“A frontalidade requer muita coragem, uma grande preparação mental, dá muito trabalho e não nos conquista amigos. É mais fácil e cómodo calarmo-nos do que enfrentar a vida, mas não é mais honesto, nem é mais digno. A generalidade das pessoas não é frontal. Quando uma pessoa diz que é frontal, normalmente, vai começar uma discussão. A frontalidade é serena e quotidiana. E é, na maioria dos casos, incompreendida.”
“Não há um mundo sem problemas, nem aborrecimentos, nem litígios. Não há. O litígio, nos seres humanos, é tão natural como a sua existência. Faz parte da sua humanidade. O que nos redime é a capacidade de olharmos uns para os outros com a consciência da nossa pequenez, com a humildade de reconhecer que não há, entre nós, seres isentos de erro. O que nos redime é a benevolência e a capacidade de amar o outro acima de todas as coisas… o que nos redime é a vontade suprema de querer o bem, mais do que o mal, de buscar o entendimento, mais do que o desentendimento, de viver em amor, mais do que em litigância. Precisamos desesperadamente de acreditar que o Amor nunca acaba e se sobrepõe a todas as coisas.”
Quero o amor contigo Como bênção de Deus, Como prémio e castigo Por meus dias sem ti. Tu vives em mim, És o agora e o aqui. E tudo o que possa pedir Ou suplicar Fica aquém e além Dessa forma de amar Tão intensa E tão entregada. Em teu corpo Não há tudo Nem nada. Há essa ausência absoluta De limite e medida. Tu és a meta da chegada E o porto da partida.
Meu amor, Meu doce, suave e terno amor… Vem dizer-me baixinho Que o meu desejo É só meio caminho De tudo O que tens para me dar. Vem pedir-me mais. Vem exigir meus afagos, Minhas carícias tranquilas E meus sôfregos ais.
Meu amor, Aquieta este fulgor, Vem ser a brisa Na tarde de calor E inaugurar Meu corpo no teu. Não sei O que seja o futuro. Sei que o tempo antes de ti Morreu.
“O propósito de todo e qualquer trabalho, na verdade de toda e qualquer ocupação, deve ser a felicidade. Está enganado quem pensa que vai à Escola aprender matérias. O Português, O Inglês, a Matemática, as Ciências, o Desenho, a Música ou a Educação Física interessam muito pouco se não forem colocadas ao serviço do primeiro e mais significativo objetivo da Escola: ser feliz!”
Diz-me, meu amor… Como é que não se faz amor contigo? Como resistir à tentação e ao perigo De cair em teus braços? Como posso evitar Teus doces afagos E os dolentes cansaços?
Diz-me, meu amor… Como não deslizar nas tuas linhas? Como fugir às carícias E impedir que tuas mãos Se fechem nas minhas?
Diz-me, meu amor… Como resistir às palavras Nascidas desse sorriso que se insinua? Diz-me, como quem me salva, Como pode a minha pele alva Não colar-se à tua pele nua?
E, se encontrares resposta e solução Para que eu não caia em tentação… Vem, meu amor, ao meu ouvido dizer Como se não faz o que só sei fazer, Como se vive sem se morrer… Estando vivo. Vem meu, amor… Libertar meu peito cativo E obrigá-lo a ser quem é… Não cai, jamais… Um homem que ama de pé.
Mulher é mesmo assim, Chega no teu peito, Rasga ele E rouba teu coração. E, no fim, Pergunta porque não palpitas de amor. Mulher não percebe a dor Para lá da dor.
Mulher é mesmo assim, Chega no teu universo, E vira tudo do avesso. E, no fim, Pergunta porque não arrumas a casa. Mulher quer que tu voes E quer ficar com a asa.
Mulher é mesmo assim, Leva tua caneta Para escrever receita de bolo de tâmara. E, no fim, Pergunta se és poeta Porque não escreves-lhe Um poema de arrebatar.
Mulher é mesmo assim, Quer carinho a toda a hora, Há de pedir passares mais tempo com ela. E, no fim, Exige que vás trabalhar E faças um curso de vela Para teu físico melhorar.
Mulher é mesmo assim, Quer comprar sapato Que vale um mês de trabalho. E, no fim, Baila na tua frente Com os pés nus no soalho.
Mulher é mesmo assim, Critica porque só pensas em sexo E não conversas com ela de mansinho. E, no fim, Quer com vigor E também devagarinho.
Mulher é mesmo assim, Não tortura, Mas quer loucura E pede juízo sem fim. Mulher é mesmo assim.
Vi, sim, No escuro, as luzes. Vi os movimentos E os reflexos. E vi os verbos que, Parecendo complexos, Eram simples e banais… E traidores. Vi as dores fingidas E as verdadeiras dores De ódio e inveja. Vi-te na conjura E na peleja De me armares a cilada. Teu gesto é nada E tua intenção vazia. O negrume da tua alma Não vale a luz de um só dia, Uma hora, um segundo… Tu não és do meu mundo E eu desaprendi O caminho para o teu. Foi um ato consciente e propositado. Não volta ao breu Quem conheceu o caminho iluminado. Queres apagar-me. Queres riscar dos mapas Os trilhos que minha mão conduz. Não se apagam, camarada, Os caminhos desenhados com luz. Não és nada. Nunca foste nada. Nunca serás nada. Não sou nada. Nunca fui nada. Nunca serei nada. E a única diferença Nestes dois termos da Lei, É que eu… Eu sei!
Tu partiste de repente. Sem aviso. De consciência tranquila e sem remorsos. Enfrentavas as tuas dificuldades com um sorriso nos lábios e eras, no passado dia 23 de fevereiro, uma mulher autónoma, livre, absolutamente resolvida. Quer em termos da tua espiritualidade, quer em termos dos teus objetivos. Amavas e eras amada. Tinhas um círculo vasto de amigos. E era visível, na tua face e nas tuas palavras, a alegria pela antecipação de conheceres o teu bisneto. O James. O bisneto que não conheceste por meros 47 dias.
Hoje, farias 74 anos. Já tinhas casado, parido e criado dois filhos, sobrevivido a uma guerra, derrotado um cancro e estavas numa fase luminosa da tua vida. A beleza do teu sorriso espelhava isso mesmo. Uma curva, um acidente estúpido, um momento de infelicidade, levaram-te quando mais parecias querer viver.
Tu não deixaste só um vazio. Deixaste uma lição de vida. Um lastro de amor e resiliência.
Os teus gestos vivem em mim. As tuas palavras habitam em mim. A tua força guia-me. A tua presença é constante.
A vida não é a mesma coisa sem a tua presença. Mas continuamos honrando a tua herança de busca da felicidade, a tua determinação, o teu sorriso, a forma despachada e resoluta de enfrentares as dificuldades e de fazeres o que tinha de ser feito.
O teu bisneto tem os olhos azuis e é dinâmico. Ias amá-lo profundamente. O teu neto é um pai carinhoso e dedicado e tem uma esposa carinhosa e dedicada.
A mana está bem ou, pelo menos, está muito melhor do que seria de esperar. Levou tempo a cura das feridas do corpo. Levará mais ainda a cura das feridas da alma. Mas ela é forte e tem também, agora, a obrigação de sobreviver-te. De honrar-te.
Eu… tu sabes tudo sobre mim… tenho-te contado diariamente… amiudadamente…
Parabéns, mãezinha! Dou-te os parabéns. Darei sempre. Eu sei que tu gostas de fazer anos. Sempre gostaste. E, por mais perfumes que te ofereça, nunca serão de mais… era sempre uma escolha certa… afinal de contas, tu gostas de tomar um banho e arranjar-te e perfumar-te antes de… ires para a cama!
De Rerum Natura O Previsível Caminho dos Dias Pardos
O dia nasceu pardo. Não era hábito naquele lugar, naquela altura do ano. Mas nasceu pardo, como que a negar uma qualquer centelha de esperança. Não era dia para grandes cometimentos. Não era dia para iniciar projetos ambiciosos, nem mudanças de fundo. Era só mais um dia pardo. Dia de ficar perscrutando o sentido do amor no fundo do olhar dela. Dia de ficar roçando a pele na pele do desejo. Dia de dizer o que ela já sabia assim como quem se assegura de que ainda está tudo no seu lugar. Era o dia perfeito para fazer tudo que já fora feito antes, mas agora com intensidade redobrada e cuidado particular. Era o dia de andar descalço e seminu pela casa, de ver aquela porta do armário que fecha mal, de vestir a t-shirt com um buraco no ombro, de verificar aquela tomada que teima em pendurar-se da parede à espera de cair. Era dia de ler. De ouvir ler. Era um dia pardo, um dia de percorrer o previsível caminho dos afetos conquistados, constantemente reconquistados. Nesse dia, a nádega dela acordara com a exata forma da minha mão côncava. Não teve história e, contudo, foi habitado pelas personagens todas de todas as histórias que nos trouxeram até ali. Quando as pessoas se perguntam, por vezes, por que razão os dias brilhantes de sol não cintilam, esquecem-se de que o brilho tem de fundear-se neste amanho interior da alma, dos corpos e dos rituais que só pode acontecer quando a luz do astro grande se esconde. E tem de ser previsível. Tem de ser alimento. Fonte. Tem de ser um manual de rituais e um mapa de códigos e heranças ancestrais a invocar os pais dos pais dos pais e a desaguar em mãos dadas e afetos reafirmados. Os dias pardos não são tristes. São baús de aprender. São sementeiras de estar. São trilhos de interioridade e segredos por revelar. Ela levantou-se, deambulou sensual pelo espaço que nos separava, passou por mim sem parar, estendeu a mão como quem me convida e não aceita negação e eu levantei-me naquele enlevo guiado para desaparecermos na penumbra da casa. Percorreu-se, depois, o previsível caminho dos dias pardos. Hoje, o sol pendurou-se no firmamento e brilhou abundâncias de luz. Exatamente como estava previsto que acontecesse.
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