Magoaram-me os beijos Que me prometeste E não me vieste dar. E magoaram-me, Mais do que quaisquer outros, Os beijos despudorados e loucos Que entregaste em meus lábios. Foram certos e sábios Os dias em que fugiste de mim. E foram mais sábios, ainda, E ainda mais certeiros Os dias inteiros Que passaste no meu colo Ouvindo-me ler um poema Inacabado e imperfeito Como a nossa história de amor. Sem princípio, Sem fim, Sem jeito. Não tem espaço, Não tem tempo, E não tem conceito Um amor assim, Que se nega ao fim E não se lembra, já, Do princípio. Vive do instante, Da ânsia, Da errância De tuas mãos em meu corpo, Que perde o chão e o sopro Quando te anuncias e sorris Como se não tivesse acontecido nada.
Minha vida É uma estrada sinuosa E perdida no deserto. Meu oásis, Minha água, E meu Norte, Seria ter-te por perto.
Cronologia do Adeus In memoriam Ana Paula Canotilho 17/07/1961 – 26/10/2019.
Quando o dia nasceu, ainda os outros dormiam ou se preparavam para acordar, já tu ouvias e cantarolavas “El pueblo unido jamás será vencido”. Mais tarde, falaste com a Ritinha e disseste-lhe “Tens de ouvir isto!” como se fosse uma urgência. Por mensagem, como sempre, perguntaste à Maria da Luz se ela estava acordada e ela estava acordada para ti. Sempre. E disseste-lhe para descer e irem tomar o pequeno almoço. “Hoje acordei bem!” E foste à luta do trabalho, defender e fazer aquilo em que acreditavas, com rigor, determinação, e uma incrível lucidez. E conquistaste e sofreste golpes, alguns desleais, e soubeste aguentá-los e seguir em frente colocando acima de tudo a justiça social, os direitos humanos, a inclusão, o serviço público…
Almoçámos juntos. Reclinavas-te de lado na cadeira, seguravas o cigarro na mão direita, na ponta dos dedos, inspiravas o fumo longamente e dizias aquilo que nos parecia difícil ver, mas para ti era claro porque vias mais além. Estavas particularmente alegre e feliz e contaste-nos como te casaste e como te divorciaste e te dedicaste a fazer dos filhos homens íntegros e independentes e livres e anunciaste-nos que eras feliz, tinhas encontrado o teu lugar no mundo. Este seria o último Natal em que irias a Portugal e aproveitarias para informar a família que ias deixar de ir a Portugal no Natal. Era precioso, o tempo, em Moçambique. Em África. Brincaste com a Cláudia:
– Que idade tens? – 47. – A idade perfeita para te divorciares. Eu divorciei-me aos 47. Cheguei ao pé dele e disse-lhe, “quero-me divorciar, não é nada contigo, é que estou farta de estar casada e quero mudar de vida.”
Mostraste-te preocupada com a exposição “Arte 21” e, antes de ir para uma tarde de trabalho intenso e mais o seguro do carro – detestavas burocracias e palavras-chave – deixaste marcado, para essa mesma noite, o nosso jantar mensal. A nossa noite da má língua onde petiscávamos e soltávamos os espíritos e a imaginação e fazíamos puzzles mentais. Ninguém negou. Como negar a tua presença? Às 20 no “Wine Lovers”. Atrasámo-nos todos. Mas chegámos. O facto é que andávamos exaustos com tantas tarefas, responsabilidades, projetos, documentos… Nesta profissão de férias longas e horários privilegiados, chega-se à exaustão. E luta-se por cada ideia.
Não sabemos porquê. Nunca saberemos. Talvez para enviar a uma amiga ausente, fizemos uma foto, uma selfie. Ficou bem. Com sorrisos e cumplicidade. Mais tarde, viria a retorcer-me de dor por saber que era a tua última foto em vida. Entre nós. Não comemos muito. Não bebemos muito. Nem foi dos dias em que a conversa fosse mais profícua e sumarenta. Estávamos cansados, concordámos. Mas foram, como sempre, momentos interessantes, com análises e conjeturas fabulosas, a mexer as peças do puzzle imaginário e a discorrer o que nos apetecesse sem regras nem limites. O exercício intelectual da conversa, a manipulação sábia do raciocínio. E a política. E era exímia nisso, destacavas-te de todos os outros. Foi bom. Foi o fim. Terminámos às 23 e enquanto nos despedíamos obrigaste-nos a estarmos na manhã seguinte na Ponta do Ouro. “Saímos às 7!” Como eu hesitasse, disseste-me para não ser velho. Ficou acertado para as 7h. Até combinámos onde íamos estacionar os carros. Separámo-nos às 23:10. Não poderíamos imaginar, nesse preciso instante de sintonia e camaradagem, que nos reuniríamos daí a dez minutos contigo já em grande dificuldade. Puta de vida!
Segui para casa devagar. Ainda não tinha rolado dez minutos pela cidade semideserta quando a mensagem da Maria da Luz tilintou no telemóvel: “Volta já para trás, A Ana Paula está a sentir-se mal!”. Quando cheguei ao pé de ti, tinhas vomitado e tinhas estado semi-inconsciente e teimavas que estavas bem e querias ir para casa. Sabia que não valia a pena teimar. Tu odiavas hospitais. Disse-te que te levava para casa, mas tinhas de caminhar até ao carro. Não deste o primeiro passo. As tuas pernas não te seguraram. Peguei-te ao colo, meti-te no carro e guiei que nem um louco por sinais vermelhos e outros episódios. A maria da Luz ia chamando por ti. Às tantas não respondias, ela enervou-se e falou-te mais alto, “Paula, fala comigo!” e tu respondeste. No hospital, deixei o carro a trabalhar e levei-te ao colo até à cama onde me disseram para te colocar. Veio o tempo da primeira espera ansiosa. Estávamos incrédulos. Desmultiplicámo-nos em contactos e esforços. Era preciso informar o teu filho mais velho, entre outras e tantas coisas. Um médico simpático e diligente veio dizer-nos que fora uma baixa repentina de tensão, mas era só isso. O ECG estava normal. Por precaução, ficarias em observação nos noventa minutos seguintes. Fomos ver-te. Fomos estar contigo. Teimaste que estavas bem, que querias ir para casa, que na manhã seguinte estavas na Ponta do Ouro, sem falta. Como tínhamos uma hora e meia antes da reavaliação, fomos tratar de recuperar o teu carro que ficara abandonado no meio da cidade. Não chegámos a fazer nada com o carro. Dez minutos depois, ligaram à Luz e disseram-nos que tínhamos de nos apresentar no hospital com a maior urgência. Voámos para lá. Três ou quatro minutos depois, o médico informou-nos que tiveras uma paragem cardíaca e foras reanimada com recurso a um desfibrilhador. Um segundo ECG mostrou que se tratara de um enfarte. A situação era muito grave. Estavas na unidade de cuidados intensivos. Era preciso autorizar um cateterismo para te desobstruir a artéria. Sem ele sucumbirias. Trouxeram-nos umas roupas e um calçado esterilizados para irmos junto de ti. A Mary não aguentou a perspetiva de ver-te assim. Ela queria, mas o corpo negou-se. Teve uma crise biliar, intestinal e sei lá mais o quê e correu para a casa de banho. O amor da alma por vezes manifesta-se no corpo. Fiquei só na antecâmara da unidade de cuidados intensivos. Deixava-te entregue aos médicos ou entrava sozinho. Nem hesitei, não foi questão. Entrei.
Estavas consciente. No meio do emaranhado de números que piscava por cima de ti, percebi que a pulsação estava a 24. O equipamento era moderníssimo e a equipa muito atenciosa. Demos as mãos e ficámos de mãos dadas enquanto nos olhávamos e trocámos palavras que nunca mais esquecerei. As tuas últimas e, de certa forma, as minhas últimas, também.
– Mas, afinal, o que é que eu tive?
Não fui capaz de dizer a palavra “enfarte”.
– Tiveste uma quebra de tensão. A tensão desceu tanto que tiveste uma paragem cardíaca. Reanimaram-te. Vais ficar bem. – Quanto tempo vou ficar aqui? – Um dia ou dois. – Tenho de ir trabalhar. – Não. Quando saíres daqui, vais fazer uma pausa, vais descansar um mês e só depois voltas ao trabalho.
Um silêncio longo veio colocar-se entre nós. Estavas a pensar. A pensar nas próximas palavras.
– Não me posso irritar tanto. – Isso. O trabalho não é tudo. – Porque é que estou aqui? – Vais fazer um exame. – Que exame? – Um cateterismo.
Fizeste um silêncio eterno. O teu olhar era de apreensão. O nome do exame assustou-te, mas au não podia mentir-te. Um a pessoa tem o direito de saber as batalhas que a esperam. Apertaste a minha mão com muita força, durante muito tempo e não tiraste os teus olhos dos meus. Viraste a cara de lado como que oferecendo a face a um beijo. Estranhei. Nunca foste muito de beijos. Dei-te um beijo na face. Devagarinho. Fiz-te uma festinha para sentires a minha presença, o meu carinho, a minha força. Procurava, aflito, palavras que te distraíssem da preocupação. Lembrei-me, de repente, que, quando eu tinha dúvidas ou hesitações nas minhas batalhas, tu costumavas dizer-me, como quem ordena, “Tu és de esquerda e a esquerda não quebra!”. Apertei-te ainda mais a mão, reuni toda a convicção de que fui capaz e disse:
– Tu és de esquerda e a esquerda não quebra!
O teu rosto abriu-se num sorriso, o último que te vi.
– Espero por ti.
E levaram-te. Não voltarias. Não voltaste.
– O senhor tem de assinar isto.
O médico não começava sem a merda da assinatura. Nem li bem o papel, tu precisavas do tempo. Percebi que, se alguma coisa corresse mal, os gajos estavam safos e eu é que me fodia. Nem pestanejei. Ao cabo de dezasseis anos a travarmos lutas juntos, tu merecias isso e muito mais. Tudo.
Soube mais tarde que conseguiram fazer tudo o que queriam, mas tu não conseguiste ficar entre nós. Três paragens cardíacas durante o exame levaram-te para longe de nós,. Ainda fintaste a morte duas vezes. À terceira, não resististe.
Quando me vieram dizer que tinhas falecido, faltou-me o chão, fiquei incrédulo e desesperado. Não tenho um único arrependimento, nem a mais leve sombra de culpa, só não queria estar ligado aos teus atos finais porque ainda te queria aqui. Mas, por outro lado, partiste num dia vivido entre camaradas e amigos cúmplices, foste feliz e irreverente e, no fim, como tantas vezes fizeste na vida, foste surpreendente e inesperada e fizeste o que quiseste e não o que se esperava que fizesses. Veio uma onda de revolta e depois de culpa e depois de remorso e depois comecei a pensar em ti e no nosso dia e consegui aceitar em mim dois sentimentos contraditórios. Um desespero profundo por ter-te perdido, por não ter conseguido segurar-te deste lado, e uma alegria serena por saber que eu e a Maria da Luz te proporcionámos, antes de partires, um dia entre amigos, os teus amigos, recheado de boa disposição e conversa estimulante como tu tanto gostavas.
Fica o teu legado de ideais, de dignidade, de feminismo, de luta política e social, de solidariedade, de estudo, de lucidez. Fica isso e fica uma constelação de momentos partilhados, de gargalhadas, de sorrisos, de preocupações, de injustiças e problemas. Não eras indiferente a nada e, talvez por isso, nada nem ninguém ficava indiferente a ti.
Caminhámos juntos muito trilhos difíceis e outros tantos prazerosos e caminhámos juntos este último dia, essas últimas horas, essa última foto, essa última mão apertada, esse último olhar… e sei agora que não há lugar a outros sentimentos que não sejam o orgulho e a honra de me teres escolhido para o círculo restrito dos teus amigos verdadeiros.
Falta contar A história do poeta Que perdeu as palavras Quando a forma Do teu corpo Abandonou o desenho Das minhas mãos.
Falta contar A história do ateu Que saiu de casa Numa noite de breu E foi esconder-se No templo sagrado Desse corpo abandonado Ao desejo e à distância.
Não é errância, Isto, É um Destino misto De Fé e indiferença. É acreditar, violentamente, E essa crença Estar dilacerada E dividida Entre o abraço Na chegada E o adeus Na partida. E as únicas palavras dizíveis, Na medida justa e certa, Serem as que perdeu O poeta.
Eram de sangue, As lágrimas Que secaram Na face. Talvez um dia Passe Essa dor Da distância, Fruto da errância Dos homens. E quando os homens regressarem E fecharem o abraço Que os espera… Hão de chorar de novo Lágrimas… De sangue.
Tinhas os olhos Raiados de lágrimas Quando o teu corpo Se despediu de mim. Era o fim De nada. De nenhuma coisa A não ser a ilusão. Não era, Nunca foi, Um Não. Foi sempre um Sim Impossível, Um grito inaudível Na eternidade. Um abraço no vazio, Uma noite à chuva E ao frio. E a dor de ver-te partir E continuares aqui É como morrer em mim O esplendor de ti.
É uma embarcação formosa. Leva no cesto da gávea Uma mulher quase real, Quase divina, Com uma mão sobre a vista Prescrutando o horizonte. É cega. Na bruma da hora Da partida, A embarcação desliza Comprometida Com o Destino. E quem lá vai dentro Olha a costa E chora. Já não há portos seguros. Neste preciso momento, Intensifica-se o olhar da deusa Quase mulher Que acena Um longo E arrependido adeus. Já mal se vê, A embarcação, Já nem se percebe Que é formosa Ou mesmo embarcação. Nunca se soube Quem ia dentro Da barca misteriosa. Eram saudades… Nostalgia. Dissipou-se a neblina, Abriu-se o dia. O astro brilhou E uma bátega de água, Violenta e impiedosa, Jorrou dos céus. Era salgada, a água. E agora, As ondas vêm de mansinho Beijar a praia E trazer rumores Daquele olhar. Um momento de contemplação E outra barca a naufragar.
O que tu sentes E o que eu anseio São duas coisas diferentes Com uma igual pelo meio. O que tu queres E o que eu desejo São duas versões Do mesmo beijo. O que tu me pedes E o que eu te dou São duas asas Do mesmo voo. E há neste concerto, Imperfeito e inusitado, Tanto de acerto Como de deliciosamente errado.
Estas mãos Foram desenhadas Para te segurar. E estes lábios Foram recortados Para te beijar. Estes olhos Foram concebidos Para te olhar. E este peito Foi aberto Para tu entrares. E é por isso Que não entendo Essa questão Séria e profunda, Para mim, Sem qualquer importância, De um amor Vivido à distância. Se as minhas mãos Cingem teu corpo Ao meu, Se o meu beijo Se encontra com o teu, Se os meus olhos Mergulham nos teus, Se o teu peito habita o meu, Se nada de meu Deixa de ser teu… Porque sinto Este desespero E esta inquietação? Esta completude E esta imperfeição? Porque respiro Quando teu Corpo não está Em mim? E porque sinto O começo Como se fora o fim?
Tens nos lábios um Jardim de flores, De fragrâncias e odores A cravos e a Jasmim. E tens no olhar Histórias e segredos Que nascem e morrem em mim. Tens a verdade nas palavras E a certeza no gesto. Teu corpo é um manifesto De tentações E homens perdidos. E tens o calor do desejo Semeado em cada promessa de beijo Que nunca se fecha em minha boca. Em ti, A lua do olhar É galáxia pequena e pouca Para tão vasta conversa. Tua mente É maré cheia e adversa Em meu peito disperso. És a ida e a volta, A ave livre e solta Pairando em meu Circunscrito universo.
Não foram As palavras que me disseste. Foram as que ficaram por dizer. Não foram os beijos que me deste. Foram os que preferiste esconder. Não foi o abraço longo e seguro. Foi teres erguido o muro. Não foi a tua voz cristalina Contando histórias de menina. Foi a hesitação… Foi ter faltado A letra na canção. Um corpo voltado E uma mão estendida e vazia No frio da noite.
Nunca se guarda Uma palavra que se pode amar! Nunca se suspende O tempo de entregar Uma mão noutra mão. Nunca se recusa A coragem De quem se atravessa Na solidão E nos entrega Um peito aberto, Voo planado sobre o deserto da existência. Sem teoria, Sem nenhuma sabedoria Que não seja a dádiva A um ser que ama antes das palavras, Com as palavras E depois delas.
Não se nega a existência Quaisquer que sejam Os contornos da Ciência.
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