ocre:

– Olha lá, tens aí aquele frasquinho com o…

– Pantoprazol.

– Como é que sabes que era disso que estava à procura?

– Comeste demasiado ao jantar, amorzinho.

– Tu é que puseste no prato!

– Mas não quer dizer que comas tudo. Toma. É Pantoprazol.

– Eh pá, será que tenho alguma coisa? Eu nem conhecia isto e agora… duas vezes na mesma semana?!

– Tens!

– Tenho?! Tenho o quê?

– Cinquenta anos!

A vida depois do Pantoprazol ensina-nos muitas coisas. Uma delas é  não ignorar a idade que se tem, sobretudo, se essa idade já chegou aos cinquenta. Outra, é a jogar na antecipação. A malta aprende que o comprimidinho minúsculo e ocre pode tomar-se antes da bronca, como quem evita em vez de remediar. A vida depois do Pantoprazol inclui análises cíclicas ao sangue, à urina, às fezes, e mais uns quantos diagnósticos preventivos mais ou menos incómodos. O Pantoprazol tem efeitos psíquicos. Ajuda-nos a olhar o Tempo e as oportunidades com mais valor e ensina-nos a não desperdiçar nenhum deles. Não sou médico e ainda não tive possibilidade de questionar um, mas ia jurar que o comprimidinho minúsculo de cor ocre tem efeitos secundários severos. Por exemplo, desde que o tomo comecei a ver menos, tive de ir ao oftalmologista e agora uso óculos para ver ao perto. Também tive de ir ao otorrino e descobri que tenho tinnitus devido a perda de audição. Custa-me mais a levantar porque as costas “prendem” e demoram seu tempo a “desprender”. Tenho de regular a tensão arterial, a barba ficou branca e o cabelo desapareceu por completo. Tudo isto, muito resumido para não aborrecer, são presentes da vida depois do Pantoprazol.

Animem-se, amigos! Não são tudo más notícias. A vida depois do Pantoprazol tem-se revelado deliciosa em muitos aspetos. Passo a revelar. Com tanta contrariedade, com a obrigação de tomar o comprimidinho minúsculo e ocre sempre que se anuncia uma simples e deliciosa sopa de peixe, com todas as maleitas adjacentes, o espírito começou a soçobrar, o ânimo começou a fraquejar, até que chegaram os efeitos secundários positivos. Ah, pois é. Surpreendentemente, ainda não me dei ao trabalho de perceber as causas de tão distraído que ando com as consequências, a vida depois do Pantoprazol traz consigo o interesse das mulheres. Num alcance etário e comportamental sem precedentes: das mais novas às mais velhas, das menos interessantes às mais interessantes, e também, pasmem, das menos interessadas às mais interessadas. De repente, passamos a existir! Falam connosco de doenças, de comprimidos, de consultas, de especialistas, encontramos pontos em comum na dor, manifestam admiração pela nossa experiência e sabedoria, reparam no que vestimos, e, qual cerejinha em cima do bolo, deixamos de ser bonitos ou jeitosos ou “bons” e passamos à muito melhor categoria de “charmosos”. Isto do charmoso é muito fixe e só acontece depois dos primeiros pantoprazóis. É como se um tipo fosse elegível nos critérios delas, mas podendo ter barriga e cabelos brancos e rugas na cara. Na verdade, estando muito menos atraentes, somos tratados como se estivéssemos muito mais. Surpreendeu-me, sobretudo, o encantamento das mulheres mais jovens. Claro que, neste caso, mais jovens também é uma categoria que já configura trintas e quarentas, mas o certo é que antes do Pantoprazol elas nem me viam e agora sou um tipo rodeado de amizades sinceras para a vida e uma carrada de “Gostos” no Feicebuque. Consequência: fui à farmácia e trouxe três caixas de Pantoprazol. Nunca fiando…

A vida depois do Pantoprazol traz deceções e tristezas profundas. Morrem familiares distantes, morrem familiares próximos e morrem amigos de sempre, do tempo do Liceu, dos primeiros anos de trabalho, morrem companheiros e companheiras de jornadas e lutas difíceis e, como se tudo isto não fosse já suficientemente doloroso e assustador, os mais jovens, aqueles que ainda não sabem de cor o nome do Pantoprazol, pensam que somos uns privilegiados, uns bafejados pela Sorte do Destino. Esquecem esta coisa dolorosa e dilacerante que é ver as pessoas das gerações imediatamente acima da nossa morrerem todas e também algumas da nossa idade e começarmos a pensar que a morte está no nosso horizonte. Se a vida fosse um caminho estreito por onde seguimos em fila indiana direitos a um precipício, os lá de trás, que ainda não veem o precipício, invejam-nos o modo de vida e as condições conquistadas, e nós estamos preocupados com os amigos e os familiares que tombam a uma velocidade alucinante no fim de um caminho que já vislumbramos.

Enquanto o fim da linha não chega, quero ainda falar-vos de um outro aspeto interessante da vida depois do Pantoprazol. Os filhos saem de casa, normalmente, sozinhos, e vão à vida deles, viver as suas aventuras, ter as suas responsabilidades, as suas vitórias e deceções. E um dia voltam, normalmente, acompanhados, e fazem planos e crescem e já nós vamos a meio do quinto frasco de Pantoprazol e eles chegam e dizem, Vais ser avô! Nunca, na puta da vida, tinha pensado que um simples comprimido para a digestão me pudesse encher de tamanha alegria e júbilo. É como renascer. É como sentir que a vida vai começar de novo. Não é um milagre, é uma miríade de milagres. E lá vamos nós fazer mais uns exames preventivos a ver se garantimos mais uns tempos a Pantoprazol para ver o miúdo crescer.

No dia em que fiz cinquenta anos, caí num recife de coral e esfacelei uma perna toda. Esse ano terá sido o mais difícil da minha vida. Não houve nada que não me acontecesse, não houve maleita que não me batesse à porta. Foi nesse ano que fiz do Pantoprazol um amigo frequente e, curiosamente, foi nesse ano, também, que recomecei a viver. A vida não é igual depois do Pantoprazol, mas continua a revelar-se prenhe de entusiasmos e deceções, de alegrias e tristezas, de vitórias e derrotas, de gente boa e menos boa que se cruza connosco. A grande diferença é que na vida depois do Pantoprazol tudo isso é reperspetivado e redimensionado à luz do usufruto do tempo que já não temos e não do tempo que ainda temos. E isso faz toda a diferença. Os planos adquirem novos prazos, bem mais ao alcance do desejo, ficamos mais seletivos, ficamos mais seguros, mais tranquilos, fazemos escolhas com mais critério e mais rigor e focamo-nos naquilo que realmente interessa. Hoje, o almoço vai ser bacalhau assado na brasa com batatas a murro. Adivinhem o que tenho aqui na mão… sem medos… tenho uma mão cheia de vida, cheia de esperança, temperadas com o bom senso e a sabedoria que só a idade do Pantoprazol nos pode dar. O resto? O resto é uma aventura!

jpv


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Travessia

Fechaste a porta.
E saíste.
A porta estava ali,
Deserta e inerte.
Não ia fechar-se sozinha.
Tenho cavalos doidos
E selvagens
A correr nas planícies
De meu peito.
E, mesmo assim,
Estranho fenómeno,
Inusitado efeito,
A porta continuava
Só e deserta.
No meio do nada,
Inerte e aberta.
E tu, sem aviso
Nem tolerância,
Cruzaste o limiar
Da porta e saíste.
De razão em riste,
Como se fora uma espada,
Cruzaste o limiar da porta
Aberta e abandonada
E saíste.
E eu vi-te sair,
De braços estendidos
Ao desespero.
Estava aberta, a porta,
E por ela passava
Uma jangada.
Agora,
É só uma porta fechada.

jpv


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Hebreus 11:1

És tu, no caminho.
E eu,
Perdido e sozinho,
Nesta floresta de emoções.
São as mesmas,
As ondas
Que te trazem
E te levam.
Umas não sabem o que fazem
E as outras são como crentes que rezam
Num altar despido
De fé e pudor.
Não. Não é do corpo
Este pecado.
É um violento
E sôfrego amor
De teu peito excomungado.

jpv


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Fado-Marrabenta

Não cabe já nada
Neste abraço.
Sucumbimos à negação
E ao cansaço.
E ao medo.
No universo infinito
Das palavras apaixonadas,
Calaram-se verbos
Voluptuosos e promissores
De intenções arrebatadas.
Fechou-se o sorriso,
Perdeu-se o timbre
Da voz que prometia.
entre ti e mim,
Há, agora,
Um fogo sem fantasia.
Uma aurora pálida
E cinzenta.
Morreu a marrabenta.
Sobrou, só,
Um fado melancólico e triste.
Onde antes floriu tudo,
Já nada existe.

jpv


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Aurora


Corre uma brisa fresca
Pela manhã do meu olhar.
Os passarinhos laboriosos
Rodopiam a chilrear
Saudando a primeira luz.
A acácia abre os braços,
Expõe, sobre o verde, o carmim que seduz.
Erguem-se esguias, elegantes,
E despenteadas, as casuarinas.
Correm para a escola
Os meninos e as meninas.
Um cão feliz finge que guarda
E arfa vitorioso ao deitar.
E visita-me a memória
De tempos distantes
E pessoas queridas
Nesta africana harmonia.
Sereno, sorrio ao mundo
E saúdo o novo dia.

jpv


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Senhora

Princesa da minh’ alma,
Senhora de meu coração,
Comandante deste terreno
Sem norte nem chão,
Vem exercer teu reinado
Em meu corpo despido,
De teu desejo convertido
Em pobre e humilde estalagem.
Vem ser Senhora deste servo,
Vem sujugá-lo a ti,
Exigir-lhe apaixonada vassalagem.
Não quero coroas,
Nem espadas cintilantes,
Quero somente as insígnias
Dos amados e dos amantes,
Esse arfar voluptuoso,
Essa seda de odores
Em meus lábios,
Teu sexo exposto
À minha investida obediente.
Há no mundo tantos reinos
E reinados tão diversos
Sobre multidões de gente
Ondulante e distraída,
E ninguém percebe
Que és tu a Senhora
Deste sopro, desta vida…
Já me ofereceram o mundo,
Poços de dinheiro sem fundo
Onde pudesse ser feliz.
Já atendi a todas as mesas,
Já comi em todos os banquetes
Iguarias incertas
E palavras repletas de certezas.
E recebi os olhares
E os sorrisos desejosos
Das damas e das donzelas
Mas não são elas…
Só tu,
Senhora da distância
E do silêncio,
Comandas meu Destino
E meu Tempo.

Princesa da minh’ alma,
Senhora de meu coração,
Comandante deste terreno
Sem norte nem chão.

jpv


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Está em Nós

Está em nós
Toda a essência
Do Amor.
Está em nós
Toda a ciência
Da alegria
E da dor.
Está em nós
A arte de colocar
A minha cabeça
No teu regaço
E essa forma
Única
De segurares
Meu braço.
Está em nós
A arte de um beijo
Despudorado,
Em público trocado.
E está em nós
Algo de eterno
E não perecível,
Tão antigo
E tão renovado…
A confiança
De estares aí,
A certeza deste encontro
Desencontrado!
E haver ainda
Tanto para amar
Depois de tanto
Já amado.

jpv


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Short Stories

Os Rios Não Correm Para Trás

Andaram tenteando intenções, mesmo sabendo que, fossem quais fossem as intenções, nunca lhes vestiriam a roupagem das ações. Conversaram na periferia da tentação, na escuma espraiada do desejo quando a onda já se foi embora. Outra virá. E aquela tensão entre o querer e o poder nunca se fez palavra, nunca se fez gesto.

Um dia, de frente para uma paisagem idílica, com um rio manso e animais bebendo na orla, ele aproximou-se por trás dela, sentada no banco do miradouro, e fez-lhe uma breve massagem nos ombros. E aqueles trinta segundos foram a sua eternidade. Depois, sentou-se a seu lado e ficaram os dois olhando a paisagem em silenciosa contemplação enquanto se reerguia entre si o muro. Foi um silêncio eloquente, jogaram-se ali todas as promessas imaginadas, todas as intenções, todas as hesitações e as impossibilidades todas.

A história não tem um final feliz. Foram às suas vidas, a ser quem acreditavam e podiam e deixaram tudo o resto para trás. Não voltaram a falar-se. Não voltaram a olhar-se nos olhos luminosos e húmidos. Guardaram de si a memória doce e fugaz daquela massagem de frente para o rio. Um dia, essa memória esfumou-se.

jpv


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Short Stories

The Last Song

A história Começa muito antes, mas não nos demoremos, não percamos tempo, sigamos para o essencial. Chegou o dia em que lhe pediu que guardasse seu coração como algo precioso. Como uma jóia de amar, um belo e vistoso colar em pedras de paixão. No início era toda zelo e cuidado na forma como lhe tocava, como lhe pegava, e como o acariciava devagarinho para não o estragar. E depois veio o entusiasmo e a admiração e beijava-o, sôfrega e voluptuosa, e apertava-o contra o peito e dava-lhe dentadinhas de provocação em jogos de clara e magnética sedução. E quando já era seu, partiu-o e deixou-o abandonado numa gaveta esquecida. E ele ficou ali. À espera dela, que lhe devolvesse o seu coração intacto ou quebrado, a funcionar na perfeição ou estragado. E agora vive só, entregue ao seu azar, à procura de quem saiba consertar corações despedaçados. Deambula, perdido, pelas ruas, vivo e sem coração que preste. 


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Ode Fugaz

Sem erros
Nem prisioneiros.
Sem promessas
Nem esperança.
Sem o olhar limpo
Dos momentos primeiros,
Nem a poeira
Que nasce na dança.
Só o peito cheio
E um coração a bater,
Cresce um homem sem freio
Até ao dia de morrer.
Aspergidas, foram já,
As cinzas aladas.
Tantas são as ilusões
Para tão breves jornadas.

jpv