Quando eu me aproximar, Me chegar junto de ti, E te abraçar por trás, De mansinho, Faz de conta Que desconheces a intenção. Despe a alma E deixa pelo chão As roupas com que a trazias protegida. Sê fingida Sem seres fingida, E abandona o teu corpo À minha suave investida. Faz de conta que não sabias As carícias que tinha para dar-te E tu já querias Antes de eu chegar. Baixa a guarda, meu amor, Sem eu notar. E assim, fico a pensar, Que o mérito é todo meu, Que tu és sempre minha, E eu sou teu quando quero ser teu. Dá-me essa energia de mulher, Essa vibração e esse fulgor. Abre em pétalas de cor O centro do meu desejo E do meu amor, Esse sexo de flores perfumado, Meu ritual, Meu altar sagrado. Quando eu chegar, meu amor, Finge que não tens vergonha Nem grande pudor E todas as ousadias são possíveis. Oferece-me as coisas visíveis E as que se não veem também. Quando chegar junto de ti, meu amor, Sê minha serva diligente E minha exigente Comandante. Bebe-me o néctar da vida, Dá-me o néctar da vida a beber, E faz-me teu, Suavemente, devagarinho, E fulminante!
Meu amor, Quando tal não te importunar, Hás de ter um tempo para me ensinar As palavras que te excitam e incendeiam. Hás de dizer-me os verbos Que inflamam no teu corpo O desejo de mim. E hás-de esconder-me os que põem fim À tua volúpia E a essa vertigem húmida e desmesurada. Quando, um dia destes, estiveres bem disposta, Com o humor e o amor de feição, Hás de ensinar-me os gestos que fecham a intenção De ter-te sob o meu suor. Onde queres que vagueie minha língua E passeiem minhas mãos. Onde podem perder-se meus lábios… E hás de ensinar-me, meu amor, Os perigos a evitar. Hás-de dizer-me os rituais, O olhar inaugural E as carícias finais. Tens de ter um tempo Para ensinar-me o acordar pela manhã E o deitar abraçadinhos Quando chega o anoitecer. Tens de ensinar-me o Amor Para eu não esquecer Essas coisas pequenas e aveludadas, Esses imensos nadas, Essa lição de amor, Esse ter-te para te não perder. Ensina-me, meu amor, Para eu aprender O que vive em mim. E escreve esse sumário de êxtases Na minha pele. Vem dizer-me o que queres Como se fosse um pedido E ensina-me a dar-to. Ensina-me como parto De mim para te encontrar. Ensina-me, meu amor, A lição de te amar.
Desliza a água calma Tingida de lama. As aves profusas Entoam seu canto, E as bestas lânguidas Reviram-se no rio Como na cama. Soa um timbre amistoso Fundido num longo abraço. E o corpo, Que cedia ao cansaço, Reergue-se deste milagre Para se reencontrar Com o Universo. E há distâncias, sim… E que culpa tem disso O canto chilreado das aves, Ou o verde idílico da paisagem? A vida é uma solitária E singular viagem Onde tu estás. E em cada esperança que morre, Em cada olhar que jaz, Em teu peito Nasce algo de meu. Que culpa tem o sol Que haja noites de breu?
No verde ímpar Da manhã dourada, Passa, silenciosa, Ao colo da água Calma do Rio, A jangada. Uma ave corta o espaço E vem pousar Ante o desespero Do meu olhar. O sol brilha intenso, Aquece-me a carne E expõe-me a alma Em dor. Não há verde, nem luz, Nem ave, nem jangada. Não há paraíso possível Sem a força do teu amor No meu corpo, Sem tuas mãos desenhando Curvas de desejo Na entrega original Do milionésimo beijo. Não há deus, Nem infinito, Sem o teu gemido E o teu grito Sob o suor Da minha luxúria. Não há manhã, Nem anoitecer, Que valha a pena viver Sem a pequena morte De teu êxtase Em meus lábios. Não há mais teorias Nem outros sábios Quando tu não estás E meu peito arde por ti. Não há outras paisagens Nem encantadas seduções Conspiradas pela Natureza, Se não tenho a certeza De poder cingir Teu corpo ao meu. Passa de novo a jangada Na manhã cristalina e doirada À frente do menino que morreu.
Misty mornings And absent love Ground earthly feelings Mastered from above. There’s no god to provide This ship a safe shore ‘Cause my heart wants more Of what it can’t find. Oh God, send me from above, With no schedule nor warning, A strong safe love In the dawn of a misty morning.
As pessoas não querem a verdade. Não estão preparadas para a verdade. Não sabem lidar com a verdade. Não sabem viver em verdade.
Desaprenderam há muito. Foram habituadas a contorná-la, a pintá-la de cores plausíveis, a doseá-la, a apresentá-la de acordo com as situações, e aceitam estes comportamentos como se fossem aceitáveis.
Mas não são. A verdade não se contorna, não se matiza, não se doseia, não se ajusta. A verdade é uma coisa simples e incrivelmente valiosa. É um tesouro. Um tesouro indesejado, mas, ainda assim, um tesouro.
O que as pessoas sabem é viver em hipocrisia, o que as pessoas sabem é viver na mentira, num universo de plausibilidades, num universo de verdades aceitáveis. As pessoas, hoje em dia, sabem viver em jogos de faz de conta, em gestão de tensões, em gestão de verdades parcelares e meias mentiras. As pessoas, hoje em dia, não sabem conviver com a frontalidade. Quando alguém diz que é muito frontal, normalmente, vai começar uma discussão acesa e litigante. A verdade é tão estranha à generalidade das pessoas, hoje em dia, que, para dizê-la, as pessoas têm de discutir, têm de se zangar… as pessoas estranham a verdade e reagem-lhe mal. As pessoas, hoje em dia, não reconhecem a verdade. É algo estranho e inusitado e, por isso mesmo, se são confrontados com ela ou por ela, reagem mal e não descansam enquanto não destroem esse tesouro simples e precioso e o convertem num jogo de argumentos matizados, contornados, plausíveis de ser aceites, não à luz do valor intrínseco da verdade, mas à luz do que os outros são capazes de ouvir, querem ouvir…
Quem diz a verdade, quem tem essa coragem e essa ousadia, é expurgado pelos seus pares sob rótulos tão trágicos quanto a arrogância, a insensibilidade, a falta de cuidado, a brutalidade, o egoísmo, o politicamente e o socialmente incorreto. Hoje em dia, quem diz a verdade arrisca-se a ser um apátrida dos relacionamentos pessoais e sociais, um excomungado, um votado à solidão.
E isto tudo é tão mais desgraçadamente trágico quanto não sucede só entre conhecidos, entre colegas de trabalho, entre amigos de ocasião, isto acontece entre pessoas que se estimam e se amam, ou creem que se amam e se estimam, entre pais e filhos e irmãos e primos e maridos e mulheres e amantes e amados… Hoje em dia é expectável que tudo cresça no relacionamento entre duas pessoas, exceto a verdade. A verdade é um estorvo, um cancro social. E os que têm a ousadia e a coragem de falar serenamente com verdade são os infetados, os pútridos.
Não sei viver assim. Não sei viver aqui. Este mundo não é já para mim. Não há já lugar para a minha existência neste conto de fadas, neste tratado de fingimentos em que se converteu o relacionamento entre as pessoas.
This bare foot Was made for your shoe. Nobody but you Would shelter This old worn foot In such fitted shoe.
It’s not about The shine of the shoe. It’s not about The strength of the foot. The foot will surely stumble. The shoe won’t last forever. It’s simply about Their swaying together.
Quando li pela primeira vez o “Rei Édipo”, o do Sófocles, bem entendido, não sabia bem, ainda, o que estava a ler. E, contudo, foi logo, nesse momento, e para sempre, ali, naquela hora e naquele espaço, que me foquei. Com toda a inconsciência de adolescente, na altura, e com o desespero todo de homem maduro, hoje.
Não foi no incesto, nem nas palavras de Jocasta, mãe-esposa, Não foi no pai Laio misteriosamente assassinado, Não foi no enigma óbvio e bafiento nem, mais tarde, na punição auto-mutilante com que Édipo limpou o podre do erro da face da desonra, Não foi no Creonte sisudo e perdido nem na figura enigmática de Tirésias. Onde o meu ego aterrou e se pregou para não mais se deslocar foi no pó da estrada, na encruzilhada do Édipo ainda por ser rei.
As nossas vidas são isso mesmo, uma sequência de encruzilhadas a pedirem decisão. Esquerda ou direita? Certo ou errado? Fortuna ou desgraça? Paz ou terror? Amor ou ódio? E o problema, um deles, pelo menos, é que não vemos o horizonte do futuro, nem o futuro no horizonte. Vemos pouco mais do que o nosso umbigo, uma passada talvez. E é aqui, neste momento e neste espaço que temos de traçar o caminho, optar, apostar, arriscar… e não temos indicadores. Sabemos nós alguma coisa do destino de ambas as hipóteses, do que nos trará cada um dos caminhos? Não. Não sabemos. Assim sendo, é o aqui e o agora, o presente, que define o futuro, que o constrói. Por consequência, planear o futuro é rematada loucura, estultice absoluta. É preparar o que não existe. Eu só existo hoje, o Universo só existe hoje, Deus só existe hoje. O futuro é o que fazemos hoje. E, hoje, perante a encruzilhada edipiana, temos de decidir com o coração e com a mente e ter consciência de que o futuro será o que fizermos agora.
A própria extensão da vida, sempre tão importante e com tão significativo peso em todas as decisões estruturantes, perde relevância. Não faz sentido ter em conta um hipotético tempo de vida a viver na adoção de um projeto, na tomada de uma decisão determinante, porque esse tempo que falta viver não existe. Existe, somente, este tempo que está a ser vivido. Uma pessoa jovem, com a ideia, falsa, mas socialmente aceite e veiculada, de que tem mais tempo de vida do que uma pessoa de meia idade ou idosa, terá mais dificuldade em perceber este raciocínio, em aceitá-lo, em viver de acordo com ele. E, contudo, a sua vida poderá terminar antes que termine a da tal pessoa de meia idade, idosa, mesmo.
A ideia, em si, requer maturidade e não deve confundir-se com o hedonismo ao jeito do carpe diem latino. A ideia não tem nada de hedonista. Pelo contrário, é de uma dureza atroz e de uma tragicidade cruel. O Ser Humano necessita de interiorizar os conceitos de futuro, esperança e perenidade, para poder proteger-se de um pensamento quase letal: o do seu fim iminente e inexorável. Resta a encruzilhada. As encruzilhadas. Sempre a pedirem decisões. Haja ponderação, bom senso, haja consideração e até racionalidade, mas haja, sobretudo, em cada decisão, paixão, entrega e amor, essa força redentora de todos os vícios e falhas humanos. E haja, claro, coragem para decidir de acordo com o que nos pede o coração e a alma anseia.
Toda a existência Num átomo de tempo, Quase imaterial, Sem palavras, Antes das palavras. Toda a Ciência Num olhar, Sem teoria Nem experimentação. E todo o saber No teu corpo Sob a minha mão. Toda a literatura Numa palavra muda Não articulada, Tudo, tudo, No universo De quase nada. Toda a distância Suprimida entre dois corpos cingidos Na militância Da Liberdade. Toda a mentira do mundo Dentro de uma só verdade. Todo o desespero E toda a revolta Numa palavra solitária De esperança. No universo deste amor Todo o impossível Se alcança.
O Amor Próprio nasceu como uma página nas redes sociais e se transformou em um espaço acolhedor para quem busca reencontrar sua força, sua essência e seu valor.
O assunto básico é Arte/Fotografia e Psicologia. Eventualmente há indicações de livros e equipamentos interessantes lincados na Amazon, Shopee e SocialSoul.